So much for my happy ending
5 Capítulo 4
Se havia um inferno, com certeza todos estavam vivendo nele. Bianca hospitalizada no Rio, João hospitalizado em Londres, Renata passando mal com todo aquele estresse, e o resto da família sem saber o que fazer. Gael não queria deixar a filha, alguém precisava ir liberar o corpo de Vicky e a transferência de João, além, é claro, de cuidar da caçula da família.
Por fim, Pedro e Karina embarcaram rumo ao Reino Unido, sendo os dois que tinham os passaportes mais atualizados. Eles levavam a autorização da família da falecida para que liberassem o corpo e deixassem que o levassem para o Brasil. Seria preciso um avião particular, com aparatos hospitalares, para transferir João para o Brasil, já que a recuperação poderia demorar um tempo razoável. Tudo isso custaria um absurdo, mas por sorte René tinha juntado um bom pé de meia.
Mas, mais do que o dinheiro, a principal preocupação da família era com João e como ele estaria reagindo a tudo isso. Não quisera conversar com ninguém por telefone, os médicos disseram que estava precisando de cada vez mais medicação para dor, além de ter alguns surtos de pânico que exigiam medicamentos mais pesados. Sendo filho de um ex-viciado em drogas, a principal preocupação dos pais era em como os remédios agiam sobre ele.
“Ele estava do lado errado da pista... Os turistas se confundem facilmente com a mão inglesa, não é incomum alguém quase bater o carro por estar do lado errado. E a tempestade de neve não ajudou em nada.” Explicou o rapaz que os recebeu, um representante da embaixada.
“Mas ele vai responder legalmente pelo acidente?” Questionou Pedro, ao que o homem negou.
“A não ser que a família da falecida resolva mover uma ação, o estado não irá indiciá-lo por uma fatalidade impulsionada por algo com o clima. Tempestades de neve são terríveis e imprevisíveis, não havia muito o que ele fazer.” O homem finalizou, parando em frente ao balcão do hospital. “João Spinelli.”
“Room 305.”
“Ali no final do corredor.” Ele indicou ao casal, que parecia apreensivo. “Eu vou conversar com o médico e ir até o necrotério... Se o tempo não mudar, hoje à noite vocês já embarcam de volta para o Brasil.”
“Obrigado.” Pedro começou a guiar a noiva, que parecia aturdida. Karina havia aparentado estar assim desde que haviam recebido a notícia, na verdade. “Amor, você está bem?”
“Eu já desejei tanto mal para a Vicky, e agora ela está morta.” Confessou a lutadora, parando no corredor com ele ao lado. “Mesmo quando ela e o João já estavam juntos, eu nunca tratei ela muito bem, por tudo o que ela havia feito. E olha o que aconteceu.”
“Minha linda, não foi culpa sua, você sabe disso, não é?” O guitarrista acariciou o rosto dela com carinho e compreensão.
“Eu sei, Pê, mas eu sinto... Acho que remorso é a palavra. Eu poderia ter tratado ela melhor, sabe? Por ela, pelo João, por mim. Eu e ela poderíamos ter sido amigas, sabe?”
“Eu sei, K, mas muita água já tinha rolado pela ponte para vocês terem se dado bem logo de cara. Com o passar do tempo, claro, talvez sim. Mas não adianta ficar se remoendo com o que poderia ter sido. Nem eu, nem você, e muito menos o João. Nós não podemos fazer isso de forma alguma, especialmente na frente dele, entendeu?” Ele beijou os lábios dela com ternura e secou uma lágrima. “Vamos ser forte pelo nosso irmãozinho maluco, está bem?”
“Está bem.” Ela concordou, fungando e secando os olhos. “Vamos lá.”
Pararam em frente à porta com o número 305 e bateram de leve. Bateram mais forte ao não obter resposta, e continuaram no silêncio. Por fim, Pedro cansou de esperar e virou a maçaneta, abrindo a passagem para o aposento.
Havia apenas uma cama no centro do aposento branco. A pessoa que repousava sobre ela tinha uma perna pendurada e enfaixada, um braço engessado e deitado ao lado do corpo, o rosto completamente machucado.
“João?” Karina chamou pelo irmão com a voz trêmula, mas ele apenas apertou mais os olhos fechados. “João, a gente sabe que você está acordado.”
“É, bro... E a tia Dandara pediu desculpas por não ter vindo, é que a Grilinho tá doente; mas ela está agradecendo muito à Deus por você estar vivo.” Pedro se aproximou do amigo, tentando melhorar o clima.
“Vivo?” A voz de João saiu áspera, como se ele não a usasse havia meses. “Você chama isso de estar vivo. Não... Eu sobrevivi, e é isso que eu vou fazer pelo resto da minha vida: sobreviver a dor e a tristeza de ter perdido o amor da minha vida graças a uma merda de um acidente, causado por uma merda de país fresco que resolveu que teria malditas regras de trânsito diferentes das de todo mundo. Então não digam, nunca mais, que eu estou vivo. Porque isso não é vida.”
Pedro ficou embasbacado e sem palavras diante do discurso do amigo, enquanto Karina se esforçava para conter as lágrimas que vinham à seus olhos e os soluços que queriam irromper de sua garganta. João também tentava não chorar, mas era em vão. Por fim ele apertou uma bombinha ao alcance de sua mão e uma dose de remédio foi liberada em suas veias. Logo, o pranto diminuiu e ele adormeceu, finalmente sereno.
“Pê...” Karina soluçou alto, correndo e se jogando sobre o namorado. Ele a apertou firmemente contra si e soluçou junto, assustado, desesperado, desamparado.
~J&B~
Gael praticamente carregava Bianca pela casa, guiando-a até o quarto de Renata, aonde ela estivera dormindo desde que Duca havia saído de viagem, e aonde ela deveria ficar até ele voltar. O que não aconteceria mais.
“Você pode ficar aqui o quanto quiser, filha, sabe disso.” O mestre acariciou seu cabelo quando ela já estava deitada e quase adormecida.
“Eu não sei o que fazer, pai, não sei mesmo. Eu não posso passar por isso sem o Duca, não posso ter e criar um filho sozinha.” Sussurrou ela, os olhos já cheios de lágrimas.
“Se eu consegui criar você e a Karina, você vai conseguir criar seu bebê, meu anjo. E com muita mais facilidade do que eu, pode acreditar.” Ele a acalentou com a voz suave, quando a porta foi aberta e Dandara entrou com a filha caçula.
“A Karina ligou... Eles vão pegar o voo em algumas horas.” A professora de canto secava os olhos, provavelmente abalada em ouvir sobre o estado do filho. “Você pode ficar com a Renatinha, amor? Eu preciso arrumar o quarto do João, para quando ele voltar.”
“Ele não vai para o hospital?”
“O médico liberou para que ele fique em casa, já que está fora de perigo.” Ela se limitou a dizer, deixando o aposento depressa. Renata ficou encarando a irmã mais velha, seus olhinhos assustados e cheios de lágrimas. Caminhou devagar até a cama, se abaixando e ficando cara a cara com a atriz.
“Bibi, você que que eu duma com você?” Perguntou em voz baixa, acariciando o rosto da irmã com a mãozinha.
“Quero, meu amor, quero sim.” Concordou Bianca com a voz embargada, dando espaço na cama para que a pequena se deitasse.
Gael ergueu a coberta e esperou que a menina se deitasse e fosse abraçada por Bianca, antes de cobrir as duas e começar o cafuné alternado entre elas.
“Você e o Joãozinho vão fica bem, Bibi?” Perguntou Renata, a vozinha trêmula.
“Eu não sei, minha princesa. Você vai cuidar da gente?”
“Vou. De você e do seu nenezinho.”
“Isso faz eu me sentir bem melhor, sabia?” Sorriu a atriz, beijando a testa da irmã. “Pode dormir, Grilinho, você também está cansada.”
“Você vai decansa comigo, Bibi?”
“Vou, vou sim.”
“E o papai também. O papai vai ficar aqui, com vocês duas, está bem?” Gael deitou o corpo sobre o delas, ajeitando sua cabeça. “E nós três vamos descansar, um cuidando do outro.”
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