Quando a luz penetrou na barraca e meus olhos, já cansados, entraram em contato, eu lacrimejei e desejei a morte para meus pensamentos que me deixaram acordada a noite toda. Mas vocês podem me culpar? Eu tinha descoberto memórias ainda mais suspeitas do meu primo, se podemos chamá-lo assim.

Por causa disso, eu levantei junto com o sol e vi alguns bruxos familiares erguerem os feitiços de proteção em volta do nosso acampamento. Então, me juntei a alguns que estavam sentados conversando. Eu não reconhecia ninguém de Hogwarts, mas isso não era uma surpresa, já que eu conseguia contar meus amigos em uma mão.

Tentei jogar conversa fora com aquelas pessoas, mas a verdade é que mesmo fora da escola, ser da Sonserina vinha com uma bagagem indesejada. Ninguém realmente confiava em mim e, para ser bem sincera, eu não ligava. Só estava ali para conseguir resgatar CeCe e depois irmos encontrar Rabastan ou os meus pais, se minhas memórias colaborassem.

— Bom dia. — Peter me cumprimentou, sentando-se do meu lado. Mesmo de manhã, ele parecia totalmente apresentável, enquanto eu provavelmente estava com uma cara de morte.

— Só para você. Não consegui dormir a noite toda. — respondi, rabugenta. Porque vamos ser sinceros, qual é a chance de eu ficar a noite toda virada e ainda ser simpática de manhã? Eu não sou simpática nem depois de descansar direito.

— Sério? Por quê? — ele perguntou e eu vi um genuíno interesse em seu rosto, como se ele se importasse de verdade e não estivesse perguntando só por perguntar.

Obviamente não podia falar a verdade, porque a minha vida se resumia em mentiras e eu não podia ser verdadeiramente honesta com absolutamente ninguém. Talvez a única pessoa que soubesse tudo era alguém que claramente não me queria. Sim, se parece que eu ainda estou guardando rancor do meu ex-namorado, é porque estou.

— Eu não consegui dormir pensando na guerra e em tudo que está acontecendo. — menti. Convenhamos que não era exatamente uma mentira, mas o suficiente para me fazer sentir mal. Peter era uma ótima pessoa comigo, com certeza não merecia meu tratamento.

Ele me encarou com uma expressão que eu não soube ler, mas antes de me responder, foi interrompido por Lee Jordan, que se aproximou com um pequeno rádio e vários equipamentos eletrônicos que eu não saberia descrever nem se quisesse.

Lembrei do que Jesse havia me dito sobre o Potterwatch, um programa da resistência para dar informações corretas sobre a guerra. Encarei Peter como se quisesse uma explicação mais detalhada, mas ele me mandou ficar quieta já que qualquer ruído fazia diferença na transmissão.

As pessoas se aglomeraram em volta de Jordan enquanto ele fazia uma magia que eu desconhecia. Antes do que eu esperava, ele já estava falando no microfone. Sua voz me lembrava os jogos de Quadribol e da CeCe, que jogava para a Sonserina. Eu particularmente odiava ir assistir, mas agora eu sentia falta de fazer algo tão descontraído e inocente quanto aquilo.

"Agora, retomando a última história que ouvimos sobre Você-Sabe-Quem: ouvimos rumores de que ele foi visto no exterior", Lee começou, na mesma hora que eu senti Jesse se aproximar de mim. Senti um arrepio involuntário, mas me forcei a sorrir para ele antes de apontar para o rádio.

Lee estava entrevistando alguém mais velho, que eu não reconheci de nenhum lugar. Ele provavelmente era um Auror, um dos "outros" que estavam fazendo o trabalho importante enquanto esse grupo fazia reconhecimento de terreno.

"Bom, quem não ia querer umas boas férias depois de todo o trabalho duro que ele anda fazendo?", ele respondeu, brincando.

"Verdade. Mas o ponto é que as pessoas não tenham um falso senso de segurança, pensando que ele está fora do país: talvez ele esteja, talvez não. O fato é que ele pode ser mais rápido que Severo Snape fugindo de shampoo", mesmo tentando manter silêncio, essa piada não passou despercebida e eu consegui ouvir risos abafados por todo o lado. Realmente era engraçado zoar o Snape, mas eu não tinha certeza se isso era tão responsável.

"Eu nunca pensei que eu ia me ouvir dizendo isso, mas: segurança em primeiro lugar!"

"E os rumores sobre Harry Potter? Você acredita que ele ainda está no país? E que ele ainda está vivo?", revirei os olhos. É claro que tudo ia se resumir a Harry Potter. Eu não entendia como as pessoas depositavam tanta esperança nele. Mas essa opinião está se tornando repetitiva, eu sei.

"Acredito. Se ele estivesse morto, ou tivesse fugido, os Comensais da Morte iriam querer que soubéssemos, eles contariam para todo mundo."

"E o que você diria para Harry, se soubesse que ele estava ouvindo?"

"Diria para ele continuar fazendo qualquer coisa que esteja fazendo. Sabemos que ele vai acabar com Você-Sabe-Quem!", eu não estava incluída nisso, com certeza.

"Muito obrigada pelas palavras sábias. Ouvintes, acabamos aqui com mais um Potterwatch. Não sabemos se será possível broadcast de novo, mas estaremos de volta, com certeza!"

"Mantenham-se salvos. Tenham fé."

"E façam o que puderem para parar Você-Sabe-Quem! A próxima senha será Almofadinhas, até lá.", me perguntei o que raios era Almofadinhas, mas não falei nada. Apesar das opiniões divergentes, era uma coisa muito nobre que estavam fazendo.

— O que achou? — Peter me perguntou, depois que a multidão dispersou.

— Muito interessante. — respondi, vaga.

— Nós tentamos dar esperança e acabar com o pânico. Sabe, tem muitos rumores falsos sobre o que Você-Sabe-Quem pode fazer.

— Sim, com certeza. — concordei, torcendo para que nenhum deles fosse que ele tinha uma sobrinha bastarda perdida.

— Liz, eu vou falar com Jordan, tem algumas coisas que deixamos de falar ontem. — Jesse falou e eu acenei com a cabeça, feliz com a súbita partida dele, eu teria que confrontá-lo cedo ou tarde, mas tudo parecia tão suspeito que eu nem sabia como falar sobre o assunto. Se ele fosse um espião de Voldemort, eu não podia arriscar que ele soubesse que eu sei.

— Você já comeu? — Peter me perguntou e eu neguei com a cabeça, de repente percebendo a minha fome. — Vem.

Eu queria dizer que ele me levou para um refeitório, onde tinha muitas opções de comidas gostosas e que eu não teria que me preocupar com isso pelo resto da minha jornada. Mas não, ele me levou para a mochila dele, onde tinha algumas frutas e barrinhas de proteína. Suspirei, era melhor do que nada.

Me ocorreu que talvez fosse bom que eu tivesse encontrado aquele grupo, eles precisavam de experiência trouxa de acampamento. Como caçar veados e pescar, afinal, era impossível materializar comida. Ótimo, se eu me tornasse útil e necessária, ninguém ia pensar em me trair ou deixar para trás.

Agradeci Peter e perguntei se eles tinham alguma barraca mágica para nos emprestar, já que estávamos dormindo em um abrigo improvisado e dormindo em cima de casacos.

— Na verdade, acho que Alicia Spinnet talvez tenha. Ela é uma das encarregadas pelos mantimentos. Vem comigo.

Segui ele até um grupo de bruxos que estavam treinando feitiços um com o outro. Aquilo era o que eu deveria estar fazendo desde o ano passado, mas sou preguiçosa.

— Spinnet, você tem alguma barraca sobrando? Para os nossos novos associados.

Não sabia se gostava da palavra associados. Parecia bem definitivo e eu obviamente só estava lá para salvar CeCe, depois disso ia partir com ela, não íamos fazer parte da resistência. A verdade era que a última coisa que eu queria era lutar na guerra.

— Tenho. — ela se afastou dos duelos e sorriu para mim. — Então você que é a menina sangue-ruim da Sonserina! Eu achei que fosse só um mito.

Preferi não responder e apenas dei um sorrisinho falso.

— Acho muito nobre do seu primo não ir para Hogwarts para te proteger. – ela completou. Vi que a nossa história se espalhou rápido entre o grupo.

— Na verdade, eu que estou protegendo ele. Ele é meio inútil. — respondi, ironicamente. Porque convenhamos que isso não pode estar mais longe da verdade. Se alguém era inútil naquela dupla, era eu em todos os sentidos.

Alicia riu alto, me lembrando muito como CeCe ria e meu coração apertou. Eu esperava que minha amiga estivesse bem.

— Vem comigo, vou te levar para a barraca. Os antigos donos não vão voltar. — de repente, a atmosfera descontraída que eu tinha criado com a minha piada foi completamente destruída.

Não soube o que dizer. Será que eles tinham sido mortos? Ou sequestrados? Não quis perguntar, eu sabia como era inconveniente quando alguém metia o nariz onde não era chamado.

— Não se preocupe, Liz, você está segura conosco. — Peter se certificou em me dizer, provavelmente lendo a minha expressão. Percebi, então, que esse tempo todo eu estive preocupada com os meus pais, com CeCe, com Suzanna, até com Rabastan, mas não comigo mesma. Era eu quem estava em maior perigo.

A minha maior preocupação não deveria ser se o meu primo era quem ele dizia ser ou se eu iria encontrar meus pais. Deveria ser em me manter viva. Voldemort estava atrás de mim com motivos pessoais, eu deveria estar aterrorizada e não querendo me arriscar na Mansão Malfoy para salvar minha amiga, que provavelmente estava mais segura que eu por causa de seu sangue.

Respirei fundo. Eu não podia mais ser tão desprevenida e ingênua. Estava na hora de deixar meu sangue sonserino correr livre. Eu precisava ser astuta e ambiciosa. Calculista e fria.

— Obrigada por nos acolher, é muito legal o que estão fazendo. – respondi para Alicia quando finalmente chegamos na barraca.

— Nós não queremos ficar muito tempo aqui, só até conseguirmos achar os Dementadores que foram avistados. — ela disse. — Vamos patrulhar hoje de tarde, quer se juntar a nós?

— Vocês sabem fazem o Patrono? — perguntei, surpresa. Mas depois de pensar direito, é claro que sabiam. As pessoas que participaram da Armada Dumbledore no quinto ano sabiam feitiços de Defesa de Artes da Trevas que nós, bruxos normais que não queriam quebrar nenhuma regra, nunca aprendemos.

Umbridge foi provavelmente a pior professora que tivemos e hoje, estando em perigo constante, eu me arrependo de não ter me juntando ao clube exclusivo de Potter.

— Nós te ensinamos, não é tão difícil quanto parece. — ela respondeu. Agradeci e combinei de encontrá-la duas horas antes da patrulha no lugar onde estavam praticando feitiços anteriormente.

Quando ela se afastou, Peter me encarou com uma sobrancelha erguida.

— O que aconteceu com você? Desde quando você liga para se tornar uma bruxa melhor e ajudar o mundo? — perguntou e eu dei um sorriso debochado.

— Eu sou nascida trouxa, esqueceu? — menti. — Preciso saber me defender. Não quero morrer tão cedo. — isso era bem verdade.

Então, passamos a manhã arrumando a minha barraca e conversando sobre a situação do mundo. Peter finalmente me contou o que andava fazendo depois de sair de Hogwarts, ele tinha arranjado um emprego como pesquisador de criaturas marítimas mágicas, o que era totalmente a cara dele. E como era mestiço, foi demitido porque não tinha como provar sua parte bruxa, já que seu pai morreu quando ainda era criança. Lógico que ele era mestiço, eu sabia disso. Tinha descoberto quando perguntei casualmente se ele era um Comensal da Morte quando ele era ainda era um suspeito de enfeitiçar Jesse e entrar na minha mente.

Tempos simples.

Antes de ir me encontrar com Alicia Spinnet, perguntei para ele setinha um Bisbilhoscópio para emprestar e, sem perguntar o motivo, me deu o dele. Perfeitamente parado, confirmei que Peter não era suspeito e pensei em como iria usar perto de Jesse sem que ele percebesse.

Nos despedimos e combinamos de nos falarmos de noite, quando os grupos se reunissem para reportar as atividades. Ter encontrado um amigo foi a melhor cosia que tinha acontecido desde o começo do ano, era extremamente frustrante não poder compartilhar as coisas com CeCe e Su e ter que ficar sempre com um pé atrás em relação a Jesse.

Eu achava que estava tudo caminhando bem, até entrar na barraca que Alicia tinha nos dado. É claro que as coisas não podiam ficar bem por muito tempo. É de mim que estamos falando. Sobrinha do Voldemort. Uma maldição ambulante.

— Vim reportar para o Mestre Jesse, desculpa a intromissão. — Hestia, a elfa fez uma reverência ao me ver.

Por coincidência ou não, ele entrou logo atrás de mim.

— Héstia! — exclamou surpreso. — Liz, por que não me falou que nos mudamos? Eu fui no antigo acampamento e estava tudo desmontado!

— Eu acabei de conseguir a barraca, ia te falar mais tarde. — falei, mas a verdade era que eu tinha esquecido completamente. — Mas isso não importa, vamos ver o que Héstia tem a nos dizer! Você tem notícias de Suzanna?

— Pode respondê-la. — Jesse ordenou e a pequena elfa veio em minha direção com uma carta. Com o coração na boca, eu peguei e suspirei. Estava extremamente receosa com o conteúdo daquela carta. E eu estava certa em estar, porque logo vi que o envelope estava gasto e a tinta borrada. Tinha algo de errado.

Se eu fosse uma bruxa minimamente inteligente, eu teria feito algum feitiço de revelação, mas eu estava tão ansiosa para ver o que Su tinha me respondido, que isso não me ocorreu.

E obviamente, minhas esperanças foram destruídas assim que eu abri o envelope e uma luz cegante invadiu a barraca.

Notas finais
Oiee, cap novo amores! Espero que tenham gostado :) Beijocas :*