Smells Like Teen Spirit
4 Pesadelos
Notas iniciais
Um par de olhos azuis profundos me encarava a meia luz. Estava deitado com as mãos cruzadas atrás da cabeça, e um os cantos da boca curvada pra cima, num sorriso torto. Abri a boca para falar alguma coisa, mas não encontrava as palavras adequadas. Eu poderia dizer “o que você está fazendo aqui?!” misturado com um “sai já da minha cama” e um pouco de “aonde você se enfiou a duas noites atrás?”. Mas em vez disso usei a junção dos três termos que ficou:
- Que porra é essa? – falei lenta e calmamente. As sobrancelhas dele se uniram formando uma expressão confusa.
- Não vai gritar? Nem desmaiar? – falou cínico.
- Não vou desmaiar! – disse asperamente. Olhei para baixo confirmando que minha toalha estava bem fechada – e porque eu deveria gritar? – dei de ombros. Os lábios de Andy se separaram num respirar rápido e ele se sentou, me encarando.
- Você sai do banho, de toalha – ele gesticulou com um dedo para mim, senti o sangue subir para meu rosto – encontra um homem deitado na sua cama e não tem o impulso de gritar? – disse Andy suavemente.
- Você é nojento sabia? – fiz um som de nojo e marchei até o armário em busca de roupas. De relance vi seu sorriso debochado. Ele veio mais pra ponta da cama, mais pra perto de mim. Abri o guarda-roupa, catando lá no fundo meu pijama de ursinhos, foda-se o que ele vai achar. Marchei de volta até o banheiro sentindo os olhos de Andy as minhas costas. Coloquei meu pijama rapidamente e penteei os cabelos. Voltei pro quarto batendo a porta um pouco mais forte do que pretendia, Andy me olhava com uma expressão indecifrável.
- Agora que estou vestida, dá pra explicar o que faz no meu quarto a essa hora? – perguntei ainda de pé. Ele olhou para a janela, olhou para mim.
- Vim te visitar – disse num sorriso felino. Ah que maravilha...
- Como descobriu onde fica a minha casa?
- Jake – admitiu. Eu ia matar o Jake! – você não faz idéia do que ele é capaz de contar quando ameaçam bater naquela moto com a guitarra dele – seu tom sarcástico deu um brilho diferente em seus olhos – e antes que me pergunte, eu entrei pela janela – disse apontando para a mesma que estava aberta. Imaginei Andy se esgueirando pela minha janela a noite, isso não era bom, nem seguro. Soltei um suspiro e me sentei na cama, não muito próximo dele.
- Devo me preocupar com você entrando no meu quarto no meio da noite? – perguntei fitando seu rosto.
- Não – respondeu. Ele me pareceu sincero. Esperei um momento.
- Certo, eu sei que você não veio aqui me dizer que ameaçou espatifar a moto do Jake com uma guitarra. O que quer? – Andy desviou os olhos de mim e ficou tamborilando os dedos no meu edredon.
- Queria saber se você estava bem – falou ainda sem me encarar. Opa, como é?
- O que? – a descrença no meu tom de voz era palpável. Porque ele se preocuparia comigo?
- Eu chego em casa e fico sabendo que você saiu com Jake naquela moto assassina dele, seu celular ficou na minha casa, não sei seu endereço e você não dá as caras na escola...
- Foi na minha escola? – o cortei surpresa.
- Fui – seu tom era amargurado – pensei que você estivesse aos pedaços em alguma roda de caminhão por aí – Andy forçou um sorriso. Um nó se formou na minha garganta ao ver sua expressão, ele realmente estava preocupado, mas porquê? Não consigo entender isso, nos conhecíamos a menos de uma semana. Senti o nó inchar na minha garganta.
- Andy, olha eu...
- Trouxe seu celular e sua mochila – falou asperamente – a propósito, belas roupas – a ironia voltou a sua voz. Ele se levantou e andou até a janela.
- Aonde vai? – perguntei sobre- saltada me levantando da cama. Andy olhou para baixo e olhou para mim, a franja negra escondia parte de seus olhos agora, mas percebi o olhar tristonho. Me senti a pior pessoa de mundo.
- Vou embora, você precisa dormir – falou.
- Andy! – meu deus ele ia se jogar do segundo andar da minha casa? Ele era doido? Fui correndo até a janela e segurei seu braço. Ele me encarou com um meio sorriso.
- Não sou tão idiota – percebi que tinha uma escada recostada no parapeito da janela. Me senti meio constrangida. Ele desvencilhou o braço que ainda tinha meus cinco dedos grudados e segurou minha mão, passando o polegar suavemente até o meu pulso. Seus olhos se estreitaram quando viu algumas cicatrizes que enfeitavam meu braço, passou o polegar por cima delas delicadamente.
- Não faça nada imprudente Mel, não vale a pena – falou. Era um pedido, não sabia se ele se referia ao que aconteceu na casa dele ou as cicatrizes. Seus olhos azuis reluzentes me encaravam por baixo da franja, a voz era como uma melodia lenta e aconchegante. Meu coração disparou e minha respiração ficou mais rápida. Assenti a cabeça. E então ele foi embora. Fiquei imóvel por alguns minutos e depois fechei a janela. Eu sentia meu coração espremido, havia alguma coisa terrível por trás daqueles olhos azuis que só hoje eu pude notar. Deitei e puxei as cobertas até a cabeça, coloquei os fones no volume máximo e acabei adormecendo.
Escuridão e gritos. Escuridão e choro. Escuridão e sangue. Eu caminhava em uma clareira, meus pés descalços em contato com a grama úmida e folhas de carvalho. O ar estava denso e meio nebuloso, mas risadas familiares chamaram minha atenção então segui em frente. Fui afastando os galhos secos das árvores de outono do meu caminho e de repente avistei duas silhuetas: um garoto, de uns 15 anos, cabelos castanhos, pele levemente bronzeada e olhos profundos. Um pouco atrás dele estava uma garota magricela, uns 8 ou 9 anos. Cabelos igualmente castanhos suspendidos num rabo de cavalo mal feito, com um lacinho cor de rosa que combinava com o vestido de babados. Parecia uma bonequinha de porcelana. Então um som de corte e um grunhido terrível. O garoto saiu correndo e a menina atrás dele.
- Brawian me espera! – gritava ela. Então ele se abaixou em meio a um punhado de folhas secas, fazendo uma careta de surpresa.
- Mel... olha isso – falou colocando as mãos entre as folhas. Essas palavras automaticamente me puxaram para uma lembrança da minha infância. Uma lembrança minha e de meu irmão. E naquele momento eu era novamente a garotinha de porcelana.
Brawian tirou um filhote de gato de entre as folhas, no começo eu não entendi o porque de ele estar espantado mas depois vi que o pobre animal caíra numa armadilha e estava com a pata traseira machucada, um corte terrível. Levei a mão a boca afim de conter o grito.
- Calma – disse ele.
- Não podemos deixar ele aqui – disse. Fitei o gato e não pude impedir as lágrimas quando o felino soltou um miado de dor.
- Não vamos deixar ele aqui, por favor Mel, não chore – falou Brawian tirando o casaco e enrolando o bichano nele.
- Mas papai não gosta de animais – falei entre soluços.
- Não pense nisso agora, vamos achar uma clínica veterinária – Brawian se levantou com o gato aninhado nos braços e saímos correndo.
Me lembro de termos juntado nossas mesadas e pagado um veterinário para o bichano. Depois levamos para casa e nos revezávamos para cuidar dele, claro que nossos pais nem sonhavam com a existência dele. Nós o mantínhamos trancado dentro do quarto enquanto eles estavam em casa, mas um dia ele saiu.
- NÃO ME INTERESSA SE ESSE ANIMAL IA MORRER! QUANTAS VEZES LHES DISSE QUE NÃO QUERO BICHOS NESSA CASA?! – esbravejava ele a nossa frente. Papai estava um fera, ele chegou em casa e viu o gatinho deitado no sofá e chutou o animal porta afora. Mamãe estava ocupada demais no telefone agendando consultas e botando a fofoca em dia, e Marta assistia tudo sem poder intervir. Eu e Brawian estávamos de cabeça baixa.
- Isso foi uma grande desobediência! E PELAS MINHAS COSTAS! HÁ QUANTO TEMPO MANTINHAM ESSE BICHO AQUI? – ele cuspia as palavras com nojo, como se tivéssemos cometido um atentado terrorista. Nenhum de nós respondeu.
- RESPONDAM! – ele bateu com o cinto no recosto do sofá que fez um som seco e aterrorizante. Comecei a chorar com o susto.
- Umas 3 semanas – falou Brawian ainda sem levantar a cabeça.
- E imagino que a idéia foi sua não é mesmo Brawian? – a expressão de descrença ficou mais furiosa em seu rosto. Abri a boca para dizer alguma coisa, mas o som não saia, eu mal podia me mexer de medo.
- Isso mesmo, a idéia foi só minha e eu obriguei Mel a me ajudar – respondeu Brawian. Não! Isso não era verdade, a idéia foi minha! A culpa é exclusivamente MINHA! Queria gritar as palavras que ficaram presas na garganta.
- Se é assim, Melanie, se retire – disse nosso pai, ríspido. Continuei imóvel, sabia o que ia acontecer. Ele me olhou impaciente.
- RETIRE-SE! – esbravejou. Comecei a chorar mais compulsivamente, Marta entrou voando na sala me pegando no colo e me levando para a cozinha. Segundos depois eu conseguia ouvir meu irmão gritando e meu pai falando coisas do tipo “nunca mais me desobedeça”. Pela fresta que ficou entre aberta da porta eu via Brawian no chão e meu pai furioso descarregando com toda a força a cinta nele. Chorei mais ainda, como se fosse possível, Marta apoiava minha cabeça em seu ombro obstruindo minha visão.
- Shhhhhhhhh Mel, você vai ficar bem – dizia ela me balançando em seus braços.
O lugar rodou e estremeceu.
Como num filme que você adianta com o controle remoto, eu estava no mesmo lugar, na mesma hora, olhando pela mesma fresta, dois anos depois.
- Isso é o que?! Um protesto?? Algum tipo de rebelião adolescente?? Essas roupas?? Esse cabelo?? Piercings?? – gritava meu pai.
- Você não manda na minha vida! – berrou Brawian esfregando o lado do rosto onde segundos antes fora esbofeteado.
- É O QUE VAMOS VER! – dessa vez não havia cinto, apenas agressão corporal, pura e violenta. Sangue. E como da primeira vez eu chorava, incapaz de qualquer coisa. Sempre incapaz de qualquer coisa.
- Shhhhh Mel, você vai ficar bem – dizia Marta novamente, afagando meus cabelos.
[põe pra trocar Shattered]Me libertando das lembranças doloridas, eu corri. Pra fora daquela casa, pra fora daquelas ruas, daquela dor. E estava na clareira novamente, atravessando dezenas de árvores, os olhos embaçados. No final delas tinha um lago, e na outra margem do lago um garoto ajoelhado, as mãos juntas como se estivesse rezando, mas ele chorava. Brawian? Não conseguia distinguir nada na escuridão da madrugada. Senti pingos gelados sobre minha pele, chuva. Frio, muito frio. Os cabelos pretos cobriam seu rosto, reflexos vermelhos pingavam de seus cabelos deslizando por seu queixo pálido, sangue? Corri até ele, contornando o lago. Ajoelhei a sua frente envolvendo-o em meus braços, ele não retribuiu o abraço, como se não tivesse me visto chegar. Eu não me importava, apenas queria protege-lo, protege-lo do mundo, da dor, da crueldade. Lágrimas se misturavam com a chuva e com o sangue. Sangue? Ele estava machucado? Me afastei de seu corpo gelado percebi cortes por seus braços, camiseta preta rasgada e sangue brotava de todos os lados...
Imagens de dois carros colidindo com um caminhão passaram diante de meus olhos, sons estrondosos de freadas bruscas e uma explosão. Meu Deus...
- Você precisa de um médico! – gritei apavorada. Ele não se mexia.
- Fala comigo! Por favor – tentei sacudi-lo delicadamente. Passei a mão por seu rosto que pingava chuva e sangue, tirei a franja que cobria seus olhos. Agonia e dor se misturavam num sentimento tenebroso, um nó na minha garganta pareceu explodir e eu engasguei.
- ANDREW! – gritei como eu nunca havia gritado antes. Senti tudo estremecer e apenas esse grito ressoava em minha mente, repetidas vezes.
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