Snowboarding With You
4 Capítulo Quatro
Notas iniciais

A semana que se passou foi bem movimentada para todos, conforme eles se preparavam para a viagem que se aproximava.
No fim das contas, convencer Shadow a ir com eles na viagem foi a parte mais fácil.
— Eu já falei que não vou pro Canadá, mas nem a pau!
— Mas Hiromi… Essas crianças não podem viajar sozinhas. E elas querem muito que você vá com elas. Olha só essas fofuras!
A gerente da floricultura tinha sido rapidamente conquistada por Langa, Reki e Miya, que estavam agarrados no grandalhão, fazendo carinha de bebês pidões. A ideia de ir até lá foi de Miya. Deu certo quando eles foram para Miyakojima, então fazia sentido usar a mesma estratégia novamente.
— Eu… eu… — Shadow bufou.
Finalmente, ele fechou os olhos e soltou um suspiro pesado de desistência. Então, ele se recompôs e respondeu, com sua voz forçadamente delicada e suave:
— Mas é claro, gerente! Eu vou com eles sim!
— Perfeito!
Os três jovens abraçaram o mais velho ainda mais forte, quase o esmagando.
— Valeu, tiozão! — os três gritaram juntos.
O grandalhão rangeu os dentes:
— Eu vou matar vocês três! — ele sussurrou.
— E eu quero ver você tentar — Miya zombou.
***
Além de Langa e Nanako, nenhum deles realmente sabia quão frio era o Canadá, muito menos tinham roupas para tal clima. Então, todos foram juntos ao shopping para fazer compras.
— Pessoal, essa aqui é a minha mãe — Langa a apresentou ao grupo. — Mãe, esses são os meus amigos. Esse aqui é o Miya, esse é o Oka. E…
O azulado ficou um pouco confuso sobre como apresentar os mais velhos. Ele estava acostumado a se referir a eles usando os codinomes do S, mas sabia que não deveria usá-los com pessoas de fora. Mas seria estranho ter que chamá-los pelos seus nomes verdadeiros durante toda a viagem. Sem contar que talvez ele já tivesse usado os codinomes quando os mencionou para sua mãe.
Para a sua sorte, eles perceberam sua confusão e rapidamente se apresentaram.
— Eu sou o Kojiro — se apressou o verde. — Mas pode me chamar de Joe.
Langa ficou aliviado.
— Eu sou o Hiromi, mas o pessoal me chama de Shadow — ele se comportava exatamente do mesmo modo de quando estava próximo da sua gerente — É um prazer muito grande te conhecer!
— E o meu nome é Kaoru, mas a senhora pode me chamar de Cherry. Os apelidos são uma piada interna, coisa de skate, pode-se dizer. Seu filho fala muito bem da senhora. É uma grande honra te conhecer pessoalmente, sra. Hasegawa.
Ela ficou constrangida.
— Ah, vocês são uns amores. Podem me chamar de Nanako. Infelizmente eu não tenho nenhum apelido legal — ela riu.
O grupo tentou pegar o máximo de roupas e cobertores que conseguiram. E, é claro, os garotos não puderam deixar de brincar com a cara um do outro enquanto experimentavam as roupas novas.
— Você tá ridículo nessa coisa, slime — Miya observava Reki sair do provador com desdém.
— E você tá parecendo um sapo!
Discretamente, Nanako se aproximou do filho e sussurrou em seu ouvido:
— Quando você falava deles, eu imaginava que eles tinham a mesma idade que você. Não esperava que seus amigos skatistas fossem adultos responsáveis.
— Ah, pois é — ele ficou um pouco constrangido. — É que todos eles andam de skate há algum tempo. E são muito bons. Eles meio que ajudaram o Reki a me ensinar. Eles são incríveis.
— Aposto que sim, querido. Dá pra ver que você tem bons amigos. Só de conhecer o Reki, eu já podia esperar isso.
Langa, levemente corado, concordou.
Cherry se aproximou, segurando vários casacos.
— Se me permite, sra. Hasegawa, eu gostaria de ter uma palavra com você.
— Comigo?
— Sim. Enquanto os adultos do grupo, acredito que possamos discutir alguns assuntos em particular. E, é claro, como a mãe do Langa, creio que seja importante conversarmos sobre seu filho.
— Ah — ela ficou um pouco pensativa, mas rapidamente aceitou. — Tudo bem.
— Papo de adulto, é? — Joe riu — Nem imagino o que esses dois têm pra discutir. Não me deixa de fora não, Kaoru!
— Se eles vão falar do Langa, então eu vou falar do Reki — o gerente Oka disse, rindo, rapidamente seguindo os outros adultos.
— E eu? — Shadow exclamou, triste por estar sendo excluído.
— Você fica com as crianças — o rosado ordenou.
— Como é que é?!
***
Aquela semana acabou passando num piscar de olhos. Quando Langa se deu conta, novembro havia acabado e o tão aguardado dia da viagem havia finalmente chegado.
Ele e sua mãe foram buscar Reki na casa dele. Nanako saiu do carro e conversou mais uma vez com Masae. Como já era de se esperar, a mãe do ruivo ainda estava um pouco preocupada com a ideia do filho viajar para o outro lado do mundo, mas não foi difícil para Nanako tranquilizá-la.
As gêmeas estavam chorando, porque não queriam deixar o irmão ir. Nanako se ajoelhou na frente delas, ficando da mesma altura que as pequenas.
— Eu prometo que nós vamos cuidar do seu maninho e trazer ele são e salvo, ok?
Então, ela fez com as garotinhas o cumprimento do infinito que Langa e Reki sempre faziam, deixando as duas, e até os garotos, surpresos. Facilmente, as gêmeas ficaram convencidas.
— A titia Nanako é maneira demais!
Masae agarrou o filho mais uma vez.
— Promete pra mim que vai se cuidar, Reki?
O ruivo riu.
— Eu prometo, mãe.
Ela o envolveu em um abraço apertado.
— Acho bom mesmo. Se alguma coisa acontecer, eu mesma vou até o Canadá te buscar!
— Tá bom, mãe, tá bom. Eu também te amo.
Reki se sentou no banco traseiro, ao lado de Langa. Enquanto o carro se afastava, Koyomi gritou:
— Se o seu avião cair, eu vou ficar com o seu quarto!
— Vai sonhando! — o ruivo gritou de volta, à distância.
***
Reki nunca havia entrado em um aeroporto. O lugar era cheio de mapas do próprio prédio, além de propagandas de agências de viagens. Muitas pessoas iam e vinham, sem parar, com suas malas enormes.
No meio da multidão, eles encontraram os outros. Miya, Cherry, Joe, Shadow e o gerente Oka pareciam animados para a viagem. Todos estavam muito bem arrumados, com as roupas novas que compraram juntos, e todos carregavam malas enormes. O gerente levava Sketchy, que estava dormindo tranquilamente, em uma gaiolinha para gatos.
Reki ficou impressionado quando viu o avião. Ele nunca havia visto algo tão grande. Ver aquela máquina gigante o fez se sentir pequeno.
Enquanto se preparavam para entrar, caiu a ficha de que ele estava prestes a viajar literalmente para o outro lado do planeta, o que só o fez se sentir menor ainda.
Os garotos foram em direção aos seus assentos.
— Você quer ir na janela, Reki?
— Não, de boa. Não sei se eu quero olhar para fora e ver nuvens embaixo de mim em vez do chão.
O canadense riu.
Shadow e Miya se sentaram nos assentos na frente deles.
— Vai ser um voo longo, então eu vou ficar jogando videogame — Miya já estava com seu Nintendo Switch nas mãos — Não se esqueçam de colocar o celular no modo avião. E se precisarem de alguma coisa, não me chamem.
— Que joguinhos você tem aí? — Shadow parecia curioso.
Reki e Langa ficaram em silêncio por alguns minutos, esperando. Quando o avião finalmente começou a decolar, o ruivo sentiu como se seu coração fosse saltar pela boca. Seu cérebro começou a rodar dentro de seu crânio. Ele se agarrou aos assentos, segurando o mais forte que conseguia, com os olhos fechados. Ele nunca havia estado em um avião antes e, dentre os incontáveis medos que tinha sobre essa viagem, esse era um dos maiores.
Então, ele sentiu outra mão, macia e quente, segurando cuidadosamente a sua.
— Tá tudo bem, Reki. É mais complicado na decolagem, mas depois fica bem tranquilo. Você vai ver.
O vermelho sorriu, um pouco aliviado. Ele observou a mão de Langa segurando a sua e, envergonhado, se perguntou se deveria afastá-la. Mas ele não fez isso. O toque do azulado era muito acolhedor. Ele esperou que o canadense fosse afastá-la, mas ele também não fez nada. Eles apenas mantiveram suas mãos ali, juntinhas.
Reki ficou mais calmo conforme foi se acostumando com a sensação de estar literalmente voando. Shadow, por outro lado, estava em um desespero muito maior do que o de Reki.
— Socorro! — ele gritava como uma criança — Eu não quero morrer! Gerente! Gerente, me salva!
Ele se agarrava nos assentos ao seu redor e em Miya.
— Então você realmente tem medo de avião. Que patético, tio Shadow.
— Ah, seu moleque! Você vai me pagar!
O ruivo caiu na gargalhada vendo a cena. Ficar no avião, ao lado de Langa e com todos os seus amigos, era aconchegante, no fim das contas.
***
O voo realmente foi longo.
Em determinado momento, Miya e Shadow se cansaram do videogame e decidiram dormir. Os outros adultos, que estavam mais à frente, também tinham parado de conversar. Na verdade, a maioria dos passageiros parecia estar dormindo.
Porém, mesmo estando de olhos fechados, Reki estava agitado demais para conseguir dormir. Ele abriu os olhos e olhou para Langa, ao seu lado. O azulado estava olhando pela janela. Mas o ruivo percebeu que ele ainda estava incomodado.
— Ei, cara. Você quer conversar?
Langa se voltou para Reki.
— Sabe, ainda é estranho pensar que eu estou voltando para lá depois de tudo o que aconteceu. Não sei direito como eu deveria estar me sentindo com tudo isso.
Reki assentiu.
— Do que você mais sente falta no Canadá?
Langa sorriu, um pouco melancólico.
— Do meu pai. Mas eu também sinto falta da nossa antiga casa. E do chocolate quente que a minha mãe fazia. E de comer poutine toda semana. E… o snowboard. Cara, a neve. Eu sinto muita falta da neve.
O ruivo podia ver, naqueles olhos cristalinos, como Langa falava com paixão sobre tudo aquilo. O azulado sempre foi quieto, e nunca demonstrava muito seus sentimentos. Mas tinha muito mais tristeza nele do que qualquer um poderia imaginar. Dava para ver como ele amava tudo aquilo e o quanto sentia saudade.
Por um momento, Reki se pegou pensando no que aconteceria se Langa realmente pudesse ter tudo aquilo de volta na sua vida. Sim, eles passaram por coisas incríveis em Okinawa. Mas será que Langa ainda escolheria ficar com ele se, em vez disso, tivesse a chance de ter sua vida antiga de volta?
O vermelho afastou os pensamentos.
De algum lugar, uma voz anunciou a aterrissagem, em japonês e inglês:
— Atenção passageiros, em alguns minutos nós iremos pousar. Por favor, mantenham-se em seus assentos.
Ao ouvir aquelas palavras, o azulado sentiu seu coração acelerar novamente.
Ele olhou novamente através da janela. O céu estava coberto por nuvens levemente acinzentadas, pelas quais passavam raios de sol que marcavam suavemente a paisagem, deixando uma atmosfera agradável. Quando sua visão se ajustou, ele imediatamente conseguiu identificar sua cidade natal, metros abaixo deles.
No mesmo momento, ele sentiu algo que não soube explicar. Ele não sabia que estava com tanta saudade do Canadá, até agora.
Lá de cima, ele podia ver a cidade toda. Mesmo de longe, era possível ver cada detalhe. E ele reconheceu cada um deles. Cada um dos prédios. Cada uma das casas. Cada um dos parques. Cada uma das ruas. As pessoinhas, minúsculas aos olhos, movimentavam a cidade, dando vida a ela. Bem do jeito que Langa se lembrava.
Milhões de memórias e sentimentos nostálgicos passavam pela sua mente, a toda velocidade, enchendo seu coração.
Mesmo tendo tentado se preparar para isso durante a semana toda, ele sentia que ainda não estava preparado. Parte dele queria muito fazer isso, enquanto outra parte ainda queria, de alguma forma, sair correndo do avião.
Ele só percebeu que estava tremendo quando Reki segurou sua mão. O azulado se virou para o ruivo, que estava com um sorriso solidário no rosto.
O canadense sorriu de volta. Dava para ver que, apesar de estar tentando confortá-lo, o ruivo também estava nervoso. Só talvez não tanto quanto ele.
***
Depois de mais alguns minutos, o avião finalmente pousou.
Saindo da área de desembarque e indo para a parte principal do aeroporto, todos ficaram impressionados, principalmente Reki. O lugar era gigantesco, muito maior do que o de Okinawa. Logo, se depararam com um grande letreiro desejando boas-vindas em inglês. Mais à frente, havia uma enorme árvore de Natal e várias luzes piscantes.
Havia muitas pessoas diferentes lá. Adultos, crianças e idosos. Com malas de todos os tamanhos. Cada uma falando um idioma diferente. Elas iam e vinham, conversando entre si ou entretidas em seus celulares. E elas davam vida àquele lugar.
Um pouco mais à frente, Langa pôde ver uma enorme bandeira do Canadá. Ela estava pendurada no teto e descia quase até a altura deles. Ele se aproximou e a admirou. O azulado nunca foi do tipo patriota, mas ver aquelas cores novamente, o fez se sentir acolhido.
Foi naquele momento que Langa se deu conta de que estava em casa novamente. Ele se lembrava da última vez em que esteve naquele aeroporto. O dia em que foi embora do país. Mas, estando lá de novo, era quase como se nunca tivesse saído.
Logo que saíram do aeroporto, eles puderam sentir o ar frio contra seus corpos quentes. Estar ao ar livre só aumentou o sentimento de Reki de estar em um lugar totalmente novo, num mundo tão grande e desconhecido.
Ele já estava começando a tremer. Langa e Nanako haviam avisado a todos como o Canadá era muito mais frio que o Japão. Ele estava bem agasalhado, com uma jaqueta vermelha bem grossa e um gorro amarelo. Mas, de qualquer forma, para alguém que cresceu em Okinawa, o frio era impactante.
Além disso, também havia a questão do fuso horário. O céu acima dele dizia que era ainda dia, mas seu relógio biológico dizia que já deveria ser noite. Não que isso importasse muito, já que Reki normalmente passava as noites e madrugadas acordado também.
Mas, apesar de qualquer diferença que ele pudesse estar estranhando por estar no Canadá, o simples sorriso bobo de Langa já era o suficiente para ele se lembrar do porquê estava lá. Era tudo pelo Langa. E isso fazia tudo valer a pena.
O ruivo apenas admirava o canadense. E, vendo a sua expressão, não pôde deixar de sorrir.
Langa olhava para o alto. Infelizmente, não estava nevando. Agora, as nuvens haviam se dissipado, revelando a face azul do céu, exatamente como os belos olhos que o observavam, na esperança de que algum floco de neve caísse.
O azulado havia se esquecido dessa sensação. Quando chegou à Okinawa pela primeira vez, ele estranhou o clima mais quente. Mas, com o tempo, ele acabou se acostumando. Agora, sentir o ar frio canadense outra vez era estranho mas, ao mesmo tempo, reconfortante. Ele sempre se sentiu bem com o frio. E gostou de relembrar o sentimento.
— Aqui estão nossos táxis — Cherry Blossom chamou — Vamos ao hotel.
— Finalmente! — Miya disse, ainda sem tirar os olhos do Nintendo Switch.
Langa desviou os olhos do céu e voltou seu olhar para Reki. O azulado sorriu e o ruivo sorriu de volta.
O grupo se separou para ir até o hotel. Nanako foi com Langa e Reki no mesmo carro. Ela ficou no banco do passageiro e os dois garotos ficaram nos bancos traseiros.
O vermelho achou estranho a posição do motorista e o lado em que o carro se movia na rua serem inversos ao que ele estava acostumado no Japão, mas também achou divertido.
Enquanto o carro se locomovia, os dois garotos puderam observar a cidade. Até mesmo as cores das casas pareciam mais frias, mas de um jeito belo. As árvores secas e vestígios de neve no chão enfeitavam as ruas, assim como todos os enfeites de Natal espalhados por toda a cidade. E, como sempre, pessoas de todos os tipos iam e vinham, deixando a cidade ainda mais viva. A atmosfera fria da paisagem ficava aconchegante com os raios de sol vindos do céu azul acima deles.
Langa sentia como se estivesse em um sonho. Ver todas aquelas casas, prédios, lojas e parques parecia surreal depois de tudo o que aconteceu. Ele via as pessoas andando pelas ruas, bem agasalhadas, com copos de café nas mãos, exatamente do jeito que ele se lembrava.
Então, em certo momento, eles passaram por uma família, caminhando na rua. Um pai de cabelos grisalhos, uma mãe e um garotinho pequeno. Os três estavam rindo e se divertindo. Isso fez o coração do azulado ficar apertado em seu peito. Ele sentia falta de ter isso em sua vida. Muita falta.
Ele sentiu um misto de sentimentos. Estava extremamente alegre por estar de volta. Mas também um pouco triste por lembrar que, mesmo estando de volta ao lugar onde cresceu, seu pai não estaria mais com ele.
Langa encostou a cabeça no vidro da janela. O vidro ficava embaçado com a respiração quente dele, que aproveitou para desenhar uma carinha sorrindo.
Reki o observava silenciosamente. O ruivo queria poder entender o que se passava na mente do canadense. Mas ele mesmo não entendia seus próprios sentimentos.
***
Quando finalmente chegaram ao hotel, Reki ficou impressionado ao sair do carro e ver o prédio com vários andares. Parecia que ele tinha tirado o dia para ficar impressionado com grandes construções. O hotel também parecia extremamente chique e caro. Cherry deveria ter pago uma fortuna.
— Eu vou na frente! — Miya saiu em disparada, deixando suas malas com Shadow.
— Tá achando que eu sou o que, hein moleque?! — Tio Shadow pegou as malas e correu atrás do menor.
— Não corram! — Cherry os repreendeu. Ele cobriu os olhos com as mãos, como uma mãe estressada — São duas crianças mesmo.
Todos começaram a rir.
O ruivo puxou o azulado pelo braço e ambos saíram correndo atrás dos outros dois.
Por dentro, o hotel era ainda mais bonito. O salão do térreo tinha paredes em tons claros e aconchegantes. Havia um lustre de vidro no teto, cuja luz dourada fazia o piso reluzir. Reki podia ser seu próprio reflexo no chão. Era definitivamente um hotel cinco estrelas. Só de estar lá, Reki se sentia rico.
Cherry foi até a recepção para pegar as chaves dos quartos, enquanto Miya e Shadow esperavam ansiosamente para entrar no elevador. Assim que pegou as chaves, o rosado disse qual era o andar e as jogou para os jovens.
— Já que não vou conseguir impedir vocês de correrem, então se divirtam. Mas tenham juízo!
Miya pegou as chaves e os quatro se espremeram no elevador. Uma musiquinha ridícula começou a tocar baixinho e o elevador começou a subir. O ruivo ficou com um pouco de tontura. Ele fechou os olhos e apoiou as costas na parede. Langa colocou a mão em seu ombro e ele já se sentiu mais calmo.
Os quatro começaram a rir como crianças de verdade.
Quando chegaram no andar correto e as belas portas douradas do elevador se abriram, os quatro saíram correndo para ver quem chegava primeiro aos quartos. Um empurrou o outro, até que Miya conseguiu abrir a porta do primeiro e eles entraram.
O quarto era ainda mais bonito do que poderiam imaginar. Era praticamente um apartamento onde alguém podia morar. As paredes eram cor gelo, combinando com um grande sofá branco, que estava de frente para uma televisão ainda maior na parede da sala de estar.
Miya se jogou no sofá e pareceu afundar, de tão macio. Shadow foi logo atacar o frigobar. Langa tirou os sapatos e pôde sentir o carpete macio sob seus pés. Tudo parecia confortável e aconchegante demais.
— Mano, isso aqui é incrível! — Reki ainda estava abismado.
Langa avistou o que parecia ser uma sacada, com uma porta de vidro. Mas, antes que pudesse ir em sua direção, foi interrompido quando os adultos entraram.
— Minha nossa! Esse lugar é lindo demais! — Nanako estava tão impressionada quanto Reki.
— O Kaoru aqui realmente não poupou despesas com essa viagem! — Joe ria.
— Não se esqueça de que você mesmo vai pagar sua parte, seu bossal — o rosado o lembrou. — Carla, por gentileza, conecte-se à rede e ajuste a temperatura do aquecedor.
— Sim, mestre.
O gerente Oka entrou, logo atrás, e soltou Sketchy, que rapidamente subiu no sofá e se aconchegou no colo de Miya.
— Todas as malas já estão aqui. Quantos quartos você reservou mesmo?
— Quatro. Um do lado do outro. — Cherry respondeu.
Miya delicadamente tirou Sketchy do seu colo, se levantou e foi ver a suíte. Assim que abriu a porta, abriu um sorriso e se jogou na cama king size, que era ainda mais macia e confortável que o sofá.
— Podem se contentar com o resto, slimes, porque esse aqui já é meu.
— Bem — Cherry explicou —, eu planejei a divisão dos quartos de acordo com o que seria mais adequado. Langa pode ficar com sua mãe; Reki com Miya; Oka com Hiromi; e eu fico com Kojiro.
Miya franziu o cenho.
— E por que logo você quer ficar com o Joe?
— Preciso me certificar pessoalmente de que esse gorila brutamontes não vai fazer nenhuma bobagem fora da minha supervisão.
Joe conteve uma risada.
— Posso ficar com vocês então? — Miya implorou, com sua carinha de bebê pidão — Deixa mamãe!
— Não! — Joe e Cherry responderam em uníssono, um pouco desesperados.
Todos os encararam. O rosado se recompôs.
— No máximo duas pessoas por quarto.
Shadow fungou.
— Isso aqui não tá me cheirando bem.
— Ah, que se dane! — Miya voltou para o sofá e pegou seu Nintendo outra vez — Vocês adultos podem fazer o que quiserem, eu não ligo.
Repentinamente, ouviu-se alguém batendo na porta.
— Quem foi que já pediu serviço de quarto? — Joe perguntou, olhando diretamente para Miya.
Todos olharam para o menor.
— Nem vem. Eu não fiz nada dessa vez — ele retrucou, sem tirar os olhos do videogame. — Ainda.
Cherry caminhou em direção à porta e a abriu com cuidado.
Quando eles viram quem estava do outro lado, todos pularam de susto. Sketchy ficou com os pelos arrepiados e rosnou, como um gato assustado.
— Só pode tá de sacanagem comigo! — Reki exclamou, furioso.
— Ora, que surpresa mais agradável! Quem diria que eu encontraria logo vocês, meus queridos amigos, em minha viagem para o Canadá?
Lá estava Adam, parado mais a frente, com um sorriso cínico no rosto. O ar imediatamente pareceu ficar mais pesado com a presença dele. Ele trajava um terno azul, parecendo um verdadeiro político e homem de negócios. Tadashi, quieto como sempre, estava ao seu lado, com uma expressão tão neutra quanto a cor de suas roupas sociais.
O sangue de Reki começou a ferver. Ele instintivamente cerrou os punhos.
— Ora seu…
Langa o segurou pelo braço, antes que o ruivo partisse para a briga. Quando Reki se virou para o canadense e viu seu olhar, entendeu a mensagem e tentou se acalmar. Entretanto, o clima estava tenso. Todos estavam incomodados.
— Realmente uma grande surpresa — Cherry respondeu, ironicamente. — E o que exatamente você faz aqui?
— Estou de férias — respondeu o toureiro. — Eu simplesmente adoro passar minhas férias de inverno no exterior. E não há nada melhor do que passar o Natal no frio e belo Canadá.
Adam se aproximou do ouvido de Cherry e sussurrou:
— Sabe, no S as árvores têm ouvidos e as pedras no chão têm olhos. Quando soube que vocês viriam para a terra natal do Snow… Ah! — ele se exaltou — Eu não perderia isso por nada!
— Isso é importante para ele. Você não tinha o direito de vir até aqui nos atrapalhar!
— Eu sei que cometi inúmeras atrocidades no meu passado distante…
— Aquilo foi há apenas alguns meses!
— Mas… Agora, tudo o que eu quero é me dar bem com meus queridos companheiros!
Adam se aproximou de Nanako. Todos ficaram tensos, mas se contiveram.
— Você deve ser a mãe do Langa, estou certo? — ele pegou sua mão e a beijou — É realmente uma imensa honra poder conhecer você. Seu filho é extraordinário! Qual é o seu nome?
Ela ficou constrangida.
— Ah, obrigada. Eu sou a Nanako… — ela semicerrou os olhos, tentando focar a visão — Espera, você não é aquele político… Ainosuke Shindo?
— Ah! — ele gritou — Sou eu mesmo! Que felicidade, você me reconheceu!
Ela riu.
— Langa, por que nunca me disse que você tinha até amigos políticos?
— É que não tem muito o que falar desse cara, tia — Reki respondeu, com um olhar furioso dirigido a Adam.
Joe se aproximou do rosado e colocou a mão em seu ombro, em um sinal de apoio.
— Vai embora, Adam. Você não é nem um pouco bem-vindo aqui.
Miya se levantou do sofá. Reki e Langa se juntaram ao Joe, e logo os outros também. Enquanto Nanako apenas observava sem entender nada, todos eles formaram uma barreira de caras feias e olhares contra Adam, como um exército de soldados formando uma falange contra um inimigo em uma guerra.
— Você ouviu o que ele disse — Reki fungava de raiva. — Vai embora daqui.
— Para que tanta agressividade? — Adam ainda insistia — Eu só quero… AH!!
Para a surpresa de todos, Sketchy estava mordendo a mão dele, com força. Ele se debateu, enquanto gritava de dor, e conseguiu se livrar da raposa, que por sua vez, caiu de pé no chão e voltou a rosnar para ele.
Ele olhou para a sua mão. Havia um pouco de sangue e marcas dos dentinhos pequenos do animal.
— Gato miserável!
— Na verdade, ele é uma raposa — Oka corrigiu. — Mas não que você se importe, é claro.
Tadashi e Sketchy trocaram olhares furiosos. Adam bufou. Ele se recompôs e ajeitou a gravata.
— Já que insistem tanto, eu vou me retirar. Por hora. Mas nós nos encontraremos mais vezes.
Ele tentou beijar a mão de Langa, mas todos o impediram. Então, ele apenas fez uma reverência, como um rei cumprimentando outro.
— Aproveite sua viagem, meu pequeno Langa. Home sweet home.
Antes que pudesse terminar, Cherry bateu a porta na cara dele e a trancou.
Houve um minuto de silêncio.
— Será que alguém poderia me explicar o que acabou de acontecer? — Nanako pediu, inocentemente.
— Outra hora eu te conto, mãe.
Reki se jogou no sofá. Enfiou a cara em uma almofada e deu um grito abafado.
— Era só o que faltava!
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