Snowboarding With You
7 Capítulo Sete
Notas iniciais

Assim que os primeiros raios de sol adentraram o quarto, passando pela cortina que cobria a janela, os olhos de Reki se abriram, ainda preguiçosos.
A cama parecia mais quente do que o de costume, principalmente naquele frio. Não demorou muito para que o garoto percebesse que o que estava aquecendo a cama era a presença de outra pessoa. Quando se deu conta disso, o vermelho entrou em pânico. Ele imediatamente sentiu suas bochechas corarem. Mas não podia se mover. Então, tentou manter a calma.
Ele observou a cena. Langa estava deitado, com a cabeça sobre o peito do ruivo, como um travesseiro. Sua respiração estava tranquila e o japonês podia sentir os movimentos dos pulmões e do coração dele contra o seu corpo. Seu rosto angelical transmitia uma paz absoluta.
Reki olhou em volta, procurando seus celulares, mas não achou. Os dois provavelmente acabaram dormindo enquanto assistiam a vídeos de snowboard.
Os dois já haviam dormido um na casa do outro várias vezes mas, mesmo assim, o ruivo nunca tinha visto o azulado dormir tão pacificamente. Ele estava tão tranquilo, tão próximo dele.
O calor humano ficava ainda mais confortável naquele clima frio. Reki poderia continuar daquele jeito para sempre. Ele queria poder ficar ainda mais próximo dele, mesmo que isso fosse fisicamente impossível.
Ele sentiu que sua respiração estava acelerada. Ele conhecia essa sensação. Não era ansiedade, nem nada. Era apenas o seu corpo lhe lembrando de que estava apaixonado.
Reki queria tanto beijar o azulado. Queria poder abrir seu coração. Se agarrar a ele e nunca mais soltar.
Ele hesitou um pouco, mas se movimentou delicadamente, para não acordar o azulado, e depositou um leve beijo em sua testa.
Ele afastou todos os pensamentos e esvaziou sua mente. Eles estavam juntos agora. E nada era mais importante. Ele fechou os olhos novamente e voltou a aproveitar aquele momento tão precioso e delicado.
Mas, infelizmente, Langa acordou.
O azulado ficou imediatamente envergonhado ao se dar conta do quê estava acontecendo. Mas ficou fissurado.
Ele já havia abraçado Reki inúmeras vezes e também costumava sempre pensar em como o ruivo parecia ser o sol para sua lua. Mas nunca tinha sentido como seu corpo era quente e aconchegante.
Delicadamente, ele repousou sua mão sobre o peito do vermelho. O coração dele batia acelerado, apesar de parecer estar dormindo. Ali, juntinhos, Langa se sentia seguro, de uma forma que não se sentia desde que era criança. Se pudesse, facilmente ficaria daquele jeito para sempre.
E não importava quantas vezes o admirasse, Langa nunca se cansava de ficar fascinado com quão lindo era o rosto do japonês. Ele queria muito poder beijá-lo. Mas sabia que não deveria.
Então, se recompôs. Ele sabia que não podia ficar pensando demais nessas coisas.
Mas aquele dia tinha tudo para ser especial. Ele finalmente iria praticar snowboard com Reki.
Ele se sentou na cama, ao lado do ruivo, como se não tivesse dormido em seus braços. Então, delicadamente, cutucou seu ombro e o acordou.
Quando o japonês abriu os olhos novamente, a primeira coisa que viu foi aquele sorriso largo, acompanhado de um olhar com brilho.
Ele também sorriu.
— Bom dia, Langa.
— Preparado para fazer snowboard?
O azulado não conseguia conter sua empolgação, mesmo tendo acabado de acordar. Isso fez o vermelho rir.
— Cara, com esse frio, eu não sei nem se consigo sair da cama. Como você consegue ter tanto ânimo?!
Os dois caíram na risada.
O snowboarder se levantou da cama num pulo, com o maior dos ânimos. Ele parecia uma criança ansiosa para ir brincar no parquinho.
Enquanto se preparavam para sair, ele não tirava o sorriso do rosto nem por um segundo. E, por sua vez, Reki não se cansava de admirar aquela expressão alegre que o contagiava.
Eles se agasalharam bem, colocando suas jaquetas e toucas, e pegaram tudo o que precisavam. Langa saiu do quarto, em disparada, apressando o ruivo.
Reki pegou suas coisas, agarrou seu skate e seguiu o azulado.
Então, ele parou à porta.
Ele olhou para o skate que segurava. Se deu conta de que não tinha para quê o levar, já que não o usaria. Um sentimento estranho tomou conta dele, como se algo estivesse errado. Mas não era importante. Ele se recompôs, deixou o skate encostado na parede e saiu.
Quando abriu a porta, Reki foi surpreendido pelo sorriso simpático de Nanako. Ele instantaneamente sorriu.
— Oi, tia. Bom dia!
— Bom dia, querido! O Langa já acordou?
— Ele acabou de sair daqui. Acho que ele foi pegar as coisas dele. Ele tá bem animado hoje.
Os dois riram.
Nanako observou o ruivo atentamente, como se conseguisse ver dentro de sua alma. Ela mantinha um sorriso no rosto.
— Sabe, Reki, eu acho que nunca te agradeci. Você fez tanta coisa pelo Langa. Sabe, quando a gente saiu daqui e foi para Okinawa, ele estava tão triste. Eu fiquei com medo de que ele pensasse que tudo tinha perdido o sentido. Mas você conseguiu trazer a alegria de volta à vida dele.
O vermelho sentiu suas bochechas corarem.
— Você o ensinou a andar de skate, o ajudou a fazer novas amizades, o ajudou a recuperar o snowboard… Você despertou algo totalmente novo no coração dele. Eu sei que ele não costuma ser muito bom em se expressar, mas ele gosta muito, muito mesmo, de você. Antes de nos apresentar, ele vivia o tempo todo me falando de você. Na verdade, ele ainda fala muito. Arrisco dizer que conhecer você foi uma das melhores coisas que já aconteceram na vida dele. Você é uma luz pra ele. E eu só tenho a te agradecer por isso.
As bochechas de Reki não paravam de queimar. Seu rosto já deveria estar mais vermelho que o próprio cabelo. Seus olhos começaram a marejar. Ele se segurou ao máximo. Não iria chorar ali. Mas conseguiu abrir um sorriso sincero.
— Eu também gosto muito dele. O Langa mudou a minha vida, tia. Você não tem ideia do quanto ele é importante pra mim.
— Eu tenho sim, querido. Eu só acho que você deveria se abrir mais com ele. Seja sincero com os seus verdadeiros sentimentos.
Ela deu uma piscadela. O garoto ficou sem reação.
— Enfim, era só isso mesmo! Eu precisava te dizer isso. Bom, eu vou voltar pro meu quarto. Me chamem quando estiverem saindo, ok?
Ela deu um beijinho na bochecha de Reki e saiu.
***
Ver a montanha cheia de neve não era mais uma novidade, mas ainda era impressionante. Mesmo não sendo a primeira vez, Reki ficou admirando fixamente a paisagem enquanto ele e o azulado subiam a montanha de teleférico. Tudo ali era extremamente lindo, assim como Langa.
Reki estava um pouco nervoso. Ele mantinha as mãos nos bolsos da jaqueta e balançava o corpo para frente e para trás. Seu olhar transmitia sua curiosidade. Os outros, mais atrás, observavam os garotos com atenção.
Langa pegou a bolsa gigante que havia trazido e, de dentro, tirou a sua prancha de snowboard. Logo em seguida, ele tirou uma segunda prancha e a entregou cuidadosamente para o vermelho.
O japonês analisou a prancha com atenção. Ele reparou em um pequeno adesivo colado nela. Era uma família de palito, com o que parecia ser um pai, uma mãe e um filho pequeno.
Nanako, mais atrás, reconheceu aquela prancha.
— Querido, essa é…?
— É sim, mãe.
Outra prancha. Um adesivo de família. O ruivo logo entendeu o que estava acontecendo.
— Langa, isso aqui é…?
— Essa era a prancha que o meu pai usava — ele confirmou. — Como ele não está mais aqui, acho que a melhor pessoa para usar ela agora é você.
Reki ficou corado. Ele tentou dizer algo, mas não encontrou as palavras. Ele sabia o quanto aquela prancha significava para Langa. Ou melhor, o quanto tudo aquilo significava. Ele estava feliz por poder fazer parte disso. E não iria decepcionar o garoto que amava.
Ele segurou a prancha com mais força.
— E então? — o ânimo do azulado transbordava através do seu grande sorriso — Quer andar de snowboard?
— Com certeza!
Os garotos colocaram as duas pranchas sobre a neve, lado a lado.
— Como essa prancha não tem rodas, é um pouco mais fácil de subir nela do que num skate — Langa subiu na prancha primeiro e prendeu apenas um dos pés no fixador. — Normalmente, a gente prende os dois pés mas, primeiro, eu quero te ensinar a remar.
— Ah, qual é?! Não acredito que, depois de tudo, você vai me ensinar a remar!
O azulado riu.
— É um pouco diferente remar na neve do que no asfalto. E é com isso que você tem que se acostumar.
— Não deve ser tão difícil assim.
Reki subiu na sua prancha e também prendeu o pé direito no fixador.
— Agora o resto você já sabe. Rema, rema, remador.
O ruivo ficou corado mais uma vez. Os papéis de aluno e professor realmente tinham se invertido.
— Belezinha, Langa.
O canadense foi na frente, remando lentamente. O vermelho colocou o pé livre sobre a neve e logo confirmou como era bem diferente remar nela. Ela era muito mais macia e suave do que o asfalto, com o qual sempre esteve acostumado. Se fosse fraco demais, não conseguiria remar. Mas se pisasse muito forte, seu pé poderia afundar. Além do mais, ter o outro pé preso na prancha parecia mais estranho ainda.
Com um pouco de esforço, ele conseguiu dar a primeira remada. Ele sentiu seu equilíbrio vacilando. Mas tudo bem. Depois, deu a segunda remada. E a terceira. Ele ainda estava hesitante. Mas era divertido.
— Vem, Reki! Você consegue!
O japonês respirou fundo. Ele deu a quarta remada.
E então caiu.
— Pois é! — ele falou, com a cara na neve — É um pouco mais difícil do que eu esperava!
Shadow começou a gargalhar.
— Nem começou ainda e já tá caindo! Você filmou isso, Cherry?
O rosado cruzou os braços.
— Carla?
— Está tudo sendo documentado, mestre.
— Excelente.
Langa desprendeu o pé da prancha e foi até o ruivo. Ele estendeu o braço para o vermelho se levantar.
— Você começou bem, Reki.
***
Langa e os outros continuaram indo até aquela montanha todos os dias desde então.
Ele e Reki ficavam sempre vendo vídeos e pesquisando coisas novas, exatamente como faziam com o skate. O ruivo ficava sempre impressionado a cada vez que se dava conta de que o canadense tinha tanto amor e empolgação pelo snowboard quanto ele mesmo tinha pelo skate. Detalhe: no fim das contas, os dois acabaram ficando juntos no mesmo quarto, indefinidamente.
O grupo visitou vários lugares e todos puderam conhecer bem a cidade. Langa comeu poutine até enjoar. Nanako revisitou todos os lugares de que tinha saudade, bem como antigos colegas e amigos. Cherry e Joe visitaram vários restaurantes e discutiram em cada um deles. Miya zoou a cara de todo mundo o máximo que pôde.
Vez ou outra, eles acabavam se deparando com Adam e Tadashi, que pareciam persegui-los. Joe teve que segurar Cherry várias vezes para impedir que ele socasse o político, assim como Langa teve que segurar Reki. Nanako continuava confusa, já que ninguém podia explicar a verdadeira história do S para ela. Mas só pelo pouco que conseguiu entender, ela já passou a desgostar dele.
Reki frequentemente enviava fotos e vídeos para sua mãe e irmãs. Apesar do fuso-horário, Masae respondia rapidamente a todas as mensagens e sempre lembrava o filho de tomar cuidado. Em troca, Koyomi enviava fotos e vídeos para provar que era uma boa instrutora de skate para suas irmãzinhas.
Constantemente, Nanako e Oka conversavam sobre Reki e Langa. Às vezes, Oka agia como se fosse o pai do ruivo. Era visível como os dois adultos se entendiam muito bem quando se tratava de “cuidar” dos adolescentes.
Todos puderam passar bons tempos juntos, aproveitando a companhia uns dos outros. Langa e Nanako realmente se sentiam mais conectados ao falecido Oliver. Ao mesmo tempo, essa viagem parecia ser uma boa despedida para Miya. O grupo estava mais próximo e mais unido do que nunca.
De vez em quando, eles ainda andavam de skate pelas ruas da cidade. Entretanto, na maioria dos dias, eles nem tocavam nos skates. Mas não importava muito. Afinal, agora eles tinham o snowboard.
A cada vez que o azulado subia na prancha, era como se seu corpo desbloqueasse uma nova memória esquecida ou uma nova habilidade perdida. E, em cada vez, seu coração acelerava e ele sentia a emoção como nunca antes.
Ele começou a ensinar Reki e os outros a andarem de snowboard. Cada um teve suas dificuldades particulares. Cherry, em especial, sentiu falta de não ter uma prancha de snowboard personalizada com a inteligência artificial da Carla para o ajudar. Joe e Shadow tiveram dificuldade em adaptar seu grande peso e massa ao design da prancha. Até Nanako tentou praticar um pouco. Miya também experimentou e se divertiu.
Mas o principal de todos os alunos, obviamente, era Reki. O ruivo percebeu vários paralelos entre aprender a andar de snowboard e ensinar Langa a andar de skate. Vários movimentos e manobras eram bem semelhantes. Não era à toa que o canadense aprendeu tão rápido a andar de skate.
O vermelho também começou a melhorar rapidamente. Ele estava desenvolvendo um apego pela prancha de Oliver, como ele tinha pelo seu skate. Em poucos dias, ele conseguiu se equilibrar razoavelmente bem e começou a se deslocar livremente com ela. Logo, ele já estava podendo praticar lado a lado com Langa, mesmo que em um ritmo mais lento e cuidadoso.
Quanto mais tempo os dois passavam juntos, praticando snowboard, mais eles pareciam se aproximar, mesmo já sendo tão próximos um do outro. O japonês adorava ver o quanto o azulado ficava empolgado quando o ensinava. Dava para ver claramente o quanto ele estava feliz com tudo isso.
Reki se sentia extremamente alegre por poder fazer parte desse momento tão importante da vida de Langa.
E Langa se sentia extremamente realizado por poder compartilhar esses momentos ao lado do seu amado Reki e por poder fazer snowboard com ele.
***
O tempo passou rápido. Antes que pudessem perceber, já faltava menos de uma semana para o Natal.
Mais uma vez, Langa acordou ao lado de Reki na cama. Assim que seus olhos se ajustaram à luz, ele imediatamente começou a admirar o rosto do seu querido ruivo.
Era incrível como, desde que voltou a praticar snowboard, toda vez que acordava, ele não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o como ele era grato por estar exatamente ali.
Eles encontraram os outros e foram tomar café da manhã em uma cafeteria perto do hotel. Alguns flocos de neve caíam lentamente, fazendo com que Langa ficasse olhando para o céu como uma criança boba. Mas era algo que Reki achava exatamente fofo.
O azulado estava animado como sempre. O vermelho tentava acompanhar o ritmo dele, apesar de ainda estar sob os efeitos do sono.
Eles se sentaram à mesa e Joe apareceu com dois copos de chocolate quente para os garotos.
— É impressão minha ou hoje tá mais frio que nos outros dias? — Joe, mesmo bem agasalhado, tentava se aquecer abraçando a si mesmo.
— Vai ver é porque tá nevando — Miya foi irônico, como sempre.
Langa terminou rapidamente o seu chocolate quente e, sem conseguir conter mais seu ânimo, apressou Reki.
— Vai com calma, eu tô terminando! A montanha não vai sair de lá — o ruivo riu.
— Eu sei, só quero aproveitar o máximo de tempo possível!
Cherry deu mais um gole em seu café.
— Na verdade, eu e o Kojiro estávamos pensando em variar um pouco nossas atividades hoje. Talvez visitar algum museu ou ir ao shopping. Creio que Miya e os outros também queiram nos acompanhar.
A expressão de Miya era de como se ele tivesse acabado de captar um código secreto. Nanako e Oka se entreolharam, com uma expressão similar à do menor.
— Aaah. Com certeza.
Langa parecia desapontado.
— Mas você e o Reki ainda podem ir juntos! — Joe deu uma piscadinha para o ruivo, o deixando confuso — Aposto que vai ser bacana passarem um tempo só os dois manés.
Ambos os garotos ficaram corados.
Depois de alguns segundos, Shadow finalmente entendeu.
— Oooh! Entendi!
Cherry o fuzilou com o olhar.
Langa e Reki olharam um para o outro.
— Bom… Tudo bem por você, Reki?
— Ah… Pode crer!
— A gente encontra vocês depois então?
— Não tenha pressa, querido! — Nanako exibia um sorriso acolhedor — Só tomem cuidado!
— Claro, mãe.
Depois que os dois garotos foram embora, o resto do grupo deu algumas risadas da situação. A relação entre os dois garotos era óbvia para todos. Somente os próprios pombinhos não conseguiam perceber.
Joe notou que Cherry estava mais quieto do que o comum. Através dos óculos, seus olhos dourados mostravam que o rosado estava perdido em seus pensamentos.
Kaoru foi trazido à realidade quando sentiu um braço sendo passado pelos seus ombros. Um braço muito maior do que a maioria.
— Qual foi, quatro olhos?! Não vai me contar no que tá pensando tanto?
— Não é nada importante.
— Pelo amor de Deus! Você vai mesmo ficar de gracinha a essa altura do campeonato?!
Cherry suspirou.
— Talvez seja um pouco de tudo. Mas, principalmente, o que mais me intriga é o Adam.
Joe revirou os olhos.
— Por que será que eu não tô surpreso?!
— É incômodo ele ter nos perseguido até aqui. Mas, ao mesmo tempo que ele parece querer se aproximar, ele está mantendo mais distância do que eu esperava. O que será que ele está tramando?
O verde bagunçou os cabelos do rosado, como costumava fazer com os meninos.
— O importante é que ele não tá enchendo o nosso saco. Você tem que parar de pensar demais nas coisas. É uma viagem de férias! Aproveita! Não é tão difícil.
Kaoru ficou em silêncio por alguns segundos. De repente, abriu um sorriso bobo.
— Não se preocupe, Kojiro. O Adam não é a única coisa mantendo minha mente ocupada.
Joe ficou surpreso, ainda mais pela expressão do outro.
— Ah é?! E no que mais tá pensando, então?
— Reki e Langa. Não falta muito pra isso chegar até onde todos estamos esperando.
O verde sussurrou no ouvido do rosado.
— O que significa que você vai perder mesmo a nossa aposta, não é?
— Você é mesmo um imbecil. — Cherry sussurrou de volta: — Mas, devo dizer que a relação dos dois me lembra bastante a nossa.
Isso arrancou um sorriso do verde.
— Entretanto — o olhar do rosado repentinamente ficou mais sério —, eu só espero que os dois consigam lidar bem com todos esses sentimentos. Senão, tudo pode acabar sendo terrivelmente desastroso.
***
Na maioria das vezes que iam até a montanha, só Langa e Reki praticavam snowboard, enquanto os outros ficavam assistindo. Mas era a primeira vez que os dois iam sozinhos.
Havia parado de nevar. As nuvens cinzas acima deles já estavam começando a se dissipar, revelando o céu azul. O sol que surgia aquecia seus corpos, em contraste com a neve no chão e a suave brisa gélida no ar.
Mas o que realmente aquecia os corações dos garotos era a companhia um do outro.
Enquanto subiam a montanha no teleférico, Reki ficou observando as pessoas abaixo dele. A maioria também estava acompanhada de amigos e família. E, como era de se esperar, havia mais casais ali.
Suas mãos começaram a formigar. Ele sentiu uma fisgada no coração. Ele não entendia o motivo, mas sentia que, se fosse mesmo confessar seus sentimentos para Langa algum dia, talvez esse dia tivesse chegado. E isso o deixava apavorado.
***
Assim como todas as vezes que chegava ao topo daquela montanha, Reki ficou admirando a paisagem. Ele já estava se acostumando a observar a cidade toda de cima. Mas, ainda assim, sempre ficava tão impressionado quanto da primeira vez.
— Eu vi esse tipo de paisagem quase todos os dias, durante a minha vida toda — Langa disse, admirando a vista ao lado de Reki. — Mas continua cada vez mais lindo.
Só não mais lindo do que você, o ruivo pensou.
Novamente, ele sentiu sua respiração ficar acelerada. Por algum motivo, a presença de Langa naquele dia realmente estava mexendo com ele mais do que o normal.
Sua mão começou a formigar, assim como seu peito. Ele admirava os olhos cristalinos, que se encaixavam perfeitamente naquele rosto angelical, até que seu olhar desceu para os lábios do azulado.
Talvez ele não aguentasse guardar o que sentia por nem mais um dia. Ele respirou fundo. Tentou colocar algumas palavras para fora, mas sua voz falhava.
— Ei, Langa…
— Reki — o azulado interrompeu, sem ter percebido que o japonês tentava falar algo —, quer apostar pra ver quem chega primeiro até a base da montanha?!
Reki ficou constrangido.
— Ah… É claro…
Eles colocaram as pranchas sobre a neve. Prenderam os pés aos fixadores. E desceram a montanha juntos.
Reki achava incrível como o vento frio soprava forte contra seu corpo conforme ele acelerava. Seus óculos de proteção ficavam levemente embaçados. A adrenalina e a velocidade corriam pelas suas veias. Ele sentia como se pudesse voar.
Ele ainda era perdidamente apaixonado por skate, mas tinha que admitir que o snowboard era bem mais irado nesse sentido.
Agora, os dois garotos já conseguiam ficar lado a lado.
Langa observava o ruivo com atenção. Seu cabelo vermelho parecia voar com o vento, destacando-se na paisagem branca e fria. E seu sorriso era tão energético quanto costumava ser no skate.
O azulado reconheceu que Reki estava mesmo conseguindo se equilibrar quase perfeitamente sobre a prancha. Seus pés estavam firmes nos fixadores e era visível como ele havia se acostumado com isso mais rápido do que o esperado. Ele deslizava naturalmente pela neve.
O canadense quis testá-lo. Começou fazendo um zigue-zague. Não demorou muito para que o japonês imitasse seus movimentos. Langa ousou um pouco mais, se movimentando mais rapidamente e abrindo mais as curvas. E Reki seguia imitando-o tranquilamente.
— Ei, Reki! — ele falava alto, para que o outro ouvisse apesar do ruído do vento — Você tá ficando muito bom! Tá evoluindo muito rápido!
O ruivo ficou corado.
— É porque eu tenho o melhor dos professores!
O azul sempre soube que Reki era um garoto extremamente talentoso. Era uma pena que, na maioria das vezes, ele pensasse que não era nada. Se ao menos ele pudesse se ver do modo como Langa o via!
Reki era um skatista fantástico e um ótimo professor. Inteligente, criativo e animado. E, acima de tudo, era um amigo maravilhoso. Sempre estava lá quando o canadense mais precisava. Assim como, bem agora, estava ali ao seu lado.
Langa queria poder se abrir. Dizer o quanto realmente admirava o ruivo, o quanto era grato por tê-lo em sua vida e o quanto o amava.
Os dois já estavam quase na metade da montanha, mas Langa não se contentou. Ousou ainda mais nos momentos. Fez curvas e rotações mais radicais, esperando que Reki o acompanhasse.
A expressão do vermelho era de admiração, mas ele também encarava como se estivesse sendo desafiado. Ele sabia que era um teste e queria provar que era capaz de passar.
Ele se preparou e tentou imitar os movimentos de Langa. Mas acabou perdendo o equilíbrio.
Ele rolou na neve e acabou derrubando o azulado também. Ambos rolaram até terem a queda amortecida por uma árvore no meio do caminho.
— Ai!
Langa havia caído sentado, com as costas na árvore. Reki estava caído em cima dele.
O ruivo ergueu a visão, dando de cara com o rosto do azulado. Estavam a alguns míseros centímetros de distância. Juntos daquele jeito, podiam sentir perfeitamente o calor um do outro.
Langa sentiu seu coração acelerar. Dessa vez, não era por causa do snowboard, nem do skate. Era por causa de Reki.
O ruivo voltou à realidade e ficou envergonhado. Ele rolou para o lado, saindo de cima de Langa e ficando deitado na neve, com o corpo para cima. O canadense deixou seu corpo escorregar, ficando deitado ao lado do vermelho.
Ambos olhavam para o céu. O japonês pensou em como isso lembrava os olhos azuis de Langa.
Não demorou muito para que ambos começassem a rir da situação em que estavam. O azulado gargalhava como uma criança.
— Reki, já fez anjinhos de neve?
— Não…?
— É fácil! Olha!
Langa desprendeu os pés da prancha e começou a movimentar os braços e as pernas, como se estivesse fazendo um polichinelo deitado, deixando na neve as marcas que pareciam as asas e a túnica de um anjinho natalino.
Reki imitou os movimentos dele, deixando a mesma marca.
Ele inclinou a cabeça para o lado e, mais uma vez, seus olhares se encontraram. E eles começaram a gargalhar de novo.
— Só você pra fazer essas coisas, Langa! Parece até uma criança!
Ele se sentou. Langa fez o mesmo em seguida. E ficaram de frente um para o outro.
As risadas pararam logo que se perderam no olhar um do outro. Os olhos azuis frios encontravam os olhos âmbar quentes. Dois opostos que se atraíam como imãs.
Os dois estavam ofegantes. Dois corações tão acelerados quanto qualquer prancha de snowboard.
Um sentimento novo tomou conta de Langa. Ele queria se abrir. Talvez tudo desse errado. Talvez se arrependesse profundamente disso. Mas ele precisava fazer isso. Precisava dizer para Reki o quanto o amava.
Mas os dois pensaram na mesma coisa, ao mesmo tempo.
— Reki…
— Langa…
— Eu preciso te contar uma coisa… — os dois disseram ao mesmo tempo.
Ambos ficaram corados na hora.
— Ah… Pode falar primeiro, Reki.
O ruivo sentiu como se seu coração tivesse parado de bater. Ele sentiu um frio na barriga. Ele queria se confessar. Ele precisava contar tudo. Se não fizesse isso agora, talvez nunca mais tivesse a chance.
Ele respirou fundo. Reuniu toda a coragem que tinha. E disse:
— Deixa pra lá. Não é nada importante. Pode falar você.
Parecia que o coração do azulado rasgaria seu peito e sairia para fora. Suas mãos tremiam.
— Reki…
Ele começou a falar, mas as palavras certas lhe fugiram. No fim, talvez ele também não conseguisse falar tudo o que sentia. Mas tinha algo que ele não poderia deixar de falar.
— I love snowboarding with you!
Reki não entendia inglês tanto quanto gostaria. Mas aquelas palavras ele compreendeu perfeitamente. E elas entraram diretamente em seu coração. E, naquele momento, ele soube que as guardaria para sempre.
***
Depois de mais alguns minutos, os dois garotos chegaram à base da montanha.
Ambos estavam sorridentes. Por mais que tivessem deixado lá em cima sua oportunidade de finalmente assumirem seus sentimentos, eles estavam contentes por estarem vivendo esse momento juntos.
Mas, no fundo, eles ainda tinham esperança de, algum dia, conseguirem viver de verdade esse amor.
O céu estava começando a ficar rosado conforme a tarde ia se acabando. Reki conferiu o celular, mas ninguém havia deixado nenhuma mensagem.
— Sabe — Langa parecia energético —, eu estava pensando… Agora que a gente já praticou o suficiente, nós podemos ir ao parque de esportes de inverno amanhã. Vai ser legal poder fazer snowboard num lugar onde não vamos estar sozinhos.
Reki riu.
— Você que manda, chefe! Mas eu também acho que seria legal. No skate a gente nunca tá sozinho, então não tem motivo para ficar no snowboard.
Langa sorriu, animado.
De repente, ele foi tirado de seus pensamentos quando ouviu o som de algo se aproximando em alta velocidade.
Os dois dirigiram seus olhares de volta à montanha. E o azulado não acreditou no que viu.
Mais uma vez, o misterioso snowboarder estava descendo a montanha, numa velocidade impressionante. Ele desviava dos obstáculos e realizava manobras complexas com naturalidade.
Finalmente, ele chegou à base da montanha, parando a apenas alguns metros de distância
O rapaz tirou seus óculos de proteção e se virou na direção dos garotos. Reki ficou assustado ao perceber que os olhos dele eram de cor âmbar, lembrando muito os seus próprios. O snowboarder analisou os dois.
— Sabe, eu fiquei observando vocês descerem a montanha agora. Até onde eu sabia, eu era o único que praticava nessa montanha de turismo!
— Eu também nunca visto mais ninguém aqui.
O ruivo observava, um tanto desconfortável, enquanto os dois conversavam em inglês.
— Você é bem talentoso, azulzinho. Qual é o seu nome?
— Langa.
— Legal. Eu sou o Theo. A gente se vê por aí.
O rapaz deu dois tapinhas no ombro de Langa e foi embora.
Os dois garotos se entreolharam. Havia algo de diferente naquele snowboarder, eles só não sabiam ainda o quê.
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