Smile Danger
5 "Troca Justa"
Quando chove, é um fato que a moleza nos possui e ficamos ainda mais preguiçosos, procrastinadores e lerdos que o normal. Hoje, a alvorada de Kabukicho decidiu que seria como em Heavy Rain. Pode-se observar essa lógica, considerando o atraso do Shinpachi, que pode ou não, vir com a sua irmã Otae para o colégio. Através de Sougo que está dormindo profundamente com a cabeça afundada sobre os braços apoiados na banca. Tsuu Terakado que está plena e belíssima em sua cama, tirando um sono da beleza. Por fim, Nobume, que observa absorta, as gotas de água que deslizam sobre o vidro embaçado da janela.
A garota Yagyuu, ainda chateada com a de fios azulados, manteve-se fiel ao seu orgulho, ignorando completamente a presença de Imai ou pelo menos era para ser assim. De todo modo, toda vez que Nobume dirigia o olhar para ela, passava a folhear desesperadamente as páginas de "A Sutil Arte de Ligar o F*oda-se". A outra não sabia se ria ou se seguia o roteiro, mas devido a sua personalidade, a de olhos vermelhos era incapaz de rir da situação. Contudo, sabia que o clima entre elas estava um tanto pesado que até Quasimodo teria pena das costas delas. No máximo, Imai teria que lidar com a presença extravagante de Pirako, que agora perambulava com Yamazaki pelos corredores frios do colégio Gintama.
Nobume virou-se para pegar seus materiais dentro da bolsa, quando Kamui entrou na sala um "pouco" molhado, visto que um mero guarda-chuva do camelô não é páreo contra um toró desses que cai sobre Edo. Ela lançou-lhe um olhar rápido e voltou para a postura anterior. Ele, por outro lado, foi até a garota.
— Opa, opa, como está sendo a manhã fria de alguém sem coração? Está se sentindo em seu habitat natural? — Ele indagou sarcástico.
— Sim, e estava ótima... até você chegar — respondeu ríspida.
Fingiu folhear as páginas do livro de literatura para que o ruivo entendesse que a conversa se encerrou por ali. Logo Kamui sentou-se na cadeira vazia atrás dela, o que chamou a atenção de Imai.
— Seu lugar não é lá atrás? — questionou.
— Ninguém senta aqui, então achei uma boa ideia ocupar o lugar — respondeu sucintamente.
Ficou óbvio que ela não acreditara nele, por partes. Mas se vinha do Yato, havia dedo podre. Achou melhor então não "dar asas" à cobra e retornou o olhar para a lousa.
— Imai... — Ouviu ele dizer, mas um homem de cabelos longos, lisos e escuros, com ar respeitoso que se não fosse professor, seria facilmente líder de alguma facção contra o governo, além de terrorista; adentrou o local na companhia de um pato-pinguim-alienígena, vulgo mascote de torcida da copa do mundo ou Renho, interrompendo-o.
Katsura Kotarou é um patriota extremista que não aprova o governo atual e por isso deixa de dar aula para ir a protestos, reivindicando a saída do representante do país. Além disso, costuma falar várias vezes sobre o período Bakumatsu e a Restauração Meiji.
— Essa é Elizabeth, estagiária. Ficará no meu lugar quando eu não puder estar presente.
Kamui ergueu a mão.
— O que a Elizabeth é?
— É a Elizabeth.
— Tá... mas o que ela é?
— Não sei. Elizabeth, quer dizer alguma coisa para eles? — Katsura simplesmente deu de ombros, por não fazer ideia do que Elizabeth é.
Elizabeth levantou uma placa retirada de dentro de alguma necessaire que esconde a sete chaves, com a frase:
"Eu sou Elizabeth! Espero contribuir com as aulas, mas não esperem que eu fale com vocês, porque isso não vai acontecer."
— Obrigado pela apresentação, Elizabeth — disse Katsura-sensei.
Mal sabiam eles que Elizabeth faria das suas aulas de história um momento torturante e de muita prática da escrita.
— O assunto de hoje será sobre a Derrubada de Tokugawa.
Okita bocejou alto propositalmente e fez questão de interromper a propagação de ideologias estadistas, quero dizer, explicação de conteúdo.
— Zura-sensei.
— Não é Zura, é Katsura! — advertiu, austero.
— Acho que Kido Takayoshi não passava de um estadista radical...
E foi assim que Elizabeth deixou de ser o assunto da aula. Kotarou e Sougo começaram a debater sobre a representatividade deixada pelo samurai, consequentemente expondo suas opiniões divergentes; um apoiando o governo e o outro contra. Posteriormente tiveram aula de literatura. Imai não demorou para perceber que Shinpachi não estava atrasado, ele realmente não foi para a escola.
...
A de fios azuis permaneceu mais do que o esperado na sala de aula, terminando suas anotações. Só havia ela ali, parecia solitário, mas não era algo que a incomodasse, afinal a solidão fazia parte dos seus dias e o que a surpreendia, era estar cercada por várias pessoas diariamente. Ao terminar, perguntou-se, curiosa sobre o lanche do dia. Talvez fosse algo bom. Se fosse bolacha com iogurte de novo, Pirako já estava por aqui resmungando. De qualquer forma, Imai foi para a cantina comprar rosquinhas, mas para o seu espanto e desconforto, o lugar estava cheio e tinha uma grande fila. Pôs-se de braços cruzados abaixo do busto na fila indiana. A cada voz que ouvia dizer "donuts", olhava apreensiva para as prateleiras e uma veia dilatada surgia em sua testa quando a quantidade de rosquinhas ia diminuindo a cada minuto. Ela queria cometer um assassinato. Agora restavam três rosquinhas e uma pessoa à sua frente. As mão de Nobume suavam frias.
— Me dê os três que sobraram, por favor. — Ouviu a garota que cerrou os punhos e fez questão de olhar para o sujeito que sorria satisfeito ao seu lado.
— Eu ia reservar um para uma mocinha que vem sempre comprar donuts aqui, mas ela não apareceu até o momento, então pode comprá-los. Volte sempre! — falou carismática.
— Oh, claro! — respondeu simpático.
Nobume queria cortá-lo em pedaços, mas resistiu.
— Você veio querida — Ela disse, um pouco surpresa.
O ruivo estagnou, mantendo-se por perto e observando a situação.
— Sim.
— Acabei vendendo as últimas rosquinhas para aquele garoto carismático ali — Ikumatsu apontou para Kamui que sorriu e acenou de volta. Imai imaginou-o vindo a óbito.
— Eu sei — afirmou.
Percebendo que a garota estava desconsolada, esboçou um sorriso gentil.
— Hoje tem pudim, mas até o Gintoki chegar, depois acaba. O que me diz?
Ela assentiu, entregando o dinheiro. A loira lhe entregou, em uma sacola de papel, um mini pudim dentro de um pote transparente de plástico. Não mata a fome, mas pelo menos enrola as lombrigas.
— Obrigada — respondeu num murmúrio, avaliando o pudim. Esse seria o seu consolo?
Voltou a andar, agora à procura de um lugar para se acomodar, lugar no qual não estivesse Kyuubei, não sentia determinada em resolver-se com a outra por enquanto. Porém, os assentos na sua grande maioria estavam cheios ou molhados. Então seguiu para a sala de aula na companhia de um delinquente carismático.
— Por que você está me seguindo? — resolveu perguntar.
Ele pareceu intimidado com a ação da garota.
— Oh, eu vim te fazer companhia. Você parece meio solitária hoje. — As mãos estavam próximas ao rosto.
— Não que eu me sinta assim... mas de todo modo, não faz diferença.
— Então Nobume Imai tem um pingo de sentimento nesse coração de gelo? — retrucou sorridente.
Imai o olhou indiferente.
— Todos nós temos, só que uns mais que os outros. Você, por exemplo, deve andar sobre uma linha tênue entre ter e não ter, certo?
O Yato pegou serelepe em uma mecha dos fios azuis do cabelo da Nobume.
— Na verdade, eu não faço ideia — respondeu. Ela rapidamente tirou a mão dele de perto dela, sentando-se em seu assento.
O ruivo ficou sentido pelo carinho rejeitado e se conformou indo para a banca dos professores. Observou-a, enquanto ela tentava abrir o pote com o pudim que se pudesse falar estaria pedindo socorro pelos movimentos abruptos que estava fazendo. Imai suspirou cansada. Na sacola havia uma colher posta por Ikumatsu. Nobume usou a colher, o doce molenga ameaçava se destruir lá dentro.
— Quer que eu abra para você? — Kamui ofereceu-se, ficando irritado com os nocautes que o pote de plástico estava dando nela.
— Não.
— Okay. — Ele continuou olhando, até lembrar dos seus donuts e levar um invejavelmente à boca.
Ela parou por um momento para analisar a audácia do garoto de comer o donuts na presença dela.
— Poderia parar com isso?
— Isso o quê?
— De olhar para mim enquanto come o donuts. Está tirando a minha concentração.
Ele deu as costas para ela. Era ridiculamente inútil o esforço que estava fazendo nas laterais da tampa já amassada. O pudim já estava debilitado, coitado. Nobume olhou para o ruivo e depois para o pote que queria muito destruí-lo ferozmente, mas que não podia, pois ficaria com fome o restante do dia.
— Você ainda quer abrir para mim? — indagou.
Kamui sorriu ladino. Estava só esperando por essa pergunta.
— Sim!
Ele abriu tão rápido que, por frações de segundos, Imai sentiu suas bochechas ruborizar.
— Prontinho! — Devolveu o pote.
— Hum.
— Que garota orgulhosa — comentou. — Eu comprei uma coisa para você... — Kamui pegou a mochila. — Eu deveria ter pensado um pouco antes de ter reagido daquele jeito com você e ter quebrado seu celular, então eu comprei outro. — Colocou uma caixa sobre a carteira dela.
Nobume parecia estar tendo mais dificuldade para digerir aquela informação do que o pudim.
— Está tentando comprar meu silêncio, por acaso? — retrucou.
— Não. Estou tentando me desculpar com você. Aliás, comprei o celular com meu próprio dinheiro. Não foi caro também. — Ele estava um pouco sem jeito.
— Pode ficar com o celular. Não quero, obrigada — respondeu com certa frieza.
— Eu não o aceito de volta.
Houve um silêncio.
— Só aceito se você me dar os dois donuts que sobraram.
— Só tem um agora — ressaltou.
— Serve.
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