Smother
5 I choose you
Terça também não a vi. Eu queria tentar entender o porquê disso, mas ela era fechada demais. Eu teria que recuperar sua confiança e deixá-la falar tudo que sentia, pra quem sabe assim conseguir ajudar em algo. Seria ótimo se ela colaborasse.
O dia passou lentamente, como se alguém usasse um controle pra que o tempo em que deveria ter se passado cinco minutos, só se passasse um. Quando finalmente cheguei em casa, fiz a mesma coisa do dia anterior. Deixei a mochila em casa e fui ver Emma.
Dei algumas batidas na porta e esperei. Esperei. Esperei. Mais batidas. Esperei. Esperei. Esperei. Chamei por ela. Esperei.
Coloquei a mão no trinco. A porta estava entreaberta, então a empurrei e entrei sem fazer muito barulho.
“Emma?”, chamei. Mas não houve resposta.
Senti o cheiro de cigarro logo da porta. Subi as escadas e parei na frente do quarto dela.
“Emma...?”, repeti.
Empurrei a porta, devagar, e a chamei de novo. Ouvi apenas um choro baixo, que me fez entrar logo no quarto.
Emma estava sentada no chão, com as mangas do moletom puxadas ao máximo, cobrindo suas mãos, que por sua vez cobriam o rosto. Ela chorava, tentando sem sucesso conter as lágrimas.
“Emma? O que aconteceu?”, me abaixei até ela e abracei seus ombros. Ela encostou a cabeça no espaço entre meu ombro e meu pescoço, ainda cobrindo o rosto, como se tivesse vergonha de estar chorando. Ela passou um tempo assim, e deixei-a chorar, sem falar nada, até que ela suspirou fundo e levantou a cabeça, descobrindo o rosto e limpando as lágrimas.
“Desculpe”, ela falou baixo e com a voz rouca.
“Não peça desculpas, você não fez nada de errado. O que aconteceu?”, perguntei, agora que ela estava se acalmando aos poucos.
Ela colocou a mão embaixo da cama e pegou um porta-retratos. Fungou e o entregou pra mim.
Era uma foto dela com seu pai, sentados na beira daquele lugar em que ela tinha me levado. Ela deveria ter uns 8 anos naquela foto, e parecia muito feliz, abraçando o pai com um sorriso enorme no rosto. Totalmente o oposto da garota que estava do meu lado.
“Eu sinto tanto a falta dele”, ela murmurou, quase voltando a chorar. “Sinto que estou decepcionando ele. Ele acreditava em mim.”
“Porque decepcionando?” Queria que ela falasse, que desabafasse. Guardar o que ela sentia só ia fazê-la se sentir pior.
“Fui uma péssima filha durante esses cinco anos. Eu não teria feito nada disso se ele estivesse vivo, mas se ele estivesse, nunca ficaria orgulhoso de mim. Tudo que eu queria era orgulhar ele.” Ela fungou novamente e colocou a mão em cima da caixa de cigarros do seu lado, mas eu tirei ela dali antes que ela pegasse um.
“Desculpe”, repetiu.
Não respondi, apenas limpei uma lágrima solitária que descia pelo seu rosto. Ela deu seu clássico sorriso triste e encostou novamente a cabeça em meu ombro.
“Ele tinha me pedido pra que eu nunca fumasse, e olha o que eu tô fazendo.”
“Tente parar. Sei que você consegue.” Ela estremeceu e deu um longo suspiro cansado.
“Já tentei. Não dá. Por isso sei que, onde quer que ele esteja, está decepcionado. Não esperava que sua princesinha fosse se tornar isso.” Havia um tom de repugnância em sua voz, o que me fez pensar ‘porque?’.
“Eu aposto que ele não está decepcionado. Você pode ter mudado, feito coisas que ele disse pra você não fazer, mas continua sendo a filha dele, que ele amou e ainda ama. Você tem a capacidade de parar de fumar, você é inteligente e pode ficar sem matar aula. Pode escolher amigos melhores que não vão te influenciar a coisas ruins. Você pode mudar tudo.” Eu não fazia ideia de onde tinha tirado tantas palavras confortantes, apenas falei o que me veio a cabeça.
“Eu escolho você”, ela sussurrou e fungou baixinho. Ficamos no silêncio, como sempre fazíamos.
Ela tirou a cabeça do meu ombro e ficou passando os dedos nas mangas do seu moletom. Levantei e estendi a mão pra ela.
“Aonde você pretende ir?”, ela perguntou. Dei de ombros e ela estendeu a mão também. A ajudei a levantar e saímos do quarto.
Andamos muito, nos distanciando ao máximo de tudo e todos. Ela não fez perguntas, apenas seguiu ao meu lado, com as mãos nos bolsos.
A levei para o lugar que eu costumava ir quando queria ficar sozinho, realmente sozinho. Era no meio do nada, atrás de uma plantação que ninguém entrava. Um campo aberto cheio de flores, árvores e com apenas uma casinha solitária no meio da vegetação.
“Ninguém mora aqui”, comentei. “Eu descobri esse lugar há dois anos. Esse é o meu lugar especial e meio que secreto.”
“É tão lindo”, ela disse, observando a paisagem ao fundo, cheia de colinas e nuvens cor-de-rosa e laranja, um misto de cores vivas com o pôr do sol.
Emma sentou no meio da grama e passou os dedos pelas pétalas das flores próximas. Sentei do seu lado e fiquei encarando ela. Agora parecia mais calma, apesar de ainda ter algumas marcas das lágrimas no rosto.
“Eu estaria fumando agora se tivesse trazido os cigarros. Quando estou nervosa, chateada, magoada ou com qualquer sentimento ruim, eu fumo. Resolve por um tempinho, aí tenho que fumar mais. Não é realmente tão útil. No fim faz mal”, ela disse, e depois deitou na grama. Seus olhos estavam com o azul realçado, talvez por ter chorado. Mas o azul estava tão vivo quanto o do céu.
“Você acha que resolve.No fim só faz mal mesmo”, repliquei.
“É, eu acho. Isso não é que nem a bagunça de um quarto, que pode ser arrumado. Mas tudo na minha vida é do avesso, e não dá pra desfazer... Não dá pra consertar tudo, e se eu tento arrumar um lado, outro se bagunça, tipo um cubo mágico.”
“Gosto das suas metáforas”, falei. Ela não expressava muito o que sentia, mas quando fazia isso, tinha um jeito interessante de descrever. “Mas prossiga.”
Emma deu um sorrisinho mínimo.
“Sempre tive essa sensação de que um pedaço está faltando em mim, de que eu preciso de algo para trazer sentido a minha vida. O problema é que a cada tentativa errada de preencher esse pedaço que tanto incomoda, faz com que ele aumente cada vez mais e mais. Mas continuo tentando, não quero ser um corpo vazio e frio, com um murcho coração batendo fracamente e morrendo um pouco mais a cada instante.” Ela suspirou profundamente e fechou os olhos. “Obrigada, Charlie.”
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