Notas iniciais
Até que ponto vale a pena ser orgulhoso? A ponto de perder tudo?

Minha melhor amiga não havia melhorado de seu padecimento. Seu marido gastava toda a fortuna com os médicos, remédios e tratamentos sem nenhum efeito; isso nos preocupava, sobretudo, a mim: todas as noites pensava que a perderia no raiar do dia. Meu marido secava minhas lágrimas e acariciava o topo de minha cabeça para que eu dormisse.

Na manhã seguinte, Patrick, o marido de minha melhor amiga, me ligou e disse que Taylor pedia para que me visse uma última vez. Sua voz estava embargada, carregada do habitual cansaço matinal e de uma noite chorosa. Levantei-me, derrubando meu lençol no chão. Meus olhos ainda estavam inchados, mal enxergando um palmo à minha frente, colidi com a porta do banheiro. Ouvi a risada de meu marido vindo do outro lado do quarto, focalizei-o e abri um sorriso: Cedric segurava uma bandeja de café da manhã. Ele caminhou em direção à cama e esperou ao lado até que eu tornasse a me deitar, então ele sentou-se e pousou a bandeja em meu colo.

—Patrick me disse que Taylor está piorando, ela pediu para me ver uma última vez. — mencionei. Cedric suspirou e acariciou minha testa, ele pediu que eu comesse enquanto me observava.

Mais tarde, Patrick atendeu a campainha me cumprimentando com o sorriso afetado que exibia desde a doença de Taylor. Nós dois permanecemos em um silêncio constrangedor por uns instantes até que a voz de Taylor chamou meu nome. Ela estava terminando de cozinhar biscoitos enquanto o homem me conduziu pelos corredores, embora eu soubesse o caminho. Ela sorriu.

— Parece muito bem. — Menti. Embora ela não parecesse muito melhor, tampouco parecia pior...

— Eu estou muito melhor. — Ela concordou, mas eu vi as manchas de sangue que, pouco antes, vieram acompanhadas de uma forte crise de tosse. Por fim, nós nos sentamos à mesa posta para um encontro casual: haviam duas xícaras e pratos de cerâmica enfeitados, meu presente de casamento, rodeando o bule de chá, do mesmo conjunto, e o prato de biscoitos.

— Algum dos médicos descobriu o que você tem? — perguntei. Taylor balançou tristemente a cabeça. Ela me disse que Patrick estava crente no último tratamento encontrado pela esposa que consistia, como ela descreveu, na injeção do remédio sobre a bancada; bem como detalhou cada um de seus efeitos (prós e contras), o que me deixou curiosa.

— Importa-se? — perguntei enquanto me levantava em direção à bancada.

— Não. — ela resplandecia em um sorriso. Parecia a Taylor de sempre.

Tomei a caixa em minhas mãos e a examinei: não era nada que eu alguma vez tivesse visto. Girei-a apenas para encontrar uma imagem escura que me fez gritar e soltar a caixa. Depois disso, haviam vozes e silêncio ao meu redor: as que eu ouvia eram gritos que nada diziam.

Por pouco tomei consciência de Taylor se levantando e correndo para o meu lado, o sorriso se havia perdido. Ela parecia gritar alguma coisa, provavelmente meu nome, enquanto puxava meu braço. As vozes berravam mais e mais alto e desorganizadas sem que eu as ouvisse. Pela janela eu vi um cachorro. Vindo de Taylor, pedidos de desculpas. Meu cabelo se prendeu e eu o senti puxado. Taylor também gritava seus pedidos. As vozes gritavam palavras das quais poucas coisas pude absorver, palavras desconexas: dor, escuridão, maldição, palavra. Desculpas! Algo me puxava para baixo: descobri depois que Taylor me fizera sentar novamente. Seus olhos, eu via, espumavam continuamente; Patrick a afastou de mim e a envolveu em um estranho abraço, os dois espumavam pelos olhos; mas não havia nada que eu pudesse fazer: meus braços não me obedeciam e eu não me sentia. Permaneci por horas, ou me pareceram horas, com gritos silenciosos e longos pedidos por perdão.