Smoke and Fire
3 Capítulo 2 - Book and discussion.
Notas iniciais
Capítulo 2.
"Quando ela era apenas uma menina, ela tinha espectativas com o mundo.
Mas isso voou além de seu alcance. Então ela fugiu em seu sono.” — Coldplay.
Por: Bubblegum.
Book and discussion.
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As aulas pareciam se arrastar no dia seguinte. Por mais que eu tentasse prestar atenção na explicação das matérias, eu não conseguia.
Minha mente parecia estar em outro lugar. Levando em conta que mais uma vez tive lembranças em forma de sonhos e estava com raiva das atitudes de minha mãe, tenho certeza que tudo colaborou para que hoje meus pensamentos estivessem ainda mais agitados.
Gritei um “aleluia” mentalmente quando ouvi o sinal tocar.
Todos saíram apressados da sala e eu estava tão distraída que nem me preocupei em esperar Grace e Annie.
Sai da sala e caminhei em direção oposta a todos. Subi as escadas que levavam para o corredor onde ficava a biblioteca. Por sorte não precisava subir muito para chegar lá.
Em poucos minutos cheguei no corredor. Dei alguns passos e tenho que admitir: esse corredor é sinistro. Agora sei porque muitos evitam ir na biblioteca. A cor branca da parede e o piso escuro davam um ar de hospital mal assombrado.
Parei em frente a porta de correr cinza. Empurrei a mesma para o lado e entrei na biblioteca.
O som da porta fechando ecoou no local, fazendo a bibliotecária tirar os olhos do computador e me olhar. Me aproximei e sorri.
— Oi, eu estou procurando livros de contos de fadas para um trabalho. Pode me mostrar onde ficam?– Perguntei.
— Claro, venha, é por aqui. – Ela se levantou, saindo de trás do balcão de madeira e me guiando até o final da biblioteca numa área mais afastada.
— Essa estante aqui é de apenas contos. Tem todos os tipos. Pode procurar a vontade. – disse, apontando para uma estante pequena e alta repleta de livros finos e grossos. – Se precisar de algo estarei no balcão. – Completou, me deixando sozinha em meio aos livros.
Corri os olhos pelas prateleiras à procura do livro “ Peter Pan”. Não demorei a encontra-lo. Estava no meio da quarta prateleira de cima para baixo.
Olhei ao redor e encontrei um pequeno banco de madeira num canto. O peguei e subi em cima do mesmo. Me estiquei um pouco e consegui alcançar o livro. Como eu não sou muito alta, tive que ficar na ponta dos pés mesmo em cima de um banco. Resultado? Na tentativa de pegar o livro fiz ele cair na minha cabeça. O som do baque do livro ecoou pela biblioteca.
— Ai! – Resmunguei, passando a mão no local atingido. Desci do banco e apanhei o livro que caiu aberto no chão.
Passei a mão pela capa antiga e verde tirando um pouco a poeira.
— Peter Pan. – Li o título na capa. Observei o desenho. – Nada mal.
Andei até a mesa mais próxima e me sentei, jogando a mochila na cadeira ao lado e colocando o livro em cima da mesa. Abri e comecei a ler.
[...]
Não sei ao certo quanto tempo passei lendo, mas tinha noção que já estava ali a mais ou menos uma hora.
Tenho que admitir que aquele livro me surpreendeu. Para mim Peter Pan não passava de um desenho com os garotos perdidos e o conto era apenas sobre um garoto que se recusa a crescer, e quando Wendy cresce, ele se sente traído. Mas na verdade era muito melhor que isso.
Quanto mais eu lia, mais eu queria ler. E assim os minutos foram passando e eu perdi noção do tempo.
Já consegui encontrar várias partes em que eu gostei no livro. Uma delas é a parte em que dizia como chegar em Neverland. Era apenas acreditar, ou seja se você dissesse “eu acredito”, você tinha a chave para entrar em Neverland.
Escutei meu estômago roncar pela décima vez e me rendi. Fechei o livro e fui ao balcão pedir autorização para levá-lo para casa.
Guardei o livro na mochila e sai da biblioteca. Andei rapidamente pelo “hospital mal assombrado” – apelidei o corredor assim – e desci as escadas.
Ainda havia alguns alunos no corredor, mesmo o sinal tendo tocado um tempo atrás.
Não me dei o trabalho de procurar as meninas, tinha certeza que elas já tinham ido embora.
Erro meu.
— Onde você estava garota?! – Gritou Grace, aparecendo “magicamente” do meu lado.
— Misericórdia! – Exclamei, pondo a mão sobre o peito. – Da próxima vez que quiser me matar me avise.
Grace riu e só então percebi que Annie estava do meu lado direito fazendo eu ficar no meio das duas.
— Nós te procuramos na escola inteira! – Annie disse. – Onde você estava?
— Na biblioteca dando início ao trabalho de literatura. — Respondi. Ela murmurou um “ata”.
— Estávamos te esperando para irmos para casa juntas. — Falou a loira.
— Pensei que já tinham ido embora. – Falei, elas negaram.
Saímos da escola e caminhamos pela rua.
— Keth, sua mochila esta aberta. – Informou Annie.
— Hum? Mas eu fechei ela. – Falei, tirei a mochila das costas e vi que ela estava aberta. Parei e apoiei a mochila na perna, analisei para ver se todas as minhas coisas estavam lá. Ok, tudo certo. A fechei e voltei a andar.
— Ah, eu queria ir à algum lugar... – Grace resmungou.
— Foi mal gente, mas eu vou direto para casa. – Falei, me despedi delas e atravessei a rua, entrando na esquina da minha.
Olhei para trás e acenei. Annie e Grace retribuíram e continuaram o caminho para seja lá aonde.
Suspirei ao me lembrar que quando chegasse talvez encontraria minha mãe em casa. Eu não queria ver ela. Estava acostumada com a sua ausência, mas continuava magoada.
Atravessei o jardim e entrei em casa. Adivinhem qual foi a primeira coisa que eu vi: Isso mesmo, minha mãe sentada no sofá assistindo TV.
— Oi. – cumprimentei, passando por ela e indo até a escada.
— Onde passou a noite ontem? – Perguntou.
— Na casa de Grace. Te avisei que ficaria lá. – Respondi.
— Sabe que eu não gosto quando você dorme fora de casa. – Falou, notei o tom levemente irritado em sua voz.
— Sabe que não gosto de passar dia e noite sozinha em casa. Ainda mais quando esse dia é o aniversario do meu pai. – Retruquei, sentindo a voz falhar minimamente na palavra “pai”.
Minha mãe suspirou. Desligou a TV e me olhou.
— É difícil para mim também, mas eu queria que você entendesse que se não for por mim não vamos ter o que comer. – Falou.
— Isso eu entendo. Quem não entende algo aqui é você! – Falei, levantando o tom de voz. Ela abriu a boca para falar, mas a cortei. – A morte dele é difícil para mim também. Eu também sinto falta dele, também penso nele e também sinto tristeza. – Praticamente cuspi as palavras nela.
Minha mãe continuava quieta, e eu vi em seus olhos as lágrimas que ela continha a qualquer custo para não chorar na minha frente.
— Doe em mim também, ok? – Continuei, abaixei o rosto sentindo as primeiras lágrimas escorrerem. – E seria bem mais fácil se você parasse de ficar tanto tempo fora. Seria mais fácil se você parasse de me deixar sozinha o tempo todo. Eu sou uma adolescente, não uma adulta. – Falei.
As lágrimas corriam livremente pelo meu rosto. A olhei e a vi de costas para mim passando a mão no rosto.
— Vá para o seu quarto agora. – Ordenou.
— Com todo o prazer!
Subi as escadas sentindo a raiva crescendo em meu peito. Corri até a porta do meu quarto e a bati com força depois de entrar.
Joguei a mochila no chão e escorreguei as costas na porta. Me sentei no chão com as pernas próximas ao corpo.
Os soluços não podiam mais ser contidos e meu peito queimava de raiva e dor.
[...]
O relógio marcava 21hrs: 33min.
Estava jogada na cama lendo o livro. Depois de várias tentativas falhas de me concentrar na leitura, decidi levantar e ir fechar a janela para ir dormir.
Ia puxar o vidro para baixo, mas a visão do céu escuro e com várias estrelas me chamou atenção.
Me sentei na travessa da janela e observei a paisagem. As luzes das casas entravam em um contraste com os postes de iluminação das ruas. O silêncio invadia o ambiente e pude escutar um grilo ao longe. Levantei o olhar para o céu.
Quando era pequena e estava triste, tinha a mania de procurar uma estrela no céu para chamar de minha. E foi isso que fiz. Vasculhei o céu à procura de uma estrela grande que me chamasse atenção e a encontrei. Grande e brilhante à direita. Sorri admirando a estrela.
Do nada a frase que li mais cedo veio a minha cabeça: “Eu acredito”.
— Eu acredito. – Pronunciei sem pensar. Três segundos depois bocejei cansada.
Tudo o que me lembro é de ver uma criatura escura e estranha de olhos brilhantes voando até mim, e logo depois só senti meu corpo inclinar e cair.
Fechei meus olhos em seguida.
[...]
Continua...
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