Smother

4 Don't care if it makes me ill


Comecei a reparar mais na Emma. Reparar em suas manias e tudo mais. Ela tem um ar catastrófico, misterioso, sensual e infeliz. Sorri de lado, e como eu já tinha reparado, tem um sorriso triste. Parece gostar de ficar sozinha e tem uma obsessão pela morte que no começo eu estranhei. Também acho que ela seja do tipo de pessoa que não gosta muito de expor o que sente, por isso se fecha em seu mundo, calada.
O sábado chegou, e já tínhamos muita matéria pra estudar. Acordei cedo pra rever um pouco do conteúdo, e me assustei com a janela abrindo de repente.
“Caraca, você é super nerd”, ela exclamou, colocando a cabeça pra dentro do meu quarto. Eu ri suavemente e fiquei olhando pra ela, que agora enfiava as pernas pela janela. “E estudar no quarto é a pior coisa. Vai, pega esses livros e um lençol velho.”
“Pra quê, exatamente?”, pergunto, mas empilho os livros e cadernos.
“Pro lugar que eu gosto de estudar. Ou ler. Ou pintar. Ou descansar a mente”, completou, estralando os dedos e colocando um cigarro apagado na boca.
Peguei o que ela pediu e desci pela janela, dessa vez um pouquinho mais habilidoso. Emma jogou os livros, um por um, e depois desceu também.
“Vem”, chamou. Segui-a até os fundos da sua casa, onde havia várias flores coloridas e parecendo extremamente vivas e “alegres”.
Ela pegou o lençol e estendeu na terra, sentando. Acompanhei-a, e coloquei os livros ali. Fiz Emma estudar comigo por algumas horas, argumentando que não era igual aos seus outros amigos que a influenciavam a fazer o contrário. Enquanto isso, ela fumava. Vários, um atrás do outro. Até que acabaram.
“Droga”, ela murmurou. “Espera aí, Charlie. Vou buscar mais.” Não falei nada, apenas a deixei ir. Voltou com outra caixa de cigarros, e um na boca.
“Dizem que cada cigarro diminui um dia da sua vida”, comentei. Não acreditava de verdade nisso, mas falei.
“Interessante”, ela replicou, colocando mais três cigarros na boca. “Todos morrem no final, fumantes ou não. Não faz muita diferença.” Dei um longo suspiro, e ela baixou os olhos. Guardou os cigarros e sentou. “Desculpe, Charlie”, murmurou baixinho.
“Pelo quê?”, perguntei.
“Pela grosseria. Desculpe.” Ela arrancou tufos de grama e mordeu o lábio inferior, pensativa.
“Tudo bem”, respondi. Eu estava tentando entender ela. Tentando. Emma tinha tantos mistérios que por fim tornou-se um.
Ela ficou em silêncio pelos próximos 40 minutos que se passaram. Não quis interromper seus pensamentos, porque era o que ela provavelmente estava fazendo: pensando. Sempre que ela ficava em silêncio, eu respeitava isso, até porque eu odiava ser interrompido quando estava pensando.
Decidi voltar pra casa, e ela também. Nos despedimos rapidamente com um murmúrio.
“Não ache que fiquei bravo, ok? Realmente não fiquei.” Ela assentiu e franziu a testa suavemente. Deu um suspiro e foi pra casa.

Não a vi no resto do dia e nem no domingo. Acho que ela sequer saiu de casa, só não sei por quê. Até pensei em ir perguntar se tinha algo errado, mas achei melhor não incomodar. Comecei a me preocupar quando, ao sair de casa na segunda, não a vi. Passei o dia um pouco nervoso pensando nisso, por alguma razão. Na saída, Rachel colocou a mão em meu ombro e chamou meu nome.
“Hey, Charlie!” Virei para ela. Rachel ajeitou a mochila nas costas e limpou a garganta. “Ah... Você pode dizer pra Emma que eu sinto muito? Não queria ter me afastado dela, mas as coisas mudam, e as pessoas também... Diga também que ainda acho ela legal. Podemos ser... colegas?”, perguntou ela.
“Ahn... Claro”, respondi. Ela realmente parecia sentir muito de não ser mais amiga de Emma. “Vou falar pra ela.”
“Obrigada! Você também é legal. Até amanhã.”
“Até”, respondi, e segui meu caminho.

Subi a janela da cozinha e abri rapidamente a minha janela, jogando minha mochila por ela e caindo sentado nas folhas em seguida. Murmurei um “ai” e limpei a terra da minha calça.
Dei meia volta e fui em direção a casa de Emma. Estava silencioso, com todas as janelas fechadas.
Hesitei um pouco, mas segui em frente e dei algumas batidas na porta. Ouvi um barulho de passos na escada e respirei fundo.
“Quem é?”, Emma perguntou.
“Charlie”, respondi. Olhei pro chão enquanto esperava ela abrir a porta.
“Ah... Ah! Espera.” Ouvi mais passos na escada. Franzi a testa e continuei esperando. Uns dois minutos depois, ela voltou e abriu a porta. “Hm, oi”, ela disse. Emma estava de tênis pretos, aquele mesmo moletom de quando eu e minha mãe viemos em sua casa e, como sempre, fumando.
“Porque você sumiu?”, perguntei.
“Foram só... dois dias e meio. Costumo fazer isso. Pra... tomar um ar.” Ela hesitou em cada palavra.
“Você está mentindo...”, repliquei. Ela trocou o peso de uma perna pra outra e cruzou os braços.
“Não, não estou”, ela respondeu, e me encarou de olhos cerrados. “Eu preciso descansar do mundo constantemente. Fico cansada de... de existir.”
“Acho que uma hora todos ficam. Mas pelo menos me avise quando for sumir, eu fiquei... Meio preocupado.”
“Meio.” E deu aquele sorriso de lado, suave. “Bem, tento avisar quando minha mente der a louca e fazer eu me isolar no meu quarto e fumar o máximo que eu conseguir.”
“Você tem mesmo que parar de fumar. Sabe o quanto isso te faz mal?”, respondi.
“Não me importo se me faz mal.” Ela deu um suspiro longo e profundo, e me encarou rapidamente. “Desculpe, tô falando merda de novo.”
“Não tem problema, pode falar quando quiser.”
“Não continue sendo panaca. Não vou encher seu saco, Charlie.” Ela ergueu as sobrancelhas e suspirou de novo, tirando o cabelo da frente do rosto e o cigarro da boca.
“Tem muito não nessa conversa. Diga um pouco mais de sim.”
“Sim pra que? Sim é positivo. Positividade e Emma não combinam.” Ela soprou a fumaça pro lado e franziu a testa.
“Deveriam.”
“Tchau, Charlie. Obrigada mesmo por se preocupar”, ela agradeceu, cortando o assunto. “Bom saber que você se importa.” E fechou a porta antes que eu pudesse responder.
Ela não pareceu mentir quando agradeceu por eu me preocupar ou quando disse que era bom eu me importar, mas assim que o assunto estava entrando em seus sentimentos, ela o afastou. Eu queria entender ela, mas para isso precisaria saber mais sobre Emma. E ela não facilitava isso. Era tão fechada e misteriosa que eu ficava meio perdido e sem saber o que fazer ou dizer. Mas eu não ia desistir.