Andávamos pelo grande mercado que se localizava na parte alta da cidadela era uma grande praça sendo o principal ponto de acesso para o aclive do portão das muralhas que englobam o castelo. Estas eram visões bem diferente das que eu estava acostumado nestes últimos anos, às cidadelas é oque se pode chamar do estagio final que um castelo consegue se tornar, elas geralmente são menores que as cidades, contudo são incontáveis vezes mais seguras no que se diz respeito a ataques e cercos, contem três divisões de muralhas do quais são comumente chamadas de cidade baixa, alta e castelo.

A cidade baixa era onde se localizava a plebe e geralmente não contem construções de certa importância como a ferraria, templo ou banco apenas habitações simples e entretenimento básico ao povo que ali vive. Em um cerco geralmente esta parte da cidade é facilmente abandonada e a verdadeira batalha ocorre para defender a cidade alta — escolha esta tomada devido ao exercito inimigo não possuir tanto espaço para se reunir quanto possui nos campos ao lado de fora da cidade baixa.

A cidade alta se localiza uma muralha antes do castelo, nela é onde a nobreza e a burguesia habitam — por mais que os habitantes da cidade baixa teoricamente também se localizam dentro do burgo, apenas os habitantes da parte alta são considerados burgueses, eles também são as famílias mais antigas da cidadela e são em sua grande maioria comerciantes – nela se encontra todas as principais construções necessárias para a economia da cidade estando apenas abaixo do castelo do qual detém o poder executivo e administrativo, contudo a cidade alta por sua grande parte do tempo é independente do castelo, tendo apenas limitações impostas pelo Monarca. Este vive no castelo, uma construção imponente que se localiza na parte mais alta de toda a cidadela, ela é também usada como final defesa durante um cerco, contudo geralmente quando a batalha pelo castelo começa a vitória já esta assegurada, entretanto é debativel o lado que esta vitória está. É bem verdade que poucas cidadelas foram conquistadas ao longo da historia e muitas frustações de exércitos derrotados mesmo após conquistarem a cidade baixa e alta é algo comum, devido ao fato do exercito atacante estar cansado e ferido após dias de cerco, a fim de conquistar as evacuadas de suprimentos e pessoas, parte alta e baixa, em resumo a fama de uma cidadela diz que ela apenas pode ser conquistada de dentro para fora ou por um exercito tão grande que seria capaz de mover montanhas ou de fazer o chão tremer à sua marcha.

A cidadela em que estávamos possui suas peculiaridades devido ao fato desta ser a Capital do Reino de Lattghyen ela possui o maior aspecto demográfico do continente, tanto em terras ocupadas por zoneamento urbano, quanto em população por cabeça, as muralhas são feitas de granito, bem diferente do material rochoso comum para estas construções como o basalto e gabro, também é totalmente pintado de branco com detalhes azuis nas colunas e telhados das torres. Combinava com as cores do castelo e de fato, quando a cidadela era vista do horizonte aparentava como sendo um castelo com dimensões inacreditáveis.

Pois bem, estávamos no grande mercado para vendermos os Pães da Stern, é um produto simples, contudo ele estava sendo à base de nosso sustento enquanto nos estabilizávamos na cidadela, além do fato de que o pão estava ficando bem famoso na cidade. Stern andava ao meu lado, tinha um andar delicado e sereno, mantinha sempre um sorriso simpático e feliz no rosto que encantava todos à sua volta, também andava sempre com as mãos para traz. Sempre que observava o seu caminhar eu ria e dessa vez não foi diferente:

— Por que os risos senhor Adonnen – Falou ela calma sem olhar para mim ou retirar seu sorriso do rosto.

— Nada, apenas sempre reparo que você não mudou nada desde nossa primeira viagem.

—E como foi isso? – disse ela virando os olhos para mim. Eu sorri para ela enquanto me lembrava, acelerei meu passo e dei um giro parando na frente dela, quase derrubando a cesta com pães da qual eu segurava.

—Se saber você realmente quer, então saber é oque você irá.

Caminhávamos-nos a caminho da capital tomando a rota mais longa propositalmente, já andávamos havia três dias e nossas conversas fluíam cada vez mais, eu a tratava de maneira fria, pois estranhava tudo oque estava acontecendo, era a primeira vez que me afastava tanto do bosque por isso tentávamos sempre manter o caminho pelas ruas, aventurávamos para dentro de algum bosque ou floresta apenas de noite pelo fato de eu achar mais seguro para montarmos acampamento. E naquele dia não foi diferente, eu percebi o sol a caminho de se por e mudamos um pouco a rota com a finalidade de alcançarmos uma floresta que podia ser visto logo a frente, Stern estava ansiosa para descansar e comer por isso achei melhor acelerar o passo contudo percebi que ela mantivera o mesmo e foi ai que percebi a sua maneira de andar. Achei peculiar, principalmente pela calma que ela transmitia era como se sempre estivesse pensando em algo distante, sempre achei engraçado, mas segurava o riso. Mesmo minha frieza não a impedia de sempre estar puxando assunto de modo que nunca parávamos de conversar:

— Ap? – indagou ela se curvando para me olhar nos olhos, eu a olhei com o canto do olho, mas logo voltei a prestar atenção na rua.

— Significa filho – Tewdric uma vez me disse que esse costume vem desde os primórdios dos elfos no continente, a principio era usado para que sempre até a quarta geração soubesse quem era seus antepassados, assim, caso necessário à divisão de bens saberia de quem eram os filhos, contudo isso nunca deu certo e acabou virando apenas uma tradição.

— Então – ela olhou para o céu sorriu e disse em um tom animado – Meu nome seria Stern Ap Gordric Ap Serdric Ap Mordric – Reparei na peculiaridade dos nomes, mas logo decidi ignorar devido a algo mais ter me chamado a atenção.

— Falando nisso, você nunca me falou sobre o seus pais, como eles são?

— Bom – Ela parou e encostou a ponta do dedo sobre os lábios como se estivesse pensativa, então com um leve salto voltou a andar e começou a falar animada – Meus pais são comerciantes, mais meu pai, mas ele não é um comerciante comum não é não – ela correu subindo em uma rocha, estufou o peito colocando as mãos na cintura como xícara de porcelana – Ele é um comerciante almirante, possui seu próprio navio – falou orgulhosa – E também uma residência dentro das muralhas da cidade em que vivíamos.

— Uma burguesa – falei tentando parecer surpreso enquanto estendia a mão para ajuda-la a descer, enquanto segurava em minha mão, deu um leve aceno de gratidão com a cabeça e respondeu.

— Exatamente – ela sorriu de canto e voltou a caminhar da maneira de sempre — somos comerciantes de temperos, conhecidos principalmente por nosso açúcar especial é um segredo de família por isso ele é muito valioso.

— E onde eles estão agora? – Escutando minha pergunta ela tornou a por os dedos nos lábios enquanto olhava para o chão com uma expressão pensativa.

— Devem estar viajando pelo mundo, ou no mínimo pelo continente depois de terem me vendido para a guilda dos magos – ela disse as ultimas palavras olhando para frente com o mesmo sorriso que sempre fica, falou como se fosse à coisa mais normal do mundo, eu fiquei indignado com aquela situação, mas tentei ao máximo não demostrar isso.

— Como assim te venderam?

— Bom, a guilda dos magos é extremamente influente entre os reinos e eles não ficaram tão poderosos arrumando briga com comerciantes também influentes ao invés disso fazem amizade e alianças e meu pai é um homem muito influente é sim – ela rio – Quando meus poderes começaram a aflorar a guilda logo me rastreou e foram ao meu encontro, entretanto eu era a única herdeira de uma das famílias mais poderosas da cidade e meu pai provavelmente iria me usar como moeda de troca com alguma outra família para aumentar ainda mais o poder de ambas.

Tewdric sempre falava sobre isso, em algumas culturas os humanos usam as filhas como se fossem mercadorias. Entre a plebe, geralmente no casamento o dote é dado ao pai na desculpa de que o genro teria uma empregada pelo resto da vida, assim como ela daria a ele os filhos que iram trabalhar junto a ele na lavoura, ou então o dote é dado ao noivo na desculpa que ele estaria tirando um fardo das costas do sogro por isso precisava de compensação, varia realmente de cultura pra cultura. Na nobreza e burguesia os filhos eram utilizados comumente pare se criar laços e alianças entre as famílias fortalecendo ainda mais as mesmas:

— Entendo, mas por que eles foram atrás de você e ainda te compraram.

— Devido ao fato de que muitas pessoas que não se juntam a guilda tem a cabeça possuída pelo próprio poder e acabam se tornando pessoas más, a guilda tenta controlar e evitar que isso ocorra por isso mantem a Torre do que tudo vê sempre procurando jovens magos e assim que utilizam seus poderes ela vai a seu encontro, geralmente a guilda consegue facilmente convencer os jovens devido à vida oferecida pela mesma, que é muito boa e luxuosa, porem algumas vezes essas pessoas são encontradas entre os nobres e estes quando não veem vantagem em possuir um mago na família se tornam um problema e a guilda sempre busca então uma solução alternativa, foi o meu caso, entretanto o diretor disse que quando meus poderes afloraram todos os sensores tremeram, isso era um sinal de grande poder – falou satisfeita – então a guilda não colocou preço sobre mim eu era mais do que necessária então convenceram meus pais a me deixar para a guilda, no fim não foi difícil, quando apontaram para eles que comumente feiticeiros são estéreis meu pai sabia que dificilmente eu iria conseguir um marido caso o boato se espalhasse, então resumidamente, no dia seguinte após a ida de meu avaliador a minha casa fui mandada para a guilda – eu fiquei surpreso quando Stern falou que não poderia ter filhos, contudo ela falou com tamanha naturalidade que deduzi que ela já havia aceitado ou simplesmente para ela era indiferente, eu apenas decidi não comentar nada sobre o assunto. Já estávamos dentro da floresta quando o assunto terminou e quase que cortando oque estávamos falando ela me parou.

— Esta ouvindo isso?

— É uma cachoeira – Falei quase que de imediato, já estive escutando ela há algum tempo, mas fora o pensamento de que teríamos água fresca não achei necessário avisa-la ou algo do tipo, contudo Stern sorriu com a minha confirmação e alegremente falou

—Finalmente vamos poder tomar um banho, não estava mais aguentando, me sentir suja – ela correu na minha frente em direção a cachoeira eu sem entender fui atrás dela para que não se perdesse.

Chegando lá ficamos olhando para as águas da cachoeira, ela não era muito grande ideal para um banho, as águas eram quase cristalinas e o ambiente fértil e puro encantava os olhos de qualquer um, era tão belo que me preocupei em aquele lugar ser território de alguma Dríade, Stern por outro lado apenas se preocupava com seu banho e com o acampamento, eu queria monta-lo distante das águas devido a estas atraírem animais selvagens e humanos, porem Stern fez questão de que esta noite passássemos naquele local, e de fato os conglomerados que ali faziam dele perfeito para montarmos acampamento, mas isso não diminuía minha preocupação com o lugar, contudo Stern tomou a decisão final:

— Está decidido, vamos ficar aqui e você vai buscar lenha enquanto tomo o meu banho – ela mudou sua feição sorridente e ficou séria, se inclinou em direção a mim e estreitando os olhos e apontando o dedo para o meu rosto, falou séria – E você, nada de espiar – Era a primeira vez que via ela falando com um tom tão serio, arquei minha sobrancelha e após algum tempo olhando um para o outro, dei de ombros e ri enquanto me virava para ir buscar lenha – ótimo – falou ela voltando a sorrir e imediatamente virou-se para a cachoeira, eu caminhei na direção oposta voltando a adentrar a floresta, contudo minha curiosidade fez com que eu virasse levemente minha cabeça e rapidamente observei-a enquanto se despia, ela retirava seu robe pelas mangas lentamente e pude ver seus ombros pálidos enquanto lentamente ela deixava o robe deslizar pelas costas foi ai que ela gritou – Sem espiar – Então apressei o passo adentrando na floresta.

Comecei a buscar por galhos no chão, devido à cultura élfica ser contra a extração direta dos materiais fornecidos pela floresta e acreditarmos na convivência simbiótica entre o ser e a natureza de modo que sempre haverá o necessário para ambas e desse necessário os elfos buscam o seu luxo e a amizade entre elfos e natureza garantia que esta nunca lhe negasse qualquer coisa.

Enquanto coletava a madeira e algum outro recurso que a natureza me oferecesse pus-me a pensar sobre Stern, não apenas no que havia visto na cachoeira, mas em tudo que ela havia dito até agora, naquele momento não pude chegar à conclusão alguma, mas havia algo nela que me deixava confuso. Pois bem, eu já estava acostumado com a nudez devido aos elfos não terem problemas com a mesma sendo bem comuns as crianças, de até quinze ou um pouco mais invernos brincarem nuas pelo bosque, contudo, quando os humanos começaram a violar as cercas fantasmas e adentrar o bosque Tewdric proibiu esta pratica, dizia ele que as garotas nuas brincando pelo bosque iria atrair a loucura dos humanos e iriam incentiva-los ainda mais a estuprar nossas mulheres, alguns acharam desnecessária esta proibição, mas logo Tewdric convenceu todos da maldade proeminente dos homens, e em pouco tempo esta pratica foi abolida, porem ainda assim dentro do vilarejo era comum ver crianças nuas. Após essa proibição apenas um dia era permitido que as mulheres andassem despidas pelo bosque era esta a noite do festival da lua, onde as mulheres se banhavam no lago sobre a luz da lua cheia para se purificar. Naquela noite a patrulha entre os guardiões era dobrada, não apenas pelos mais velhos que reforçavam a segurança de suas esposas e filhas, mas também dos mais novos que buscavam algum modo de espiar as elfas nuas, mas sempre davam de cara com Tewdric que de alguma maneira sempre encontrava aqueles que tentavam espiar, era sempre uma festa Tewdric corria atrás dos garotos enquanto os amaldiçoavam, pela lua e pelas estrelas, enquanto nos as crianças apenas observávamos a cena de cima das arvores e gargalhávamos, bom dias aqueles e os ancestrais sabem o quão bom eram, mas estes agora estão acabados e a memoria feliz pela primeira vez me trouxe dor e quando derramei a primeira lagrima decidi retornar para a cachoeira.

Enquanto retornava, percebi que havia me perdido nos pensamentos no fim tudo me levava para o meu passado, mas isto não mudava a confusão que Stern me causava e eu não entendia por que a visão de suas costas despidas não saia de minha cabeça, por isso resolvi caminhar por minhas memorias enquanto apaziguava meus pensamentos e enquanto andava veio-me uma coisa que em comparação a algo que Stern disse fez-me perceber algo peculiar.

Entre os elfos o banho é algo essencial em sua rotina de modo que tomávamos banho no mínimo uma vez ao dia, quando me tornei escravo perdi completamente este habito, não apenas pelo fato de que eu não podia, mas também devido a humanos não possuírem o habito de se banhar de maneira que segundo Tewdric apenas os humanos vaidosos e a extrema nobreza se banhavam. E isto me fez pensar que já não me lembrava da ultima vez que havia tomado banho e tive que admitir que a ideia da Stern era uma boa ideia apesar de meus temores.

Quando voltei, Stern já havia terminado de se banhar e estava há arrumar a saia de seu robe, esta estava totalmente levantada de modo que pude ver toda sua cocha, era branca e suave assim como os ombros e as costas que eu havia visto mais cedo, senti então minha boca a salivar e fechei meus olhos chacoalhado a cabeça para recuperar o sentidos que haviam deixado momentaneamente de responder, fiz mais barulhos nos paços afim de fazer com que ela notasse que eu havia chego, ela em um susto abaixou a saia, me olhou por algum tempo mas logo sorriu e fazendo uma cortesia apontou para a cachoeira e como se caçoasse de mim falou:

— A água esta ótima ultimo guardião e esta pronta para o senhor ir tomar banho

— Eu vou? – Falei retribuindo o tom enquanto me aproximava do local que pretendia fazer a fogueira.

— É claro que vai – ela rompeu sua postura de cortesia e voltou a ficar em sua forma natural, mas logo tornou a brincar – Eu sou uma linda donzela – falava em tom sensual e dramático enquanto passava uma das mãos pelo canto do corpo – Limpa e com cheiro de rosas e o senhor – ela voltou a caçoar colocando ambas as mãos na cintura enquanto se inclinava para mim — esta longe de ser um cavaleiro de armadura brilhante com cheiro de cravos, pelo contrario – ela pôs uma das mão no nariz e falou com voz engraçada – é um soldado sujo e fedido.

—Eu sou um guardião – corrigi depois de rirmos da atuação dela – E pra sua sorte guardiões são limpos senhorita donzela.

Com estas palavras, tirei o arco e as flechas das costas e coloquei ao lado do saco de suprimentos que carregava comigo até então, tirei o sinto com a bainha e após retirei o sobretudo colocando ele sobre uma rocha, tirei a malha de ferro ficando apenas vestido com a calça e as botas, quando me abaixei para retirar o calçado percebi que Stern me observava o tempo todo, após retira-los olhei para ela, trocamos olhares por um breve período, e logo ela começou a piscar rapidamente e movimentando os olhos apontou para mim e para o lago, eu sorri de canto então adentrei no rio com um mergulho. Nadei até próximo a cachoeira então subi nas rochas que embaixo dela ficava, apoiei meu braço sobre a parede da cachoeira e encostando minha testa na mesma deixei que a água caísse sobre minha nuca e enquanto deixava que a água me massageasse passei a pensar novamente sobre tudo que havia acontecido.

A verdade é que até agora eu não havia aceitado os acontecimentos e como a fortuna imposta pelo destino a mim poderia ser tão desgraçada, eu pensava no porque isso acontecia ou na ofensa que eu poderia ter feito para ser castigado com tamanha perdição, também pensava em Stern e no que a vinda dela podia significar, estava claro para mim que ela era o caminho que os ancestrais haviam me enviado, assim como essa nossa viajem simbolizaria algo, contudo, Tewdric sempre dizia que os ancestrais estavam constantemente nos enviando sinais e que por mais que o caminho esteja claro sempre existe mais. O que eu queria realmente era que Tewdric estivesse ali para que eu pudesse pedir para ele mais uma vês seus concelhos, escutar seu simbólico “Absurdo” e suas broncas antes dele dizer o caminho correto, queria escutar meu pai e ver todos da vila, mas isso não era possível e eu percebia que já anoitecera e a fogueira já havia sido acesa.

Voltei para a margem e Stern ficou me encarando enquanto voltava, eu percebi que ela estava se segurando para perguntar oque fiquei pensando por tanto tempo, mas também percebi que ela não queria me forçar a falar nada então fez uma pergunta na tentativa alegrar o ambiente:

— Você sempre toma banho de calça?

— Gostaria me ver nu então, senhorita donzela? — percebi sua face pálida corar antes dela cuspir uma resposta quase sem saber oque dizer.

— Mas é claro que não, de qualquer modo – falou ela quase que gaguejando — a comida esta pronta – Eu sorri enquanto olhava pra ela e disse com voz serena e aliviada.

— Obrigado – Ela olhou para mim quase sem entender, mas voltou com seu belo sorriso simpático e antes que o clima voltasse ao seu estado inicial, tomei eu a iniciativa e voltamos a falar enquanto jantávamos.

Mais tarde fomos dormir, deitamos na grama enquanto utilizávamos nossas bolças como apoio para a cabeça, Stern sempre deitava perto de mim, não como um casal que dorme a mesma cama, mas como dois irmãos que tem suas camas separadas em uma curta distancia. No fim tomei a iniciativa para que isso acontecesse, na primeira noite em que ela dormiu no vilarejo percebi que seu sono estava muito inquieto eu não sabia oque ela havia visto para que estes fantasmas a assombrassem mas quando iniciamos nossa viajem eu sugeri que dormisse perto de mim, dei uma desculpa qualquer, costume élfico, eu disse, mas tenho certeza que ela sabia que era uma desculpa e que eu havia notado que ela dormiria mal, sei que ela sem hesitação veio para perto de mim e na primeira noite dormiu com um sorriso no rosto, desde então nunca dormimos longe um do outro.

Naquela noite ela se virava pra mim e com os olhos demonstrando preocupação falou comigo:

—Adonnen, como é ser o ultimo guardião?

Olhei para ela por algum tempo, depois passei a olhar as estrelas e olhando para elas respondi.

—Solitário.

—Mas você não esta mais sozinho – Ela segurou em minha mão apertando-a – Quando eu estava na Guilda eu costumava me sentir sozinha e presa. Então eu sai, nunca me senti tão livre e quando te conheci você sempre foi gentil comigo, sempre tentou fazer o possível para que eu me sentisse segura – ela desviou o olhar e continuou a falar diminuindo o tom da voz gradativamente – E eu quero te retribuir isso, de alguma forma, afinal estamos nisso para recomeçar não é mesmo?

Eu a olhava nos olhos enquanto falava tudo e quando terminou passei a olhar as estrelas novamente. Gentil ela disse, eu sempre pensei que a tratava de maneira fria, mas de alguma forma ela via gentileza nisso, talvez sem perceber eu até fosse e minha melancolia e pensamentos caóticos não permitiam que eu enxergasse oque estava a minha volta, contudo as palavras de Stern apaziguaram meu coração e enquanto sentia seus dedos macios acariciando a palma de minha mão, vários pensamentos vieram em minha mente e finalmente eu entendi oque os ancestrais queriam me mostrar:

—Recomeço, é?

—Sim, nos dois, juntos – Eu tornei a olha-la e vi o sorriso de alegria em seu rosto, não soube como responder aquilo então apenas retribui com um sorriso, um sorriso sincero de segurança e confiança, sentimentos que eu não sentia há muito tempo.

Não falamos mais nada naquele noite e depois da longa troca de olhares sem que se percebêssemos adormecemos, foi uma noite feliz uma que já não tinha a um bom tempo, mas ela não fez com que mudasse minha rotina, acordei cedo, primeiro que Stern como de costume, me sentia feliz e despreocupado mas fora longo o tempo que esses sentimento duravam em mim e quando olhei para o horizonte, a cautela e preocupação voltaram a comandar meus sentido, pois eu avistava a fumaça de uma fogueira que não esta muito longe dali. Eram humanos e estava na hora de sairmos.