Notas iniciais
Boa leitura!

Depois que Oliver morreu, Langa tentou praticar snowboard sozinho, mas se sentiu extremamente vazio. Ele achou que tinha perdido sua grande paixão pelo esporte e que nunca mais praticaria de novo.

Mas a vida mostrou o contrário. Agora, lá estava ele, indo praticar snowboard outra vez.

Logo que acordou pela manhã, a primeira coisa que o garoto fez foi ir até a sacada e observar a paisagem. O céu estava com uma cor rosada, conforme o sol nascia e o dia substituía a noite. No horizonte, as montanhas cobertas de neve exibiam toda a sua exuberância a cada novo raio de sol que as iluminava.

Desde o primeiro momento que voltou ao Canadá, ele observava aquelas montanhas, se lembrando dos bons tempos que passou lá. Elas pareciam tão distantes e intocáveis, mas ele finalmente as encontraria outra vez.

O azulado se agasalhou como nunca antes. Ele tinha se esquecido de como era a sensação. Cada detalhe simples, como colocar o gorro na cabeça, ou fechar o zíper da jaqueta, era extremamente familiar.

Ele pegou a sua prancha de snowboard e seus óculos de proteção.

Langa, sua mãe e seus amigos combinaram de ir até a montanha onde Oliver costumava praticar. Nanako nunca tinha ficado tão feliz como quando o filho disse que iria praticar mais uma vez. E ele nunca tinha sentido um abraço tão forte da mãe quanto o que ela lhe deu logo em seguida.

O grupo todo estava bem animado. Todos estavam empolgados para conhecer as tão faladas montanhas canadenses e finalmente poder ver o Snow praticando snowboard.

Dentre eles, Reki era o que mais parecia estar ansioso.

Quando todos começaram a se arrumar para sair, o ruivo ficou totalmente perdido com todos aqueles agasalhos, moletons e jaquetas. O azulado o ajudou a se vestir adequadamente.

Enquanto isso, Langa não pôde deixar de notar como aqueles olhos de cor âmbar o observavam atentamente. Em certo momento, o azulado percebeu que o vermelho estava totalmente parado. Até que um sorriso surgiu do nada.

— O que foi, Reki?

O japonês ficou um pouco corado.

— Nada, não. É que, depois de tudo o que você me falou, sobre como se sentia e tal, eu não achei que ia te ver animado assim pra fazer snowboard. Não tão cedo, pelo menos. Tô feliz por você, cara.

Langa abriu um sorriso bobo.

— Mas você tem certeza de que tá tudo bem? — o ruivo ainda se preocupava.

— Tenho sim. Mais certeza do que nunca!

Reki segurou o braço do azulado.

— Não esquece. Eu te fiz uma promessa. Eu vou sempre estar lá por você. Se não for do jeito que você espera ou se alguma coisa der errado lá, não tem problema. Lembra que você não vai estar sozinho dessa vez.

Reki estendeu a mão, com o intuito de fazer o cumprimento do infinito. Mas Langa não o fez. Pegando-o de surpresa, ele o abraçou.

— Eu sei. E muito obrigado mesmo por isso, Reki.


***


Cherry chamou os táxis. Durante o caminho, mais uma vez, o azulado ficou admirando a paisagem através da janela. Mesmo naquela parte mais afastada da cidade, ele ainda reconhecia perfeitamente cada mínimo detalhe do que via.

Mais à frente, as montanhas ficavam cada vez mais próximas.

As montanhas faziam parte de um parque. Os táxis só podiam levar o grupo até sua entrada, então eles precisariam seguir o resto do caminho a pé.

Assim que saiu do carro, Reki sentiu o choque térmico. Mesmo sob os vários agasalhos, seu corpo todo ficou arrepiado. Aquele lugar conseguia ser ainda mais gelado do que o resto da cidade.

E, olhando ao redor, ele conseguia ver o porquê. Havia neve por toda a parte. Cada centímetro do que podiam ver, para qualquer um dos lados, estava coberto de neve. A paisagem branca parecia se estender por quilômetros, até as montanhas.

— Snow! Finalmente, neve!

Langa começou a rir descontroladamente, enquanto admirava a neve. Ele se ajoelhou no chão e começou a brincar com a neve. Ele chamou sua mãe, assim que ela e os outros também saíram dos carros. Nanako se ajoelhou ao lado dele, rindo enquanto os dois brincavam com a neve.

— Que saudade!

Os dois começaram a montar um pequeno boneco de neve.

O ruivo observava como Langa sorria, com a mais pura alegria. Como aquele sorriso podia ser tão belo?

Para alguém que cresceu num lugar quente como Okinawa, e sempre visitou praias, como a de Miyakojima, aquele ambiente todo branco, coberto por neve, parecia coisa de outro mundo. Mas, bem ali, ele pôde ter uma visão única.

Aquele sorriso lindo, aqueles olhos azuis cristalinos, a pele e os cabelos claros… Tudo parecia ficar ainda mais intenso naquela paisagem. Era como se Langa tivesse sido feito a partir daquele lugar, ou como se o lugar todo tivesse sido feito especialmente para ele.

O rosto angelical do azulado se voltou para o japonês, ainda exibindo aquele sorriso.

— Reki! Vem aqui! Olha toda essa neve!

O ruivo hesitou um pouco. Mas a expressão do canadense não o permitiu conter um sorriso. Ele se juntou a Langa, com cautela, e enfiou as duas mãos debaixo da neve. Era uma sensação estranha. Mas era muito divertido.

— Uau! — ele se divertia, começando a brincar com a neve, junto com Langa e Nanako — Isso aqui é incrível!

Os três riam alto.

— Eu nunca tinha visto neve antes. É bem diferente do que eu imaginava.

— Isso me lembra de quando eu vi a praia pela primeira vez em Miyakojima — o canadense comentou. — É uma loucura mesmo.

Os dois sorriram um para o outro.

— Aí, slime! Pensa rápido!

Antes que os reflexos do ruivo pudessem agir, Miya arremessou uma bola de neve na sua cara. A surpresa foi tão grande, que Reki caiu para trás.

Shadow gargalhava intensamente.

— Então é assim que se começa uma guerra de bolas de neve? — o pequeno provocava — Eu gostei.

Reki se levantou, com um olhar sério.

— Pirralho… — Reki arremessou outra bola de neve contra o menor, que também caiu de costas no chão. — Toma essa, otário!

Logo em seguida, Shadow acertou Langa. E Joe acertou Cherry.

Quando se deram conta, todos estavam numa guerra de bolas de neve, uns contra os outros. Entre risadas e reclamações, bolas de neve voavam de um lado para o outro, acertando rostos e derrubando corpos inteiros.

Como Langa tinha falado, isso parecia muito com a vez em que o grupo foi para Miyakojima. Lá, o canadense ficou impressionado ao ver a praia pela primeira vez. Eles se divertiram muito na água, e zoaram com a cara um do outro.

Agora, eles estavam em um lugar que era exatamente o oposto daquele. Agora, era Reki quem estava impressionado ao ver a neve pela primeira vez. Mas, da mesma forma, todos eles estavam se divertindo muito.

Principalmente, Langa.


***


Depois de alguns longos minutos se divertindo, o grupo continuou seu caminho.

Havia uma trilha pelo parque que levava até uma pequena estação de teleféricos. Eram basicamente pequenas cabines vermelhas fechadas, cada uma com dois assentos, que subiam até o topo da montanha através de um cabo de aço.

Reki e Langa foram na frente na primeira cabine. Eles se sentaram de frente um para o outro. Quando a cabine começou a subir e deu o primeiro tranco, o ruivo se segurou forte no assento, mas logo se acalmou.

Conforme a altitude aumentava, os dois podiam ver, através dos vidros que os cercavam, que a visão ficava cada vez mais bela.

— Langa, você não tinha dito que ninguém praticava snowboard aqui?

— Ah. E não mesmo. Essa é só uma montanha turística mesmo. Aqui tem esse teleférico porque as pessoas gostam de subir até o topo da montanha para observar a paisagem. O meu pai gostava porque nós éramos os únicos que praticavam snowboard aqui.

Ele apontou para outra montanha, não muito longe dali.

— Tá vendo aquela outra montanha? Ali é um parque próprio para esportes de inverno. As pessoas vão lá pra fazer snowboard, esqui e coisas assim.

— E você ia lá também?

— Eu fui só algumas vezes. Mas acho que seria legal ir de novo. Eu não era acostumado a praticar com outras pessoas, mas depois de andar tanto de skate no S, acho que seria legal ver outras pessoas praticando snowboard também.

O japonês imaginou o S, só que com snowboard em vez de skate. É claro, com certeza não tinham torneios secretos em fábricas abandonadas, nem toureiros malucos usando fantasias maneiras. Mas ainda parecia ser bacana.

— Bom, nós temos todo o tempo do mundo! — o ruivo exclamou, tirando mais um sorriso do azulado.

Quando sentiu o teleférico parando, Langa segurou sua prancha com mais força.

Assim que saiu da cabine, ele logo pôde sentir que, como de costume, o ar era ainda mais gelado no topo da montanha. Ele ajudou Reki a descer. A quantidade de neve também era maior. O ruivo quase caiu quando seus pés afundaram até os tornozelos na neve. Eles riram.

No momento em que os dois olharam para a paisagem que se estendia diante deles, ambos sentiram como se estivessem no topo do mundo.

Lá do alto, tudo parecia tão pequeno. As árvores, as pessoas, as casas distantes. E o mundo parecia tão grande. As nuvens pareciam mais próximas do que nunca, quase como se fosse possível tocá-las.

Langa já havia tido aquela visão mais vezes do que ele mesmo já se olhou no espelho. Mas, agora, parecia diferente.

Ele fechou os olhos e se permitiu apenas sentir o ambiente. Tudo era tão silencioso, tão calmo. O ar gelado em seu rosto e a neve em seus pés eram reconfortantes. De repente, era como se nada mais pesasse em seus ombros ou apertasse seu peito. Ele estava em paz.

O garoto abriu os olhos e se virou para o japonês, ao seu lado. Graças ao frio, vapor saía de sua boca, acompanhando a sua respiração tranquila. Ele admirava fixamente a paisagem, com seus olhos calorosos que se destacavam no cenário branco.

Seus olhares se encontraram. Reki apenas sorriu, encantado.

O canadense percebeu como o vermelho realmente parecia um ponto de calor em meio a todo o frio em que se encontravam. Não somente pelas suas cores, mas também pelo seu sorriso animado e por toda a sua energia, mesmo que apenas estivesse parado ali.

Não era só o ambiente que fazia Langa se sentir em paz. Só de estar ali, ao seu lado, Reki era capaz de deixar tudo mais tranquilo. Ele era o calor em meio ao frio. O sol, em meio à noite. Ele era incrível.

O azulado sentiu suas bochechas corarem.

Não demorou muito para que o resto do grupo chegasse.

Todos também ficaram extremamente impressionados com a vista. Nanako, comovida pelo sentimento nostálgico que aquela montanha carregava, envolveu o filho em seus braços enquanto ficavam observando a paisagem por mais algum tempo.

Naquele momento, tudo parecia perfeito. Langa estava de volta ao seu lugar favorito, acompanhado de todas as pessoas que mais amava. Não haviam palavras para descrever o quão feliz ele estava.

Não tinha mais nada no mundo que ele pudesse desejar. Bem, na verdade, tinha sim. Ele queria que o seu pai estivesse ali, mas isso não era possível, infelizmente. A outra única coisa que ele queria era estar de mãos dadas com Reki, como seu namorado. Mas isso já era complicado demais.

A questão é que ele estava em uma paz de espírito que não sentia há muito tempo. Ele facilmente poderia passar o dia todo ali, exatamente daquele jeitinho, apenas observando o vasto mundo nevado com seus amigos – ou melhor, sua família.

Mas esse não era o motivo dele ter ido até o topo daquela montanha. Ele foi para praticar snowboard.

Uma onda de nervosismo tomou conta de seu corpo. Ele colocou a mão sobre o peito. Langa colocou sua prancha na neve e subiu nela, encaixando seus pés nos fixadores.

Ele olhou para as próprias mãos e notou como elas estavam tremendo. Mas, então, outras mãos seguraram as suas delicadamente, mas com firmeza. Mesmo através das luvas, o canadense podia sentir as mãos de Reki calorosas como o sol do verão.

— Ei, Langa — o japonês tinha a expressão mais acolhedora dentre todos ali. — A gente tá aqui. Eu tô aqui. E vou continuar até o infinito.

O azulado deu uma olhada ao seu redor. Todos o olhavam atentamente. Seus olhares transmitiam curiosidade, mas também o encorajavam. Nanako, em especial, o olhava com seu visível amor materno, como se estivesse dizendo para o filho que tudo iria ficar bem.

Todos estavam lá por ele. Assim como seu pai estaria se tivesse a chance.

Ele segurou as mãos quentes do ruivo com mais força, antes de soltá-las, lentamente.

— Obrigado, Reki.

Langa colocou os óculos de proteção. Ele fechou os olhos e respirou fundo.

Então, ele finalmente mergulhou montanha abaixo.

Imediatamente, ele sentiu o vento gélido colidindo com força contra o seu corpo. Seus cabelos claros eram assoprados rebeldemente. Os óculos de proteção ficavam embaçados, acompanhando a sua respiração acelerada. Ele sentiu a velocidade percorrendo todo o seu corpo.

O garoto já havia se acostumado com o skate. Mas aquilo era diferente. Seus pés não estavam soltos, estavam presos à prancha. E ela, por sua vez, não estava mais correndo sobre rodas, estava deslizando sobre um mar de neve, em uma montanha cheia de árvores e rochas.

Naquele momento, ele finalmente se deu conta de que estava mesmo praticando snowboard de novo.

Ainda no topo da montanha, Reki teve um estalo. Ele saiu correndo e pulou para dentro de um dos teleféricos que estava descendo a montanha. O ruivo observava Langa, grudado no vidro. A cabine descia, mas o azulado estava muito à frente, acelerando cada vez mais.

O japonês sabia que não deveria fazer isso mas, mesmo assim, abriu a porta da cabine, colocou a cabeça para fora e, com toda a força dos seus pulmões, gritou o nome de Langa, como um incentivo.

De relance, o canadense se virou em direção ao grito e viu o vermelho, bem atrás, lhe apoiando. Como prometido, Langa não estava sozinho. Isso lhe arrancou mais um sorriso.

Ele ousou mais nos movimentos. Fez zigue-zagues, desviando de árvores e rochas. Os movimentos começaram a fluir naturalmente. Seu corpo ainda sabia o que estava fazendo. Ele se lembrava perfeitamente daquela sensação. Seu coração começou a bater ainda mais forte.

Ele acelerou mais ainda. Ousou fazer várias manobras, movimentando sua prancha de várias maneiras diferentes. O vento contra ele ficava cada vez mais forte. Seu corpo parecia ficar cada vez mais leve, quase como se ele pudesse voar. A adrenalina corria por suas veias.

Ele desviou de mais algumas árvores e avistou uma rocha com um formato singular, que lembrava uma rampa. Se preparou, inclinando seu corpo para frente e deixando a velocidade tomar conta dele.

E, então, ele saltou, mais alto do que jamais havia saltado antes.

Por mais impossível que parecesse, a visão da paisagem nevada ficava ainda mais bonita. Lá de cima, nada mais parecia incomodar. Ele estava livre. Se sentia vivo. Era como um pássaro, pairando nos céus.

E, naquele momento, o snowboarder teve certeza de algo: Ele estava sentindo aquela sensação novamente. A mesma de quando praticava com seu pai, nos bons e velhos tempos. E ela estava mais intensa do que nunca.

Reki o observava, impressionado. Ele nunca tinha visto Langa saltar tão alto. E a expressão do azulado provava a coisa mais importante de todas: ele estava se divertindo.

Ele voltou ao chão, aterrisando graciosamente sobre a neve. Ele colocou a mão sobre o peito. Ele realmente estava sentindo aquilo de novo. Era como se ele nunca tivesse parado de praticar. Como se nunca tivesse praticado sozinho e sentido que perdera a paixão pelo esporte.

Ele continuou descendo a montanha, a toda velocidade, fazendo diversas manobras.

Então, sentiu uma sombra o cobrindo. Quando olhou para cima, não acreditou no que viu. Outro snowboarder saltava por cima dele. O esportista misterioso surgiu do nada e, facilmente, ultrapassou Langa, numa velocidade absurda.

— Outro snowboarder… aqui? — ele perguntou para si mesmo, perplexo — Mas ninguém mais pratica nessa montanha…

Rapidamente, os dois chegaram ao pé da montanha. Ambas as pranchas pararam. Langa estava ofegante. Ele tirou os óculos de proteção e observou o estranho atentamente.

Era um jovem, por volta de uns vinte e dois anos de idade. Deveria ser alguns centímetros mais alto do que Langa. Tinha cabelo preto com algumas mechas vermelhas que se destacavam. Sua aparência era a de um garoto popular do colégio, com um rosto muito bonito e traços asiáticos. Mesmo estando muito bem agasalhado, era possível perceber que ele possuía um porte físico atlético.

O rapaz saiu de cima da sua prancha e, por sua vez, também removeu seus óculos de proteção. Quando seus olhares se encontraram, o azulado ficou impressionado com como aquele estranho tinha olhos âmbar incrivelmente parecidos com os de Reki. Mas logo começou a se sentir desconfortável com o olhar intimidador que lhe era dirigido, enquanto o atleta o analisava silenciosamente.

Então, o olhar do snowboarder se fixou em um ponto atrás de Langa. O azulado se virou e viu Reki saltando para fora do teleférico e correndo na sua direção.

Sem dizer nada, o rapaz misterioso apenas ignorou os dois e voltou a seguir seu caminho.

Reki chegou com um sorriso orgulhoso estampado no rosto.

— Você conseguiu!

Ao contrário do snowboarder misterioso, os olhos âmbar de Reki brilhavam cheios de ânimo e curiosidade.

— Como foi?

Vendo o ruivo sorridente bem na sua frente, o azulado não conseguiu conter seus sentimentos.

Em vez de responder com palavras, ele o abraçou.

— Eu consegui, Reki! — sua voz ficou embargada — Eu senti aquilo de novo!

Quando percebeu, lágrimas escorriam pelo seu rosto.

O vermelho nunca tinha visto o canadense chorar. Langa tinha passado por muita coisa. E ele guardava muitos sentimentos difíceis dentro de si. Mas ele nunca havia os colocado para fora dessa maneira.

Reki apenas retribuiu o abraço, o apertando mais forte. Ele estava feliz por Langa. E estava orgulhoso dele. Muito orgulhoso.


***


Os dois voltaram para o topo da montanha. Assim que Langa saiu do teleférico, sua mãe o envolveu em um abraço apertado. Um por um, cada um dos seus amigos também o abraçou.

O azulado não conseguia parar de chorar. Mas também não conseguia parar de sorrir.

Por fim, eles ficaram ali, observando a paisagem, enquanto o sol se punha entre as montanhas. Como era de se imaginar, aquela bela paisagem ficava ainda mais deslumbrante sob o céu laranja rosado acima deles. A lua já se exibia no céu. A brisa ficava mais fria conforme a noite se aproximava.

O azul e o vermelho ficaram sentados, lado a lado, admirando a vista.

— Reki, obrigado de novo por ter vindo comigo até aqui.

O ruivo riu.

— Qual é, cara?! Não precisa ficar me agradecendo. — ele cutucou Langa com o cotovelo — Eu tô aqui pra isso.

O snowboarder percebeu que o japonês encarava a prancha com um olhar curioso.

— Quer pegar ela?

Reki ficou surpreso, mas aceitou. Langa a passou para ele, que a segurou com cuidado, como se fosse feita de vidro. Ele a olhava atentamente, passando os dedos por cada centímetro dela e analisando os mínimos detalhes. Seus olhos transpareciam a sua fascinação.

— É estranho uma prancha ser tão grande e não ter rodas. E esses fixadores, cara?! Não é à toa que você amarrou os seus pés com fita da primeira vez que andou de skate!

Os dois deram risada.

— Na real — o vermelho devolveu a prancha para o azulado —, acho que eu não ia conseguir usar isso aí não!

Langa se lembrou de algo que sua mãe disse enquanto ainda estavam em Okinawa.

— Reki… Você quer fazer snowboard comigo?

O japonês ficou corado.

— É o quê?!

— Você me ensinou a andar de skate. Eu não tinha mais nada antes disso. Tudo isso — ele apontou para seus amigos, que conversavam atrás deles — foi você que trouxe pra minha vida, Reki. Você compartilhou comigo uma coisa importante pra você. E isso mudou a minha vida. Agora, eu só quero poder compartilhar com você algo que é importante pra mim.

O vermelho ainda parecia surpreso e pensativo.

— E… então? — Langa ansiava pela resposta — O que você acha?

A empolgação do ruivo se tornou evidente quando ele abriu um sorriso envergonhado.

— É claro, Langa. Eu quero aprender snowboard, sim.

O coração do azulado se encheu de alegria, provando que ele estava errado ao pensar que não conseguiria ficar ainda mais feliz do que já estava.


***


Naquela noite, Miya deu um jeito de se enfiar no mesmo quarto que Cherry e Joe, deixando Langa ficar com Reki no quarto. Mas nenhum dos dois dormiu. Eles viraram a noite assistindo a vídeos de snowboard.

Langa mostrou para Reki os vídeos de seu pai o ensinando a usar a prancha. Oliver parecia ser um excelente mentor, extremamente paciente e atencioso. Mesmo não entendendo sequer uma palavra do que eles estavam dizendo, o ruivo percebeu como o veterano realmente demonstrava o amor que sentia pelo filho. Ele ficou imaginando como teria sido conhecê-lo.

Depois, eles ficaram vendo mais vídeos de snowboarders profissionais. Langa explicava tudo, desde os movimentos até os modelos das pranchas. O japonês ficou com um pouco de dificuldade de acompanhar, mas não se importou.

Isso o lembrou de quando ele estava ensinando o canadense a andar de skate. Ele achou engraçado como os papéis tinham se invertido.

Ambos estavam deitados juntos na cama, de barriga para baixo, com as cabeças apoiadas nos braços, vendo o celular encostado na cabeceira. Próximos daquele jeito, o vermelho podia apreciar perfeitamente a beleza do azul. Sua alegria era cada vez mais evidente na sua expressão. E isso o tornava ainda mais lindo.

Langa estava contente por ter recuperado o snowboard em sua vida. E, agora, ele estava empolgado para praticar ao lado de Reki.

Os dois, sem dúvida alguma, ainda tinham muito o que aproveitar naquela viagem.

Notas finais
Obrigado por ler! Me conta nos comentários o que você achou!