Smells Like Tragedy
2 Capítulo I - Julliet
Notas iniciais
Obrigada mais uma vez por estarem aqui e se darem ao trabalho de ler.
Segunda-feira.
Sento na beirada da calçada, solitária como sempre, e acompanho com os olhos o movimento urbano. Enquanto observo o asfalto úmido, os carros passando e as pessoas dentro dos carros, solto um suspiro longo e demorado — um daqueles suspiros nostálgicos e involuntários que parecem nunca ter fim.
Sinto falta de fazer parte desse movimento. Quando eu era viva, não percebia o quão era bom ser sóalguém em meio à multidão, ser um individuo como qualquer outro, apenas. Por mais que eu não me destacasse entre as pessoas, tinha uma sensação de segurança e satisfação por saber que eu não era diferente de nenhum deles, ao menos não na essência; por saber que estava respirando o mesmo ar poluído que eles, comendo o mesmo lixo industrial, assistindo aos mesmos e entediantes programas de TV. Eu sabia, inconscientemente, que caso um meteoro do tamanho do tamanho do nosso planeta caísse sobre a Terra, não apenas eu como toda a população seria dizimada. Eu não seria o único ser humano a morrer; todos teriam o mesmíssimo fim.
Mas, agora, não passo de uma alma penada em busca de paz. Sou aquela que não perderia a vida caso um meteoro dizimasse a espécie humana, pois já a perdeu em um incidente prévio. Um “ex-alguém” deslocado em meio à multidão, abandonado até mesmo pela morte.
Tudo isso se resume a uma única palavra:
Solidão.
Volto a observar a cidade ao meu redor. A cinzenta e melancólica Londres encontra-se mais apinhada do que de costume, de modo que me sinto ainda mais sozinha, ainda mais fora de órbita. Bem, não que esse seja o maior dos meus problemas. Na verdade, já estou mais que acostumada com o isolamento.
É aí que você pergunta: onde estão os outros mortos?
No céu? No inferno? No purgatório? No útero da mãe esperando para iniciar uma nova e maravilhosa vida? Francamente, não faço ideia. Tudo que sei é que algumas almas novas, em geral as que foram arrancadas de seus corpos à força, costumam passar um tempo entre os vivos antes de tomar seu caminho pós-vida (seja lá o que isso significa). Em geral, esse período não passa de dois ou três dias, o tempo necessário para que as coisas sejam ajeitadas e que possam prosseguir para o segundo plano, paraíso com harpas e anjos ou sei-lá-o-quê.
Neste exato momento, posso avistar uma ou duas almas novas vagando pelas da cidade e tentando — em vão — se comunicar com as pessoas que passam. São jovens. Sei disso porque o cheiro da vida ainda está impregnado nelas, como uma daquelas tatuagens temporárias em processo de remoção.
Naturalmente, as pessoas que passam não respondem aos seus lamentos. Pobres mentes atormentadas. Uma hora ou outra, assim como eu, perceberão que não há mais volta; que, apesar de já terem batido as botas, ainda estão enclausuradas no mundo dos vivos, e só desfrutarão do merecido descanso quando sua hora chegar.
No meu caso, ela está demorando até demais.
Aceno para as almas, porém recebo apenas um olhar vazio em resposta. Aquele tipo de olhar desprovido de expressão e extremamente recluso que as pessoas sofrendo de depressão geralmente têm. Estão muito confusas para processar qualquer coisa. Muito confusas para exprimir alguma uma emoção. Muito confusas para cumprimentar alguém.
Volto-me para a aglomeração de pessoas na calçada e ruas. Os típicos barulhos da cidade grande — buzinas de carros, sirenes de viaturas, conversas alheias — miscigenam-se ao choro das almas atordoadas. Não, não. Não é um choro comum. É tão terrível e insano e desesperado que dá vontade de gritar pi arrancar os tímpanos. O som é definitivamente perturbador, portanto tento ao máximo forma desviar minha atenção dele focalizando em outras coisas.
– Você... — o som que ouço é uma espécie de gemido esganiçado.
Olho para a minha direita e noto que uma das almas atordoadas está vindo na minha direção. Por mais que eu analise sua figura, não consigo dizer se é um homem ou a uma mulher. Caso almas tiverem sexo definido, fique sabendo que é bem difícil de identificá-lo, uma vez que todas elas têm a mesma aparência distorcida. A idade, por sua vez, é bem fácil de descobrir: almas mais novas têm um cheiro diferente, geralmente adocicado. Além disso, agem de forma mais agressiva. São amadoras tanto na vida quanto na morte.
– Olá? — respondo, sem me mover.
A alma grita, mas o grito não parece sair dela. Não me movo.
– Ajuda... — geme — Ajuda, ajuda...
– Não consigo — murmuro, mais para mim mesma do que para ela.
Ao que ela responde, a boca escancarada, provavelmente controlando o ímpeto de gritar novamente:
– C-consegue.
Dito isso, a alma volta para onde estava e recomeça o que estava fazendo antes de vir até mim (ou seja, gritar, gemer e chorar). Estranho, mas irrelevante. Dou de ombros, como se essa não tivesse sido a única vez em que uma alma se dirige a mim de forma entendível. Sinceramente, tenho mais coisas com que me preocupar.
Olho novamente para as pessoas que perambulam, desejando secretamente voltar a ser como elas e não ter preocupações de fato relevantes. Quero dizer, não querendo subestimar os problemas dos vivos, mas eu simplesmente não consigo me conformar com o fato de que continuo sofrendo mesmo estando morta. Ao menos, os vivos têm uma promessa de paz eterna. Eu, por minha vez, não tenho nada.
E isso você não é capaz de negar.
–-
É fim de tarde.
Por um momento, imagino o que os vivos sentem quando passam ao meu lado. Uma comichão inusitada na pele? Uma sensação gélida no estômago? Um arrepio na espinha? Concluo que essa seria a única pergunta que faria a um vivo, caso quisesse perguntar algo.
De qualquer forma, já estou há horas aqui e não tive nenhuma visão.
E isso é novidade para mim.
O fato de você ser uma alma penada se torna apenas um detalhe diminuto quando visões te assombram praticamente todos os dias, sem parar, e você se sente na obrigação de impedi-las. Geralmente, tenho tantas visões que se torna impossível lidar com todas elas, então, nesse caso, sou meio que obrigada a selecionar as mais mórbidas e refreá-las. Essa parte é a mais difícil, porque não me sinto no direito de optar.
Uma senhora passa através de mim apressadamente. Puxa uma garotinha com firmeza pela mão. A mulher não dá sinal de notar minha lânguida presença e continua a caminhar, resmungando como uma velha, apesar de estar na casa dos trinta anos. A menina, por sua vez, para de avançar de súbito, empacando no lugar. Seus olhinhos arregalados procuram por algo, correndo nervosamente o ambiente à sua volta, até que pousam no meu rosto. Sorrio, apesar da tristeza e mesmo sabendo que sou invisível aos seus olhos.
– Vamos, Bianca. Não temos tempo a perder. — Balbucia a mulher, agarrando o delicado pulso da criança. Ela se interrompe mais uma vez e olha para trás novamente, mas acaba por ceder às ordens da mãe e segue seu caminho. Por algum motivo, crianças sempre são mais sensitivas que os adultos.
Assim que as duas desconhecidas saem do meu campo de visão, tudo fica turvo. Um tremor parecido com um choque elétrico percorre meu crânio e trinco os dentes com a sensação.
Estava demorando muito para acontecer.
–-
Estou em uma sala vazia e totalmente asquerosa. As paredes são infiltradas, o assoalho de linóleo verde-musgo está imundo, os quadros espalhados pelas paredes são de muitíssimo mau gosto e todo o cômodo cheira a podridão. "Um cárcere", pondero, analisando cada detalhe do lugar com cuidado. Preciso registrar com perfeição a visão — só assim poderei fornecer informações completas a Vítima.
A lâmpada que ilumina o ambiente não cumpre sua função com grande êxito, e sua luz cálida obriga meus olhos a forçarem passagem pela escuridão. Ando um ou dois passos para frente, procurando por alguém.
Ouço um gemido e corro os olhos em busca do dono da voz. Não há ninguém aqui. Fico de repente mais altiva e começo a correr em torno da sala, sem entrar em desespero.
Pouco depois, encontro a sortuda Vítima do dia.
Está sentada em um dos quatros cantos da sala, amordaçada e completamente envolta por cordas. Sua pele está arroxeada devido à força com a qual as cordas foram amarradas em torno do seu corpo. Algumas áreas da sua pele estão abertas em feridas terríveis e frescas, levando-me a pensar que provavelmente apanhou antes de ser confinada. Aparenta ter quinze ou dezesseis anos, nada mais nada menos que isso. Sua característica mais marcante é, de fato, o cabelo: repicado, brilhante e tingido da raiz às pontas de um vermelho-cereja chocante.
Aproximo-me rapidamente de sua frágil presença e acaricio sua bochecha corada. Seu rosto primeiro se contorce em uma careta de dor. Depois, o alívio estampa seus olhos e duas covinhas se formam, sinal de que há um sorriso por baixo da mordaça. Mesmo sabendo que esta cena não está de fato acontecendo (não ainda), fico muito comovida em ver aquele semblante esperançoso e não poder fazer nada.
Tão jovem. Tão vulnerável... Ela lembra tanto a antiga Alice, a Alice vivaz, simplória e feliz.
Afasto-me dela lentamente. A premonição precisa continuar acontecendo, caso contrário não terei condições de impedir sua concretização. Sento-me no canto contrário da garota, aguardando pelo assassino. Não sei quanto tempo se passou — minhas visões são atemporais -, mas já estou pensando em desamarrá-la quando a porta finalmente se abre. Fico de pé e vou até o definhado garoto que acabou de entrar.
Faço uma anotação mental das suas características físicas: mais velho que a Vítima, cabelo castanho desgrenhado, olhos verdes, altura mediana, aparência inocente e óculos fundo-de-garrafa pendurado na ponta do nariz arrebitado. Ah, e um péssimo gosto para cores de moletom.
Não me parece muito ameaçador, mas não sou ingênua o bastante para achar que todos os criminosos têm uma aparência intimidadora. Já presenciei uma infinidade de casos nos quais a Vítima parecia muito mais perigosa que o assassino.
– Hora do show, baby — anuncia ele, mexendo no bolso traseiro da calça. Quando sua mão retorna, está segurando uma pequena faca, a qual é parecida com um daqueles bisturis hospitalares. Ele ergue a arma e sua lâmina brilha sob a luz artificial. A cena me faz lembrar um filme de terror psicológico muito antigo, no qual um médico sociopata mata os pacientes no meio das intervenções cirúrgicas.
Com a visão da faca, a menina começa a soltar gritos abafados e a contorcer-se loucamente.
– Ah, cala a boca, sua vadia. Você só está pagando o preço por ter dedurado sua irmã e eu para a polícia — o Assassino pega o canivete e começa a cortar as cordas uma a uma — Você faz ideia do quanto sua maldita língua nos custou? Sabe o que é passar dias e mais dias preso em uma cela imunda e cheia de homens desorientados loucos para te estuprar?
Ela assente com a cabeça freneticamente. Agora que está livre das cordas, consigo ver com clareza as marcas em seu corpo. São muitas. Uma pior que a outra. Deve ter doído.
– Ainda não consegui tirar Vivian do presídio — afirma ele, amargo. Em seguida, cospe no chão ao lado da Vítima. E ainda por cima o desgraçado é asqueroso! Que ótimo partido. — Como você teve coragem de fazer isso com sua própria irmã?
Eu sei que a pergunta foi retórica, pois a mordaça ainda estava na boca da adolescente. Esta, vendo-se impedida de defender-se com palavras, limitou-se a chorar. Posso sentir tudo o que ela sente pensar tudo o que ela pensa sofrer tudo o que ela sofre. O sangue corre cortante pelas nossas veias, nossas pernas estão dormentes e nossa mente não passa de um emaranhado confuso. De repente, eu não sou mais Alice. Sou a Vítima. Seus pensamentos são canalizados violentamente para a minha cabeça, as palavras suplicando na minha consciência:
"Yan, eu não tenho culpa. Não fui eu quem dedurou a Vivi e não faço ideia de quem tenha sido. Sinto muito por tudo, eu também não quero que Vivian fique na cadeia. Eu fui a primeira a perdoá-la, a primeira a apoiá-la. Eu sempre fui mais do que uma irmã, fui sua melhor amiga".
Mas é claro que nada disso pôde ser dito em voz alta. Aqueles que são movidos pelo rancor raramente dão oportunidade para as pessoas se justificarem.
O Assassino lança um sorriso sardônico à vítima e desfere o primeiro golpe com a faca. Ele quer torturá-la antes de acabar de vez com sua existência, então atinge primeiro sua mão direita. A menina dá um grito agudo e abafado pela mordaça, enquanto a dor ardente espalha-se pela carne. Lágrimas escorrem pela sua bochecha à medida que o sangue se esvai do ferimento.
– Isso foi por todas as vezes que usei o banheiro coletivo da cela — diz ele, ainda com um sorriso doentio delineando os lábios.
Segundos depois, ergue o canivete novamente e golpeia o antebraço magro e previamente ferido da vítima. A lâmina penetra quase até a metade no corpo delicado da garota. Ela parece estar prestes a desmaiar de dor, pois revira os olhos e joga a cabeça para trás em agonia. Sangue quente e turvo jorra do ferimento. Caso ele simplesmente a deixasse ali sem tentar estancar o machucado, a morte seria dada por hemorragia.
– E isso foi pelos meses a fio que passei sem ver Vivi.
Ao invés de tirar o canivete, o assassino simplesmente impulsiona a lâmina para baixo, rasgando horrendamente a pele da menina. Um talho grotesco abre-se em seu antebraço e uma boa quantidade de sangue turvo e quente escorre do corte. O compartilhamento de pensamentos entre a Vítima e eu é interferida, o que só pode significar duas coisas: ou ela morreu, ou caiu na inconsciência. Fico com a segunda opção, já que não houve perda de sangue suficiente para uma morte e o assassino não chegou a atingir nenhum órgão vital ou artéria.
Estou esperando mais tortura e cortes quando o Assassino me surpreende sacando uma arma reluzente de dentro do bolso. Noto pela primeira vez que lágrimas caminham pelo seu rosto pálido. Ele pode até ser um criminoso vil, mas está claro que não tem experiência com assassinatos. Caso contrário, a menina teria sido torturada até que todo o seu sangue fosse drenado pela a lâmina daquela faca. Em seus olhos, distingo um lampejo de culpa e arrependimento, como se fosse uma criança e estivesse sendo reprovado pela mãe. Aposto que ele quer acabar logo com aquilo, quer sanar o sofrimento de ambas as partes. Talvez até deseje voltar para a prisão, que é certamente um lugar adequado para gente do seu tipo.
(Você não é esse tipo de pessoa, o que você está fazendo com a sua vida?)
Ele definitivamente precisa terminar logo com isso.
– E isso... — Murmura ele. — E isso é por você ter sido tão infantil em suas escolhas!
Dito isso, o tiro é dado. A bala penetra o coração da menina, que dá sua batida final. Tudo o que consigo ouvir agora é um misto do som dos prantos do Assassino e dos ruídos urbanos de Londres.
Instantes depois, minha visão fica turva novamente e saio do cárcere.
Estou novamente sentada na beira da calçada, exatamente na mesma posição de antes. Preciso de um tempo para assimilar as ideias. Estico um pouco meus membros doloridos e pressiono um dedo na têmpora, em uma tentativa frustrada de acabar com a dor de cabeça.
Certo, Alice. Agora você só precisa achar a Vítima e impedir que a tragédia que acabou de profetizar aconteça.
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