Smoke and Fire
5 Capítulo 4 - Cold Night.
Notas iniciais
Capítulo 4.
“Ninguém me levará para casa?
É uma maldita noite fria.”— Avril Laving.
Por: Bubblegum.
Cold night.
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As noites em Neverland era uma perfeita loucura. Nunca havia visto algo assim. Estava me sentindo no meio de loucos. E talvez eu realmente esteja.
Os meninos haviam feito uma fogueira e em volta dela colocaram vários troncos de árvores deitados no chão. Numa área um pouco longe da fogueira estava uns instrumentos e alguns bancos. Em outro canto estava uma mesa mal feita de madeira com as comidas – que não eram muitas.
Eu estava sentada em um dos troncos numa posição desconfortável. Ao meu redor estavam vários meninos, alguns assando o que haviam caçado, outros tocando e o resto dançando em volta da fogueira.
Passei a prestar atenção nos passos dos meninos. Eram passos selvagens, brutos e estranhos. Eles pulavam enquanto iam dançando em círculos, esmagando o pobre gramado.
A música que os outros tocavam era uma típica de floresta. Aqueles sons calmos e sombrios que te deixam com um friozinho na espinha.
Mas o que mais me deixava desconfortável não era o fato de estar achando que aqueles meninos tinham um distúrbio mental, e sim ser a única menina no meio deles. É, eu sou a única menina aqui. E isso é extremamente ruim.
Um remexer nos arbustos me chamou atenção. Olhei curiosa e vi Peter sair deles, entrando no acampamento. Ele sorriu de um jeito estranho ao olhar os meninos. O segui com o olhar, vendo o loiro ir até onde os outros estavam tocando. Ele se sentou em um dos bancos e pegou uma espécie de flauta mal feita de bambus.
Peter estava concentrado enquanto tocava, entrando no ritmo da musica. Ele franziu o cenho e focou o olhar na fogueira. Os lábios soprando as notas da flauta.
Seus olhos verdes ficaram um pouco vermelhos devido ao fogo da fogueira, causando um efeito meio assustador. Quem olhasse de longe, diria que ele tem olhos vermelhos.
Mal percebi que o estava encarando, mas tenho que admitir que por um momento admirei a beleza do garoto.
— Oi! – Ouvi uma voz animada ao meu lado. Olhei e me deparei com um menino moreno, de olhos cinzas me olhando.
— Oi! – Sorri, tentando ser simpática. O menino riu.
— Meu nome é Patrick, e o seu? – Ele perguntou, pude perceber certa curiosidade na voz.
— Kethelyn, mas me chame de Keth. – Falei, sorrindo.
— Prazer. Você não é muito de falar né? Desde que chegou eu só te vi quieta em um canto.
— É, bem, eu não tenho culpa. Aquela praga ali, – Apontei para Peter, que continuava concentrado tocando sua flauta. – Não me deixou em paz um minuto sequer desde que cheguei. – Respondi.
Patrick arregalou os olhos por um momento e logo riu.
— Praga? – Perguntou, repetindo minha fala. – Se algum dos meninos perdidos chamar Pan assim, somos decapitados. – Falou, rindo sem ânimo.
— O que vocês são dele? Escravos? Vocês ficam para lá e para cá o dia todo. – Indaguei. Era verdade, eu só vi esses meninos cheios de tarefas hoje. – E ele? Faz o que?
Patrick desviou o seu olhar para a fogueira. O moreno parecia pensar bem no que iria me responder.
— Pan é o rei de Neverland. Ele foi o primeiro garoto perdido. – Afirmou. – Pan é o único que possui magia, então ele pode fazer tudo o que quiser na ilha. E com a sua sombra voando por ai, ele tem informação de tudo que acontece seja aqui ou em qualquer outro canto de Neverland. – Patrick fez uma pausa e continuou: — Nós somos apenas os garotos perdidos que tiveram a chance de fugir do mundo cruel em que estávamos. Nosso dever é seguir as ordens de Pan.
Tá, admito, eu não esperava essa resposta. Fiquei calada por uns segundos encarando o garoto, que deve ter a minha idade, a minha frente.
Suspirei.
— Que dança estranha é essa? – Perguntei, mudando de assunto. Patrick entendeu sem demora o que eu estava falando.
— Não faço ideia. – Ele riu. – Tenho duas teorias: ou eles apenas seguem a música, ou eles expressam seus sentimentos assim. – Então continuou: — Mas eu não posso falar nada porque eu faço o mesmo.
Patrick gargalhou e eu o acompanhei. É, para quem nunca se deu bem com meninos, eu estou indo bem.
— Bom, eu já falei sobre várias coisas, mas até agora não te dei as boas vindas. – Disse, finalmente me encarando agora. – Seja bem vinda a Neverland. – Sorriu de forma gentil.
— Obrigada, mas não vou ficar muito tempo. – Falei. Patrick franziu o cenho. – Amanhã mesmo eu vou embora.
— Hum... Pan aceitou te levar embora? – Perguntou.
— Não. – Neguei. – Ele não sabe que vou embora.
— Mas então... – Patrick interrompeu sua fala. Ele olhava algo a frente. – Parece que Pan está te chamando. – Ele disse. Olhei para a direção em que ele olhava e vi Peter em pé atrás da fogueira. O loiro me olhou e apontou com a cabeça para a floresta, saindo andando em seguida.
— Ah, eu já volto. – Falei. Patrick assentiu.
Segui o mesmo caminho que Peter havia ido. Não demorei a encontra-lo. Ele estava parado, encostado de lado numa árvore me esperando.
— Suas roupas estão imundas. – Falou, enquanto eu me aproximava.
— O que você quer? – Perguntei, ignorando seu comentário.
— Quero te dizer que mandei os meninos construírem uma cabana para você. Eles vão começar amanhã e... – Ele falou, mas o interrompi.
— Não precisa, obrigada. Eu vou embora amanhã.
Peter ficou quieto, processando o que eu havia dito. Um curto silêncio se instalou entre nós, mas ele logo foi interrompido pela gargalhada alta e debochada de Peter.
— Claro que vai! – Ele debochou. – Mas me diga, como planeja sair daqui? Porque acha que tem como ir embora de Neverland?
A resposta estava na ponta da língua, mas resolvi ser mais esperta:
— Bem, se tem como entrar em Neverland, então tem como sair. – Afirmei. O loiro me olhava com uma sobrancelha levantada. – E se conseguimos entrar aqui voando, então para sair... – Fiz um pausa, entendendo tudo. Claro, porque não pensei nisso antes?!
— Tem que sair voando. – Ele completou. Um sorriso arrogante se formando em seus lábios. – E você não sabe voar, sabe? Então lamento te dizer, mas você não tem como sair daqui.
Quase vomitei ao pensar em passar minha vida toda presa no mesmo lugar em que Peter estava.
— E a sua sombra? – Perguntei, uma ideia surgindo na minha mente. – Ela pode me levar embora, não é?
— Pode. – Afirmou, e eu senti uma ponta de esperança crescendo em meu peito. – Mas a sombra só obedece a mim. Ela só faz o que eu quero. – E lá se vai minha esperança.
— Então você está me dizendo que eu só posso sair dessa ilha com a sua permissão? – Perguntei, indignada.
— Exato. – Respondeu, sorrindo cínico.
Trinquei os dentes e o olhei. Como eu queria fuzilar ele agora.
— Bem, voltando ao que eu ia dizer desde o inicio. – Peter fez uma pausa, trocando o assunto. – Como você não tem lugar para dormir, você vai ficar comigo em minha cabana até que os meninos construam a sua. – Informou.
— Nem morta eu durmo no mesmo lugar que você. – Respondi áspera. Ele riu.
— Claro, você pode dormir entre os outros meninos. – Falou com sarcasmo. – Ou pode dormir do lado de fora, no frio congelante das noites de Neverland. Tenho que admitir é uma ótima escolha! – Debochou, e saiu andando, me deixando sozinha.
Bufei, começando a bater o pé no chão. Fiquei parada olhando para o nada, esperando minha raiva passar um pouco porque se voltar agora, juro que enforco Peter Pan.
[...]
Quando voltei para o acampamento, todos já tinham ido para as suas cabanas e eu não vi mais Patrick.
Suspirei e me sentei perto da fogueira. Encolhi as pernas, as deixando próximas ao meu corpo e me encostei em um dos troncos.
Eu estava sozinha.
Para melhorar a minha situação, um vento frio passou por mim, fazendo todos os meus pelos se arrepiarem. Tremi na hora, me encolhendo mais.
É, essa vai ser uma longa noite.
[...]
Creio que nem o maior dos por centos consegue definir o tamanho do meu azar.
Para a minha infelicidade total, a fogueira não durou muito tempo acessa e logo apagou me deixando no escuro e sentindo mais frio do que estava com ela acessa. E para completar tudo: o frio aumentou. Eu já estava me sentindo um cubo de gelo.
Meus dentes batiam com força, e eu tremia sem parar.
Senti um peso cair sobre meus ombros e me assustei, mas meu corpo se recusou a se mexer.
— Seus dentes não me deixam dormir. – Escutei uma voz grave falar, carregada de mal humor.
“ Peter” – pensei.
— Vamos para a cabana. Levanta. – Ordenou. Não me movi. Não conseguia e não queria. Peter bufou. – Vou mesmo ter que te carregar?! – Perguntou, sem paciência.
Reuni toda a força que tinha e fiz o possível para me levantar. Fiquei de pé por um segundo, mas minha perna esquerda deu cãibra e eu tombei em cima de Peter.
O menino me segurou pelos ombros.
— Você parece até uma morta. – Falou, suspirando pesado, provavelmente sentindo a temperatura em que meu corpo se encontrava.
Peter passou seu braço direito pelas minhas costas e apoiou o esquerdo por baixo de minhas pernas, dando impulso e me pegando em seus braços.
Ele começou a andar. Fechei meus olhos, sentindo o calor que emanava do loiro. Mesmo num frio daquele, ele estava quente.
Não demorou e nós chegamos na cabana. Não reparei no lugar.
Peter me sentou em uma cama muito macia e foi para um outro cômodo do lugar. Logo ele voltou e me entregou uma caneca com um líquido quente.
Não perguntei o que era, apenas dei um gole e senti o gosto de camomila. Era um chá.
Olhei de relance para ele e o vi encarando algo pacientemente enquanto eu bebia o chá.
— Aqui. – Falei, entregando a caneca a ele.
— Deita. – Falou, se levantando e me deixando sozinha.
Fiz o que ele disse e me deitei. A cama era extremamente macia e estava quentinha. Sorri ao pensar que finalmente teria paz e dormiria, mas meu sorriso se esvaiu ao sentir um peso atrás de mim.
“ Ah, não!” – pensei.
Peter se deitou e suas costas roçaram nas minhas. Ele puxou o cobertor e sem querer bateu os pés nos meus. Ironicamente, seus pés estavam frios.
“ Que tipo de pessoa tem o corpo quente e os pés frios?” – pensei, sorrindo.
Com o tempo me acostumei com as costas e os pés de Peter roçando em mim.
Eu já estava aquecida e percebi que Peter dormia. Ele não fazia barulho e pude escutar sua respiração calma atrás de mim.
É, até que não é tão ruim quanto pensei.
[...]
Continua...
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