Smells Like Teen Spirit
9 Overdose
Notas iniciais
Oláaaaaa minhas leitoras lindas *-* vocês devem estar se perguntando: essa maldita não ia viajar?? Pois é, meu pai cancelou a viagem para o fim do mês! Eba, podem comemorar, gritar, fazer o moonwalker no meio da sala -qqqqqq. Tá, agora parando com o egocentrismo, esse capítulo eu tava inspirada e bom... tem uma cena lésbica mais pro final dele, mas já adianto: A Mel não vai trocar o Andrew por uma garota HAUSHAUSHAU'
Agora parando com o papo furado aqui, boa leitura *-*
Agora parando com o papo furado aqui, boa leitura *-*
Cheguei em casa e dei de cara com Matt sentado no sofá. Eu estava prestes a soltar um sonoro "ONDE TU TAVA DEMÔNIO??" quando Marta me lançou um olhar bem conhecido “seus pais estão em casa”. Minha mãe saiu da cozinha com um iogurte light na mão.
- oi querida, como está? – perguntou com um sorriso. Pra falar bem a verdade eu não a via faz dois dias. Matt virou-se para me encarar numa expressão suplicante de “não fale nada!!!!!”.- estou bem mamãe. A senhora anda bem ocupada ultimamente – disse jogando a mochila no sofá e me escorando no recosto do mesmo. Ela revirou os olhos numa careta.- meu trabalho está me matando, só hoje eu fiz quatro cirurgias. Agradeça por ser estudante – ela deu uma piscadela. Minha mãe era legal, divertida. O único problema era que eu não passava muito tempo com ela, participação materna foi uma coisa que eu não tive – isso é uma flor na sua mão? Pretendentes? – falou conspiratória, olhando incisiva para a tulipa murcha em minhas mãos. Eu estava prestes a responder quando sons de passos pesados vieram da escada.- porque não veio com Matt da escola? – perguntou meu pai descendo as escadas de hobbi. Fuzilei Matt com os olhos.- ah bom, eu não vim porque... Matt diga você – me virei pra ele. Seu rosto congelou, mas os olhos eram urgentes. - Melanie se eu quisesse que o Matt me respondesse teria perguntado a ele – falou meu pai num tom rabugento. Eu o encarei. Eu diria a verdade, mas o instinto estava me mandando ficar quieta.- Sidney insistiu pra trazer a Mel – disse Matt calmamente. Que mentira deslavada! Meu pai nos observou com olhos apertados, em seguida eles se arregalaram de surpresa.- o traveco? – perguntou incrédulo. Trinquei os dentes cerrando os olhos. Esse era o apelido ‘carinhoso’ que meu pai dera ao Sid, e eu odiava quando ele se referia ao meu melhor amigo desse jeito.- o nome dele é Sidney – repreendi.- não sabia que aquilo tinha nome – retrucou meu pai se dirigindo para o sofá.- ele é meu único amigo, e eu gostaria que você o respeitasse – falei asperamente. Ele parou de caminhar e me encarou.- e você é minha única filha, e eu exijo que me obedeça quando eu digo que não quero que ande com gente daquele tipo – a expressão séria era como um muro, intransponível. Engoli a raiva. Olhei para minha mãe que estava saindo de fininho da sala como se nada estivesse acontecendo, Matt sentado no sofá me fitando, a mandíbula tensa. Fiquei em silêncio, eu não podia continuar a discussão, pois não levaria a nada, eu não me afastaria de Sidney de qualquer jeito. - e tira esse lixo do meu sofá – disse meu pai apontando enojado para minha amada mochila dos Beatles. Mordi meu lábio refreando qualquer insulto prestes a sair, catei minha mochila e subi as escadas em direção ao meu quarto. Sentei na cama e levei as mãos ao meu rosto, procurando paciência e calma. Me pergunto como eu vivi durante 16 anos dessa maneira? Privada, enjaulada e com medo. Meu pai sempre fora autoritário desse jeito, mas o que mais me magoa é minha mãe. Ela parece não estar nem aí, as vezes eu acho que ela se importa mais com suas ‘amizades do que comigo’. Bom, isso não seria novidade. De repente eu estava me sentindo exatamente como Brawian, enlouquecendo. Mas eu prometi a mim, e a ele que eu não deixaria minha vida acabar do mesmo jeito. Eu posso não ser perfeita, posso não ter a vida que eu quero, posso até não ser do tipo que cumpre promessas, mas essa eu vou cumprir. A qualquer custo. Flash Back On... Três anos atrás.Eu estava voltando pra casa, depois de uma tediosa e cansativa aula de balé clássico. Eu odiava balé, mas o fiz por insistência do meu pai, eu disse insistência? Foi uma ordem. Minha saia de balé e sapatilhas rosa eram constrangedoras, havia esquecido a roupa reserva em casa, então era vir com isso, ou pelada. Era quarta-feira, dia 26 de outubro, faltavam quase duas semanas para o meu aniversário de 13 anos. Papai dissera que autorizaria Brawian a vir me ver na minha festa de aniversário, eu estava animada, faz tempo que não o vejo. Mas do que animada, tem algo me incomodando. Faz dois dias que ele me ligou, disse que estava cansado de viver sob ordens e me fez prometer que jamais iria deixar que alguém vivesse minha vida por mim. “Ninguém pode dizer quem você é”, falou ele. A ligação estava muito ruim e Brawian também me fez jurar que nunca contaria sobre ela para nossos pais.Eu não entendi o que ele quis dizer, e nem o porque. Mas o aperto no meu coração era constante e forte, eu queria contar ao papai sobre a ligação, mas eu havia prometido...Suspirei quando me vi de frente com a imponente casa azul. Dei alguns passos e parei quando ouvi gritos, era minha mãe. Entrei correndo e apressada dentro de casa.Minha mãe estava sentada no sofá com a cabeça entre os joelhos e as mãos tapando os ouvidos, ela chorava desesperada. Marta estava ajoelhada ao lado dela segurando-a pelos ombros e dizendo algo como ‘se acalme’. Meu pai tinha o telefone em mãos, parado perto da janela com uma das mãos no rosto.- tem certeza que é ele, tinha alguma documentação? – perguntava meu pai, a voz angustiada – carteira de motorista, sei. Eu- eu vou até aí... claro... obrigada – ele desligou virando-se devagar para minha mãe que o encarou. Ele assentiu e ela desabou a chorar novamente. Eu não entendi nada.
- O que houve? – perguntei totalmente confusa. Todos me olharam como se tivessem percebido minha presença só agora. Marta voou em minha direção, me abraçando enquanto chorava. Me esquivei dos braços dela o suficiente para encarar meu pai.- pai? – chamei mais alto. Ele arrastou as mãos pelo rosto, exalando.- Melanie você precisa ser forte – depois de uma pausa ele continuou – Brawian fugiu do colégio militar, ele estava na Califórnia quando bateu em outro carro – sua voz era cortada, ele parecia se esforçar para falar.- e ele tá bem?? Em que hospital ele está? – perguntei rapidamente. Ouvi minha mãe começar a chorar mais alto. Meu pai me encarou por um momento, seus olhos úmidos.- ele morreu, Mel – falou num fio de voz. Senti meu estômago cair e o chão girar. De repente o peso do meu corpo era mais do que eu poderia suportar e me deixei cair de joelhos. Lágrimas escorriam como uma cachoeira dos meus olhos diretamente para a saia de balé, sentia como se meu coração estivesse sendo apertado furiosamente, minha mente rodava com imagens e lembranças dele. Não há como descrever o sentimento de perder alguém que ama, de saber que nunca mais irá poder abraçar essa pessoa, olhar em seus olhos, vê-la sorrir. É como se uma parte de você fosse cortada, dilacerada, sem compaixão. É uma sensação terrível, como um fogo que arde queimando seu peito, uma dor aguda, mais forte do que qualquer dor física. Sua alma perde uma pedaço.E naquela sombria tarde de outubro, eu havia perdido meu único irmão. Flash back offDurante muito tempo eu me culpei pela morte de Brawian. Por eu não ter falado sobre a ligação para nossos pais. Mas se meu pai não tivesse o levado a força para um colégio militar não haveria ligação. Ficar procurando culpados não vai trazer meu irmão de volta, mesmo assim, não consigo olhar para meu pai e não sentir mágoa e raiva. Talvez eu seja injusta, talvez não, mas é assim que eu me sinto. Nos últimos anos eu me vi tão desesperada por me sentir tão presa que pensei em acabar com a minha própria vida, as cicatrizes nos meus braços são marcas que irei levar para sempre. Eu havia desistido de mim mesma, eu havia perdido qualquer vontade de viver essa vida falsa. Só que se eu não lutar por mim, ninguém mais vai. Não sei o que eu vou fazer pra me livrar das correntes que me prendem, não sei como vou enfrentar meus pais. Eu só sei que tenho que fazer logo, e isso me desespera, me enlouquece. Cada vez mais me vejo sem saída, presa num labirinto escuro onde a única porta aberta leva a morte.What If I wanted to break? Laugh it at all in your face. What would you do? – meu toque de mensagem me trazia de volta dos meus pensamentos. Peguei o celular, era o Matt.NÃO FALE NADA SOBRE A ESCOLA OK? DEPOIS EU TE CONTO TUDO Ah claro, espero que a explicação seja muito boa mesmo. Mandei um ‘ok’ pra ele e fui tomar um banho. Sequei os cabelos, e troquei de roupa. Sentei na beirada da minha cama fuçando no meu Ipod, quando meu pé encostou em alguma coisa debaixo da cama. Com o dedão eu puxei para fora e me deparei com um pequeno caderno de veludo vermelho. Não era meu. Peguei na mão, analisando. Tinha um fecho dourado e atrás um bilhete grudado.“Comprei pra você, sei que não é grande coisa, mas acho que toda adolescente precisa de um diário!” Era o presente que Marta me dissera noite passada. Cheguei em casa tão furiosa que nem o vi, deve ter caído da cama. Puxei o fecho e as páginas eram impecavelmente brancas. Eu não era muito de escrever em diários, um porque nessa casa não havia privacidade nenhuma. Se meu pai achasse, além de ler ele ia brigar comigo se tivesse algo que o ‘desagradasse’. E dois porque eu não tinha nada para escrever mesmo. Olhei para os pés da cama onde minha mochila estava jogada, e por cima dela estava minha tulipa vermelha. De repente tive uma grande idéia, um diário de lembranças. Catei cola num dos bolsos da mochila e colei a flor na primeira página do meu diário. Com uma caneta preta, escrevi embaixo:“Dia 12 de Outubro. Tulipa que o Andrew me deu (será que foi ele mesmo?)”Mordi a caneta. Eu estava em dúvida sobre isso, mas ninguém havia chegado perto o bastante da minha mochila para deixar a flor. Eu me lembro quando Andrew se recostou na minha cadeira passando o braço por trás, só pode ser sido nessa hora. Deixei o diário aberto para secar em cima da cama e desci para jantar.Comemos como sempre, silenciosamente. Eu e Matt trocávamos olhares furtivos. Meu pai perguntou a Matt sobre a escola e ele quase se engasgou. Meu eu interior deu boas risadas. - a aula de história foi bem interessante, segunda guerra mundial – disse ele.- pensei que você tivesse matemática hoje – falei buscando meu copo de água. Senti um chute por baixo da mesa e lhe lancei um olhar raivoso.- pensou errado Mel – nos fuzilamos com o olhar igualmente furiosos. Porra, não precisava me chutar. Terminamos de jantar e logo depois eu já ia subindo as escadas ansiosa por minhas explicações. Marta se dirigia a porta.- Ei – disse voltando ao primeiro degrau – obrigada pelo diário, eu adorei – ela segurou minha mão.- de nada querida. Durma bem, até amanhã – Marta deu um sorriso e foi embora. As vezes eu sinto inveja da filha dela, Marta cuidou de mim como uma mãe, praticamente desde que eu nasci. Vi Matt passar por mim, cutucando meu braço enquanto subia os degraus. Enrolei mais um pouco na escada e fui atrás dele. Meus pais ainda estavam acordados, isso significaria que eu não poderia gritar e nem tentar sufoca-lo com o travesseiro.- Pode me dizer onde você se enfiou? – perguntei assim que entramos no quarto dele. Matt tirou a camiseta social preta ficando semi-nu. Uma onda de vergonha me atinge, não éramos mais crianças pra ficar quase sem roupa na frente do outro. O garoto cresceu e encorpou, abdômen perfeitamente definido, músculos bem desenhados e costas perfeitas. Desviei os olhos procurando não olhar pra ele. - desculpa Mel, por ontem a noite e por hoje – falou ele de costas para mim, com as mãos apoiadas na janela – eu fui meio...- idiota? – sugeri.- isso.- certo, mas eu vim aqui para saber aonde você estava – disse olhando para as cortinas azul-marinho. - eu não posso te dizer – ele se virou para mim, dando passos em minha direção – mas eu posso te mostrar – sua voz era suave. Funguei.- mostrar? – repeti. Ele deu uma risada breve, estávamos a uns 30 centímetros de distância. - eu te levo lá – falou.- lá aonde? – perguntei. Porque cargas d’água ele achava que eu ia com ele a qualquer lugar sem saber aonde? – eu vim aqui querendo respostas Matt – falei secamente. - Mel, só confie em mim ok? - Ah claro que sim – sorri falsamente – PA... – eu ia gritar ‘PAI’, mas Matt foi ligeiro me segurando e tampando minha boca. Eu lutei com ele, mas o garoto era mais forte. Eu fiquei espremida contra o corpo dele, tentando me soltar.- vai ficar quietinha se eu te soltar? – murmurou no meu ouvido. Fiz que sim com a cabeça. Aos poucos Matt me soltou, analisando minha reação. Estreitei os olhos e dei um soco no ombro dele.- nunca mais me agarre, idiota – vociferei. - ai guria – gemeu ele esfregando ombro.- vai me dizer ou não? – perguntei impaciente. O infeliz apenas deu um sorriso teimoso. Esticou o braço por trás da nuca e eu pude ver uma marca escura que se destacava na pele clara. Apertei os olhos, era uma tatuagem. Uma cobra mordendo o próprio rabo. - desde quando você tem tatuagem?? – a pergunta o pegou desprevinido. Ele abaixou o braço imediatamente e sua expressão ficou tensa. - digamos que eu não sou o melhor filho do mundo – sua voz era amargurada. Eu o encarei por algum tempo.- quer me contar? – perguntei.- não acho que você entenderia – rebateu Matt, imóvel.- experimenta – disse. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas em vez disso sentou na cama apoiando os cotovelos nos joelhos e cruzando as mãos em frente ao rosto. - Matt – insisti, me sentando ao seu lado. Eu não via seu rosto direito, a luz do quarto era fraca e já anoitecera. Mas podia sentir a tensão em seu corpo.- o que seu pai te contou sobre mim? – perguntou sem me olhar. Pensei por um momento.- que você foi estudar na Romênia, concluiu os estudos e voltou – respondi. Matt deu um riso sem graça.- a versão correta é: que você foi pra Romênia, entrou pra uma gangue, participou de rachas, saqueou lojas, ferrou a paciência do seu pai e voltou pro titio Lockwood te colocar na linha – seu tom era sarcástico. Pisquei duas vezes. Matt, numa gangue? Meu cérebro se recusava a processar essa informação. Ele me analisou percebendo minha incredulidade.
- é verdade – falou. Ele me parecia sincero, e não havia motivos para mentir sobre isso. Mas a idéia continuava sendo absurda.- certo, tá dizendo que meu pai vai te botar na linha? – fiz uma careta confusa. Matt suspirou, como se tentasse explicar a teoria do big bang para um crente.- Eu segui as regras do meu pai até uns doze anos, depois disso eu fazia as coisas escondido. Entrei pra uma gangue – ele fez aspas com as mãos – onde ganhei essa tatuagem. Fiz várias coisas ilegais, para resumir. A última foi que eu entrei pra uma competição de corrida ano passado, pessoas morreram e os policiais estão procurando todos os pilotos. Tive que contar tudo pro meu pai que ficou muito puto da cara comigo – Matt suspirou brincando com os dedos – daí ele me mandou de volta pro Brasil, até a poeira abaixar.- e onde entra o meu pai nisso?- seu pai – ele trincou os dentes – como bom ditador que é, entrou com uma idéia nada amigável. Se eu sair um dedinho da linha, ele me entrega pra polícia – disse. Claro, agora faz sentido essa desconfiança que meu pai tem do Matt. Parei por um momento, digerindo as informações. - em outras palavras, você é um bad boy – falei.- no vulgar, sim – concordou.- e esse lugar que você vai me levar, é barra pesada – falei novamente.- você é boa hein – Matt tocou meu ombro levantando as sobrancelhas. Nos fitamos, me peguei olhando-o de cima a baixo. O cabelo loiro desgrenhado reluzia em um tom dourado a meia luz, os olhos azuis escuros tinham um brilho diferente. Matt era lindo.- dá pra parar de me secar? Coisa de virgem – disse ele com um sorriso sarcástico. Senti meu rosto corar.- eu não estou – minha mandíbula tremeu – te secando.- ah claro que não, esqueci que você só tem olhos para o Andrew Biersack – falou numa careta de tédio.- Vai dormi Matt, tá falando muita merda pro meu gosto – dei de ombros. - Mel, fica longe desse cara. Ele não presta – sua expressão ficou tensa de repente, o olhar segurando o meu. Apertei os olhos como se pudesse ver através de Matt e saber o que ele queria me dizer com aquilo. Com um suspiro ele se levantou abruptamente.- vou tomar banho, assim que o ‘general’ dormir a gente sai – disse com um sorriso maroto. Pisquei duas vezes.- hoje??- e tem dia melhor que sexta a noite? – foi a vez de Matt dar de ombros. Era óbvio que se eu aceitasse sair de casa escondida no meio da noite eu estaria arriscando meu pescoço. Era como botar a mão numa ratoeira armada e esperar que ela falhasse, mas quem disse que eu não gosto do perigo? Esperei uma hora com a luz apagada para me certificar que meu pai estivesse dormindo. Coloquei uma calça Jeans justa, um moletom azul-marinho surrado e meu all star. Caminhei sorrateiramente até o quarto do Matt. Ele estava sentado na cama terminando de calçar um all star converse. - Pronta? – perguntou com a voz baixa.- mais que pronta – disse animada para escapulir.Saímos furtivamente pela janela do meu quarto igual ladrões de primeira categoria. Como seria impossível tirar a BMW da garagem sem acordar os velhos, caminhamos dois quarteirões até chegar num estacionamento público onde Matt apontou para um Mustang preto.- Imagino que meu pai não saiba da existência desse carro – falei me jogando no banco de couro. - amém! – disse Matt dando a partida no Mustang.Recostei a cabeça no vidro gelado da janela vendo a paisagem de enormes casas de classe alta serem substituídas por árvores e descampados. Porque eu sempre acabo perto de matos com alguém? É maldição isso. Um pontada de descontentamento me atingiu quando eu olhei pro lado e não vi um certo alguém dirigindo. MELANIE ACORDA! Hello, mantenha Andrew longe dos seus pensamentos, ele é um idiota. Sacudi a cabeça. Rolei os olhos para o painel onde avistei o rádio e alguns MP3. Escolhi qualquer um e pressionei ‘play’ no aparelho. A música “Parachute – Cheryl Cole” começou a tocar. Fitei a janela, Matt não é do tipo que conversa muito enquanto dirige. Bom, homens não conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo, são criaturas menos evoluídas. Enquanto uma mulher faz as unhas, mexe no facebook, twitter, lê, assiste televisão e transa com o namorado, um homem fica literalmente surdo enquanto transa. Certo, eu posso estar sendo um pouco feminista, mas isso é um fato comprovado pela ciência. - Suas dúvidas sobre onde eu freqüento vão ser esclarecidas agora – falou Matt. Uma música se tornava mais alta a medida que nos aproximávamos de um prédio de dois andares em mal estado. Com matagais dos dois lados e um córrego a frente, uma placa disfarçada entre folhas de árvores dizia “Gruta Azul”. Desliguei o aparelho de som.- É nesse buraco que você se enfia? – perguntei arqueando uma sobrancelha.- Eu gosto de vir aqui – ele deu de ombros. Olhei novamente para o local.- Mas eu não gosto de ser esfaqueada e atirada no meio do mato, então se pudermos ir num lugar mais seguro, eu agradeceria – falei puxando seu braço enquanto ele abria a porta. - Ninguém vai encostar um dedo em você, Mel – disse Matt saindo do carro e abrindo a minha porta. Respirei fundo tentando colocar na minha cabeça que estava tudo bem. Saí do carro e segui com meu ‘guarda-costas’ de última hora para a entrada do prédio.Eu estava debruçada num balcão com meus ouvidos zunindo ao som de “We stitch these wounds” enquanto bebericava uma coca-cola. Matt foi buscar uma cerveja a dez minutos e ainda não voltou. Sentia olhares de todos os lugares, eu deveria me destacar sendo a única a vestir moletom e calça jeans no meio de várias calças, saias e corpetes de couro. Procurei algum rosto conhecido e não tive sucesso. Eu estava me auto-praguejando por ter tido a brilhante idéia de botar o pé pra fora da porta, ou melhor, pra fora da janela. - Se divertindo? – perguntou Matt se empoleirando na banqueta ao meu lado com sua cerveja.- Não – respondi.- Sem graça – resmungou ele debochado. Eu ri dando mais um gole na minha coca.- Você já me mostrou seu ‘parquinho de diversões’, podemos voltar? – falei, louca pra voltar pra casa e me jogar na minha cama. Matt encarou o balcão puxando os lábios para um sorriso.- Deixa de ser chata – disse por fim. Fechei a cara. - Eu NÃO sou chata.- Muito chata – Ele estreitou os olhos. - Só um pouquinho – admiti largando a coca no balcão.- Um pouquinho? Você é a rainha da chatice! – falou debochado. Ah não, aí já é demais. Ninguém chama Melanie Lockwood de rainha da chatice e sai ileso! Sem pensar duas vezes tomei a cerveja da mão dele e virei, estava gelada e senti minha garganta congelar. Larguei a lata vazia no balcão com força.- Nunca mais me chame de chata! – disse apontando um dedo na direção de Matt. Ele apertou os olhos.- Nossa, você tomou meia lata de Skol. Vão começar a terceira guerra mundial por isso – dizia provocador, encenando com as mãos. Fiz cara feia e desviei o olhar para pista, várias pessoas praticamente pingando suor me fizeram perceber que eu estava morrendo de calor. Essa maldita boate é fechada, me senti como se estivesse num forno. Limpei o suor da testa com a manga. O reflexo de uma garota de sutiã vermelho passou por mim ajeitando os cabelos num rabo de cavalo. Quer saber? Preciso de mais uma cerveja. Levantei da banqueta e fui abrindo espaço entre a multidão até o bar.Alguns minutos e várias cervejas depois...Minha cabeça latejava e rodava. Eu estava perambulando pela boate com uma garrafa de Jack Daniel’s na mão, e na outra um cigarro. Que horas eram? Eu não fazia idéia. Sons de música alta e pessoas gritando se misturavam na minha cabeça, flashes de luz e cor passavam como um borrão por meus olhos. Caralho! Eu to podre de bêbada. Vi quando uma cabeleira loira veio gargalhando em minha direção, ela me puxou pelo braço quase cravando as unhas na minha pele. Eu estava sendo arrastava para a pista de dança. Ela começou a dançar na minha frente seguindo as batidas da música, logo depois nós estávamos completamente descontroladas. A garota tirou a garrafa de whisky da minha mão e despejou na minha boca, a bebida escorreu pelo meu pescoço, seios, barriga, até no chão. Foi aí que eu percebi que estava de sutiã. Ela chegou mais perto apertando minha cintura, seus lábios eram vermelhos e brilhavam, como um morango. Morangos... pensei. Foram se aproximando, se aproximando cada vez mais e quando notei eles estavam colados com os meus. Minhas mãos enroscadas nos cabelos loiros dela. As pessoas formaram uma roda onde algumas batiam palmas, outras gritavam “vai” em coro, mas estava tudo uma bagunça. A loira me disse algo como “sair daqui pro banheiro” eu assenti mesmo sem ter certeza. Ela me tirou da pista e me empurrou em direção ao banheiro, eu gargalhava sem parar. Segui tropeçando pelo corredor. Matt? Cadê a droga do Matt?! Me mete nessas roubadas e some esse infeliz! Parei na porta do banheiro, apoiando uma mão na parede.- Cadê ela? Tava bem atrás de mim e... – olhei para trás e vi a garota sentada no chão rindo igual a uma besta. Daí fui eu que chiei e comecei a rir igual besta – PUTZ ELA CAIU! – apontei mal conseguindo parar em pé de tanto rir. Foda-se ela também! Entrei no banheiro e como não achei o interruptor de luz fiquei no escuro. Fui até a pia e me curvei molhando o rosto. Aí que droga, não consigo raciocinar direito. Matt, preciso achar o Matt e ir pra casa. Casa, ai me fudi lindamente. Pressionei as mãos no rosto tentando focar no espelho, uma figura negra chamou minha atenção. Estava no espelho, era enorme, bem do meu lado, linda e pálida, estava muito zangada. Anjo... elevei a mão para tocar a sombra, meus dedos encostaram na superfície gelada de vidro e a percorreram. Ela levantou um braço para tocar alguma coisa, e de repente meus olhos embaçaram se fechando. Luz. Ela acendeu a luz. Me virei abruptamente para trás percebendo que a sombra estava no banheiro e não no espelho, forcei meus olhos a se abrirem. Com o giro acabei perdendo o equilíbrio e batendo de costas na pia. Meus joelhos cederam e de repente eu caí, sendo tragada involuntariamente para a inconsciência.
Notas finais
E então? :3
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