Smells Like Teen Spirit
18 Meu Impiedoso, cruel, e amargo amor. Part I
Notas iniciais
O intervalo entre os capítulos só depende de vocês, se eu ver que estão gostando e comentando eu fico animada pra escrever, se não demora.
Mesmo assim, obrigada a todas ♥
Enjoy.
Eu não dormi durante 24 horas. Permanecer acordada durante a noite não tinha sido um total esforço. Toda vez que eu sentia meus olhos se fechando, uma explosão de brilho atravessava minha mente, sacudindo-me acordada. Incapaz de dormir, eu passei a noite pensando sobre o que aconteceu.
Quando Matt teve aquela discussão com Andrew no Arcanjo, ele me plantou uma semente de dúvida que floresceu rapidamente. Sábado, quando eles apareceram quase juntos no Rixon’s, eu tive certeza de que havia algo rolando e eu estava totalmente por fora. E depois aquela explosão no prédio, parando para pensar, alguém pode ter tentado me matar. Aquele bilhete não estava lá por acaso, e é óbvio que era endereçado à mim. Abanei a cabeça veemente em negação, não consigo absorver a idéia de que Andrew possa ter tentado me matar. Mas quem seria? Era o carro dele que eu estava seguindo, era ele que entrou naquele prédio.
Eu não me incomodei em rastejar para fora da cama às cinco da manhã hoje e ir pra PUC com a maior cara de sono. Passei as aulas toda fingindo prestar atenção, enquanto ouvia System no máximo de volume que meu Ipod podia suportar. Andrew não aparece na escola faz dois dias, nem Matt. Hanna ficou me fazendo companhia, mas era o mesmo que nada, eu estava tão imersa em meus pensamentos que era como se nem estivesse nesse planeta. Eu tinha deixado uma série de mensagens de voz para o Sidney, já que depois do incidente, mal nos falamos e ele também não apareceu na PUC. E eu sabia que ele estava tão aterrorizado quanto eu. Chegava em casa, e ligava a TV, dizendo a mim mesma que era apenas para distração, mas lá no fundo, era porque eu queria saber se tinha alguma novidade sobre a explosão no lado leste da cidade. Meu pai estava começando a achar que eu me interessava por economia ou algo do tipo, de tanto ver noticiários.
No meio de todos esses pensamentos que eu tive, eu tinha mudado as informações que tinha, tentando fazer algo se encaixar. A única coisa clara que vinha era que Andrew estava ligado. Por outro lado, Eliana invadiu a minha casa e roubou um pertence meu, e se isso foi obra dela? Não, Eliana é tapada, mas não acho que tentaria me matar. Tentaria?
Parecia improvável que alguém me seguiu até o prédio, e se seguiu, por qual motivo? Não tenho inimigos com cacife pra explodir seis andares de um quase-monumento-histórico.
Por falar no casalzinho feliz, Andrew e Eliana estavam atrasados para a Aula de Literatura. Mas pelo menos assim, ele não viu o mico que eu e Hanna passamos para encenar uma das cenas do livro 'o morro dos ventos uivantes'. Tiramos um 8,5, me sinto o Hearthcliff em pessoa.
Eu batia a ponta da caneta na mesa quando avistei eles entrando na sala, surpreendendo a todos ao aparecer nas roupas de época. Eliana estava usando um vestido desbotado que parecia ser da época vitoriana, e que apertava sua cintura e tencionava seus peitos tão bem que os garotos da sala quase cairam da cadeira quando ela se arrastava pela sala. Andrew, por sua parte como Heathcliff, usava um casaco de veludo e uma calça preta. E pra mostrar que era um roqueiro fora da lei, pendurou umas correntes de caveira nela.
– Oh, meu Deus! — era tudo a Senhorita Florenzo conseguiu dizer. Eu suspeito que ela estava um pouco preocupada sobre os seios da Eliana estalando para fora em um momento inoportuno, o que iria violar o codigo de vestimenta da escola. Foi Andrew, no entanto, que imediatamente ordenou o centro do palco improvisado, a introdução de sua pequena peça, palestrando com mais autoridade do que a Senhorita Florenzo jamais controlou.
– Heathcliff é uma coisa selvagem– um homem amaldiçoado– ele relembrou — Catherine e amaldiçoada também. Amaldiçoada pelo amor de Heathcliff, quem deve destruí-la e sua prole. É da natureza dele pegar o que ele quer. E o que ele deseja é vinganca, acima de tudo. E Catherine, ela é uma admirável selvagem. Deles são um impiedoso, cruel, amargo e malvado amor.
– Oh, meu Deus! — vibrou novamente a professora de seu assento que ela tinha tomado no canto de trás. Dessa vez, eu acho que ela estava desmaiando um pouco sobre Andrew.
– Eu faço assim que aprecie esta história — ele acrescentou. Torci minha caneta nos meus dedos, quase a quebrando, confusa e doente do coração. Impiedoso, cruel e malvado amor. Isso é o que ele quer? Olhei de relance de volta para Hanna, que deu de ombros e revirou os olhos, pensando que a produção foi um pouco superior. Eu sorri pra ela, mas fracamente. Quando eu retorno para o drama, o Sixx estava encarando Eliana, e a peça começa. De alguma forma, eles condensaram a primeira metade do livro, fazendo citações aqui e ali, fazendo algum acréscimo, eu suponho, e costurando-os juntos em um intenso vinte e cinco minutos de cena, que teve as infâncias de Hearthcliff e Catherine alegremente negligentes, no descuidado descarte de Hearthcliff por Catherine para o mais suave, mais brando Mr. Linton. Pelo menos, eu acho que é isso o que estão interpretando. Tudo que eu podia me concentrar era nos movimentos brutos e suaves de seus corpos. A forma como Andrew agarrou o pulso de Eliana, arrastando-a para o peito dele. A maneira que os olhos dela quebram-se, como ela chora afastando-se. A paixão quase parecia...Real. Minha caneta de plástico realmente quebrou sob a pressão dos meus dedos, manchando de tinta minha mão e salpicando minha bochecha. Filha da puta! Ninguem sequer percebeu. A classe inteira estava fascinada como ela, os olhos azuis travados com os olhos pretos dele, sussurrou, a voz quente como a que eu desesperadamente temia não foi ardor fingido.
– Seja do que for que nossas almas são feitas, a sua e a minha são as mesmas. — ficaram ali, congelados, cara a cara, até que alguém percebeu que era hora de aplaudir. E eles aplaudiram. Um garoto ajoelhou-se no seu lugar, colocou seus dedos na boca e assoviou.
Como se tivessem sido despertados por esse estridente alarme, eles quebraram os personagens, sorriram, as mãos cruzadas, e curvaram-se profundamente em direção a sua platéia. De alguma forma, os seios de Eliana ficaram no local, embora o modo como metade da classe foi esticando o pescoço, acho que eles pelo menos tiveram uma bela visão embaixo do vestido.
Eu tinha que admitir, foi o melhor relatório de livro que eu já vi. Provavelmente, o melhor relatório de livro que já entregaram na PUC. E eu desprezava cada momento disso.
Por algum motivo eu achava que deveria ter sido eu lá em cima. Alguma coisa tinha sido roubada de mim. E não somente alguns minutos de glória na frente da sala. Quando os aplausos morreram, Eliana saltou no corredor para tomar o seu assento na minha frente, seguida por Andrew, que nem sequer me reconheceu quando passou. Então o vi sentar, sorrir para sua parceira e sussurrar alguma coisa. Um impiedoso, cruel, amargo e malvado amor... É isso então? É isso que ele busca desesperadamente?
Logo depois dos torturantes períodos de Literatura, eu escapuli para a biblioteca que estava quase vazia. A não ser por uma garota loira que mexia no notebook e dois garotos que reviravam um livro como se nunca tivesse visto um antes. A bibliotecária me deu um sorriso breve, cintilando os dentes manchados de batom vermelho. Me sentei numa das mesas do fundo, que ficava atrás de uma estante velha com livros mais velhos ainda., o lugar mais escondido possível. Precisava pensar, mas não queria. Era um pouco pesado demais ficar me torturando com a idéia de que a qualquer momento alguém viria pelas minhas costas com uma faca ou sei lá o quê. Embora eu quisesse afastar esse pensamento, eu não conseguia. Por um lado, se Matt parasse nas minhas vistas eu podia simplesmente fazer com que me esclarecesse alguma coisa, mas ele praticamente foge de mim. Quando meus pais não estão em casa ele nem aparece, e quando estão ele fica trancado naquele quarto. E eu preciso manter o ambiente saudável e harmonioso de família que existe, ou pelo menos meus pais acham isso. Ultimamente acho que nem Marta poderia me ajudar, e se ela que cuidou de mim desde pequena não pode, quem poderia? Por outro lado, tem Andrew, o enigma ambulante. Desde que eu o conheci, vi três pessoas: o idiota da maioria das vezes, que fala merda, age sem pensar e tem aquele sorriso debochado. O cara frio que ele se tornou ultimamente, de olhos vazios e expressões profundas. E aquele Andrew que apareceu no meu quarto, dias depois de nos conhecermos, aquele que me levou pra casa depois de uma quase-overdose, aquele do sorriso torto mais lindo que eu já vi. Que droga mesmo... Com tanto cara pra me apaixonar, eu escolhi logo o pior de todos, o mais impossível, o que mais me machuca, o que mais me corta em pedaços. São tantos pensamentos, tantas dúvidas e tantos sentimentos que eu sinto como se minha cabeça fosse dar um nó.
Em cima da mesa tinha um exemplar de Romeu e Julieta, a capa envelhecida e um pouco rasgada. Eu já havia visto vários filmes, mas nunca li o livro. Um história bonita, muito bonita e triste. Eles lutaram contra tudo e todos, e no fim, por um engano, acabaram mortos. Romeu não pode suportar a idéia de viver sem Julieta, e Julieta não poderia viver sem seu grande amor, e na morte eles viveram juntos pra sempre.
Rolei os olhos para focar a minha frente e vi Sidney desfilando em minha direção, com seus óculos espelhados e um sorriso meigo. Ele puxou uma cadeira da minha mesa, e sentou-se de pernas cruzadas. Seus all star pretos com cadarços amarelos fluorescentes eram como um farol contrastando em toda a roupa preta. Sua expressão era uma mistura de divertimento presunçoso e chateação. Ele segurava um pacote fechado de padaria, e uma caixinha pequena e vermelha.
– Isso é pra você — disse empurrando a caixinha pra mim — e isso também — colocou o pacote ao lado da caixa — achei que estivesse com fome — ao julgar pela expressão de desdém do Sid, eu tinha um mau pressentimento sobre a caixa e preferi dar atenção ao pacote.
– Batatas fritas!
– A tia da padaria disse que são light. Não sei bem como se faz batatas fritas light e nem porque elas custam mais caro. Mas aí está — ele forçou um sorriso.
– Obrigado Sid, nem sei o que eu faria sem você — falei.
– Porque está excluída aí no canto guria? — perguntou depois de uma pausa.
– Nada, só estava pensando.
– Sobre? — ele perguntou e eu dei de ombros. Era bem óbvio. E pela expressão que Sidney fez, balançando de leve a cabeça, acho que ele entendeu.
– Resolveu aparecer na PUC então? — desconversei rapidamente.
– É, na verdade eu recebi uma mensagem muito interessante do capitão do time de futebol — ele piscou dando um sorriso malicioso. A imagem de Lucas Lawrence me veio a mente, loiro, olhos verdes, sarado e popular. Putz, com esses atributos mais o histórico de garotas que ele já passou o rodo quase não consigo acreditar que ele torça pro outro time.
– Eu não imaginava — disse boqui-aberta.
– Eu também não! Fiquei surpreso, chocado, rosa-choque! — Sid deu um pulinho da cadeira — ah propósito, vai demorar muito aí?
– Não eu... — uma idéia louca passou pela minha cabeça, e os planos de ir pra casa e me atirar na cama foram por água abaixo — na verdade sim, tenho que fazer um resumo de um livro e já que estou aqui — arqueei as sobrancelhas. Sidney me analisou por um minuto e então colocou as chaves da Mercedes em cima da mesa.
– Ok. Eu tenho um encontro com o motorista de uma ferrari preta hoje, então leva o meu carro com você. Estacionei na garagem subterrânea por precaução, eu tenho um quarto de tanque sobrando, não extravase.
Eu peguei as chaves, tentando ignorar a picada desagradável no meu coração que eu reconheci instantaneamente como emoção. No meio de tanta coisa ele se preocupa comigo, com certeza Sidney é uma das melhores pessoas que eu já conheci, meu melhor amigo.
– Ei Sid — ele já estava indo de encontro ao final do corredor.
– Obrigado — falei dando um sorriso. Sidney retribuiu e fez um coração com as mãos.
– Tudo por ti guria.
Após ele ir embora, eu puxei o embrulho de fritas e comi sozinha, no silêncio da biblioteca. Eu fiquei mais uma meia hora folheando as páginas de Romeu e Julieta, quando me atrevi a olhar novamente para a caixinha vermelha. Um pressentimento me dizia que eu não queria saber o que tinha dentro dela mas eu não podia evitá-la para sempre. Tirei a tampa, fazendo som de papel grosso, e dentro dela tinha uma tulipa vermelha.
O perfume mais forte do que de costume subiu para meu nariz, se revelando agridoce, misturado com alguma coisa que eu não pude identificar. Tirei a tulipa da caixa para revelar as palavras em revelo no fundo, que diziam: Eu fui um canalha, me perdoa?
Automaticamente eu deslizei o cartão a distância de um braço. Andrew. Eu não sabia o que fazer com o pedido de desculpas dele, mas eu não gostava da comoção que ele causava dentro de mim. Sim, ele tinha sido um canalha. E ele achava que um cartão da farmácia poderia negar isso? Se sim, ele estava subestimando o dano que tinha causado. E afinal de contas, ele estava pedindo desculpas pelo quê? Pela peça de teatro em que ele quase comeu a Eliana na frente da sala toda? Por me fazer de idiota, de imbecíl, ou por entrar na minha vida? Mais uma vez, Andrew Dennis Biersack me deixa completamente confusa.
A biblioteca estava completamente vazia, apenas eu e a bibliotecária. Faltavam uns quinze minutos para o fechamento quando eu guardei meus livros e peguei minha mochila. Peguei a caixa, hesitei uma vez, então joguei na lata de lixo. Se ele quisesse pedir desculpas, ele poderia fazer isso pessoalmente. Não através do Sidney, não através de tulipas. Meu alvo agora seria entrar na escola pela porta dos fundos e tentar achar algo na sessão de arquivos. Ficha policial, histórico escolar, qualquer coisa que possa se encaixar em explosão de prédios. Acho que vasculhar a ficha do Andrew não era lá muito inteligente, se ele subornou o diretor, então não deveria ter nada de verdadeiro lá, mas talvez na de Eliana tenha.
Na metade do corredor, eu estendi a mão para me equilibrar sobre a mesa mais próxima. O lado direito do meu corpo parecia mais pesado do que o esquerdo, e o meu equilíbrio oscilou. Eu dei outro passo, e a minha perna direita dobrou- se, como se fosse feita de papel. Eu me agachei, agarrando a mesa com ambas as mãos, colocando a minha cabeça entre os meus cotovelos para fazer com que o sangue fluísse para o meu cérebro novamente. Uma sensação morna e sonolenta serpenteou pelas minhas veias.
Endireitando as minhas pernas, fiquei numa posição vacilante, mas algo estava errado. Pisquei forte várias vezes, tentando fazer com que a minha visão fosse para um ponto focal. Meus ossos se encheram de ferro, se recusando a se mover, e as minhas pálpebras afundaram contra as luzes fluorescentes nítidas. Em pânico, eu ordenei que elas se abrissem, mas o meu corpo rejeitou tudo. Eu senti dedos quentes contorcerem-se em torno de minha mente, ameaçando fazê-la dormir.
O perfume, eu pensei vagamente. Na tulipa..
Eu estava de quatro agora. Ao longe, ouvi um sombrio tique-taque. Instantes mais tarde, percebi que os meus braços e pernas já não estavam mais se movendo, a sensação de me mover nada mais do que uma ilusão na minha cabeça. Um tapete áspero de qualidade industrial amortecia a minha bochecha. Eu lutei mais uma vez para me levantar, então fechei os olhos, toda a luz indo embora girando.
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