Sob Condicional
2 Capítulo 2
O despertador pega-me de surpresa e quase salto da cama, o coração batendo como um louco, respiração acelerada além de mãos tremulas. Sinto o corpo pesado e desabo a deitar na cama outra vez. Desativo o despertador e desejo arremessar o celular contra uma parede, mas não o faço. Não seria prudente, já era o bastante o trote Wright junto à expulsão para irritar o meu velho pelos próximos dois, talvez três anos! Normalmente a minha mãe teria desferido uma surra com cinto e uma enxurrada de palavras ríspidas sobre o fato de ser uma inútil ao mundo, porém não o meu pai. O velho Thomas tem um jeito diferente de fazer as coisas, tira-me a mesada e de sobra tenho um mês de completa frivolidade, comemos em silêncio, não pedimos favores e nem uma troca de bom dia acontece. Ele sabe como me matar! – Ouço Rachel gemer ao meu lado pedindo ao dia para voltar mais tarde, então cobriu-se por completo, virou para o outro lado e com seu ronronado quase felino preparou-se para a volta ao seu sono. Demorou tempo até convencer Rachel a levantar e mais ainda para trocar-se, acredite, não estou muito melhor que ela.
Vamos em rumo à casa de tia Chloe, uma senhora alta com mania de arrumação. É uma mulher amável mesmo que não tenha muito frequentado a escola sabe de bastante coisa, não o tipo que aprende-se com aulas, ela sabe como reaproveitar tudo! Sério, tudinho! Minha tia pode restaurar qualquer coisa com linhas, tecido, tinta, pincel e agulhas. Além disso tem conhecimento de botânica, podendo curar tosse, dores de garganta e até de cabeça com um chá das ervas que cultiva em seu próprio quintal. Aliás, ela mesma convencera Rachel a criar plantinhas em sua janela, afirmou que tornaria mais agradável o ambiente e até seria um bom hobbie do tipo que faria Rach pensar melhor sobre sua relação com Simon. Bato na porta e a senhora abre. Pelo regador identifico que já estava molhando e conversando com suas queridas plantinhas.
–Não me disse que voltaria na manhã seguinte, Natalie. Sabe a dificuldade que foi controlar o seu pai? Sempre ligando de meia em meia hora querendo falar com você, saber se não tinha aprontado, saído ou mesmo me respondido mal. – A mulher entrou na cozinha, pondo o regador sobre a pia. Ela coou o café e serviu-nos com pão assado na chapa e o famoso “bolo de laranja da tia Chloe”. – Tem que me avisar quando for dormir na casa da Rachel, Natt.
–O que disse ao papai? Não disse que eu tinha saído sem dizer que dormiria fora, certo?! Ele me mata! Não quer que durma na casa da Rachel até conseguir esquecer a história da expulsão. Pelo que sei ele teve que liberar bastante dinheiro para que eu pudesse terminar o segundo ano sem problemas com os quatro meses e meio que ainda faltavam e isso o deixou mais bravo! – Suspirei. – Além do mais, a Rach precisava de mim. Simon machucou-a um outra vez, olhe só como está morta! – Felizmente a ressaca deixavam os olhos de Rachel vermelhos, o rosto cansado e sua produção não tinha sido as melhores para aquela manhã. Cotovelei as costelas de minha amiga, despertando-a.
–Sim, tia Chloe. O Simon acabou me dando mais alguns tapas e sinto que não sou a mesma desde a perda do bebê... esse cara está me matando! E nem por um minuto posso deixar de amá-lo. Meu amor por Simon não é como o das outras pessoas que somente passam por briguinhas. Esse amor é doente... – Rachel serviu-se com o café recém-aprontado, uma fatia de pão e começou a comer enquanto largava a mochila ao chão. Rach não mentira até então, o fato da perda do bebê fazia-a chorar sozinha algumas vezes e estou interiormente feliz com o fato de que minha amiga vê a forma como Simon a mata, e exatamente como uma doença está levando Rach à miséria. – Tia, pode me passar dois cubos de gelo e leite para o café?
–Sinto muito, Rach. Já disse para terminar com esse cara! O que está esperando?! Ele te matar de uma vez?! Olha, esse cara te jogava pelos banheiros para fazer sexo, te põe para sair com outros e arrumar dinheiro para gastar noite à fora junto dele. Depois fica com ciúmes e ainda te bate, querida. Deveria procurar um outro cara para namorar. – Minha tia tirou da geladeira o leite e a bandeja com o gelo. Serviu-os no café de Rachel e esticou-os na minha direção em oferta. Balancei a cabeça negativamente e a mulher devolveu ambos para sua geladeira vermelha, ao que sei é muito rara e do tipo que colecionadores brigariam à tapas para comprar. – Eu disse a seu pai primeiramente que estava tomando banho, depois que estava jantando e então dormindo.
–Lembrarei de ligar da próxima vez em que Rach precisar de mim. Promessa de Natalie Scott! –Ri. Titia tomou uma de minhas mãos e a da Rachel também, repreendendo-a por já ter começado a comer. Depois de uma oração agradecendo mais um dia finalmente atacamos a deliciosa refeição enquanto conversávamos sobre o quanto titia teve trabalho ao cultivar uma espécie de planta a qual não fiz questão de decorar o nome, depois passando para o assunto cabelos, artesanato e terminando por marcar uma limpeza de pele juntas no fim de semana. Corri para me aprontar e arrumar a mochila seguida por Rachel que agora dividia comigo o espelho em uma disputa por quem passaria primeiro o lápis. – Olha, assim não vai dar certo! Vamos decidir isso de um jeito muito maturo.
–Pedra, papel e tesoura? – Rachel já foi pondo a mão para trás, fiz o mesmo e nos encaramos enquanto a contagem era feita... 1... 2... 3! Tesoura vence papel e Rachel vence a mim. Nem sei por qual motivo ainda tento, Rachel sempre ganha e fico de me arrumar por último. – Eu sempre ganho!
–Porque eu sempre perco. Rach, você é uma vadia sortuda! Ainda imagino no que você lavou essa sua amiguinha aí em baixo. Mel ou pó dourado da sorte? Cara, o Maneki Neko te comeu? – Depois de um trabalho sobre o Japão no ano anterior passei a dizer isso de Rachel, claro, ela sempre ficava muito brava depois e coisas voavam em minha direção. Dessa vez estava com as minhas maquiagens, umas das coisas mais prezadas por Rach. Quase vi os olhos da loira marejarem antes de abraçar a caixinha de sombras lamentando somente o fato de pensar em arremessá-la.
Esperar Rachel McAllen maquiar-se foi uma tortura e se não tivéssemos sido apressadas por tia Chloe ela não teria deixado as coisas de lado. Precisei fazer tudo mais rápido, descer correndo e receber vários abraços de titia dizendo que me sairia bem no primeiro dia de aula e era mais que obrigatório dar bom dia à todos, ser positiva e tentar não parecer muito ameaçadora. Era a primeira vez em que escutei a parte do “ameaçadora”. Bati continência como um soldado sendo mandado à linha de batalha, minha tia correspondeu e desejou um: “Boa sorte, soldado Natalie Scott. Volte viva!”. – Durante todo o caminho tive de aguentar uma Rachel desperta, parece que o café fizera mesmo efeito. Talvez ainda haja um bar no caminho onde possa dar-lhe de presente uma boa garrafa de tequila! Rach está com o celular no volume mais alto e sem os fones compartilhamos (contra minha vontade) a música Shiny Happy People da banda R.E.M e com a voz da loira dizendo que as pessoas comemoram de mãos dadas tenho vontade de soca-la. Tampo os ouvidos e finjo não conhece-la ao tentar a coreografia, todos estão nos olhando e sinto meu rosto queimar.
–Você não vai cantar, Natt? Sei que conhece a música, sua tia que me apresentou e seu pai tem o CD com ela! – Rachel foi me puxando para dançar, recebendo empurrões em retorno e durante todo o trajeto a ouço cantar desde SHP até She’s like de Wind, mas estou tentando cravar uma adaga imaginária no peito desde a segunda. – Já viu qual será a primeira aula? – Tirei do bolso o horário amassado e antes mesmo que pudesse dizer a loira adiantara-se em dizer: – Física!
–Da próxima vez em que me fizer uma pergunta eu vou gostar de responder, Rachel. Mas, sim, é física, não sei se é uma boa que essa seja a minha primeira aula... – Contra a minha vontade fomos à sala. Sentamos lado-a-lado o que facilitaria muito na troca de bilhetinhos. A aula de física não seria nada fácil, é a matéria na qual me saio pior com notas entre C e D, simplesmente não me entram na cabeça as fórmulas! – Como você aprende essa alquimia? Passa o segredo dos feitiços e te pago aulas de boxe pra quebrar a cara de quem te passa a mão na bunda.
Rachel franziu o nariz e assim deu-se início à primeira aula tentei acompanhar tudo e fiz anotações como uma louca no caderno, mesmo que o recomendado tenha sido prestar atenção. O que é difícil quando se tem à frente um casal dando as mãos e trocando piadinhas sobre o namoro além de desenharem um no outro coraçõezinhos. A próxima aula foi mais tranquila, inglês, e o professor estava nos fazendo rir citando as suas situações corriqueiras. Em matemática já estava com sono e de troca em troca de aulas chegou a hora do almoço. Senti que estava quebrada, novamente Rachel e eu estávamos unidas e ela contou como o lindo da aula de inglês tocou em sua mão sem querer quando a caneta foi ao chão. Remexi a comida vendo o momento em que meu rosto afundaria no purê de batatas.
–Você ainda não se animou com as aulas? E onde ficou a sua promessa, Natalie Scott?! Disse que aproveitaria o ensino médio e sua vida parece que foi sugada! – Ajeitei-me na cadeira onde encontrava-me esparramada e pensei um pouco. Sorri, agora confiante... próxima aula biologia!
Dito e feito. Estava dançando sobre a mesa do professor enquanto os outros alunos batucavam, gritavam e cantavam, tudo ao mesmo tempo. Alguns pediam que tirasse a calcinha! Ergui as mãos sobre a cabeça e depois de andar pelas bancadas chutando cadernos e estojos, parei na última no mesmo em que um pigarro fora emitido. O professor batia o pé impaciente no chão esperando-me descer e acabar com o showzinho da Natalie, dei de ombros com um sorriso inocente até o momento em que braços fortes agarraram-me e fizeram-me descer da mesa. Encarei aquele par de olhos castanhos, os cabelos negros revoltos e tudo o que fiz foi rir! Comecei a rir descontrolada e o garoto juntou as sobrancelhas numa mistura de sentimentos que não pude identificar tomada por aquela louca vontade de rir... vou me arrepender amargamente daquilo...
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