Slytherin Past
6 Confiança
Eu levantei tão rápido, que acordei Jesse com a minha delicadeza.
— O que foi? – ele perguntou, já com a sua varinha em mãos. Ele era muito mais preparado que eu, que demorei uns bons minutos para achar a minha no escuro.— Temos companhia. – sussurrei, mesmo sabendo que ninguém podia nos ouvir ou ver graças aos feitiços que Jesse tinha feito em volta do abrigo. Sai sem esperar e me deparei com várias varinhas iluminadas em um círculo. Todos pareciam procurar coisas em suas mochilas e estavam prestes a fazer um acampamento. Tentei reconhecer Peter na claridade fraca, mas precisaria chegar mais perto e, para isso, teria que sair do alcance dos feitiços de proteção.— São só trouxas. – Jesse disse, assim que chegou ao meu lado. — Com varinhas? – respondi. – Olha bem. Vi meu primo semicerrar os olhos e mudando sua expressão de confusão para preocupação. — Vamos embora. – ele disse imediatamente, já se preparando para arrumar as coisas. Mas eu não queria ir embora. Eu queria falar com Peter, ele era meu amigo, queria saber o que estava fazendo naquela floresta em vez de estar em Hogwarts.— Espera. Eu conheço um deles, era meu namorado de mentira, lembra? E se eles puderem nos ajudar? – perguntei, sem realmente pensar no que estava falando. – Talvez estejam com alguma resistência. – tentei urgentemente dar sentido as minhas palavras para não ter que dizer que apenas queria falar com alguém familiar. — Namorado de...? Esquece. Resistências só existem em filmes. Na vida real é cada um por si. – Jesse respondeu brusco e eu franzi a testa, ele era uma pessoa muito mais amarga do que eu imaginava. — Qual o pior que pode acontecer? Você é sangue puro e eu pensei que sermos capturados era o seu plano brilhante para resgatar CeCe. Vi ele mudar sua expressão e me encarar com desconfiança. Eu tinha certeza que ele estava duvidando das minhas intenções de novo. Se ele estava mentindo sobre alguma coisa, eu estava mentindo sobre mil e ele percebia. Mas não era hora de desconfiarmos um do outro. Ele suspirou e respondeu:— Tá bom. Mas eu vou primeiro. Acenei com a cabeça porque eu não tinha outra escolha e segurei o ar enquanto ele passava pelas barreiras mágicas. O pequeno grupo de bruxos percebeu imediatamente o barulho e ergueram suas varinhas prontamente, apontando-as com a ponta brilhante para Jesse, que se aproximava com as mãos ao alto. — Não quero problemas. – ele disse por fim. Isso obviamente não acalmou os bruxos recém descobertos. — Quem é você? – um homem alto da nossa idade falou com uma voz potente. Sua pele era escura e eu não conseguia enxerga-lo direito na escuridão, mas algo em sua postura e modo de falar era extremamente familiar. — Lee Jordan. – Jesse o reconheceu por mim e abaixou as mãos. – Estamos do mesmo lado. Lee se aproximou ainda com a varinha a punhos e encarou meu primo de cima a baixo. Agradeci mentalmente por meu primo ter sido popular em Hogwarts e conhecido muitas pessoas, ao contrário de mim. Mas me aliviei cedo demais, porque alguém por trás dele gritou:— E se ele estiver mentindo? Ao mesmo tempo que outra voz indagou:— E se ele estiver com poção Polissuco? Claro, todos tinham motivos para desconfiar de todos. Nem eu confiava em Jesse, quem dirá não-Sonserinos em plena guerra. — Por isso temos Veritaserum. E vocês acharam que não íamos usar. Eu falei que era uma ótima ideia. – outra pessoa disse, claramente feliz com seu feitio. Jesse deu de ombros.— Podem me dar a poção. Mas como vou saber das intenções de vocês? Não estou sozinho e odiaria ter que tornar isso em um duelo. Quis dar risada com essa ameaça. Ele fez parecer que tinha um exército atrás dele, prontos para atacar e matar todo mundo, quando na verdade tinha eu. Uma pessoa capaz de exatamente nada. Talvez eu pudesse entendia-los a morte. Mas de alguma forma funcionou, porque Jordan falou que tomaria a poção também em nome a amizade deles. Novamente agradeci mentalmente a popularidade de Jesse. Depois de interrogatórios que revelaram as intenções nobres de ambos — mas infelizmente não me ajudaram em nada para descobrir a verdade sobre meu primo -, os dois apertaram as mãos. Jesse desfez os feitiços e me revelou, tal como o nosso acampamento improvisado. Lee Jordan riu com a falsa ameaça e o clima pesado transformou-se em alívio e um ar de esperança tomou conta de todos. A verdade era que eu não fazia ideia do que estava acontecendo no mundo dos bruxos, mas quando me aproximei e cumprimentei a todos, vi em suas expressões a angústia e dor que a guerra trazia. Talvez muitas daquelas pessoas já tivessem perdido alguém ou estavam lutando por sua sobrevivência por muito tempo, enquanto eu estava em Londres, vivendo a vida boa com os meus pais trouxas. A minha exaustão de um dia depois de encontrar os Comensais na casa de Jesse pareceu extremamente pequena em comparação ao que eu imaginava que aquelas pessoas estavam passando diariamente.
Então eu entendia a felicidade de todos ao encontrar mais dois companheiros para o seu pequeno grupo, quando na verdade nós que deveríamos estar aliviados por não ter que lidar com tudo sozinhos. Os nosso planos suicidas de repente pareceram completamente idiotas e quando eu encarei Jesse, tínhamos certeza que haviam pessoas ali que também tiveram amigos ou parentes sequestrados na Mansão Malfoy e poderiam nos ajudar. Depois de receber muitos olhares e cumprimentar algumas pessoas, Peter finalmente me reconheceu e veio ao meu encontro.— Liz! Eu estava imaginando por onde você estaria. — Estava? – perguntei, surpresa. Me senti mal por não ter pensado em Peter nenhuma vez desde o ano passado e dei o melhor sorriso que consegui. Afinal, eu gostava dele. Ele cheirava bem, era bonito, beijava bem e tinha me ajudado bastante me dando aquela autorização para entrar na área restrita da biblioteca. Não era como se eu estivesse namorando, não é mesmo? Não por escolha própria, mas enfim... — Claro. Você é a única sangue-ruim da Sonserina, imagino que Hogwarts não seria um lugar bom para você agora. – respondeu e eu consegui ver um relance de seus olhos claros pela luz de sua varinha. Sem querer, me perguntei onde estava aquela menina morena de cabelos lisos e olhos vorazes que estava na biblioteca naquele dia. Olhei de relance para Jesse, que estava em uma conversa séria com Lee Jordan, provavelmente colocando em dia coisas realmente importante como nossa proteção, a Mansão e o que eles estavam fazendo para lutar e resistir. Não flertando. Definitivamente não flertando. Mas quer dizer, vocês podem me culpar? Eu tinha sido chutada na bunda pelo cara que eu achava que era o amor da minha vida sem mais nem menos. Eu merecia um carinho. Merecia alguém que gostava de mim. Merecia esquecer ele. — Pois é. – então contei para ele tudo o que aconteceu desde que CeCe apareceu em casa para nos preparamos. Não exatamente tudo, mas vocês entenderam. Como sempre, era bom falar com Peter, ele era engraçado e realmente me escutava. Nós nos dávamos bem e eu até cheguei a pensar que preferia a companhia dele do que a de Jesse. Não porque Jesse era um trasgo ou algo assim, mas porque parecia que eu sempre tinha que medir palavras com ele e eu simplesmente sabia que ele escondia coisas de mim. Com Peter, a única mentirosa do relacionamento era eu. Eu tinha o controle. Merlin, é por causa de pensamentos assim que eu sei que o chapéu seletor não errou... Quando Jesse finalmente resolveu me encontrar de novo, já parecia estar bem tarde e todos estavam se preparando para dormir no acampado que montaram. — Melhor eu ir dormir também, amanhã temos um longo dia pela frente. – Peter me disse e sorriu. – Boa noite. Ainda bem que está conosco. Sorri de volta e acenei enquanto ele se afastava. Feliz com o nosso reencontro, eu quase esqueci o que realmente estávamos fazendo ali. Foi só quando eu vi a expressão de Jesse que me toquei. Não era uma viagem escolar, estávamos em guerra. Quando entramos na nossa cabana improvisada e, devo dizer, bem pior do que a dos nossos recém-companheiros, Jesse não hesitou em me contar tudo o que tinha conversado com Lee.— Eles tem uma coisa chamada Potterwatch (n/a: Observatório Potter em português). É uma estação de rádio pirata na qual eles se comunicam com todos os rebeldes contra Você-Sabe-Quem. Eles confiam que Harry Potter está em alguma missão para acabar com ele. Revirei os olhos, eu nunca entendi toda a confiança em Harry Potter, sinceramente. Tudo que ele fazia era nos meter em encrenca. Primeiro, trouxe o próprio Voldemort para dentro da escola, depois um basilisco gigante apareceu e eu nem preciso mencionar a morte do coitado do Cedrico Diggory, um aluno inocente da Lufa-Lufa. Estava na cara de que esse cara não era páreo para o meu tio, eu realmente não entendo porque a profecia escolheu ele. Talvez eu só tenha sido muito envenenada pelo Draco, mas a verdade era que eu não iria por minha mão no fogo para defender Harry Potter. Mas como não tínhamos muita escolha, eu teria que fingir que acreditava naquela causa. — E estávamos certos, a Mansão está protegida pelo feitiço Fidelius e muitos do que estão aqui tiveram entes sequestrados. Pelo que Lee me contou, muitos planos deles envolvem sabotar as operações dos Comensais com mestiços e nascidos trouxas. – Jesse respirou fundo. – Esse grupo se separou do principal.— Por que se separaram?— Eles vieram fazer reconhecimento de terreno. Ver quais florestas estão limpas de Comensais e Dementadores. Aparentemente os aurores fazem missões mais importantes e estão ligados a outra organização. Mas Lee não quis me dar mais detalhes. Você sabe porque... Suspirei. Com certeza era porque Jesse no fim do dia ainda era um Sonserino. Mesmo fora de Hogwarts, nossa fama fazia toda a diferença. — Apesar de não concordar com o lance do Potter, é bem legal o que estão fazendo. Uma verdadeira resistência. – dei um sorrisinho brincalhão e Jesse revirou os olhos.— Ok, você estava certa. – ele admitiu, se jogando na sua pilha de casacos que usou para improvisar uma cama. – Com quem você estava falando antes? Me deitei também e fiquei olhando para cima na escuridão, sem sono algum. — Você não lembra dele? Meu namorado de mentira? – respondi, me arrependendo imediatamente. Lembrei que Jesse não sabia que Peter foi meu namorado de fachada porque ele não sabia de Draco. Por que raios eu faço isso? Não devia ser permitido conversar de madrugada. — Não sei porque fui perguntar. – Jesse comentou e eu agradeci mentalmente pelo seu senso de humor. – Boa noite, Lizzie. — Boa noite, bolinha. – respondi, pensando que apesar de tudo, quem estava do meu lado era meu primo. Nós crescemos juntos e tínhamos memórias verdadeiras de carinho e afeto. Eu não tinha nenhum motivo lógico para desconfiar de Jesse, mas o meu instinto quase gritava para que eu não falasse nada para ele. Era quase como se meu cérebro tivesse criado um mecanismo de autodefesa. Então, como se esgueirasse na escuridão do nosso abrigo, uma memória fez a minha cabeça doer de forma familiar e, feliz com a sensação, a deixei florescer. “Me vi no auge dos meus sete anos, com a mente imaginativa e que acredita em todas as mentiras. Estava no topo das escadas da minha grande casa, acompanhada por dois meninos da mesma idade que eu. — Bolinha! Quando que o Papai Noel vem? – perguntei, posicionando a minha cabeça entre as colunas do corrimão. — Ele não vai trazer nada pra você se você continuar me chamando assim! – um garotinho de olhos azuis me respondeu, com cara feia. Fiquei extremamente chateada com o seu comentário e resolvi que iria ignorá-lo para sempre. Antes dele pensar em alguma outra coisa para dizer, o outro menino exclamou:— Olha, acho que ele tá vindo, fiquem quietos! Com toda a concentração do nosso ser, ficamos em silêncio e observamos o Papai Noel chegar e deixar presentes embaixo da grande árvore de Natal que ficava do lado da lareira. Logo depois, ele olhou para nós e deu uma piscadela, nos fazendo as crianças mais felizes do mundo. Quando descemos correndo para abrir os presentes, nossos pais já estavam conosco e nos ajudavam a desembrulhar.— Viu! Eu ganhei presentes! – exclamei para o meu primo com um sorriso de orelha a orelha. Então, minha mãe me chamou para o canto da sala e colocou um pequeno peão em minhas mãos.— Escuta bem, Lizzie, isso é um Bisbilhoscópio. Eu quero que você coloque do lado da sua cama e se ele girar e acender você se esconde, tudo bem? É como se fosse um jogo, se você não fizer isso, você perde. – ela falou seriamente, enquanto eu examinava o artefato com curiosidade. – Vou te dar uma coisa especial toda vez que ganhar. Promete que vai jogar a sério?— Prometo! – respondi entusiasmada e coloquei o peão no bolso. — Lizzie! Olha o que eu ganhei! Vamos brincar? – Jesse berrou do outro lado da sala e eu corri em sua direção com o peso no meu bolso, esquecendo imediatamente da minha promessa de ignorá-lo pra sempre.” Com a respiração ofegante, tentei processar tudo o que eu tinha lembrado. Como Jesse estava presente na minha vida antes dos meus onze anos se o que eu lembrava dele antes disso eram memórias falsas de Dumbledore? Até onde eu sabia, ele era meu primo trouxa com quem eu convivi de verdade após meus onze anos. Como era possível eu ter memórias verdadeiras dele, depois de entrar em Hogwarts e de antes? Nas duas épocas, em contextos diferentes?
Eu sei, é até confuso de falar. Quer dizer, se o Jesse da minha recém descoberta conviveu comigo e com os meus pais verdadeiros era o mesmo Jesse que estava deitado ao meu lado e passou tantos feriados com os meus pais adotivos, então ele sabia de tudo. Com certeza sabia até mais do que eu. Com esse pensamento, não consegui dormir, pensando que aquele Bisbilhoscópio nunca viria tanto a calhar quanto agora.
Notas finais
Oiee amores, dsclpa a demora, foi páscoa e eu trinquei o dedo! Haha, então estava sem condições de usar o pc, mas cá estou! Espero que tenham gostado do cap! Bjss
:*
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