Notas iniciais
Essa é a fase em que a alma dói de verdade.

Eu não soube o que o médico e Cedric haviam conversado; ele não me disse quando perguntei, mas sabia que era grave por causa de seus olhos: Cedric nunca chorava, todavia ao retornar da conversa com o médico, eles estavam tão vermelhos quanto inchados.

Não me deram alta aquele dia, ao invés disso, me fizeram dormir com a promessa de que na manhã seguinte estaria em casa. A última coisa de que me lembro, é a pele de Cedric na minha, eu sorri fracamente por senti-lo — os sedativos começavam a fazer efeito; mas ele se mantinha sério.

Por fim, adormeci e tive um sonho interessante: Cedric acariciava minha barriga, eu tinha acabado de lhe dizer que estava grávida. Estávamos em casa e a luz do outono trazia à sala um aspecto onírico. E em comemoração, ele havia dito, ergueu uma caixa que não estava, em momento algum, próximo a seus pés. Dentro dela, um pequeno husky dormia. Toquei seu pelo macio.

Cedric estava ao meu lado quando acordei, seus olhos não escorriam, mas minha camisola estava molhada; ele chamou o médico como combinado e eu, depois de responder a um questionário sobre meu sonho, recebi alta.

No caminho para casa, permanecemos em silêncio até que, por curiosidade, eu o quebrasse:

— O que o médico disse? — Cedric não respondeu de imediato, suspirou e ergueu um dedo; sabia que pretendia me dizer. Então contou a lenda do smile.jpg, e a imagem que eu havia visto na caixa do remédio, segundo ele, era a própria! Eu não acreditei em nenhuma palavra, principalmente nas que acusavam Taylor. Cedric insistiu, mas, irritada com a imaturidade, encerrei o assunto e não tornei a perguntar. Ao invés de tentar conversar, simplesmente deitei no banco e ouvi os ecos da história em minha cabeça. Abri a boca para outra pergunta, mas a resposta seria infantil: desisti e a franzi.

— Está tudo bem? — ele perguntou ao estacionar o carro em nossa garagem, pouco antes que eu abrisse a porta.

— O que acha? Passei três dias em um hospital e a única coisa que ouço sobre isso é uma história para assustar crianças! Eu só... (respirei fundo, Cedric não ouvira uma palavra sobre meu sonho antes, não queria que ele soubesse neste instante) estou confusa. E cansada. Se importa em ficar comigo agora? — as últimas palavras fugiram por entre meus lábios antes que eu pudesse ter controle sobre eles.

Cedric abriu a porta e desceu. Circulou o carro pela frente e me ajudou a descer. Passou seu braço esquerdo por minha cintura e me guiou até o quarto. Ele me permitiu tomar um banho rápido enquanto prepararia um filme para assistirmos.

Enquanto a água escorria por meu corpo, não pude deixar de perceber o quão gelada minha pele estava: ardia em contato com a água quente. A história sobre smile.jpg ainda ecoava em minha mente. Molhei os cabelos e eles se tornaram chicotes em minhas costas. O xampu era suave, mas da espuma branca, bolhas levemente avermelhadas se destacavam. Enxaguei a espuma da chibata e brinquei com o sabonete: viajando por minha pele, parou em minha barriga, sorri com a ideia. Por fim, meu rosto abatido pedia atenção e, por hábito, comecei seus cuidados de baixo da água quente.

Desliguei o chuveiro e peguei a toalha. Enxuguei minha pele e, já vestida, com roupas largas, caminhei até o espelho embaçado, limpei-o com o tecido em minhas mãos e admirei meu rosto — sentia falta de vê-lo, ele me parecia diferente. Cedric bateu à porta e eu pedi que entrasse. Ele me encontrou percorrendo as mãos do pescoço aos ombros. Eu estava pálida. Nenhum de nós precisou dizer nada para que ambos entendêssemos: minha pele estava arranhada por afiadas unhas caninas. Cedric me puxou para um abraço, acomodando meu rosto em seu peito e, segura, permiti que as lágrimas escorressem de meus olhos.

— Melhor irmos para o quarto. — sussurrou ele, acenei com a cabeça e permiti que me conduzisse.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.