Notas iniciais
Quanto tempo dura a eternidade? Às vezes, apenas um segundo.

Eu somente soube o que aconteceu três dias depois, ao acordar. Via um teto que não era o do meu quarto, estava deitada em uma cama que não era a minha e usava uma camisola que nunca havia visto. Ao meu lado, as paredes oscilavam frouxamente e, mais do que nunca, minha visão estava turva e as luzes a cima me perturbavam.

Uma das paredes foi arrastada para o lado: era uma cortina.

— Como estamos hoje? — perguntou o homem de meia-idade, cujo semblante era cansado, porém gentil. Não respondi. O homem de jaleco branco suspirou, mexeu em alguns dos aparelhos, me fez algumas perguntas e, não obtendo respostas, virou-se e saiu; fechando novamente a flácida parede.

Cedric estava com o médico quando abri os olhos outra vez, assustada pelo som das correntes da cortina. Meu marido suspirou aliviado quando viu meus olhos e eu sorri por isso. Ele tomou uma de minhas mãos e a beijou.

— O que aconteceu? — consegui perguntar.

— Taylor contou que vocês estavam tomando chá e, de repente, você teve outra crise.

— Outra crise? — franzi o cenho enquanto meus batimentos aceleravam.

O médico permaneceu em silêncio, tomando notas de nossa conversa.

— Escute. Você está bem agora. — Cedric continuou. — Pode dizer o que houve? — balancei a cabeça tentando lembrar... As vozes e o silêncio; Taylor me pedindo perdão; as coisas que puxavam meu cabelo; as mãos que me empurravam para baixo; Patrick sorrindo; o abraço do casal; as lágrimas espumosas de ambos... O... cachorro! Mencionei cada detalhe do que me lembrava, levando a mão à testa algumas vezes.

— Como era o cachorro? — o médico não levantou a cabeça de sua prancheta.

— Era... um Husky siberiano, eu acho.

— Taylor não tem cachorros. — Cedric me lembrou. Alarmado, o médico ergueu a cabeça e me fitou, levantou os olhos ao homem ao meu lado e tornou a baixa-los para mim.

— Diga-me mais. — pediu e sua voz estava preocupada.

— Eu não sei, estava escuro... Como na caixa de remédio.

— Caixa de remédio? Perspicaz. — murmurou. Aumentando a voz a um nível que eu compreendesse, pediu que contasse a história e descrevesse a foto.

"Taylor sempre foi minha amiga, éramos inseparáveis! Por fim, ela adoeceu, ninguém jamais descobriu o que ela tinha, mas mantínhamos a esperança. Fortunas foram gastas, inclusive minha própria fortuna o fora, com médicos, especialistas, remédios e tratamentos. Até que, há três dias (como fizeram questão de me lembrar), ela mencionou um novo remédio, disse que Patrick tinha mais esperança nesse que em qualquer outro. Ela detalhou de que era feito, como funcionaria e me mostrou.

(— Ela mostrou?! — o médico interrompeu.

— Eu pedi para ver.)

A caixa estava sobre a bancada, tomei-a e vi a imagem enegrecida de um cachorro sorridente..." não soube mais o que dizer.

— Bem, e depois? — o médico pressionou.

— Depois, — Cedric contou ao notar que eu não iria — ela chorava e gritava, pedia ajuda e apontava nervosamente a todas as direções. Deitada no chão, ela esperneava e se contorcia. Os anfitriões ficaram preocupados e Taylor me ligou.

Após instantes em silêncio, o médico suspirou, puxou Cedric para longe de mim a fim de uma conversa.