Smoke and Mirrors

1 A New Girl Gets In Town


Notas iniciais
Ás vezes deixarei aqui algumas letras de música que combinem com o capítulo ♥ Espero que gostem

~ P.O.V. Harley Hendrix ~

Terminava de tirar meus últimos pertences das caixas de papelão, que no final se acumulavam na pequena sala de estar. Agora só precisava colocar tudo no lugar. Mas estou tão exausta que apenas me jogo no colchão posto no chão da sala, afinal, minha cama ainda não chegou. Eu já devia ter imaginado que meus pais não iriam me ajudar com a mudança, já que eles eram contra a minha saída de casa, imagina de cidade!

Pego o celular e olho as horas. É a única coisa que consigo achar em meio a essa bagunça. Eu realmente preciso de ajuda... Já são dez da noite. Me levanto do colchão e avisto um ursinho de pelúcia. Pego-o no colo e o abraço forte. Sinto seu cheiro. O de sempre: perfume de bebê que minha mãe insiste em borrifar para dar um cheirinho de infância. Tantas lembranças, deixadas para trás... Tudo porque eu queria um pouco de independência. Será que fiz certo em me mudar?

Meus pensamentos são interrompidos pelo barulho de mensagens novas no celular. São de mamãe.

Mamãe: Já arrumou suas coisas? Bebeu bastante água? Já estamos com saudades! Mande mensagens!

Mamãe: Nem acredito que nossa bebê saiu de casa :(

Eu: Sim, eu estou bem! Também estou morrendo de saudades. Não se esquece que eu te amo!

É bom ver que ela se importa. Eu vou sentir muita falta dela, mas ela tem que entender que se ela não quer sair da minha cidade natal, eu sairei. E foi o que fiz. Nada pessoal (resumindo, tudo pessoal sim), mas queria um novo começo, numa cidade nova, com pessoas novas. Vida nova. Onde eu pudesse recomeçar com uma nova personalidade, mais confiante e mais madura.

As pessoas que deixei naquela cidadezinha? Conto nos dedos. Minha mãe. Meu pai. E... Só. É, senhoras e senhores, Harley é uma garota anti-social e anti-humanos, mas está prestes a mudar. Eu sei que eu devo ser um repelente a qualquer contato humano, mas aqui eu posso demonstrar que posso ter alguns amigos. Começo na faculdade local semana que vem. Ela não tem um campus enorme, então tive que comprar esse "apertamento". Faculdade de Psicologia. Meu primeiro semestre. Mal posso esperar. Depois de passar um ano sem ir à alguma instituição de ensino, me desacostumei com a ideia de ter que obedecer aos professores e fazer tarefas de casa, ou até ter matérias de coisas que tenho certeza que não usarei para a vida. Droga.

Deito-me novamente no colchão e adormeço lentamente ouvindo música.

***

O som dos pássaros me acorda. Outra coisa que adoro nessa cidade é a natureza. É uma cidade de litoral com bastante verde. É raro você ver um prédio aqui, quem dirá edifícios. Um ponto turístico que com certeza tenho que visitar é o Lago Vermelho, numa montanha na qual não me recordo o nome. O Lago dá nome à cidade, e é "Lago Vermelho" devido a coloração avermelhada da água por causa da vegetação. A lenda da cidade é que nativos e ingleses derramaram muito sangue em guerras naquela área da montanha. Mas eu não sou mais criancinha para acreditar nisso; deve ser mais uma historinha para dormir.

Levanto-me e procuro pela roupa que mais estiver ao meu alcance. Avisto uma calça jeans e uma camiseta de Harvard, que comprei numa loja de um dólar qualquer, já que nunca entrarei na universidade. Ficou tão óbvio que vim de Boston?

Pego as chaves e meu celular. Abro a porta que dá em um corredor estreito com outros dois apartamentos, que não tenho a menor curiosidade para descobrir quem são os filhos de Deus que habitam os cubículos ao lado do meu. Vizinhos sempre foram um problema para mim, e eu daria tudo para viver em uma casa isolada e sem nenhum vizinho.

Desço os três andares de escada, que me cansaram pra caramba. Harley, você está muito fora de forma. Aceno para o porteiro e ele sorri em resposta. Educação é uma coisa que sempre prezei, e me esforço para ser o mais educada possível. Abro a caixinha de correio com o número do meu apartamento. Avisto uns papéis. Pego-os rapidamente e checo as cartas. Conta. Conta. Panfleto. Conta. O que você esperava? Um convite para uma festa de dezesseis anos? Ah claro, Harley, vai sonhando.

Ia fechando a portinha da caixa e vejo uma última carta. Pego-a e vejo que não tem remetente nem destinatário. E nem selo.

— O senhor tem um abridor de cartas? — Pergunto ao porteiro. Ele assente que sim e me entrega um abridor azul. Abro a carta ansiosa, devolvo-o o objeto e agradeço. Enfio a mão e recolho o conteúdo da carta. Um papel dobrado. Tem escrita em caneta preta. Desdobro o papel e me assusto.

"Ava Faulkner é a próxima a ir parar num caixão".

Tudo bem. Isso pode ser um engano ou uma brincadeira de mal gosto. Espero que seja a segunda opção. Tenho uma vaga lembrança sobre alguém com sobrenome Faulkner...

Mas estou com tanta fome que terei que deixar esse mistério de lado. Saio da portaria do bloco de apartamentos e desço a rua até uma cafeteria. O cheiro de rosquinhas chega a minhas narinas e me fazem babar. Entro sem hesitar, peço duas rosquinhas de morango com granulado e um café latte. Já parece que estou em casa. Sento-me num banquinho vazio no balcão e leio as cartas. Conta de luz, conta de água e... Uma prestação do meu apartamento. O sobrenome do antigo morador é... Faulkner! Sabia que conhecia esse sobrenome de algum lugar!

Anneliese Faulkner. Sim, lembro-me de ter falado no telefone com ela à uns três meses antes de comprar o apartamento. Como sou um tanto irresponsável, deixei o trabalho da papelada com meus pais. Mas Ava Faulkner... Quem seria Ava Faulkner? Sua mãe? Irmã? Tia? E qual é da brincadeira de mal gosto? E mesmo se não for brincadeira, quais seriam os motivos de ameaçar essa garota?

Deixo esses pensamentos de psicopatia de lado. Achei que só fosse vê-los na faculdade! Mas me assusto mesmo com o que veio a seguir:

— Ava Faulkner, você não é mais permitida nesse estabelecimento!

Talvez tenha encontrado quem procurava, mas como direi a ela que a querem morta?

Notas finais
Um capítulo bem introdutório, mas o próximo vai ser bem mais legal! Espero tenham gostado!