Smells Like Teen Spirit
5 Capítulo 5 - Novo Parceiro
Notas iniciais
Eis mais um capítulo. Eu tava pretendendo fazer uma fic curta, mas me deu um surto de idéias e eu decidi revolucionar um pouco as coisas, começando por este capítulo em especial. Espero que apreciem (:
Já se passaram duas semanas desde o pesadelo que me fez acordar gritando a plenos pulmões. Desde então eu tenho receio de chegar perto do meu quarto, e só durmo com a luz do abajur acesa. É infantil, mas eu me sinto melhor assim.
Durante esses dias, voltei a minha rotina normal, agora com Matt sempre a tira colo, quase como Batman e Robin. Ele se mostrou bastante confiável guardando meu segredo, cada dia que passa somos mais amigos. Sidney continua no seu “vai e volta” com o Guilherme, a professora de biologia se demitiu depois de ser agarrada por uma aluna no banheiro. (isso mesmo, uma ALUNA. Tem crescido bastante o número de lésbicas na minha escola, até eu me sinto incomodada com alguns olhares volupiosos...) e Andy sumiu, novamente. Me lembro de discutir com Matt sobre qual filme iríamos ver no fim de semana, acabou que decidimos que iríamos decidir na hora. Depois eu acabei dormindo no meio de uma pilha de livros de história enquanto fazia um resumo sobre a segunda guerra mundial. Com o tempo foram os livros para o chão e eu para o sono.
Vozes e luzes me diziam que já amanhecera. Continuei de olhos fechados, ainda inerte pela sonolência. Não queria sair da cama, de jeito nenhum. Ouvi o leve bater da porta no andar de baixo e em seguida passos apressados subindo escada acima. Eu ia despertar em 3,2,1...
- MEEEEEEEEEEEEEEL! MAAAAATT!!! ACORDEEEEEEM! – berrava Marta no corredor. A voz entrou como uma agulha cutucando meus tímpanos. Abri os olhos com um pouco de relutância. Marta “o despertador” ataca novamente.
Levantei e me arrastei até o banheiro. Refiz a chapinha do meu cabelo que já estava com algumas pontas enroladas, escovei os dentes e lavei a cara de sono. Vesti qualquer coisa para enganar meus pais e coloquei um macacão jeans-preto rasgado cheio de bottons, juntamente com uma meia-arrastão e meu all star xadrez na mochila. Peguei meu celular e sai do quarto encontrando Matt no corredor, ele dormia no quarto ao lado do meu.
- E ai – me cumprimentou ele.
- E ai – respondi e descemos para a cozinha. Procurei por Marta e não a encontrei. Na porta da geladeira havia um bilhete verde que quase reluzia. “Fui na feira. Tem vitamina de banana na geladeira, bom dia!” Quem vai na feira as oito horas da manhã? Resposta: minha babá/amiga.
- Fez o resumo? – perguntou Matt com um copo de café na mão. Abri a geladeira e me servi de vitamina de banana.
- Fiz, tá uma porcaria – disse dando um gole.
- Nerd fajuda – murmurou ele com um meio sorriso.
- Ah cala a boca – terminei minha vitamina e saímos. Uma das coisas boas em Matt ter vindo morar comigo era ir de carro todo dia pra escola. Ele tinha uma BMW prata muito simpática e brilhante, e dirigia graças a emancipação. Ter um amigo emancipado é tudo de bom. Outra novidade era que agora em vez de eu trocar meus trajes no banheiro, eu trocava dentro do carro dele. Nas primeiras vezes eu até ficava constrangida, mas nós tomávamos banho juntos quando éramos crianças, então foda-se. E hoje era um dia muito especial, porque? Tinha uma linda e maravilhosa prova de química! Isso logo nos dois primeiros períodos, eba! Uma notícia dessas acaba com a manhã de qualquer um. Chegamos na escola com 40 minutos de antecedência, Matt colocou sua simpática BMW no estacionamento da PUC ao lado de um lindo Jeep Comander preto. Nunca havia visto esse carro por aqui. Peguei minha mochila e fomos procurar o Sidney.
- Que droga ele não tá aqui – disse depois de revirar a escola atrás dele.
- Ele não tava ferrado em química? Tipo, se não tava, agora ele tá – falou Matt soltando uma risada sarcástica. A risada sumiu quando viu minha carranca.
- vou ligar pra ele – disse por fim. Tentei umas dez vezes, caixa postal. SIDNEY SEU IRRESPONSÁVEL! Eu queria berrar no ouvido dele. Ele realmente não podia perder essa prova, era tipo a tábua de salvação, ou seja lá o que quiserem chamar. Fechei os olhos massageando as têmporas com os dedos, que droga. O apartamento do Sid não ficava muito longe daqui, então só o que eu tinha que fazer era ir até lá, jogar ele dentro do carro e trazer pra escola. O saguão estava começando a lotar, o que significava que já ia começar as aulas.
- vamo buscar ele – disse disparando para o portão. Matt veio atrás de mim tentando acompanhar meus passos rápidos.
- E o que você pensa em fazer? Jogar ele dentro do carro e trazer pra cá? – perguntou ele com os braços abertos.
- Esse é o plano A – respondi.
- Yes Hitler! – falou num sorriso, não pude deixar de sorrir também. Ah Sidney o que você não me faz fazer. Assim que pus o pé no portão senti um impacto e em seguida eu me encontrei no chão sentada.
- Mas que por...- comecei a olhar pra cima e avistei uma figura feminina distorcida pelos raios do sol. Estreitei os olhos e pude notar os cabelos louros ondulados.
- Olha por onde anda retardada – falou com a voz fina e irritante. Depois a figura saiu batendo o salto portão adentro. Meu, quem usa salto pra ir pra escola?
Matt me ajudou a levantar e olhei-a novamente. Estava indo para o corredor das salas juntamente com duas garotas morenas baixas.
- E quem é essa? – perguntou Matt confuso. Realmente, nunca tinha visto essa fulaninha por aqui.
- Deve ser aluna nova – dei de ombros.
- Teremos problemas – suspirou Matt.
Depois de passar alguns sinais vermelhos e correr mais do que o necessário, chegamos ao prédio onde o meu estimado amigo morava. Se a polícia não viesse atrás da gente estávamos no lucro. Pegamos o elevador até o sexto andar, me lancei pelo corredor procurando a porta 316, tentei a maçaneta e estava destrancada. Meti o pé na porta fazendo um estrondo proposital. A cena era linda: um furacão tinha passado por ali.
Roupas espalhadas pela sala, garrafas e mais garrafas de bebidas por cima dos móveis e dois marmanjos nus estarrados no sofá. A festinha foi boa. Ignorei os rapazes e fui até o quarto seguindo os rastros de roupas. Na cama tinha outro rapaz loiro dormindo de bruços, nem sinal do Sidney. Porque todos eles tem de estar sem roupa? To me sentindo numa casa de pornografia. Ah Sidney você vai ficar me devendo uma, e das grandes!
Fui novamente até a sala e vi Matt na porta com os olhos arregalados numa expressão indecifrável. Se não o conhecesse diria que estava admirando os seres desnudos roncando no sofá. Joguei as mãos pra cima e fui para o banheiro, abri a porta e quem eu encontro? Ele mesmo, meu procurado amigo esparramado no chão entre a privado e o box. Podre de bêbado, a julgar pela garrafa de vodka pela metade que ele tinha na mão. Pelo menos tava de cueca.
- Matt! – berrei de dentro do banheiro. To nem aí se vou acordar os peladões, tenho que reanimar o Sid e jogar dentro daquele carro. Matt entrou no banheiro e parou na porta.
- Ele tá vivo né? – perguntou assustado. Revirei os olhos.
- Me ajuda aqui – colocamos o pé de cana debaixo do chuveiro. Ele ressuscitou e ainda meio grogue dizia coisas do tipo “Mel que tá fazendo aqui?” e “Matt você é muito gostoso” até bêbado ele tem cara de pau.
- Toma tudo isso, e rápido – disse estendendo o copo de café pra ele. Recuperado, vestido e com cara de tacho, Sidney estreitou os olhos para o café.
- Remédio pra pé de cana é amargo – falei cruzando os braços a sua frente. Ainda estávamos no banheiro, Matt recostado na porta e nosso bebum sentado na privada. Cena bonita essa.
Fiz ele engolir o café e arrastei até a porta. Passamos pela sala e os pelados continuavam semi-mortos no chão.
- Quem são esses aqui? – falou Sidney surpreso e comendo os garotos com os olhos.
- estão na SUA casa – cutuquei sei ombro – afinal o que houve?
- Eu dei uma festinha pra comemorar o fim do meu namoro – ele fungou fazendo cara de triste. Ah então era isso, depressão pós pé na bunda.
- E esse bando vai ficar aí? – perguntou Matt apontando para os seres que se remexiam no sofá.
- Jogar pela janela é que não dá né – falei dando de ombros.
- Que bagunça...nunca mais vou beber – gemeu Sid fechando a porta.
Voltamos pra escola numa corrida fenomenal e conseguimos enfiar as fuças dentro da sala, cinco segundos antes do sinal tocar. Sentei na minha carteira dupla no fundo da sala limpando o suor da testa com as costas da mão e ouvindo Matt ofegar ao meu lado. Sidney sentou logo atrás da gente jogando a mochila no lugar vago ao seu lado.
- Essa foi por pouco – murmurou Sid com cara de santo.
- Se não fosse por você – Matt apontou um dedo acusador para ele – não precisaríamos correr feito bandidos fugindo de um assalto a banco!
- Eu?? – a voz de Sidney subiu duas oitavas – não pedi pra você ir junto, foi de metido que é – cuspiu as palavras irritado.
- Imbecil irresponsável – falou Matt dando de ombros e se virando pra frente.
- mauricinho metido – retrucou Sid também dando de ombros. Certo, desde o primeiro dia que Matt chegou nessa escola que Sidney implica com ele. São gato e rato. Isso me dava nos nervos. Levei as mãos até o rosto apoiando os cotovelos na carteira gelada. Os alunos estavam todos sentados cochichando, nada da professora. Que bonito da parte dela atrasar bem no dia da prova.
- não tem xingamento melhor não Sidney? – Matt estava virado pra trás novamente encarando Sid a centímetros de distancia, eu os olhava de canto, imaginei faíscas saindo dos olhos deles nessa hora.
- pra falar a verdade, tenho sim – começou Sid sarcástico, depois apoiou as duas mãos na carteira e aprofundou o olhar – você parece uma galinha com esse cabelo – pronunciou palavra por palavra como se falasse com uma criança. Matt estreitou os olhos e seu queixo caiu, demorou alguns segundos pra se recuperar do choque. Enquanto o casalzinho discutia as minhas costas percebi as botas de cowboy da minha professora escandalosa adentrarem na sala, os olhos dela automaticamente se viraram para o fundo.
- Galinha é a sua... – Matt estava quase gritando, mas eu o interrompi com um beliscão nada sutil e ele se virou pra frente encontrando a carranca da professora.
- Bom dia turma – começou ela agora se dirigindo para todos os alunos. Alguns responderam “bom dia”, outros murmuraram um “você estragou o meu dia” tipo eu.
- Eu gostaria de iniciar logo a prova, se o trio da bagunça estiver de acordo – ela voltou os olhos para nós com um tom sarcástico e ameaçador. Em dúvida, assenti com a cabeça sentindo o sangue subir para o meu rosto. Verônica era minha professora de química há dois anos, e nesses dois anos ela conseguiu me fazer odiar essa matéria. Tipo, a mulher pega no meu pé por prazer, quarentona nojentinha.
Logo depois do showzinho ela entregou as provas. A cola rolou solta, Verônica podia ser chata, mas era burra igual uma porta quando o assunto era vigiar os alunos. Entreguei minha prova gargalhando por dentro, sabia que todas as respostas estavam corretas, pois eu tinha o livro debaixo da classe. Me senti como se bebesse seu sangue num cálice de ouro sentada num trono, sensação maravilhosa.
Depois disso, tivemos três períodos de ensino religioso com um professor muito louco que acreditava que o mundo acabaria em 2012, intervalo onde eu comi batatinhas fritas vendo Matt e Sidney se xingarem igual crianças de quatro anos. E claro, aquela loira que esbarrou em mim no portão me olhava e ria descaradamente pra mim. To cagada minha filha? Por fim, tocou o sinal me avisando que só restavam mais três períodos de biologia, e depois eu estava livre desse manicômio. Puxei meus queridos colegas – que no momento discutiam pra ver quem era mais inteligente que quem – pela camiseta, indo na contra-mão a várias pessoas que estavam paradas olhando alguma coisa. Era estranho ter tanta gente ali, mas eu queria chegar na minha sala rapidamente para me livrar disso rapidamente, sacas? Deixei eles na aula de Matemática e fui andando com passos apressados até o fim do corredor, onde ficava a minha. Como que por uma maldição tenebrosa eu dou de cara com aquela loira nojenta bem na porta, ela fazia biologia comigo? Que maravilha. Passado o susto ela franziu o nariz e me olhou com superioridade.
- Sempre no caminho – disse entrando e fechando a porta na minha cara. Que sujeitinha mau caráter... Eu queria mutilar a cara dela com a maçaneta, mas me controlei.
- Calma, últimas duas horas, últimas duas horas – disse para mim mesma exalando profundamente. Entrei na sala e ocupei meu lugar, a primeira carteira da fileira do meio. Eu sentava sozinha, a única aluna que sentava sozinha, pois todas as outras mesas estavam lotadas. Todos os alunos cochichavam e riam histericamente, demorei um minuto para encontrar o motivo do riso. A lousa... meu queixo caiu como se pesasse cem quilos.
Bem na minha cara tinha dois pôsteres ENORMES pendurados na lousa. Um era de uma garota completamente NUA, e o outro de um garoto também NU. E em cima da pornografia explícita estava escrito com caneta vermelha “Reprodução Humana”. Eu não podia ver meu rosto no momento, mas sabia que meus olhos estavam pulando pra fora das órbitas. É muita nudez pra pouco eu. Isso só pode ser coisa do novo professor. Tirei meu caderno rabiscado de dentro da mochila e uma caneta para desviar a atenção da profanidade a minha frente. De repente a porta se abre e dela surge um homem calvo, baixo e um pouco musculoso. A cara de mau fez o silêncio prevalecer. Ele se dirigiu até o meio da sala e cruzou os braços olhando de aluno em aluno como se nos avaliasse.
- Boa tarde. Eu sou o novo professor de biologia, Carlos Smith – falou com a voz autoritária e grossa. O que? Esse seria o novo professor? Não imagino esse ser falando sobre sexo... isso vai ser bem... constrangedor.
- Alguém sabe que assunto iremos abordar a partir de hoje? – começou ele andando de um lado para o outro, calmamente.
- S-E-X-O – disse uma garota lá no fundão, me virei pra trás e encontrei a loira nojenta com um sorriso malicioso na cara. Algumas pessoas riram discretamente, outros nem tanto.
- Muito bem, esse é o tema principal, mas existem etapas – ele apontou um dedo para ela – qual seu nome?
- Eliana – respondeu, dessa vez não me virei para olha-la. O professor Smith girou para mim transferindo o dedo para minha cara.
- Você, qual seu nome?
- Melanie – respondi automaticamente, envesgando com aquele dedo pontudo e peludo.
- Melanie, o que é ciência?
- Ciência é... – procurei as palavras – algo que nos incita a investigar – pareceu mais uma pergunta do que uma resposta.
- Com suas palavras – disse ele desafiador.
- Ciência é uma investigação – falei, agora com mais convicção.
- Isso mesmo! – ele girou novamente andando de um lado para o outro – Ciência é uma matéria que nos faz virar espiões, investigar o que acontece na atmosfera, ao seu redor – ele fazia gestos com as mãos para demonstrar.
- O que isso tem haver com sexo? – perguntou alguém.
- Sexo – ele pronunciou – é uma investigação – ele levantou a mão mostrando os cinco dedos – Aproximar, investigar, atrair, convencer e consumar – o professor abaixou um dedo para cada item – estou certo ou não? – várias pessoas se entreolhavam pensativas.
- Por isso, para começarmos – um sorriso desafiador surgiu – vamos agir como detetives – ele foi para o meio da sala abrindo os braços – misturem-se! – ordenou.
- Como assim? – gritou uma voz logo atrás de mim.
- Troquem de lugar, imagino que já estejam bem familiarizados com seu companheiro por isso o escolheram. Não quero familiarização, quero que ponham suas cabecinhas fracas pra funcionar e investiguem – falou enquanto andava entre algumas mesas e puxava alguns alunos de lugar. Fiquei parada vendo o tumulto de várias pessoas levantando e assumindo outros assentos involuntariamente. Senti a carteira ao meu lado ranger. Admito que não era bom sentar sozinha, mas sentar com alguém era pior. Eu não fazia o tipo “social” eu evitava as pessoas, meu único amigo há três anos era o Sidney, e agora também o Matt. O barulho de carteiras rangendo cessou enquanto eu fitava o all star com fivelas de metal do meu novo parceiro, senti seus olhos em mim, mas continuei olhando para baixo. Algo me dizia que era um aluno novo. Quando o professor foi para a frente da sala eu o encarei.
- Quero uma lista com características físicas e emocionais de seus parceiros para amanhã, e vale nota – anunciou – e sugiro que não inventem nada, pois vou confirmar se os fatos são verdadeiros – o tom ameaçador tinha um “se não...” explícito no final da frase. De repente seus olhos ficaram confusos, ele olhou de mim para o meu ‘novo parceiro’.
- Você é o aluno novo, estou certo? Qual seu nome? – falou se aproximando mais da nossa carteira. Então eu estava certa, nunca havia visto esse all star de fivelas por aqui.
- Daniel Druzzian – respondeu uma voz rouca e aveludada ao meu lado. Espera aí! Eu conheço essa voz. Levantei a cabeça e dei de cara com um sorriso malicioso iluminando 360º graus ao seu redor. Os cabelos extremamente negros, pele pálida como porcelana e expressão desafiadora. Eu abri a boca formando um “o” mas não saia som nenhum. Apesar dos olhos negros, era impossível não reconhece-lo. Mas a pergunta que preenchia minha mente era “COMO?” seguida e um “PORQUÊ?”
- Algum problema Melanie? – perguntou meu professor ao ver minha cara de espanto. Claro professor, o Andrew Dennis Biersack tá sentado bem do meu lado na aula de biologia, sorrindo descaradamente caso o senhor não tenha notado.
Fale com o autor