Smells Like Teen Spirit
20 Para a filha do Agente Funerário
Notas iniciais
Na manhã seguinte, me arrastei para fora da cama, e depois de uma passagem rápida pelo banheiro, segui sem rumo para a cozinha encontrar Marta que já estava sentada à mesa. Ela segurava uma xícara de café entre as mãos. Olhando-me por cima de sua caneca, ela sorriu.
- Bom dia.
Eu escorreguei na cadeira e Marta me fitou por um momento.
- Dormiu bem? — ela perguntou. Eu assenti com a cabeça.
- Eu não tive tempo de perguntar sobre a noite passada — disse — Você acabou se metendo em uma confusão hein.
- É mais ou menos isso — É melhor deixar por isso mesmo. Eu não queria ter que contar toda a história novamente, e além do mais, quanto menos gente souber, mais seguro é. Marta torceu o nariz.
- Pode me contar?
- Eu meio que me participei de um racha de carros com Matt ontem — falei, me lembrando da mentira esfarrapada que ele dera ontem. Não salvou minha pele, mas era melhor do que a verdade.
- Isso definitivamente não tem haver com você chica — ela franziu os lábios. Cocei a sobrancelha nervosa.
- Eu ando fazendo muitas coisas que não tinham nada haver comigo.
- Andrew? — arriscou ela. E lá vamos nós!
- Não tem nada haver com ele. Era uma aposta que eu fiz com o Matt — Ao olhar sua expressão, eu tinha certeza de que isso era pior. Eu pensei que ela iria me passar um sermão, mas Marta apenas suspirou e largou a caneca na mesa.
- Ele teve uma discussão horrível com Richard ontem, e ainda não saiu do quarto — sussurrou ela, num tom preocupado. Senti uma pontada de culpa, afinal, isso tudo aconteceu por minha causa.
- Eu imagino como ele deve se sentir — resmunguei. Marta me fitou por um momento.
- Eu não deveria te dizer isso, mas acho que você precisa saber antes de ficar se aventurando com Matt por aí — disse.
- O que?
- O pai dele o mandou pra cá, porque ele está sendo procurado pela polícia da Romênia — ela falou analisando meu rosto.
- Eu já sabia disso, ele me falou — disse.
- E tem outra coisa... — Marta hesitou por um momento.
- Olha Marta — interrompi — Matt não é lá a pessoa que eu mais confio, mas eu sei me cuidar ok. Vou ficar bem, e sobre noite passada — suspirei olhando para baixo, eu estava prestes a contar uma mentira — não vai mais acontecer.
De fato eu não sabia se não iria mais acontecer, talvez eu precisasse correr de outro mustang assassino novamente. Levantei da mesa e fui me arrumar para a escola.
Trinta minutos depois, eu andava sem interesse para a aula de Matemática, para encontrar Sidney já em nossa mesa, falando ao telefone, ignorando completamente o sinal na lousa que diz ser proibido o uso de celulares. Quando ele me viu, desligou o aparelho e me esperou com olhos apertados.
- Entregaram minha Mercedes sem nenhum arranhão há algumas horas atrás — falou enquanto eu jogava minha mochila em cima da mesa.
- É, eu sei.
- Não que eu esteja duvidando da sua sanidade, mas tem certeza de que estava sóbria noite passada? — ele me perguntou desviando o olhar para a porta.
- Completamente — afirmei. Sidney abriu a boca para falar alguma coisa, mas logo fechou, pois a professora entrava na sala batendo a porta com força.
- Todos sentados! — falou ela. Lancei um olhar conspiratório para Sid.
- Falta de sexo é foda — sussurrou ele.
Depois da aula, eu me arrastava pelo corredor, com nem um pouco de vontade de ir pra casa. Convenhamos que a bofetada que eu levei ainda doía bastante no meu ego. Se eu pudesse chegar sem olhar pra cara de ninguém e ir diretamente dormir, seria ótimo. Apressei o passo quando vi Eliana saindo da sala com um bando de garotas, não olhei na cara dela, mas tenho certeza que não passei despercebida.
- Bu! — meu coração deu um pulo e eu girei 360 graus para encontrar Hanna sorrindo atrás de mim, ao seu lado, Sidney balançava um folheto no ar.
- Se vocês querem me matar, seria mais eficaz um tiro não acham? — falei ainda me recuperando do susto.
- Para com essa mania de perseguição guria — Sid revirou os olhos me estendendo o folheto meio amassado.
Baile de Halloween, vista seu monstro e aventure-se na noite!
- O Halloween não foi mês passado? — perguntei.
- Foi, mas a PUC é meio lezada — respondeu Hanna — no fim todos os temas para a festa de arrecadação não eram tão bons quanto seres das trevas.
- Ah, o baile — disse.
- Estamos indo comprar nossas fantasias, e tu vai com a gente — acrescentou ela.
- Quem deu esse veredicto?
- Eu — se intrometeu Sid — por que EU mando em VOCÊ.
- Há, mais credo — dei uma risada que ecoou pelas paredes do corredor. Uns vinte minutos depois, estávamos nós três perambulando pelo shopping atrás de fantasias. Visitamos cinco lojas, sendo que na última tivemos que arrastar o Sidney de perto da fantasia de cinderela. Por fim, entramos na Fallen Angels Store, onde os manequins da vitrine estavam todos com impecáveis fantasias de vampiros. Inspecionamos todas as roupas da loja, Hanna encontrou um vestido longo, de um bordô brilhante, de mangas compridas rendadas e um decote em V. Sidney preferiu um sobretudo preto da época medieval, luvas pretas e um coturno, o resto ele disse que ia 'personalizar'. Eu não iria me surpreender se aparecese uns detalhes cor de rosa naquele sobretudo.
- E você? — me perguntou Hanna, dando um pequeno giro em minha direção.
- Não gostei de nada, acho que nem vou nesse baile — disse. Sidney me lançou um olhar repreensivo.
- Você vai sim! — falou indignado — é a última festa do ano, deixa de ser chata mulher.
- Mas meus pais...
- Seus pais que vão pro inferno, com todo o respeito. Eu vou te levar em que tenha que te enfiar numa bolsa e largar lá dentro!
- tá bom, calma — falei antes que meu amigo desse um piti no meio da loja. Hanna apareceu na minha frente com uma venda.
- Ei! — afastei as mãos dela — que isso?
- Eu acho que tenho o vestido perfeito pra você, mas tem que fechar os olhos, só pode abrir quando estiver pronta — ela repuxou os cantos dos lábios num quase sorriso felino. Rolei os olhos, decidindo participar da brincadeira. Agora virei uma bonequinha de vestir, olha só. Sem enxergar nada, deixei ela me conduzir para os provadores.
- aqui está — disse uma outra voz, que eu reconheci por ser a vendedora.
- que lindo! — Sidney deu um gritinho abafado, e mesmo sem conseguir vê-lo, sei que estava dando pulinhos atrás de mim.
- ah meu, só quero ver — falei tentando apalpar o vestido. Ele era de um veludo macio, como uma pena, ou o pelo de um coelho.
- Todos pra fora, eu vou vestir a senhorita Lockwood — ordenou Hanna, com uma alegria saltitante. Ela me conduziu até o provador, onde eu retirei minha calça skinny e minha camiseta de botões prateados. Hanna colocou o vestido sobre mim, e o ajustou ao meu corpo, quando ela o soltou, senti o tecido mais pesado do que eu imaginava. Ela ficou as minhas costas, ajeitando o tecido e fechando o zíper até metade das minhas costas.
- Ah que droga de zíper, não consigo fechar até o final — resmungou ela. Em seguida soltou um suspiro — nossa Mel, você está linda.
- posso me ver? Por favor — pedi.
- Ainda não, vou ali chamar o Sidney e quando eu voltar eu tiro a sua venda ok, me prometa que não vai olhar?
- Tudo bem — cedi em contragosto. Ouvi ela abrir o provador e sair. Fiquei ali parada, sem enxergar nada e morrendo de curiosidade para ver como eu estava. Dizem que quando perdemos um dos nossos sentidos, mesmo que temporariamente, os outros ficam mais aguçados. Eu conseguia ouvir várias vozes vindas de outros provadores "não teria uma número maior" "encolhe essa barriga" "não gostei dessa cor" e muitas outras que só se ouve quando muitas mulheres se juntam para experimentar vestidos. Logo a porta do meu provador se abriu novamente.
- Voltou rápido hein Hanna — falei dando um sorriso — posso tirar a venda agora? — ela não respondeu, apenas senti suas mãos procurarem delicadamente o zíper do vestido e fechá-lo até em cima.
- Mulheres sempre precisam de ajuda nos últimos detalhes — engoli em seco. A voz aveludada de Andrew penetrou nos meus ouvidos me paralisando totalmente, eu não esperava isso. Precisei de duas batidas cardíacas para conseguir formular as palavras.
- O que você está fazendo aqui? — perguntei, minha voz assustada.
- Se você pudesse se ver agora... Melanie, você está perfeita - falou ignorando totalmente minha pergunta. Agora eu senti ele mais perto, uns dois centímetros de distância do meu corpo. Suas mãos repousando gentilmente nos meus ombros, emanavam calor através do tecido. Puxei a venda dos olhos, pronta para chutar Andrew de dentro do meu provador, mas minha visão foi capturada por outra garota a minha frente. Ela usava um vestido (http://history.cosplaysky.com/media/catalog/product/cache/2/image/5e06319eda06f020e43594a9c230972d/V/i/Victorian-Gothic-Satin-Jacquard-Dress-Ball-Gown-1.jpg ) lindo, eu nunca havia visto nada igual antes. Era tão sofisticado, numa cor preta fresca, com mangas longas e alguns bordados aqui e ali, sem padrão específico. O que o deixava mais lindo ainda. A garota que o usava, me encara com uma expressão atônita, confusa, as íris cor de chocolate expandidas, e cachos vermelhos pendiam delicadamente abaixo de seus ombros. Depois dessa breve análise eu percebi que não era uma garota, era eu.
Então para minha surpresa, Andrew ergueu as mãos por trás dos meus cabelos, os juntando num coque folgado no topo da minha cabeça. Alguns fios rebeldes ficaram soltos, e isso deixava o penteado mais bonito.
- Você é perfeita — ele disse, abaixando para murmurar no meu ouvido — Nunca diga que você nao tem valor, Melanie. Ou pelo amor de Deus, que não é linda. Quando você tiver necessidade de acreditar nessas auto-críticas tão ridículas e sem senso, lembre de si mesma nesse momento.
Ninguém nunca me elogiou dessa forma. Por um minuto, eu fiquei ali, me admirando. Eu encontrei os olhos de Andrew no espelho. Cintilando, como dois faróis, os dois faróis mais lindos que eu já vi.
- Parece que Hanna acertou o pulo — falei. Ele deu uma risada, me fitando com um sorriso torto.
- Esse vestido não é do tipo que se encontra em qualquer lugar — disse. Pisquei duas vezes.
- Você?
- Não foi difícil convencer a vendedora que esse vestido era perfeitamente adequado para você, e por sorte, ela esbarrou com Hanna pela loja — admitiu, num tom casual.
- E o que você sabe sobre vestir garotas Andrew Biersack? — perguntei revirando os olhos.
- Não sei sobre vestir garotas. Sei sobre vestir mulheres — ele beijou delicadamente o meu pescoço e soltou os meus cabelos, encontrando um última vez meus olhos através do espelho, Andrew sumiu pela porta do provador. Fique ali, parada, me encarando. E quando consegui sair do meu transe pessoal, a primeira coisa que fiz foi procurar a etiqueta do vestido. Eu não consigo acreditar que ele planejou tudo isso, só pode ser mentira. Com dificuldade abri o zíper e retirei cuidadosamente o vestido, tateando a etiqueta pelo tecido aveludado, até que meu dedos encontraram um pequeno papel semelhante a uma. Nele tinha apenas uma frase escrita à caneta preta, numa caligrafia impecável: Para a filha do agente funerário.
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