Notas iniciais
Mil desculpas, meu bloqueio criativo continua :c
Alguns minutos depois, eu estava vendada no banco do passageiro da BMW, indo para não sei onde. Eu devo estar meio louca da cabeça pra aceitar uma coisa dessas, mas no fundo até é interessante. O carro balançava bastante, sem dúvidas não estávamos na estrada. Pelos barulhos, pareciam galhos... Eu estava indo vendada pro meio do mato? Agora eu to com medo.

— Falta muito? — perguntei, brincando com meus dedos sob meu colo.

— Quase — falou Matt — Relaxe, você está muito tensa — disse depois de uma pausa.

— Será pelo fato de eu estar vendada? — sugeri. Ele riu.

— Não é como se eu estivesse te arrastando pro mato pra te estuprar — falou. Tive um arrepio com um ar sugestivo em seu tom.

— Não considerou isso né? — Matt perguntou um pouco indignado.

— C-claro que não! — menti, engasgando. Agora a risada dele foi mais alta, e eu acompanhei, sem graça.

— Chegamos — falou, sua voz seguida pelo parar repentino da BMW. Ouvi Matt abrir a porta e passar pela frente do carro para abrir a minha. Logo senti um vento frio, misturado com cheiro de água e algo mais agridoce. O barulho do ar se misturava com...

Tirei a venda imediatamente.

Era uma cachoeira.

— Nossa — foi tudo que consegui dizer. Mesmo a noite, a água da cachoeira parecia reluzir, como se fosse cristal. A volta, margens de pedras cor de bronze, e acima uma cachopa de árvores faziam o contorno, deixando o céu estrelado a vista. Realmente lindo.

— A gente veio uma vez aqui quando éramos pequenos, lembra? Eu te joguei na água mas você se grudou tão forte no meu braço que acabamos caindo juntos. Seus pais ficaram putos de raiva porque você molhou o vestido branco, acho que era ano novo... — falava como se contasse uma história. Eu me lembrava em partes disso, principalmente da parte em que eu fiquei trancada no quarto na noite de ano novo por sujar o vestido branco. Não pude deixar de fazer uma cara triste, desde criança eu nunca tive perdão pra nada.

— Naquela noite... foi naquela noite que seus pais... ah. — Matt parou repentinamente.

— Tudo bem — disse, percebendo que ele ficou desconfortável com aquelas lembranças.

— Ele sempre te tratou assim — não foi uma pergunta.

— Pra ele eu sou um investimento com lucros futuros, nada além disso — disse. Matt parou do meu lado, se virando para mim.

— Tudo bem, seu pai é um cretino que não ama ninguém. Vamos trocar de assunto — eu ri com o tom engraçado que ele fez.

— Seu pai também é um cretino, estamos no mesmo barco meu chapa — falei.

— Exatamente! Por isso — nós ainda estávamos ao lado do carro, ele abriu o porta malas e tirou uma caixa de isopor — vamor comemorar nossas vidas cretinas.

— Não creio... — inclinei a cabeça pra olhar dentro da caixa — Vodka!

Matt levantou as sobrancelhas com um sorriso maroto no rosto.

— Tu quer que eu vire uma bêbada né?

— Se isso te fizer feliz, quero sim.

— Há, idiota.

Duas garrafas depois...

— É como se tivesse uma mensagem subliminar nessa bebida. Olha — Matt levantou a garrafa quase vazia — ela diz: Me possuaAAAaaahAAAAH!

— KAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAK Cala essa boca! KAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKA

Quatro garrafas depois...

— KAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKA....

Sete garrafas depois...

— Canta comigo Matt — subi em cima de uma pedra — ÔO ANA JÚLIAA AA AAAAAH!

— Desce dessa merda antes que tu morra desgraçada!

— Fodas-xxêeh! — joguei as mãos pra cima e a garrafa voou pro alto, caindo dentro da cachoeira — ah porra, lá se foi minha Natasha... NATASHA VOLTE PRA MIM! NATASHA EU TE AMO!

— Deixa a Natasha — Matt puxou meu braço, e como eu já sou desequilibrada sem ajuda de álcool, tropecei nas pedras com musgo escorregadio e lá se foi eu, Matt e tudo pro chão.

— AAAAAAAAAAI MEU PEITO VIADO! SAI DE CIMA! — gritei. Matt se ergueu, colocando os braços em volta de mim. Estávamos no chão, ele estava em cima de mim, no meio do mato, sob o efeito de sete garrafas de Vodka, seus olhos azuis estavam paralisados, ele estava se inclinando na minha direção, não não não não...

— OH MY GOOOOOOOOOOOOOOOOOD! — meu celular berrou no meu bolso traseiro. Era o sinal de mensagem. Escapuli por baixo do braço de Matt como se eu tivesse o poder de passar através de coisas sólidas, fiquei de pé, andando alguns passos, vai que ele vem atrás né...

GURIA! ONDE TU ESTÁS?? — Apertei os olhos, era uma mensagem do Sidney.

"Mensagem", eu expliquei a Matt, sacudindo meu celular. Ele assentiu um pouco irritado. Eu comecei a responder Sidney.

ADIVINHA ONDE ESTOU?

PISTA? ele mandou uma mensagem de volta.

JURA QUE NÃO DIRÁ A NINGUÉM?

NÃO PRECISA PERGUNTAR DUAS VEZES.

Eu relutantemente mandei, NUMA CACHOEIRA, COM O MATT.

EU DISSE! EU DISSE! EU DISSE! EU DISSE! E AÍ, ROLOU BEIJO? ROLOU SEXO SELVAGEM NO MEIO DO MATO?

CALA ESSA BOCA SIDNEY! :@

TECNICAMENTE, SERIAM OS DEDOS.

FODA-SE. O QUE TEM DE TÃO IMPORTANTE PRA ME FALAR?

EU TIVE UM SURTO DE AGENTE 007 E INVADI OS ARQUIVOS DA ESCOLA, TU NÃO VAI ACREDITAR NO QUE EU DESCOBRI!

O QUÊ??

ADIVINHA.

QUE NA FICHA DA ELIANA CONSTA COMO PROSTITUTA PROFISSIONAL? SEI LÁ, ME DIZ.

HA! QUASE ISSO.

QUASE ISSO? COMO PODE SER QUASE ISSO? Eu mandei de volta.

NÃO POSSO DIZER POR AQUI, ACHO QUE ESTÃO ME SEGUINDO. VOU TE BUSCAR.

NÃO DÁ, TO COM O MATT AQUI, JÁ DISSE.

ESTÁ ME DISPENSANDO?

OBRIGAÇÕES DE FAMÍLIA. ME DÊ ALGUMA FOLGA.

OBRIGAÇÕES DE FAMÍLIA NO MEIO DO MATO A NOITE? TAMBÉM QUERO.

AH VAI CAGAR.

EU MENCIONEI QUE ISSO ENVOLVE O BIERSACK?

Pensei por um momento. VOU ATÉ O LIMITE DA CIDADE, ME ENCONTRE LÁ.

FECHADO.

Agora a pergunta era, como eu me livro do Matt?

Minha cabeça estava latejando, também, depois daquela putaria de cinco minutos atrás, o cagaço que o Sidney me deu e de bônus, alguma coisa referente ao insuportável do Biersack (sem contar a Vodka) eu deveria estar infartando. Senti as palmas das minhas mãos suarem e meu corpo tremer. Andei até a margem da cachoeira, sentindo os olhos de Matt as minhas costas. Meus estômago começou a embrulhar, e antes que eu me desse conta, estava inclinada em um arbusto vomitando.

— Credo Mel, tu não sabe beber — resmungou Matt, no banco do motorista.

— Não, eu não sei beber — concordei, me espremendo contra a ótima sensação do vidro gelado, no banco do passageiro.

— Só não vomita no meu carro — brincou ele. Ri um pouco, com os olhos fechados. O balanço da BMW parecia motivar meus estômago a virar do avesso e sair pela boca.

— Matt, você não deveria estar dirigindo — disse.

— Eu não sou você, precisa mais do que sete garrafinhas pra me derrubar, dãar — falou debochado. E realmente, diferente de mim, Matt parecia bem lúcido e consciente. Logo que chegamos em casa, com a ajuda dele, subi para o quarto e deitei na cama, tirando os sapatos. Ele sentou do meu lado, cutucando minha mão.

— Você está bem? — perguntou preocupado.

— Eu pareço bem?

— Parece moribunda, to perguntando pra saber se eu compro o caixão agora ou amanhã de manhã.

— Besta — eu ri, gemendo. Me lembrei da mensagem e de que Sidney estava me esperando, se eu não aparecesse aí sim eu precisaria de um caixão. — Matt, pode me trazer paracetamol?

— Vou buscar lá no armário de remédios do banheiro, já volto — disse e eu segurei sua mão.

— N-não! Sou alérgica a esse paracetamol da Madaleine, tem que ser o tipo B4 — mentirooosa. Ele considerou por um momento.

— E onde tá? Tu trouxe esse?

— Não. Só tem nas farmácias do centro — ele fez uma careta

— Ok, eu vou lá rapidinho então. Não morra.

— Claro — falei.

Fechei os olhos e ouvi o som do ranger das escadas, bater suave a porta, motor do carro e cinco minutos depois eu estava enfiando meus all star e saindo porta afora. Minha visão vacilava as vezes e eu tinha que me segurar, maldita Vodka. Parei no gramado de casa. Caralho, eu pretendia ir caminhando até os limites de Erechin? Cérebro, o que é isso?

Voltei para dentro de casa e catei as chaves da caminhonete, é o único jeito.

A caminhonete do Fred era velha, enferrujada e amarela, mas ainda andava e isso era o que importava. Estava escondida na garagem, debaixo de um monte de pó, afinal, Fred não dirigia mais e nem eu deveria nesse estado. O interior cheirava a tabaco, mofo e ferrugem, meu estômago contraiu ameaçando jogar tudo pra fora, mas não tinha nada a não ser as tripas que não vieram.

Virei a chave e disse a mim mesma que eu podia fazer isso. Andrew, se eu morrer com essa coisa velha no meio do caminho eu vou voltar e te bater com ela!

Pisquei inúmeras vezes pra me manter alerta, a estrada escura e cheia de curvas era assustadora. Em minha mente, a qualquer momento poderia vir um carro na contra-mão ou eu perder o controle da caminhonete. Minhas mãos suavam no volante com capa de couro. Eu posso fazer isso, eu posso fazer isso, eu posso fazer isso. Meus olhos ardiam de tanto piscar, e a minha visão vacilava, escurecendo e clareando em alguns pontos.

Num jogo rápido, num piscar, num segundo, faróis vinham na minha direção. Uma garota morena dirigindo um Corsa preto, quase impossível de se detectar de longe. Já estava perto demais. Tarde demais.

Notas finais
Tem o fígado do Charlie Harper essa Mel hein.