Snowboarding With You
11 Capítulo Onze
Notas iniciais

Assim como em todas as outras vezes, o simples fato de estarem andando de skate juntos fazia com que todos os problemas dos garotos desaparecessem.
Os dois saíram da pista de skate e se aventuraram pelas ruas, sem um rumo específico.
A cidade estava mesmo no espírito festivo, já que faltavam apenas três dias para o Natal. Havia várias famílias passeando pelas ruas, mas a cidade continuava calma e aconchegante, com todas as luzes coloridas, árvores e decorações natalinas.
Reki e Langa estavam em silêncio. Mas não era um silêncio estranho ou constrangedor. Palavras não eram necessárias naquele momento. Ambos estavam apenas aproveitando a companhia um do outro, como sempre.
Então, Langa se virou para Reki, com um sorriso no rosto, e segurou sua mão, delicadamente.
— Eu quero te mostrar um lugar.
O ruivo ficou corado com o ato do azulado, mas segurou a mão dele de volta e o deixou guiá-lo.
Eles continuaram por mais alguns minutos, sem separar as mãos em nenhum momento. Reki percebeu que eles estavam se afastando do centro da cidade. Conforme os prédios ficavam para trás, a paisagem era tomada por mais montanhas cobertas de neve. Longe das luzes da cidade, as estrelas e a lua brilhavam mais intensamente no céu.
Finalmente, Reki pôde avistar fortes luzes coloridas vindo de algum lugar próximo.
— É aqui.
Quando se aproximaram mais, o japonês ficou maravilhado com um belo parque de diversões. Mesmo à distância, dava para ouvir crianças gritando na montanha russa. Uma enorme roda gigante tinha luzes neon que formavam corações e mensagens de “boas festas”.
Eles pararam os skates em frente à entrada do parque, mas sem soltarem as mãos.
— Esse lugar é lindo.
— Eu vinha aqui com os meus pais quando era criança. Mas dizem que é mais legal vir com os amigos… Ou com alguém especial.
O vermelho ficou corado novamente. Ele sentiu seu coração acelerar. Havia algo diferente naqueles olhos cristalinos, como se Langa estivesse sem filtros, apenas se permitindo ser ele mesmo. E, naquela noite, Reki pretendia fazer o mesmo.
O japonês segurou com mais força a mão do canadense, e os dois entraram no parque.
Os garotos se divertiram muito. Eles foram juntos em cada um dos brinquedos e também pediram todas as comidas e bebidas que o parque tinha a oferecer, graças à fome insaciável de Langa. Ao longo da noite, eles deram muitas risadas e muitos gritos, já que era a primeira vez de Reki em certos brinquedos radicais.
Por fim, os dois decidiram ir na roda gigante.
Quando a cabine começou a subir, Reki ficou maravilhado mais uma vez com a vista. Dava para ver o parque todo e também um pouco da cidade, ao fundo. Tudo parecia muito vivo mas, ao mesmo tempo, tudo estava calmo ali com Langa.
Mesmo já tendo decorado cada detalhe do azulado, o ruivo nunca se cansava de admirar a sua beleza.
Reki percebeu naqueles olhos cristalinos que Langa não estava esperando nenhuma resposta ou conversa. Ele realmente apenas queria aproveitar aquele momento. Mesmo assim, o japonês sabia que eles precisavam conversar.
— Me desculpa por ter sumido daquele jeito. Eu não queria deixar vocês preocupados comigo.
Langa acariciou delicadamente a mão do ruivo.
— Eu que tenho que te pedir desculpas. Você estava dando sinais, mas eu não percebi. Eu não imaginava que você estava se sentindo tão mal por causa do snowboard.
Reki não se sentia ansioso ou nervoso. Pela primeira vez, ele realmente se sentiu confortável e seguro para se abrir.
— Não é só por causa do snowboard. Eu já me sentia assim desde que você começou a ficar bom no skate. Você é um dos melhores que eu já vi em literalmente tudo. E eu sei que nunca vou conseguir estar no mesmo nível que você. Quando o Miya contou que ia entrar para a seleção e se mudar de Okinawa, eu fiquei com medo de você fazer o mesmo. E aí, quando eu percebi que você também poderia seguir uma vida com o snowboard, eu fiquei com mais medo ainda de você decidir ficar aqui no Canadá.
Langa ouvia atentamente cada palavra que era dita pelo ruivo.
— Você pode ter sua vida de volta aqui no Canadá e se tornar um profissional no snowboard, ainda melhor do que o Tetora — Reki continuou. — E, com certeza, você vai conseguir com o snowboard o respeito e o reconhecimento que nem o skate poderia te dar. E você merece isso. Você merece conquistar coisas grandes. E eu nunca pediria para você escolher ficar comigo em vez de construir o seu futuro. Eu só… Me sinto mal por saber que nunca vou conseguir acompanhar você nisso.
Reki voltou novamente sua atenção para o parque. Talvez aquela viagem fosse a última vez em que ele e Langa estariam juntos. É claro que doía. Mas, mesmo assim, ele apoiaria o azulado em qualquer decisão que ele tomasse. Afinal, ele o amava. E isso era tudo o que importava.
— Eu não sei o que vai ser do futuro — Langa se abriu. — Sempre colocam na gente essa pressão para decidir logo o que vamos fazer pelo resto da vida. Eu posso escolher entrar para a seleção japonesa de skate ou me tornar um snowboarder profissional aqui no Canadá. Mas isso não importa para mim agora.
O azulado colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Se tem uma coisa que eu aprendi nesse último ano, é que não dá para viver só pensando no futuro, nem no passado. Há um ano atrás, eu não imaginava que perderia o meu pai assim. Também não imaginava que iria me mudar para o outro lado do planeta, nem que iria descobrir um novo esporte tão incrível. A única coisa que eu sei é que eu quero viver o agora enquanto eu ainda posso. E não importa onde eu esteja, eu quero que você esteja comigo.
Em toda a sua vida, o coração de Langa nunca esteve tão acelerado.
— Você disse uma vez que era assustador não saber qual é a sua felicidade. Mas eu sei exatamente qual é a minha. É você, Reki! Você trouxe um novo significado para a minha vida quando eu estava perdido. Você foi a melhor coisa que já me aconteceu. Você é o meu infinito!
Ele sabia exatamente o que queria dizer a seguir. E, dessa vez, ele diria a coisa certa.
— Reki, I love… you.
Aquelas palavras ressoaram dentro de Reki, chegando até o seu coração. Nada mais importava. Não havia nada no universo mais importante para ele do que aquilo que tinha acabado de ouvir.
O ruivo teve medo de estar sonhando. Mas, se aquilo fosse um sonho, ele não queria acordar nunca mais.
Então, Reki segurou o rosto de Langa e o puxou para um beijo.
Lentamente, os lábios de Reki dançavam com os de Langa, que eram ainda mais macios do que o ruivo imaginava. Seu gosto, de alguma forma, era doce. Mas, surpreendentemente, o garoto da neve era quente.
Langa se afastou por um segundo, preocupado.
— Eu nunca beijei ninguém antes! — ele parecia envergonhado.
— Eu também não!
Os dois riram.
Langa observou aqueles olhos âmbares por mais alguns segundos, até que criou coragem para puxar Reki de volta para outro beijo.
Dessa vez, o beijo se intensificou rapidamente, conforme os dois garotos finalmente demonstravam a paixão que sentiam um pelo outro.
Reki passou os dedos pelo cabelo claro de Langa em sua nuca, o que fez o canadense se arrepiar. O azulado passou seus braços em volta do vermelho, colando seus corpos. Ele conseguia sentir a respiração acelerada do japonês, mesmo com todos os agasalhos entre suas peles. O calor dos dois juntos contrastava com o ar frio da noite, ali no alto daquela roda gigante.
Os dois separaram o beijo quando a roda gigante parou. Ambos riram, ofegantes.
O rosto angelical do azulado estava mais lindo do que nunca, com o sorriso mais genuíno que o ruivo já havia visto.
Reki o puxou para um abraço apertado, ainda com um sorriso bobo estampado em seu rosto.
— Eu também te amo, Langa!
***
Mais tarde, quando os garotos abriram a porta da suíte, se depararam com o grupo todo os esperando na sala.
Assim que viram Reki, todos se levantaram.
O ruivo ficou envergonhado.
— Oi, pessoal. Desculpa ter sumido desse jeito.
Ele imaginou que todos fariam um milhão de perguntas sobre ele ter fugido. Porém, antes que qualquer um pudesse dizer qualquer coisa, Miya foi correndo em sua direção e o abraçou.
— Seu slime imbecil!
Em seguida, Shadow também o agarrou com força.
— A gente ficou preocupado pra caralho! — ele gritava escandalosamente — Nunca mais faz isso com a gente, seu moleque!
Joe, Cherry e Oka se juntaram ao abraço coletivo. Nanako olhou para Langa, sorrindo, e o puxou para junto do abraço. O ruivo se sentiu extremamente grato por ser tão bem acolhido por aquela família.
Quando o abraço finalmente se desfez, a primeira reação de Reki foi segurar a mão de Langa novamente.
Todos perceberam tal interação e se entreolharam. Ambos os garotos ficaram corados, mas não sentiram vergonha, de forma alguma.
Joe se aproximou e bagunçou o cabelo dos dois.
— Que bom que vocês finalmente conseguiram se resolver!
Eles riram.
Cherry ajeitou os óculos.
— No fim das contas, acho que desentendimentos e resoluções fazem parte do espírito natalino. Não é mesmo, Adam?
Reki e Langa se entreolharam, confusos.
— Adam?
O toureiro surgiu, vestindo pijamas de flanela e segurando uma fatia de pizza.
— Realmente, meu caro amigo!
Tadashi apareceu logo depois, segurando a caixa da pizza. Ele apenas olhou para Langa e piscou.
— O que foi que aconteceu aqui? — Reki perguntou, surpreso.
— Depois de ajudar os dois pombinhos a se resolverem, eu decidi tentar mais uma vez fazer as pazes com meus antigos amigos.
— Nós brigamos um pouco — Joe riu. — Mas depois que eles contaram sobre como ajudaram vocês, nós achamos que valia a pena tentar dar uma segunda chance. Ou terceira, não sei.
— É claro que ainda estamos alertas — Cherry dirigiu um olhar sério para o toureiro, que apenas riu.
Langa encostou a cabeça no ombro de Reki.
— Parece que finalmente está tudo resolvido mesmo, não é?
Miya pegou Sketchy no colo.
— Eu odeio ser estraga-prazeres, mas na verdade ainda tem uma coisa pra resolver. O Snow tem uma disputa contra o Snowboarder de Silver Hill amanhã.
Langa olhou para Reki, com olhos preocupados.
— Isso não é importante. Eu não preciso aparecer se isso for te deixar mal, Reki.
— Tá brincando?! — o ruivo o encarou nos olhos — O Tetora é um arrogante que se acha o melhor do mundo. A única pessoa que pode provar que ele tá errado é você, cara. Você precisa fazer isso!
Langa olhou ao seu redor. Cada um ali estava ao seu lado e o apoiaria.
— Não vai ser nada demais — Adam pegou outra fatia de pizza. — Não seria a primeira vez que o Snow derrotaria um rei do esporte.
— O maluco tem razão — Miya roubou a fatia de pizza da mão de Adam e mordeu. — Não deve ser mais difícil do que desafiar os limites do skate num penhasco mortal.
Reki segurou com mais força a mão do azulado.
— Eu prometo que dessa vez vou estar lá torcendo por você.
Langa assentiu, confiante.
— Então eu vou!
***
A montanha de turismo estava cheia de pessoas.
Assim que chegou, Langa foi recebido por uma multidão, que estava ali apenas para assistir à disputa. Afinal, era a primeira vez que o Snowboarder de Silver Hill desafiava alguém pessoalmente.
Langa e Reki caminharam juntos, de mãos dadas, enquanto os outros os seguiam. Quando chegaram no teleférico, pararam de andar.
Reki piscou para Langa.
— Eu vou estar aqui em baixo, esperando por você.
— Vai lá cara! — Joe tentava transmitir confiança — É o seu momento!
— Arrebenta com aquele troll! — Langa não entendeu bem o que Miya disse, mas captou a mensagem.
— Boa sorte, querido — Nanako o abraçou.
Shadow fez o símbolo do Rock 'n Roll com a mão. Oka mostrou o dedão positivo. Cherry, por sua vez, apenas assentiu com a cabeça. Atrás deles, Adam e Tadashi também torciam por ele.
O garoto olhou para cada um dos seus amigos, até que seus olhos pararam em Reki novamente.
O vermelho colocou a mão no bolso.
— Tem uma coisa que eu quero te dar antes.
Ele tirou do bolso a clássica bandana que ele sempre usava e a entregou para o canadense.
— Para dar sorte.
Langa sorriu. Ele pegou a bandana e a amarrou na cabeça.
Então, ele respirou fundo, reuniu toda a coragem que tinha e entrou no teleférico.
No topo da montanha, havia outra multidão ansiosa para ver a disputa. Assim que perceberam a chegada do azulado, as pessoas já começaram a filmar e tirar fotos.
Isso deixou Langa nervoso. Por mais que já tivesse participado de inúmeras competições de skate, tudo no S era underground, sem um público externo ou transmissão na mídia. Naquele momento, Langa era uma figura pública, assim como Tetora. As pessoas colocavam expectativas nele.
De repente, a atenção das pessoas se desviou de Langa e se voltou para uma segunda figura se aproximando.
— Gostou da sensação, Snow? — Tetora acenava para o público, como uma celebridade — É a primeira vez que você fica debaixo dos holofotes, não é?
O estadunidense parou ao lado do azulado e passou um braço pelos seus ombros, forçando um sorriso para uma foto entre os rivais.
— Essa é a vida de um atleta de verdade, Langa.
A essa altura, o canadense ainda não tinha o ouvido falar em japonês, o que fez suas palavras soarem ainda mais ameaçadoras.
— Quando se entra nessa vida, tudo o que você faz é vigiado. Cada acerto, cada erro. A diferença é que quando você acerta, não está fazendo mais do que a sua obrigação. Afinal, esse é o mínimo que as pessoas já esperam de você. Mas um pequeno erro pode destruir a sua carreira para sempre.
Ele virou de costas para a multidão, observando a paisagem montanhosa com um olhar distante.
— Não me leve a mal. Em outras circunstâncias, nós dois poderíamos nos dar bem. Mas você invadiu o meu território, no auge da minha fama aqui. Não existe diversão na vida de um profissional, tudo é questão de reputação. Por isso, eu preciso vencer. Não posso deixar um novato roubar o meu lugar.
Langa percebeu como os olhos cor de âmbar de Tetora transpareciam sua seriedade. Aqueles olhos, tão parecidos com os de Reki, eram aterrorizantemente intimidadores.
Isso o trouxe memórias de quando competiu contra Adam, no final do torneio do S. Assim, como o Toureiro, o Snowboarder de Silver Hill não estava para brincadeira. É claro que Tetora não era um sociopata assassino. Mas ele era alguém que se forçaria além dos próprios limites para conseguir sua vitória.
Langa olhou mais uma vez para a base da montanha, onde Reki e os outros aguardavam sua chegada. Todos ali estavam torcendo por ele. Mas, mesmo que ele não vencesse essa disputa, seus amigos ainda o receberiam com o mesmo carinho.
Não era a mesma com Tetora. Ninguém estaria ali por ele, caso fosse derrotado. Isso deixou Langa com pena.
— Eu reconheço esse olhar — Tetora já se antecipou. — Não pense nem por um segundo em se conter. Você é um dos snowboarders mais talentosos que eu já tive a chance de encontrar. Quero saber qual é o seu potencial máximo. E quero provar que consigo ser melhor.
Langa estendeu a mão para Tetora.
— Que vença o melhor snowboarder, então.
O estadunidense apertou sua mão, e a torcida vibrou.
Os dois snowboarders se posicionaram lado a lado. Em sincronia, colocaram os óculos de proteção e fixaram seus pés às pranchas.
Então, a largada foi dada e os dois saíram em disparada.
Em poucos segundos, ambos já tinham atingido uma velocidade absurda. Os dois estavam lado a lado, em sincronia.
Tetora rangeu os dentes. Ele mudou sua postura sobre a prancha, ganhando ainda mais velocidade.
O azulado também mudou sua postura e realizou alguns movimentos, alcançando seu adversário novamente.
O Snowboarder de Silver Hill começou a realizar manobras mais complexas, que deixaram Snow de queixo caído. Mas Langa não iria se dar por vencido. Apesar da dificuldade, ele conseguiu replicar as exatas mesmas manobras, deixando Tetora furioso.
Os dois snowboarders se mantinham lado a lado, oscilando entre o primeiro e o segundo lugar apenas em questão de milímetros.
O azulado viu uma elevação em forma de rampa. Se era para demonstrar suas habilidades, ele daria o seu melhor. Ele acelerou e saltou. Com o salto, Snow ultrapassou Silver Hill.
A distância entre eles não era maior do que um metro, mas Langa não deixava abertura para que o estadunidense o ultrapassasse.
Tetora rangeu os dentes.
Ele precisava vencer aquela disputa.
Por uma fração de segundo, ele conseguiu observar o rosto do azulado à sua frente. Ele estava sorrindo.
Langa realmente estava se divertindo. E isso trouxe à tona algumas lembranças de Tetora.
Ele se lembrou de quando praticou snowboard pela primeira vez. Ele era apenas uma criança, filho de imigrantes japoneses, descobrindo as montanhas de Silver Hill, sua cidade natal nos Estados Unidos.
O dia em que subiu numa prancha pela primeira vez, foi com certeza o dia mais feliz da sua vida. Ele realmente se divertiu. Naquele dia, o pequeno garotinho decidiu que iria dedicar a sua vida àquele esporte. E assim ele fez.
Não demorou muito para que ele ficasse absurdamente bom no que fazia. Logo, os holofotes estavam sobre ele. Vários patrocínios e oportunidades de carreira começam a surgir para o garoto prodígio do snowboard.
Mas para manter tudo isso, ele precisava ser o melhor de todos. E aquela diversão inocente acabou ficando para trás, junto com a sua infância.
Sua vida se tornou o snowboard. Sem amigos, sem família, sem distrações. Ninguém realmente se importava com o Tetora Nagumo, apenas com o Snowboarder de Silver Hill.
Tudo o que era esperado dele era que ele fosse o melhor no que fazia. Cada vez que cometia um erro, decepcionava a todos. E isso custava caro.
Ao longo da sua carreira, ele teve a chance de competir contra outros jovens aspirantes a profissionais, que também tiveram assistência técnica e treinamento de alto nível. Mas nenhum deles nunca foi problema para ele.
Até que Langa surgiu. Suas habilidades eram mais impressionantes do que de qualquer snowboarder profissional que o estadunidense já tinha visto.
Mas ele era um completo desconhecido, que não parecia levar nada a sério. Se Tetora perdesse para alguém como Langa, tudo o que ele tinha conquistado nos últimos anos seria jogado fora. Ninguém nunca mais o conseguiria levar a sério.
Então, acima de qualquer coisa, ele precisava vencer essa disputa.
Ele precisava vencer.
Precisava vencer.
Vencer.
Ele inclinou seu corpo, tentando acelerar ainda mais. Sua concentração estava em um nível jamais atingido antes.
Tetora conseguia ouvir as batidas do seu coração ecoando em sua mente, abafando qualquer som externo.
Sua visão começou a ficar distorcida. Aos poucos, tudo à sua volta começou a ficar desfocado. Até que a única coisa que ele conseguia enxergar era o rival à sua frente.
Em um instante, o próprio mundo pareceu ficar vazio. Não havia mais qualquer sentimento, ou razão. Não existia mais nada naquele momento a não ser ele e Langa, em suas pranchas de snowboard. E vencer aquela disputa era a única coisa em sua mente.
Tetora Nagumo, o Snowboarder de Silver Hill, não sabia, mas, naquele momento, havia atingido um estado de concentração suprema, conhecida por alguns atletas como Zona.
De modo automático, ele encontrou uma elevação e saltou, vários metros acima de Langa, tomando novamente a primeira posição.
Langa não teve tempo para reagir.
A distância entre o Snowboarder de Silver Hill e o Snow começou a aumentar exponencialmente.
O azulado usou toda a sua força para tentar alcançá-lo. Mas nem mesmo ele tinha habilidade suficiente para alcançar a velocidade que Tetora havia atingido.
O estadunidense continuava acelerando ainda mais, como um foguete em direção ao céu. Ele desviava por muito pouco das árvores, passando a centímetros de distância.
Aquilo era perigoso.
— Tetora! — Langa gritou ao máximo da sua voz — Você vai bater!
Com o grito, Tetora foi tirado de seu transe. Mas, antes que tivesse tempo de reagir, ele bateu em uma árvore.
O impacto emitiu um som alto de ossos se quebrando.
Langa desacelerou e conseguiu parar a poucos metros dele. Tetora estava caído no chão, gritando de dor. O canadense se aproximou para ajudá-lo, mas ele tentou o afastar.
— Não encosta em mim!
Algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto. Langa percebeu que o braço direito do atleta estava visivelmente quebrado.
— O seu braço! Precisamos te levar para o hospital.
— Não! Eu não preciso da sua ajuda! Vai embora daqui!
Tetora estava ofegante. Seus dentes rangiam.
— Você venceu, Snow. Eu perdi.
Langa percebeu que aquelas palavras pareciam ter doído mais do que o próprio acidente.
— Isso não importa! — Langa se agachou ao lado dele — Você está machucado!
— É claro que importa! Isso foi patético! Como eu não consegui desviar da merda de uma árvore?!
Ele encostou a cabeça na neve e começou a chorar.
Langa olhou para trás quando ouviu vozes familiares.
— Langa! — Reki pulou para abraçá-lo — Você tá bem? Se machucou?
Sua mãe e seus outros amigos chegaram logo atrás do ruivo. E, atrás deles, a multidão de espectadores curiosos também.
— Eu estou bem. O Tetora…
O azulado se virou de volta para o estadunidense, que estava se levantando sozinho da neve, segurando sua prancha com o braço esquerdo.
Langa e Reki correram na direção dele, bloqueando o seu caminho.
— Saíam da minha frente! — ele gemeu de dor — Isso já foi humilhante o bastante! Eu não preciso de vocês me lembrando disso!
Ele tentou dar mais um passo e tropeçou. Sua prancha caiu na neve.
— Para com isso, cara! — Reki parecia bravo — Você não tá vendo que a única pessoa te humilhando aqui é você mesmo?!
Tetora olhou em volta. Toda a multidão o encarava, curiosa. Os amigos dos garotos se aproximavam, o olhando com preocupação.
Reki pegou a prancha que estava no chão.
— Para de ficar se isolando de todo mundo! — ele continuou — Você não precisa fazer tudo sozinho o tempo todo! Não importa se todos esperam que você seja o melhor em tudo! O mundo não tá contra você!
— Por favor, Tetora — o tom de Langa era suave. — Deixa a gente ajudar você.
Tetora estava hesitante. Ele oscilava seu olhar entre Reki e Langa, envergonhado.
Por fim, ele suspirou com pesar e assentiu.
Reki e Langa se colocaram um de cada lado de Tetora, que apoiou seus braços nos ombros dos dois. Então, os garotos começaram a descer a montanha, o carregando.
Tetora mantinha a cabeça baixa, envergonhado, enquanto a multidão observava os três passando.
Então, Miya parou na frente deles.
— Aí, Tetora. Você mandou bem pra caralho!
O estadunidense não soube como reagir.
Joe também se aproximou.
— Você mandou bem mesmo, cara.
Em seguida, Cherry, Shadow, Oka e Nanako também se aproximaram e, um por um, o parabenizaram.
Reki observou o rapaz. Seus olhos estavam marejados. Ele ainda estava envergonhado, mas parecia um pouco menos melancólico.
De repente, enquanto passavam, toda a multidão começou a ovacionar o snowboarder, com gritos, aplausos e assobios.
Tetora não conseguiu se conter e caiu em lágrimas novamente.
Mas, dessa vez, ele abriu um sorriso.
Reki olhou para Langa, orgulhoso. Ambos sorriram um para o outro. De alguma forma, todos venceram.
Fale com o autor