So much for my happy ending
4 Capítulo 3
Foi na manhã do dia 28 que tudo desmoronou para a família Duarte.
Bianca estava cada vez mais irritada. A última notícia de Duca havia sido no dia 26, logo após João avisar do noivado com Vicki. O marido lhe enviara um mensagem dizendo que o sinal estava péssimo, mas que estava bem. Quase 48 horas haviam corrido desde então e ela não tivera o menor sinal dele.
A casa estava tensa e barulhenta, já que Renata havia passado mal durante a noite. Vomitara e tivera muita febre, além de chamar insistentemente por João, pedindo que os pais ligassem para o irmão.
“O João não está atendendo o celular.” Dandara não conseguia evitar se preocupar, levando em conta que ligava para o filho mais velho fazia horas. Pelo fuso-horário, já era tarde em Londres, e o casal com certeza estava acordado.
“Tentou mandar mensagem no whats? Ele tem respondido mais rápido por lá.” Lembrou Karina, que estava paparicando a caçula doente.
“Eu tentei. Ele não visualiza mensagens desde ontem à noite... Deve estar sem bateria.”
“O João ficar sem bateria, Pedro? Mais fácil você ficar sem um braço.” Karina replicou o namorado, que teve que concordar. “Ele deve é estar de safadeza com a Vicki, porque o João é um tarado. Logo ele liga de volta, Dandara, fica tranquila.”
“Eu acho é que nós deveríamos processar essa droga de vivo, que diz ter sinal no mundo todo e não tem. O Duca não atende, o João não atende... Se bobear nem o papai vai atender lá da farmácia da esquina.” Bianca jogou seu aparelho longe, se jogando em uma das cadeiras.
“Eu acho que alguém está de TPM...” Sussurrou a loira para o namorado, que riu.
“Eu acho melhor todo mundo se acalmar, porque nós temos um assunto sério aqui.” Gael entrou acompanhado de Alan e Nat, carregando a filha adormecida. “Renata, filha, vai lá para o seu quarto.”
“Não.” Rebateu a baixinha, sentada no colo do cunhado.
“Vem com a tia, princesa... Eu preciso pôr a Agatha para dormir em algum lugar, ela já está pesada.” Pediu Nat, estendendo uma das mãos. A baixinha concordou, ainda resistente, e saiu em direção aos quartos na companhia de mãe e filha.
“O que aconteceu com o Duca?” Bianca pulou do sofá e caminhou até o cunhado, os olhos castanhos transbordando desespero e o estômago embrulhando.
“Bianca, filha, mantenha a calma, por favor.” Pediu Gael, acenando para que a esposa e a filha se aproximassem da jovem atriz.
“Como você quer que eu me acalme, pai? Dá pra ver o desespero nos olhos de vocês. Aconteceu alguma coisa com o meu marido.”
“Eu avisei o Duca que isso poderia acontecer, mas ele foi teimoso.” A voz de Alan mal saia, tão rouca e trêmula que estava. “Estamos no inverno amazônico, com muita chuva e... E o Peru é um lugar repleto de pequenos e grandes tremores. Em épocas de chuva, existe um risco muito grande de desmoronamentos.”
“Não me diga que...” Que disse foi Pedro, já que as três mulheres Duarte não conseguiam proferir uma única palavra.
“O dono do hostel disse para o Duca que era arriscado, que ele não devia ficar se arriscando nas trilhas. Ele foi do mesmo jeito, ignorando todos os avisos possíveis.” Gael continuou a narrar, vendo que o estado do pupilo não era dos melhores. “Ele saiu logo depois de falar com a Bianca, dois dias atrás, mas não voltou no final da tarde. Ontem pela manhã o dono do hostel avisou as autoridades, que foram para o local onde ele pretendia e eles foram para lá. Graças a Deus pelo menos a recomendação de não acampar ele ouvir, do contrário ninguém saberia de nada.”
“E sabem de alguma coisa, mestre? Sabem de alguma coisa além de que meu irmão sumiu em um desmoronamento?” Alan perdeu a cabeça e gritou, as lágrimas brotando de seus olhos com força. O lutador virou para a cunhada, limpando o nariz com as costas da mão. “Acharam a mochila dele, Bianca, no meio de um embolado de terra e árvores... A mochila!”
“Isso não quer dizer que ele tenha morrido, Alan.” Nat veio do quarto sozinha, tentando acalmar o marido. “O policial mesmo disse, eles ainda estão buscando. Não vamos nos precipitar.”
“Bianca?” Karina chamou a irmã, que permanecia imóvel como uma estátua, os olhos fixos e travados no nada, sem emoção ou reação. “Bi, fala alguma coisa.”
Porém o telefone começou a tocar antes que ela tivesse a chance de reagir. O som estridente assustou a todos e tirou Bianca do transe.
“É ele.” Foi o que ela disse, correndo em direção ao aparelho e o atendendo sem ver o número. “Duca?”
“Sra. Dandara Duarte?” A voz era carregada de sotaque, mas não peruano.
“Não, a enteada dela.” A bile em seu estômago ficava cada vez mais intensa e amarga. “Posso ajudá-lo?”
“Meu nome é Brian Porter, sou da embaixada brasileira aqui em Londres.” O gelo atravessou a espinha da moça ao ouvir isso, sua cabeça girou e o gosto na boca amargou ainda mais. Não podia ser que tivesse outra cagada a caminho. “É sobre seu meio irmão, João Spinelli.”
“O que tem o João?” A atenção de todos foi prendida ao ouvir o nome do rapaz, e a mãe correu e tomou o telefone da enteada, ligando o viva-voz.
“Aqui é Dandara Duarte, mãe do João... O que aconteceu com o meu filho?”
“Sra. Duarte, meu nome é Brian Porter e eu sou da embaixada brasileira. Seu filho sofreu um acidente na noite de ontem, chocou o carro com um caminhão. Nós demoramos para achar os documentos e identificá-lo, por isso a demora em ligar e...”
“Meu irmã, pula o blá blá blá e fala logo como o meu amigo tá.” Gritou Pedro, aflito.
“O senhor Spinelli está bem. Fraturou duas costelas e um braço, e precisou de uma cirurgia na perna direita por conta de um ligamento no joelho, mas está fora de perigo.” Todos suspiraram aliviados. “Mas a acompanhante dele infelizmente não resistiu aos ferimentos.”
“O quê? A Vicki... A Vicki...” A voz não saia da garganta de Karina, que tremia absurdamente.
“O choque com o caminhão foi do lado em que ela estava... Ela ficou presa nas ferragens e faleceu no local. Um de nossos funcionários está falando com a família dela e providenciando o translado do corpo, e eu preciso que conversemos sobre o João e...”
“Bianca?” Gael chamou a filha, atraindo a todos. A menina havia se levantando, cambaleante, começando a caminhar em direção à porta. Antes que alguém dissesse mais alguma coisa, ela se inclinou para frente e vomitou tudo o que tinha no estômago. “Bianca!”
Ela se virou para todos, os olhos cheios de lágrimas, quase sem vida.
“Eu preciso ir à farmácia.” Ela sussurrou, enquanto Dandara pegava o telefone e corria para a cozinha, prosseguindo com o diálogo com a embaixada brasileira.
“Por quê?”
“Pra saber que é mentira.”
“O que é mentira?”
“Que eu vou ter um filho sem pai.” Foi a última coisa que disse antes de apagar completamente.
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