Notas iniciais
Boa leitura!

Langa já tinha perdido a conta de quantas vezes tentou ligar para Reki, torcendo para que ele o atendesse, mas sem sucesso. As mensagens, que ele enviava sem parar, nem mesmo estavam sendo recebidas.

Ele estava sentado no sofá, com a cabeça baixa, totalmente fora da realidade. Ele segurava a prancha de seu pai, que Reki havia deixado no chão.

O grupo havia retornado para o hotel na esperança de encontrar o ruivo, mas ele não estava lá. Ninguém sabia onde mais procurar.

— Tá bom — começou Miya. — O que foi que deu no Reki, Langa?

O azulado ficou sem graça.

— Eu não sei.

— Como assim você não sabe?! — Shadow praticamente gritou — Se alguém tem que saber o que acontece com ele é você, cara!

— Não vai me dizer que vocês brigaram de novo?! — o pequeno fuzilou o azulado com o olhar.

— Não, claro que não.

Nanako o encarou por alguns segundos, pensando se havia algo que pudesse fazer. Ela olhou para Oka, no outro canto do cômodo, procurando por alguma resposta. Mas não havia muita coisa que qualquer um dos dois pudesse fazer.

Depois de um longo silêncio, Langa se abriu.

— O Reki parecia estranho mais cedo, mas eu não dei muita atenção. Eu deveria ter feito alguma coisa — o canadense estava confuso. — Ele ficou mal por minha causa? Eu fiz alguma coisa que deixou ele magoado?

Oka se aproximou.

— O Reki é um garoto complicado. A mente dele tá sempre a mil. E, às vezes, isso atrapalha. Não dá pra saber o que se passa na cabeça dele. Mas, a grande verdade, é que ele guarda muita coisa pra si mesmo. E o maior problema é que ele não sabe lidar muito bem com os sentimentos que ele tem.

Nanako segurou as mãos do filho.

— Da última vez, como foi que vocês se reconciliaram?

— Eu chamei ele pra andar de skate e conversei com ele.

— E o que foi que você disse pra ele?

— Eu só disse o quanto eu amo andar de skate com ele.

Nanako sorriu.

— Então, talvez ele só precise que você diga isso de novo. Sabe… o quanto você ama… ele.

Langa sentiu seu coração disparar.

— Aí, cara! — Joe colocou a mão sobre o ombro do mais jovem, o olhando com uma expressão quase paternal — É o Reki e você. Vai dar certo.

— Por mais difícil que seja dizer isto — admitiu Cherry —, creio que Kojiro tenha razão.

— Ei, eu sempre tenho razão!

— Fique quieto, seu brutamontes! — ele voltou sua atenção para Langa — Nós vamos encontrá-lo. E quando conseguirmos, tente só conversar com ele.

Langa suspirou.

— Acho que preciso tomar um ar.

Ele se levantou do sofá. Deixou a prancha do seu pai encostada na parede e avistou seu skate, que também estava ali. Então, decidiu pegá-lo e saiu.

Quando estava trancando a porta, ouviu um som vindo de trás dele. Ele se virou e se deparou com um rosto familiar.

— Snake?!

Saindo do quarto do outro lado do corredor, Tadashi o observou, surpreso.

— Olá, Snow — ele o cumprimentou, com uma feição neutra.

O homem estava usando apenas um moletom preto com capuz, em vez dos trajes sociais de sempre. E, em seus braços, ele também carregava um skate.

Os dois ficaram se observando por alguns segundos silenciosos.

— Não precisa se preocupar. — Snake quebrou o silêncio — Eu estou sozinho. O Sr. Ainosuke… o Adam… — ele se corrigiu — saiu há alguns minutos.

— Entendi.

Tadashi analisou o rosto de Langa, tentando decifrar a razão por trás de sua expressão melancólica. Então, seu olhar abaixou, e ele notou que o garoto também segurava seu skate.

— Bem, parece que nós dois estamos indo andar de skate. Por um lado, fazer isso sozinho ajuda a colocar a mente no lugar. Entretanto, uma companhia nunca é dispensável. Então, quer se juntar a mim?

O convite foi inusitado. Mas, por algum motivo, a resposta de Langa veio automaticamente.

— É claro.


***


O sol já estava praticamente extinto no horizonte. A lua, mais uma vez, pairava no céu já escurecido. As luzes de Natal da cidade iluminavam a pista de skate, onde Reki estava. O ar frio da noite se intensificava, fazendo todo o corpo do garoto se arrepiar.

Ele estava sentado sobre seu skate, com a cabeça encapuzada escondida entre as pernas que abraçava. As pontas de seus dedos doíam e sua respiração estava pesada, graças ao frio. Mas frio algum o incomodava mais do que a dor que sentia em seu coração.

Ele estava triste e bravo. Ele deveria ter ficado no parque e apoiado Langa, como sempre fazia. Mas não conseguiu. Não quando o estava vendo conquistar algo muito melhor do que ele jamais poderia oferecer.

Reki sempre soube que um dia Langa iria longe demais para conseguir alcançá-lo. Mas não imaginava que isso aconteceria tão cedo. Ainda mais agora, que estavam mais próximos do que nunca. Langa estava escorregando pelos seus dedos. E não havia nada que Reki pudesse fazer.

Sem Langa, sua vida seria tão fria quanto aquela noite de inverno e tão vazia quanto aquela pista de skate. O azulado sempre disse como se sentiu vazio praticando snowboard sem o pai. Agora, Reki entendia o sentimento.

Quando seu antigo amigo abandonou o skate, o ruivo continuou com o esporte, porque sua paixão era inabalável. Mas, agora que era Langa quem ele estava perdendo, nem mesmo a infinitude do skate conseguia ser o bastante para ele. Se não pudesse estar com o azulado, então talvez andar de skate não fizesse mais sentido.

O garoto olhou mais uma vez para seu skate, largado no chão. As palavras de Langa voltaram à sua mente, com um sentimento já nostálgico:

"Reki, I love snowboarding with you."

O japonês deixou escapar um sorriso agridoce e, em seguida, começou a chorar.

— Ora, ora! Parece que eu finalmente encontrei você!

Imediatamente, Reki ficou na defensiva, como um animal se protegendo de um predador selvagem. Ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo.

Adam estava parado a poucos metros dele. Em vez de seus trajes sociais ou de seu traje caracterizado que usava no S, ele estava usando roupas esportivas comuns. E debaixo do braço, estava segurando seu skate.

— O Langa não tá aqui. — Reki se apressou para falar — Pode ir embora.

— Ah, isso realmente é uma pena! Mas não é pelo Langa que eu vim.

Adam ficou ali parado, o encarando por alguns segundos. Sua presença deixava o garoto incomodado.

— O que você quer?

O toureiro foi direto.

— Eu quero que você ande de skate comigo.

— Mas eu não quero. Muito menos com você.

— Qual é o problema? — o tom do mais velho se tornou mais incisivo — Tem medo de não ser bom o suficiente?

Reki se levantou, irritado.

— Escuta aqui, seu babaca! Eu não preciso provar nada pra ninguém!

— A única pessoa aqui que duvida da sua capacidade é você mesmo.

A resposta o pegou de surpresa. Reki abriu a boca, num instinto de retrucar o mais velho, mas logo em seguida a fechou. Ele não sabia o que dizer.

— Vamos logo — Adam o apressou. — Eu quero andar de skate com você.

Andar de skate com Adam era algo que o ruivo jurou que nunca mais faria. Mas, por alguma razão, ele decidiu aceitar.


***


Langa nunca imaginou que andaria de skate com Tadashi. Muito menos em uma situação tão simples.

Desde sua primeira aparição no S, como o misterioso Snake, ele se tornou um ícone na comunidade. Ao que parecia, ele era a única pessoa, além do próprio Snow, que era capaz de se equiparar ao nível do Adam. Inicialmente, ele e o azulado deveriam ter competido um contra o outro na semifinal do torneio, mas o veterano desistiu. Por isso, o canadense sempre teve curiosidade de saber como teria sido uma competição entre os dois.

Mas, agora, eles não estavam competindo. Tadashi era verdadeiramente neutro e Langa, por sua vez, não guardava nenhum ressentimento por causa de tudo o que havia acontecido. Então, não havia qualquer tipo de rivalidade ou atrito entre eles. Eram apenas dois skatistas se divertindo juntos. Do jeito que deveria ser.

A rua estava completamente vazia. O único som que chegava aos ouvidos de Langa era o som do atrito das rodas dos skates contra o asfalto. O vento gelado soprava contra o corpo do garoto, bagunçando seu cabelo. Bem acima deles, a lua e as estrelas brilhavam. Mais perto do chão, as luzes de Natal iluminavam a cidade, piscando entre uma cor e outra.

Andar de skate desse jeito era simplesmente a melhor coisa do mundo. Isso tudo fazia Langa sentir não apenas que estava livre, mas também que estava exatamente onde deveria. Até mesmo a ansiedade angustiante que ele estava sentindo parecia estar diminuindo.

Apesar de estarem apenas relaxando, o azulado não pôde deixar de notar o quanto o outro skatista era realmente bom. A rua vazia dava a ele total liberdade para se movimentar como bem quisesse. Ele executava as manobras com perfeição. Sua agilidade e flexibilidade eram impecáveis. E seu estilo dançante, que ele ensinou ao Adam, era impressionante.

Era uma cena que Reki adoraria ver.

E, mais uma vez, os pensamentos do azulado voltaram para o mesmo problema.

O garoto tentava pensar em algo, mas não havia o que pensar. Ele não fazia ideia do que exatamente tinha deixado Reki tão chateado. E não tinha nada que pudesse fazer a não ser esperar que seus amigos dessem alguma notícia. Ele estava totalmente impotente.

Isso o estava deixando exausto. E, a cada vez que sua mente o trazia de volta para o mesmo assunto, ele ficava ainda mais aflito.

Quando se deu conta, o canadense não estava mais remando. Ele estava apenas parado em seu skate.

Langa expirou pesadamente, enquanto vapor saía da sua boca graças ao frio. A única coisa que ele queria era poder se resolver logo com Reki.

Assim que percebeu que Langa havia parado, Tadashi também parou seu skate. Ele observou o garoto por algum tempo. Então, decidiu se aproximar.

— Se não for muita intromissão, gostaria de te perguntar algo.

Langa voltou sua atenção para ele.

— Pode perguntar.

— Por que você está sozinho? Você passa praticamente todo o tempo ao lado de seus amigos, principalmente quando está andando de skate. E posso ver pela sua expressão que tem algo te incomodando.

O azulado forçou um sorriso simpático. Estava tão óbvio assim?

— Eu e o Reki nos desentendemos de novo. Desde manhã, ele parecia incomodado com alguma coisa, mas eu não prestei tanta atenção. Depois, ele simplesmente sumiu. Agora ele não atende as minhas ligações e nem responde as minhas mensagens. E eu não faço a menor ideia do que deixou ele tão chateado. Eu não sei o que fazer.

Tadashi não respondeu de imediato. O canadense podia ver em seu olhar que ele realmente estava analisando a situação, atenciosamente.

— É exatamente esse o problema — ele respondeu, como se fosse óbvio.

— Qual? — Langa perguntou, confuso.

— O seu amigo ruivo está incomodado com alguma coisa. Mas, aparentemente, essa mesma coisa não incomoda você. Assim, você acaba não se dando conta do problema. E isso só o faz se sentir pior.

— Mas, então, como eu vou saber o que é?

— Vocês já tiveram um desentendimento assim antes. O que aconteceu daquela vez?

Tadashi parecia estar falando as mesmas coisas que Nanako e Oka disseram mais cedo.

— Eu prometi que não ia competir contra o Adam e eu fui mesmo assim. Ele estava preocupado que eu fosse me machucar e também ficou chateado por eu ter quebrado a promessa. Mas o que isso tem a ver com o problema de agora?

O mais velho pegou seu skate do chão e o ficou girando uma das rodas com a mão.

— Eu acho que sei o que aconteceu com o seu amigo — o veterano continuou. — Você sabe o verdadeiro motivo de ele não ter se inscrito no torneio?

— Foi o que eu disse. Ele estava preocupado por causa do Adam.

— Mas, mesmo assim, depois ele aceitou competir contra o Adam quando foi convidado — Snake colocou seu skate de volta no chão. — Sim, ele deveria estar preocupado com o Adam. Mas não foi só isso o que o deixou mal. A verdade é que ele sentiu que estava sendo deixado para trás.

Langa não conseguia entender aonde ele queria chegar.

— Porque eu quebrei a promessa que eu fiz?

— Não. Porque você era o centro das atenções. E também era o único capaz de derrotar o Adam. Você é o melhor skatista que o S já viu. E todos estavam começando a perceber isso. O seu nível de habilidade é absurdo. O Reki é completamente apaixonado pelo skate. O que ele mais ama fazer no mundo é andar de skate. Mas, mesmo assim, ele nunca vai ser tão bom quanto você.

Snow nunca tinha pensado por esse lado.

— Então, quer dizer que ele ficou mal… — o azulado se sentiu culpado — porque ele achou que nunca seria bom o bastante?

— É exatamente isso. Você desafiou o maior skatista conhecido pela comunidade. Enquanto ele não conseguia sequer vencer alguém como o Shadow.

O canadense ainda estava confuso.

— Por isso que ele ficou chateado por eu ter desafiado o Tetora? Ele ficou mal por não ser tão bom no snowboard também?

— Não exatamente — de repente, a expressão de Tadashi ficou ainda mais séria. — A questão do snowboard é um pouco mais complexa.

Ele olhou para os lados, procurando alguma coisa. Então, apontou para um casal de idosos caminhando pela rua, a vários metros de distância.

— Se você perguntar para aquele casal o que eles acham sobre skate, o que você acha que eles vão responder?

A resposta parecia óbvia.

— Eles vão dizer que é um esporte.

— Errado.

Snake suspirou com pesar.

— Entenda. O skate é, sim, um esporte. Mas não é assim que as pessoas o veem. Aquele casal provavelmente responderia que o skate é algo usado por adolescentes delinquentes, que não têm futuro. Possivelmente, diriam que a maioria dos skatistas também vandaliza espaços públicos e está envolvida com crimes ou drogas. Infelizmente, essa é a visão que as pessoas têm do skate. O que para nós é um esporte e uma forma de diversão e socialização, é extremamente mal visto pela sociedade. Sim, oficialmente, o skate é reconhecido pelo mundo como um esporte olímpico. Mas nem mesmo Miya Chinen, ou qualquer outro skatista olímpico, jamais terá sequer uma pequena parcela do reconhecimento de um jogador de beisebol ou de basquete, por exemplo.

Ele hesitou para dizer as próximas palavras.

— Um skatista nunca vai ter o mesmo reconhecimento, atenção ou admiração que um praticante de snowboard. Quando você demonstrou as suas habilidades hoje, todos o elogiaram e o encorajaram a continuar. Você pode, de fato, construir uma carreira sólida no snowboard. Você pode receber todo o mérito pelo seu talento. Você pode ser reconhecido e respeitado como um verdadeiro atleta. Mas você nunca vai ter nada disso no skate.

Finalmente, Langa estava começando a entender. E a culpa o fez sentir uma agulhada no peito.

— Então o Reki ficou mal porque ele acha que eu vou abandonar ele e o skate por causa do snowboard?

Snake assentiu.

— Finalmente, você entendeu.

Agora, tudo fazia sentido. Todas as peças finalmente pareciam ter se encaixado.

A pontada em seu coração ficou mais forte. Reki estava chateado e era por sua causa.

Langa sempre quis poder dizer ao ruivo o que realmente sentia. O quanto ele era especial e o quanto se importava com ele. Queria dizer o quanto o amava. E, mesmo assim, não deu atenção suficiente para os sentimentos do japonês.

Ele não poderia mais esperar. Ele precisava encontrar Reki. Precisava ser honesto com os seus sentimentos. E este era o momento.

O azulado colocou a mão em seu peito. Seus batimentos ficaram mais acelerados, assim como sua respiração. Ele estava morrendo de medo. Assim como ficou quando estava vindo para o Canadá ou se preparando para praticar snowboard.

Mas, antes, precisava fazer uma última pergunta.

— Tadashi, eu também não quero parecer intrometido, mas… Como você sabe tanto como o Reki se sente?

Por uma fração de segundo, o mais velho quase riu.

— Porque eu já me senti do mesmo jeito que ele. Eu sei como é gostar muito de alguém e saber que nunca vai poder estar no mesmo nível que essa pessoa. Seja em questão de classe social ou de qualquer outra forma, eu sei como é sentir que está sendo deixado para trás.

— Eu sinto muito.

— Não se importe comigo. Agora, você precisa se resolver com o Reki.

— Eu nem sei onde ele está.

Pela primeira vez, Tadashi abriu um sorriso de verdade.

— Mas eu sei.


***


Reki estava apreensivo a respeito de Adam, mas não era como se ele tivesse energia suficiente para se importar demais com isso naquele momento.

O vermelho não sabia ao certo o que esperar do toureiro, mas ele estava apenas se divertindo. Ele não estava se levando a sério, nem tentando exibir suas habilidades. Isso era estranho mas, ao mesmo tempo, era algo legal de se ver.

Ambos estavam em silêncio. O mais velho executava algumas manobras bem simples. Enquanto isso, Reki apenas remava com o pé, se mantendo a alguns metros atrás dele.

— Vocês podem não acreditar no que eu digo. Mas o Langa me mudou. Eu estava totalmente perdido e ele conseguiu me trazer de volta. Ele me lembrou de algo extremamente importante que eu havia esquecido há muito tempo.

Adam olhou no fundo dos olhos de Reki. Parecia que o maior estava olhando diretamente para a parte mais interna e profunda da sua alma.

— Ele me lembrou que o skate é para ser divertido. Exatamente como você o ensinou.

A última coisa que o ruivo esperava naquele momento era ouvir isso, ainda mais de alguém como o Adam.

Frequentemente, Adam voltava seu olhar para trás e observava o garoto, como se tentasse decifrá-lo.

— Nem parece que você está mesmo andando de skate. Faça um pequeno esforço. Tente sentir o skate.

O ruivo não estava nem um pouco interessado em nada que o toureiro tinha a dizer, mas fez o que ele sugeriu. Fechou os olhos e se concentrou no ambiente ao seu redor.

Ele sentia o movimento do skate. O vento frio da noite batia contra o seu corpo e bagunçava seu cabelo. O silêncio da pista de skate era quebrado pelo som do atrito entre as rodas e o asfalto. Fisicamente, ele sentia tudo, como sempre.

Por outro lado, o seu coração não sentia nada. Ele estava vazio. Era a primeira vez na sua vida que estar em cima de um skate parecia indiferente.

Reki expirou pesadamente. Então, ele abriu novamente os olhos. E o susto quase fez seu coração sair do seu peito.

Adam estava empinando seu skate, se aproximando de Reki numa velocidade absurda. A expressão em seu rosto transparecia sua loucura.

Ele estava fazendo o Abraço do Amor. E estava prestes a colidir com o garoto.

— Ai, cacete!

O vermelho gritou com o susto e, por instinto, pulou de seu skate. Ele tentou amortecer o impacto com suas mãos, mas fracassou. Ele sentiu sua pele raspando dolorosamente contra o asfalto.

Quando se deu conta, estava caído no chão. Seu coração estava acelerado. E suas mãos estavam sangrando.

O mais velho parou há pouquíssimos centímetros dele.

— Você ficou maluco, é?! — o ruivo gritou, ofegante, ainda no chão — Achei que a gente só tava de boa! Pra que isso, porra?!

Adam gesticulou como se estivesse tentando alcançar alguma coisa no ar.

— Você sabe qual é o segredo do Abraço do Amor?

O mais jovem revirou os olhos.

— É sério?! — Reki ergueu seu corpo, ficando sentado — Óbvio que eu sei. É uma ilusão de ótica. Você fica em linha reta e tal. Aí parece que você tá se aproximando.

— Você está correto. Mas essa não é a parte mais importante. O que realmente torna essa técnica infalível é o efeito psicológico que ela tem. Ela faz com que seu oponente se assuste e recue, como você acabou de fazer. E, na vida, isso vai muito além do skate. É exatamente a mesma coisa que está acontecendo com você em relação ao Langa.

— O quê?

Adam suspirou.

— Vamos pular as preliminares. Você está apaixonado pelo Langa. Mas está deixando o medo de ser rejeitado ou abandonado o impedir de lidar com isso da maneira correta. Enquanto você continuar fugindo, nunca vai conseguir superar isso.

Reki piscou duas vezes, verificando se aquilo não era algum tipo de sonho bizarro. Não podia ser verdade. Ele realmente estava recebendo um conselho de Adam.

O garoto abaixou a cabeça novamente.

— Pode parar com essa baboseira. Você não entende nada.

— Acredite, eu entendo sim. Eu sei tão bem quanto você como o skate é mal-visto. Durante toda a minha juventude, fui coagido a abandonar esse esporte, simplesmente porque não condizia com a minha classe social ou com o que a minha família esperava de mim. Acha que a minha vida também não teria sido muito mais fácil se eu tivesse crescido com o snowboard? Mas nem isso me fez parar. Pelo contrário, foi justamente isso que me fez criar o S, para que eu pudesse ser livre para fazer aquilo que amava.

— Isso não quer dizer nada! O Langa tem tudo fazendo snowboard aqui no Canadá. E eu não tenho nada pra oferecer. Eu sou só um idiota que não consegue fazer nada direito. Ele pode até encontrar alguém muito melhor aqui.

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

— E mesmo que não fosse por todo esse lance do snowboard, eu não posso me confessar pro Langa. Se ele não me quiser do mesmo jeito que eu o quero, isso vai acabar com a nossa amizade de uma vez por todas. Eu só não quero perdê-lo.

— Reki — era a primeira vez que Adam o chamava pelo seu nome —, se você não se abrir, vai ter que carregar esse peso pelo resto da sua vida. Eu posso te garantir que a pior coisa do mundo é passar a vida toda escondendo quem você realmente é, e o que você realmente ama.

Neste ponto, o ruivo já não conseguia mais conter as lágrimas.

— Mas e se tudo der errado?! — ele tentava falar, apesar do choro — E se eu acabar fodendo com tudo?!

Adam estendeu sua mão.

— Se você cair, você faz o que todo skatista faz de melhor. Você se levanta e segue em frente.

Por mais difícil que fosse, o vermelho sabia que era verdade. Ele não podia fugir disso para sempre.

Ele respirou fundo e segurou a mão do Toureiro, que o ajudou a ficar de pé.

Então, pela milésima vez naquele dia, o coração do vermelho disparou, desesperadamente.

Na entrada do parque, Tadashi estava parado, olhando simpaticamente para os dois, enquanto segurava seu skate. E ao lado dele, havia um garoto. Seu rosto era como uma obra de arte. Sua pele era clara como a luz do luar que iluminava o local. Seu cabelo era azulado, assim como seus belos olhos cristalinos. E, em seus braços, ele carregava um skate que claramente tinha sido feito à mão, por outro jovem muito habilidoso.

O olhar de Langa encontrou o de Reki e o ruivo sentiu um frio na barriga.

Tadashi disse algo para o azulado, que assentiu, e então se afastou. Quando Reki se deu conta, Adam também havia desaparecido.

De repente, eram apenas os dois garotos ali.

Reki se aproximou, tímido.

— Oi, Langa.

Aqueles olhos cristalinos brilhavam, mais belos do que nunca, sob a luz do luar.

— Oi, Reki.

Os dois ficaram alguns longos segundos olhando um para o outro, sem saber o que dizer.

Então, ambos acabaram caindo na risada, constrangidos.

— Merda! Toda vez que isso acontece o meu cérebro dá tela azul! — o vermelho brincou.

Langa o admirava atentamente.

Ele olhou para os lados, observando o local. Então, voltou seu olhar para os olhos âmbar à sua frente.

Um sorriso convidativo surgiu em seu rosto.

— Você tá a fim de andar de skate comigo?

Reki sorriu de volta.

— Sempre, Langa. Sempre.

Notas finais
Obrigado por ler! Me conta nos comentários o que você achou!