Smells Like Teen Spirit
22 A viagem, part I
Notas iniciais
PS: um beijo pra gatinha da @juli_Cherrybomb que me seguiu no twitter ♥
~Lê propagandinha xarope do youtube ~
[Warmness on the Soul — Preview]
A porta do armário foi escancarada com violência.
- que porra é essa? — disse Gabriel trincando os dentes, sua expressão era meio... eu achei que ele ia arrancar a porta e nos bater com ela. Eu fiquei apavorada e ali encarando ele, as palavras não saiam de jeito nenhum. Olhei em volta e percebi que a loira havia sumido e ele estava vestindo a camiseta.
- a gente meio que ficou, trancado no armário... tipo, é — começou Ben com seu tom inocentemente falso.
- deu pra ver, pela gritaria que fizeram — falou apontando para o armário. — e saiam de dentro dessa porcaria! — rosnou.
- cara, tu tava praticamente comendo a Helena ali no corredor então não vem encher o saco — retrucou Ben. Gabriel o olhou seriamente.
- e vocês — ele me encarou — estavam jogando xadrez dentro do armário? — falou sarcástico, dando uma risada divertida.
- exatamente. Xadrez nível expert, é pra ver quem joga melhor sob pressão dentro de um armário minúsculo e sufocante — me meti sentindo uma onda de coragem repentina. Quem esse filho da puta pensa que é pra ficar me passando sermão? Porque ele acha que pode me passar sermão?
- claro que sim! — seu tom se elevou e ele estendeu os braços — agora se joga xadrez de sutiã e de pau duro, né Ben? — Gabriel fuzilou Ben com os olhos verdes. Opa, pera, para o mundo. Eu me lembro muito bem que esse desgraçado tinha olhos azuis, eu não sou louca, ele tinha olhos AZUIS. Eu o fitei por tempo o suficiente pra ele perceber.
- tu usa lente azul? — perguntei de sopetão.
- não — falou rápido demais. Ele pareceu desconcertado.
- ontem seus olhos eram azuis, e agora estão... — Gabriel virou a cara fechando os olhos — verde musgo...
- você é louca — murmurou com o olhar baixo em direção a porta.
Senti algo quente escorrer pela minha boca, passei a mão rapidamente e fiquei confusa ao ver aquele borrão vermelho.
- sangue — sussurrou Ben, os olhos grudados na minha mão.
- que tal levar a doidinha pro hospital? Ela tá precisando — Gabriel passou por mim e saiu do vestiário. Fitei a porta por alguns segundos, incrédula e com raiva. É um filha da puta mesmo.
- onde ele enfiou a peituda? Dentro do vaso? — retruquei retórica. Fui até o armário e catei minha pobre camiseta que jazia naquele chão sujo — ele acha que tem moral pra vir falar comigo desse jeito só porque tem aqueles dois step de caminhão nas orelhas?
- toma — Ben me estendeu um lenço branco com uns bordados estranhos.
- obrigada, mas não é necessário — recusei, mas ele segurou meu rosto e pressionou o pano delicado sobre o sangue várias vezes. — sinusite?
- não, isso — apertei os olhos — nunca aconteceu antes.
Porque algo dentro de mim me diz que esses sonhos, essas tonturas, e agora esse sangue estão ligados a essa escola e essas pessoas estranhas? Parece loucura, eu sei, mas é um pressentimento que não tem explicação.
- o ar de Washington é bem diferente do de Porto Alegre, talvez precise andar sempre com um lenço de agora em diante — Ben deu uma risada sem graça.
- como sabe que eu sou de Washington? — perguntei.
- o Tavares tem uma boca bem grande, e o Lucas tem um megafone no lugar da boca — falou — tu é desconfiada hein.
- É, sou sim – não faz dez minutos tu tava querendo me agarrar cara, tenho que desconfiar mesmo...
- pronto — disse, dobrando o lenço duas vezes e colocando sobre a minha palma — fica com ele, pode precisar mais tarde.
- obrigado — falei. Ben continuava me encarando, os olhos azuis vidrados nos meus.
- porque me encara tanto? Eu tenho algum tipo de anomalia genética que só tu consegue ver? — perguntei curiosa. Ele demorou alguns segundos pra me responder.
- pelo contrário, eu não consigo ver nada — disse, a voz tão baixa como um sussurro.
- TIRE AS PATAS IMUNDAS DELA! — o grito do Rodrigo me fez arregalar os olhos e dar dois passos pra trás. Ele estava parado na porta, a expressão tensa que logo virou debochada — peguei vocês!
- cabulando aula? – perguntei.
- Fomos expulsos lembra-se? – falou, vindo para o meu lado e colocando o braço sobre o meu ombro.
- Levando a garota pro mau caminho Tavares? Muito bonito. – balbuciou Ben com ar de tédio.
- Lindo demais até. E o que você está fazendo – Rodrigo apontou para a porta onde havia uma placa bem legível escrito ‘vestiário feminino’ – aqui?
- Vim conversar com a Diana, tenho que pegar senha contigo agora é? – ele cruzou os braços.
- Não, mas sugiro um lugar mais aberto.
- E eu suponho que tu vá me forçar a ir pra esse lugar mais aberto – o tom de Ben foi desafiador. Do jeito que a conversa estava indo, não completaria nem dois minutos pra esses dois descerem o nível pra porrada.
- Se é o que tu quer – disse Rodrigo já dando dois passos pra frente.
- PARA TUDO! – me meti no meio dos dois – Sem briga! Rodrigo se acalma, e Ben, vai embora por favor – pedi. Alguns segundos de silêncio e muita tensão se estabeleceram no ar, até que eu vi Ben caminhar até a porta e desaparecer pela mesma.
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[Smells like teen Spirit]
Eram 14:57 PM.
- Não pode me abandonar! – choramingava Sidney no meu ombro.
- São só dois dias – disse pela milésima vez.
Depois da invasão de ontem a noite, eu cheguei em casa mais pra lá do que pra cá, meu pai estava sentado em seu sofá preferido, lendo seu jornal preferido e me deu um sermão glorioso às 2:00 da madrugada. Depois de uma noite mal dormida, eu acordei esta manhã com minhas malas prontas, eu estava indo para Erechim, passar o fim de semana na casa dos meus avós.
- Anda Melanie – chamou o velho na porta de casa. Matt, que ia comigo, estava esperando com o carro ligado, e Sidney estava me apertando como se fosse a última vez que ia me ver.
- Quando eu chegar lá eu te ligo – segurei as mãos dele e me soltei de seu abraço. Sid fez beicinho, o que me cortou o coração quando tive que entrar no carro. Na porta de casa, meu pai acenava, desviei a cara.
- E lá vamos nós – disse Matt animado.
Erechim ficava à horas de Porto Alegre, uma pequena cidade pacata e assustadora à noite. Com histórias de fantasmas, zumbis e outros tipos. Me lembro que quando tinha cinco anos, me perdi na mata de lá, era tão escuro que eu não enxergava um palmo na frente do meu nariz. Meus avós tinham uma casa nos arredores da cidade, tão afastado que pra achar uma casa vizinha era necessário caminhar uns 30 minutos. Eu podia ter me negado a ir, mas pra falar a verdade, depois do que vi ontem, ficar sob o mesmo teto que minha mãe era quase impossível. Me pergunto a quanto tempo ela vem fazendo isso, meu pai não é o melhor marido do mundo e nem o melhor pai, mas acho que ele não merece isso, ninguém merece uma traição dessas. Afastei os pensamentos quando Matt ligou o rádio, numa música suave. Fiquei observando a estrada pela janela, logo acabei adormecendo.
Meu sonho era mais um amontoado de memórias passando rapidamente juntas pela minha cabeça. O vento gelado contra o meu rosto. O gosto do whiskey na minha boca. O cheiro da madrugada. O susto que eu tomei quando encontrei Matt dentro de casa. O carinho que eu tenho quando estou com Sidney. A expressão de surpresa da Hanna. Meu coração quase pulando pra fora do peito quando encontrei a bomba que explodiu o prédio. O medo. A raiva que eu senti todas as vezes que Andrew me insultou. A sensação de formigamento quando ele encostava em mim. O jeito como seu sorriso torto mexia comigo. A saudade que eu sinto do Brawian. A decepção que eu tenho da minha mãe. Tudo misturado.
Num baque eu estava caminhando pela rua. Estava frio e eu não via cores, as casas com gramado impecável eu reconheci como sendo meus vizinhos. Tentei andar mais rápido, mas meus pés se recusavam a acelerar o ritmo. Meu coração batia acelerado e eu estava com pressa, sem saber o porquê. Quando finalmente consegui entrar dentro da minha casa, fiz uma forma incalculável para correr escada acima, minhas pernas pareciam pesar toneladas. A porta do meu quarto estava encostada, com receio eu a empurrei e me vi de encontro a um cômodo vazio. Sem cama, sem guarda-roupas, sem cortinas. As janelas fechadas e pregadas com madeiras, deixavam frestas de luz. De repente toda a pressa e expectativa que eu tinha desapareceram, me senti vazia como aquele quarto.
Um toque quente e suave em meu braço, me fez pular para frente.
- Andrew! — minha intenção foi gritar, mas da minha garganta saiu apenas um sussurro. Ele estava a centímetros de mim, me fitando com os olhos vítreos, tão azuis que pareciam dois oceanos prestes a transbordar.
- Acorde — sussurrou ele. Pisquei.
- O quê?
- Acorde — disse novamente, se aproximando do meu rosto. Foi aí que o sonho se desmanchou.
Meu corpo estava dolorido e eu tinha plena consciência de que havia adormecido no banco do passageiro. Abri os olhos e encontrei um par de olhos azuis me fitando. Que bruxaria é essa?
- MAAAAAAATT!! — berrei quando caiu a ficha que o animal tava em cima de mim. Empurrei ele pro lado, que caiu sentado no chão, pra fora do carro.
- Calma caralho — falou indignado.
- Calma caralho o caralho! Que tu tava fazendo em cima de mim?
- Tava tentando te acordar, já chegamos — disse apertando os olhos — porque? Pensou que eu tava querendo te estuprar?
- Pra falar a verdade sim — disse, me sentindo meio idiota. Olhei melhor para fora do carro, o sol sumia no horizonte e o vento frio do fim de tarde ficava mais forte.
- Melanie! — falou outra voz se aproximando. Voltei à atenção para ela, e vi minha avó vindo de encontro ao carro, que já estava estacionado no gramado. Ela usava um vestido cor de caramelo até os joelhos e um casaco de crochê marrom. Os óculos pendiam na ponta do nariz, fazendo uma janela para os olhos verdes claros.
- Vó — sai de dentro do carro e fui de encontro a ela, a abraçando. Ela estava alguns centímetros mais baixa que eu, que engraçado, na última vez que a vi, eu batia na cintura dela.
- como você cresceu menina — disse sob meu ombro.
- é, faz bastante tempo — falei.
- Madaleine, solte a menina! Adolescentes não gostam desse grude todo! — disse meu avô, saindo pela porta da casa.
- Ah Frederico, vem aqui abraçar nossa neta velho! — falou me soltando. Abracei meu avô, que usava seu macacão de jardineiro preferido.
- está tão linda quanto sua mãe — disse. Agradeci com um sorriso, chegadas e despedidas me deixavam sem jeito.
- ah propósito porque eles não vieram? — me perguntou Madaleine. Se fosse para dizer a verdade, seria porque eles não quiseram. Meu pai sempre brigava com a minha mãe quando ela sugeria virmos visitar os pais dela. Ele sempre tinha reclamações, era muito longe, tudo era muito antigo, os velhos eram muito chatos, quase nunca tinha sinal, o cheiro do mato incomodava a renite dele e por aí vai. Mas olhando nos olhos tristes da minha avó, não quis piorá-los ainda mais.
- Eles bem que queriam, queriam muito. Mas meu pai tinha um jantar muito importante com o governador, e não deu. — disse pesarosa. Olhei de canto para Matt, que ainda estava sentado no chão com as pernas cruzadas, ele deu um meio sorriso disfarçado, compreendendo a mentira.
- Ah — falou Madaleine, num tom tristonho — é que faz tanto tempo que não os vejo...
- os filhos são como os passarinhos, a gente cria e depois deixa que voem — consolou Fred — mas vamos entrar crianças! Vou mostrar a casa pra vocês, a Melanie era tão pequena que não deve se lembrar de nada — disse animado. Madaleine passou o braço por trás das minhas costas e seguimos para a porta da frente.
- levanta daí menino! — ouvi Fred dizer para Matt, que estava distraído olhando as formigas.
Observei a casa enquanto caminhava. Dois andares de madeira rústica, uma varando cheia de vasos de rosas vermelhas e brancas. Um gramado que meu vô fazia questão de deixar impecável. Eu lembrava de tudo isso, e eu lembrava que fui muito feliz aqui.
Já dentro da casa, o piso linóleo estalava com os passos. Os móveis rústicos combinavam com a escada em forma de caracol. Subimos até o segundo andar, onde tinha três portas.
- O quarto de vocês é a porta do meio — falou Fred.
- De VOCÊS? — dissemos eu e Matt ao mesmo tempo.
- Bom, é que o outro quarto de hóspedes está com infiltração nas paredes e o outro tá cheio de tranqueiras que foram se acumulando — falou Madaleine um pouco sem jeito.
- E onde você dormem? — perguntou Matt.
- No andar de baixo, escadas são para jovens — disse ela com um sorriso — bom, vou deixar que se ajeitem — dizendo isso, eles desceram as escadas.
Entrei no meu quarto temporário, acendendo a lâmpada de cristais no teto. A janela tinha vista para frente da casa, um segunda porta revelava uma sacada. Uma cômoda, um guarda-roupas, um bidê, um espelho grande e uma cama... De casal. Que maravilha.
- Pela cara que tu fez, acho que vou ter que ir me acostumando com a ideia de dormir no sofá lá debaixo — falou Matt gesticulando para a porta. Seria uma ótima ideia, mas não queria ser egoísta, acho que dormir no mesmo quarto que Matt não ia arrancar pedaços. Eu acho.
- Vamos dar um jeito — falei.
Notas finais
Novamente: Warmness on the Soul é uma fic sobre anjos caídos, céu, inferno, apocalypse e caras tatuados roqueiros e lindos. Se gostarem, não hesitem em ler.
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