Smells Like Tragedy
1 Prefácio
Notas iniciais
Antes de qualquer coisa, obrigada por estar lendo, isso significa muito para mim. :)
Os primeiros 3 capítulos de Smells Like Tragedy foram escritos em 2011, mas por motivos pessoais (vulgo ociosidade) acabei por não dar continuidade a história. Mesmo assim, aceito comentários!
Boa leitura! ☆
Ligo a pequenina TV de cabeceira enquanto o porteiro não está presente.
A transmissão falha um pouco antes de se estabilizar. Um robusto e simpático senhor de terno surge na tela – lembro-me que se chama Josh Mills, ou algo do gênero –, o logotipo do Telejornal brilhando à sua esquerda. Algumas notícias rápidas correm pelo rodapé. Segundos depois, a animada música-tema cessa.
– Boa noite — diz o apresentador, endireitando a postura. — Hoje de manhã foram encontrados mais dois corpos próximos ao Blue Lake. A necropsia indica que um deles pertence a John Villes, porém o segundo está irreconhecível. Joanne Lee, a terceira desaparecida, ainda não foi localizada pela nossa equipe de resgate. A família recusou-se a gravar entrevista.
Reviro os olhos. Eu avisei-os. Avisei-os mais de mil vezes. Lembro-me até hoje das palavras de John: "Não creio em médiuns, videntes e nessa porcaria de premonição". Dei meu máximo. Tentei alertá-los sobre o destino que os aguardava, sobre as desgraças que aconteceriam em breve, sobre os olhos revirados e os rostos pálidos. Mas não: nenhum deles digeriu minhas palavras, nenhum deles quis acreditar em mim. Nenhum.
Agora que estão mortos, talvez acreditem.
Suspiro e continuo com a atenção voltada para o telejornal. Todavia, o apresentador parou de falar sobre a tragédia e agora é uma mulher quem ocupa a tela. Uma moça jovem, loira e bonita, esbanjando aquela aura radiante própria de quem está no auge dos vinte anos. Está em frente a um imenso painel digital, no qual há um grande mapa, e aponta evasivamente para a área sul de Londres. Onde eu estou.
– Tempo frio e pancada de chuva no sul de Londres — anuncia ela, enquanto uma série de simpáticas nuvenzinhas surge no painel às suas costas — Preparem seus casacos e guarda-chuvas!
Como se eu precisasse. Posso ver a chuva caindo aos cântaros lá fora, posso ver as pessoas usando imensos sobretudos e botas... Mas minha pele imaterial é incapaz de reagir a qualquer coisa. Mesmo que eu nunca tenha saído das proximidades de Londres, sei que não congelaria no clima rigoroso dos Polos. A sensação é a mesma sempre — seja calor ou frio. O clima sempre será ameno para mim. Invejo os vivos por conseguir diferenciar os climas e sinto saudade dos tempos em que podia sair na chuva e... Senti-la.
Ouço passos atrás de mim.
Viro-me, dando de encontro com um confuso porteiro Fred. Até mesmo dele tenho inveja. Invejo cada célula do seu corpo perfeitamente vivo, cada sensação que ele pode sentir, cada dia de vida que ainda lhe resta.
– Estranho, não me lembro de ter deixado a TV ligada — comenta, enfiando um sanduíche engordurado na boca. Em seguida, joga-se em sua poltrona velha e mofada e começa a bebericar vinho barato.
Saio de lá a passos de veludo e vou até meu lugarzinho secreto: o apartamento abandonado do andar dois. Clichê, eu sei. Mas é o único lugar decente para um fantasma viver em toda essa espelunca.
Sento-me no chão liso do apartamento vazio. O ar cheira a monotonia, abandono e tristeza; basicamente, o cheiro da morte, o cheiro que eu teria caso cheirasse a alguma coisa. Os raios tímidos de sol escapam pelas frestas tênues da janela, mas, fora isso, tudo se resume a uma densa e calma escuridão. Por algum tempo, deixo-me embalar naquele silêncio melodioso, que é minha única companhia, e reinicio meu costumeiro ritual: ler um livro, observar a paisagem, andar pelo apartamento.
As horas se arrastam como uma serpente e, de repente, perco a noção do tempo. Não sei quantas horas se passaram desde que entrei no apartamento, minha mente parece um grande e confuso emaranhado de nós.
De súbito, sinto uma estranha fisgada no estômago. Abraço meu abdômen com os braços, gemendo devido a dor fraca, mas repentina.
Não...
Infelizmente, sei o que se procederá.
Meus olhos perdem o foco. Minha mente logo o acompanha, deixando um rastro de escuridão no lugar dos pensamentos. Meu estômago se revira de repente, como se eu estivesse com uma cólica muito, muito intensa.
Em poucos minutos, começo a reviver meus últimos segundos de vida, como já é de praxe.
O ar que entra em meus pulmões mortos parece queimar minhas vísceras, deixando apenas carne viva em seu lugar. Agora consigo diferenciar o frio do quente, o macio do áspero, o doloroso do indolor. Tudo está turvo, não há luz para me guiar nem raciocínio para me salvar. Tudo o que sinto é dor, a mais pura e concreta dor, algo que poucos humanos terão a oportunidade de saborear. Eu engasgo repetidas vezes, contorcendo-me no assoalho gélido, buscando desesperadamente por ar. Tudo o que consigo fazer é desejar que isso acabe logo, que eu não fique enclausurada eternamente nesta tortura. As lágrimas caem quentes pelas minhas bochechas e o sangue escorre pelos meus pulsos doloridos.
A dor veemente toma conta do meu ser por vários e longos minutos. Estou agonizando no chão mais uma vez, sangrando e latejando, e sei que terei de reviver essa situação mais e mais vezes.
Sinto mãos fortes apertando meu pescoço, que parece estar sendo triturado. A pressão contra minha pele é tão forte que posso senti-la perder a sensibilidade aos poucos. Fecho os olhos com força.
A dor passa lentamente, até que se esvai por completo. Abro os olhos sem nenhuma dificuldade e observo o ambiente ao meu redor com um suspiro. Continuo no silencioso apartamento do andar dois. Não há nenhum par de mãos para me esganar agora que estou sozinha e... Devidamente morta.
Seria mentira dizer que estou acostumada com esse negócio de reviver a morte. Mesmo que a sequência de torturas tenha se repetido incontáveis vezes, nem em mil anos me acostumaria com algo tão perturbador. É como se eu estivesse sendo assombrada pelo fantasma do meu assassino, o qual não cansa de me arrebatar mais e mais vezes, mesmo sabendo que já não vivo mais.
Ergo-me do chão e vou até a janela. Um pássaro azul aparece no parapeito e pousa seus olhinhos escuros no meu rosto imaterial. Movo um dedo na sua direção, na falsa esperança de tocar nas suas penas macias, mas ele voa e se vai.
– Como é difícil ser uma criatura que a morte pode tocar. — digo para ninguém.
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