Sleeping Smile
10 Forgotten Memories
Notas iniciais
Agora .
Storybrooke- Maine .
Sinto meu corpo sendo consumido por um peso em meu peito.
Acordo quase que intuitivamente me sentindo ofegante e cansada. Nunca sentira isso. Transpirava frio ainda sentada a minha cama e levo minha mão até meu peito.
“TUM TUM TUTUM TUM”, meu coração ressoava como tambores, eu estava sentindo um mau pressagio.
Queria vê-la. Por um motivo eu queria correr para o andar de acima de mim e vê-la dormir. Me sentindo tomada por essa súbita vontade, jogo para o lado as cobertas que antes me cobriam em um sono profundo até minutos atrás e salto da cama para a enorme escada de ferro à minha frente.
Em minha cabeça havia duas pessoas distintas: Mary Margaret Blanchard e Branca de Neve; por mais diferentes que elas sejam, ambas estão perdidas querendo respostas e ambas se recusam a acreditar que a mulher que dorme no andar de cima é mesmo “sua” filha.... Elas não querem se encher de falsas esperanças (embora eu acredite que o problema de Mary Margaret já seja o ceticismo). Ambas desistiram de lutar. Devo-lhes contar que preferia não se lembrar de nada, pois essa é a pior maldição que alguém pode ter. Passar 28 anos presa no tempo agindo com normalidade em um mundo cético é melhor que passar 28 anos contando os dias se perguntando se fizera a coisa certa ao salvar sua filha, se perguntando se sua menina passa fome ou frio.
Em fim chego no segundo andar e a vejo dormir da forma mais doce possível. Ela agarrava com força um travesseiro extra de conchinha- O que me fez pensar que ela dormia com um bichinho de pelúcia- e sorria para o lado leste da casa. Aproximo-me da cama em que ela descansava me sentando ao seu lado sorrindo ao ver seu lindo rosto, consigo sentir o quente ar de sua respiração chegar ao meu rosto, retribuo com um sorriso calmo e demorado como se aquele era um sonho de que não pretendia acordar. Permito minhas mãos se aproximarem de seu cabelo e de repente, ao sentir seus fios louros de cabelo dançarem por entre meus dedos, um flashback toma conta de minha cabeça.
“Era para eu ter vindo com você para esse mundo”, penso com um sorriso agora tristonho no rosto lembrando de nosso ultimo momento.
Antes .
Floresta Encantada- 1983 .
Emma estava enrolada em um cobertor que eu mesma havia bordado, segurando-a em meus braços sentindo sua frágil estrutura contra minha pele. Como podia um ser tão pequeno proporcionar tantos sentimentos? Consegui até sorrir esquecendo por um momento da maldição... Da rainha... De tudo. Emma era meu tudo naquele instante, porém este logo foi interrompido por gritarias e estrondos.
— Leve-a- Digo com uma voz gutural para Encantado que estava ao meu lado. Ele me encarou incrédulo.
— Branca, não podemos deixa-la sozinha num mundo desconhecido- David, o qual o chamo de Encantado, levou as mãos até a pequena cabeça de nossa menina sentindo um aperto no coração.
—E você acha que nossa criança estará salva conosco? Com essa maldição? Ela vai mata-la!
Um choro inocente cortante tomou conta de todo o quarto. Olho para Emma, ali nos meus braços , seu choro me destruía por completo e me vi segurando-a com força... Não muita, mas o bastante para que ninguém a tirasse de mim. Meus olhos se enchem de lagrima que caem no meu rosto e estagnam no manto.
— Emma, me desculpe...- Não conseguia falar mais, o choro inundava minhas palavras. Forcei um sorriso para David pegar a criança e leva-la até o armário mágico, embora eu relutasse em a segurar até meus últimos suspiros, tive que a deixar ir. E só foi ao Encantado passar pela porta com nosso bebê que exalava ainda a inocência que comecei a espernear e gritar em meio um choro que machucava-me com todo sua crueldade. Minha menina se foi.
MINHA MENINA SE FOI!
Emma, Emma, Emma!
Agora .
Storybrooke- Maine .
Um choro de bebê.... Um choro de bebê! Um choro de bebê, toma minha mente como uma agonizante e interrupta sirene de ambulância. Sinto ser puxada. Puxada? Não, agarrada por uma mulher de cabelos ondulados negros e pele tão branca como a neve. Por um motivo desconhecido a tal mulher, que agora era só borrões para mim, me prendia contra seu peito e entre seus braços chorando, me confortava de uma maneira que eu nunca fora.
— Me desculpe Emma- Pelo o que? Me pergunto muito confusa para perceber de imediato que a voz daquela mulher de cabelos negros era incrivelmente familiar. Me arrepio.
Sinto-me carregada as pressas, mas aonde quer que eu estivesse estava um caos. Gritarias, choros e guerra. Era isso que, pelo menos, eu conseguia identificar e entender. Algo errado, algo errado, algo errado. Sinto-me colocada em uma espécie de armário de madeira e o vejo: Ele tinha olhos verdes assim como os meus e um cabelo curto baixo parcialmente louro. Ele leva as mãos até minha nuca e encosta seus lábios de forma tristonha e carinhosa em minha testa. Não sabia se isso significava coisa boa, até porque nunca “ninguém” me tratara tão bem assim.
— Nos encontre-Nos encontrar? Aonde? Minha cabeça estava a mil. Foi a última coisa que eu ouvi antes de tudo ficar escuro, mas não havia acabado. Eu podia ver. Eu podia ver! O homem que até pouco tempo atrás me segurava com certo temor e carinho estava agora estagnado no chão com os lábios sem vida. Tudo fica mais confuso do que já estava e minha cabeça dói. A mulher que antes me segurava aparece aos prantos ao chão e ao olhar de relance para a porta, vejo outra sombra. Um sombra por completo. A “sombra” sorria de forma vitoriosa para o sofrimento a sua frente e finalmente passa o olhar para mim e de suas mãos surgem bolas de fogo seguindo em minha direção.
— Não há mais salvadora!- A voz ecoa pelo quarto que parecia ser de um bebê.
Ainda no sonho profundo começo a me debater na cama chorando e gritando.
—Emma!- Uma voz longe em chama
—Killian?- falo delirante
Esse sonho me perseguia quando ainda era menina, porem havia parado de uma forma quase instantânea quando eu conheci...Killian. Lembro-me que quando eu tinha esses pesadelos, ele vinha até mim e me contava suas historias sobre mar e o que mais o impressionava nele: A calmaria.
— O que estamos olhando?- Eu dizia sentada a margem do terraço com minha cabeça apoiada em seu peito.
—O mar- dizia ele olhando hipnotizado
—Não tem mar nenhum Killian.- falo- Não estamos na Califórnia nem em Miami.
— Então imagine...Invente- E então, eu inventava.
Desde então eu nunca mais tive nenhum pesadelo, até eu chegar nessa cidade. Assim que eu meti o pé nela os sonhos voltaram como se nunca tivessem partido. Como se estivessem apenas descansando em minha mente. Continuo a me debater e a chorar.
—Não, é a Mary! Emma!?- A voz fica cada vez mais próxima. Abro meus olhos me sentido confusa e com certo pavor, mas logo tudo passa ao sentir a mãos de Mary Margaret acariciar minha cabeça na tentativa de me acalmar e por um motivo desconhecido, eu sorrio.
— O que houve?- Ela continuava ali, a me acariciar.
— Eu acho que foi um pesadelo..- Ela levou suas mãos a um pano parcialmente molhado e pôs com cuidado em minha testa e colo. O choque térmico foi imediato. Eu estava queimando em febre.- Eu vim ver você dormir e logo em seguida começou a ter os pesadelos.- Ela estava aqui comigo, mas estava longe ao mesmo tempo. Olhava para a janela que estava tomada pela escuridão da noite com um sorriso no rosto.
Meus olhos se encontram com minhas sobrancelhas em sinal de choque. Levo minha mãos de forma tremula e falha para encontrar as de Mary. Ela então olha para mim... Por completo.
— Porque veio me ver dormir?- Olho para ela com o olhar mas arregalado ainda, com mais medo ainda. Algo me dizia que eu sabia a resposta.
Ela sorri.- Não sei, acordei em alerta e isso me levou a subir as escadas rapidamente para ver como você estava. Acho que não tem explicação.- Ela espreme os olhos como se estivesse pensando em algo a mais.- Intuito? Premunição? Talvez...
Ela ainda estava com as mãos grudadas em meus cabelos os alisando de repetitiva.
— É... Talvez- Digo ainda não convicta.
Talvez ela tenha percebido que não era de receber carinhos e que toda aquela atenção direcionada totalmente a mim estava me deixando meio... assustada, porque depois de ter dito isso ela se virou prestes a descer as escadas novamente.
— É melhor tentar dormir novamente.- Disse ela. Mas eu não queria! Não conseguiria, e mesmo se conseguisse acabaria sonhando novamente.
Faço que sim com a cabeça em um sorriso “quase” convincente, sério! Quando eu digo “quase” convincente é porque é convincente mesmo. Até eu olhando no espelho às vezes acredito! Eu sei disso, porque eu sou a dona do sorriso “quase” convincente (que convence todo mundo), é meu único/melhor sorriso “ever”, pelo menos desde da época do....do... Vocês sabem!
—Emma...- Ela diz me olhando de cima, como se me analisasse por dentro.- Não precisa ter medo, eu estou no andar de baixo.
Mas que diabos.... acho que agora eu achei a parcela do “quase” de “quase” convincente. Decepcionante.... e medonho.
Ficamos nos olhando uma para a outra em longos segundos no silencio até que Mary volta sentar em minha cama e solta um longo e cansado suspiro- Me conte.- disse finalmente ela
— Hãm? Te contar o que?
— O seu sonho.
— Não é querendo te ofender, mas porque eu te contaria?- minha resposta seca me acerta e causa uma dor incontrolável no estomago.
Pronto! Eu sempre estrago tudo, quando por fim arranjo uma amiga (será que posso chama-la assim?) eu abro essa maldita boca e sempre estrago tudo com essa minha... Ignorância. Ponto pra você Emma Swan. Analisava a mulher sentada a minha frente que parecia refletir sentida sobre minha respostas, já estava pronta para pegar minhas coisas e deixar Storybrooke.
— Sabe...- Ela fala por fim- A muito tempo atrás e sempre tinha pesadelos. Era daqueles de tirar o folego, que parecia que era de certa forma reais. Eu morria de medo e evitava até dormir, acordava suando me sentindo queimada, era horrível. Até que aprendi a controlar isso, aprendi que não poderia fazer isso sozinha. Meu...Marido estava lá toda vez, enchia nosso quarto de velas e- Ela olha para mim com um sorriso enorme no rosto. Sua bochecha cora.- Não é nada disso do que está pensando!
—Não disse nada- abano as mãos sorrindo.
— Em fim, ele ascendia todas as velas de nosso quarto e me fazia falar tudo que eu me lembrava do sonho. Ele dizia que as velas capturavam os sonhos e os queimavam, chegou numa hora que eu também acreditei nisso. Os sonhos nunca mais voltaram.
— Linda história. Nunca me falou que era casada.
— Eu era...ele se foi.- ela olha para o nada novamente.
— Sinto muito.- E por um motivo eu sinto mesmo. Sinto como se meu coração fosse esmagado.
— E ai? Me conte.
Demoro a entender.- Talvez em outro dia- falo sorrindo. Não era de me abrir assim, ainda mais quando me sentia vulnerável.- Sério, já estou melhor.
***********
Emma acorda se sentindo bem como nunca se sentira antes. O dia em Storyborooke estava impecável, não estava chovendo como de costume ou estava frio. O sol que passa através das finas cortinas da janela faz com que seus olhos ardam- ela esfrega teimosamente as suas mãos em sua pálpebra- e a loira não resiste a súbita curiosidade de espreitar seus olhos pela janela- que ficava logo atrás da cama de casal de ferro -e ver a cidade. Até aparentava ser uma cidade quase normal. Sem piratas gostosos caras de pau, uma prefeita temorosa e um garoto que tem um livro mágico (ou era um livro que falava da historia de cada “personagem” daquela cidade maldita? Seja que for, soava maluco para ela no mesmo modo).
Escuto o tintilar do pratos e desço, assim, correndo para ver o que havia de café da manhã.
Emma não estava acostumada com nada disso- A receber tanta atenção, a ser a maior preocupação de alguém, a ser a primeira escolha na vida de alguém...por um motivo estranho ela pensa em Killian, nos dois Killians. O pirata e o seu pirata /marinheiro/ misterioso- e aquilo definitivamente era maravilhoso. Quando ela chega finalmente no andar de baixo avista Mary Margaret com um sorriso escancarado no rosto logo já entregando uma xícara amarela parcialmente decorada nas bordas em suas mãos. Talvez ela devesse falar que hoje era seu aniversário. Talvez.
— Acordou a Bela adormecida.- disse ela- Já ia te acordar preocupada. Dormiu bem?
Com o rosto já enfurnado dentro da graciosa xícara de chocolate quente, Emma a olha entre as sobrancelhas acima da xícara fazendo que sim. Mas tinha algo de estranho... algo de muito familiar no sabor. Por fim ela percebe. Volta a levantar o rosto, passando seu olhar de Mary para a xícara.
“Mas que diabos...”, pensa ela.
— Canela?
— Desculpe- disse ela quase que sem graça- É uma desgraçada mania minha, não vivo sem canela! Acabo esquecendo que a maioria das pessoas acham estranho isso...
— Eu adoro, não se preocupe.- E ela se enfurna novamente naquele paraíso que se chama chocolate quente. Há algo de melhor? Para Emma não.
Mary estava ali a observando com um sorriso maroto no rosto se controlando para o conter então deu uma desculpa esfarrapada de lavar a louça, que adivinha? Estava totalmente limpa.
— Okaaaay, você pode me falar que está acontecendo aqui?- Disse Emma deixando a xícara de lado cruzando os braços.
—Nada, só estou lavando os pratos... Algo de suspeito nisso detetive Swan?- Pode-se perceber de leve, um sorriso em Mary..Mas ela se recusava a tirar os olhos da louça.
— Certo, eu sou a detetive aqui! Pego as pessoas que mentem ou fingem algo.- Swan chega para perto de Mary Margaret arqueando as sobrancelhas. Ela era boa em pegar pessoas, mas isso era ridículo. Mary Margaret era uma péssima mentirosa. A pior mentirosa da história.- E eu até as vezes posso errar, mas você está “lavando” a louça que já está lavada, não tem como te ajudar.
— Certo você me pegou Srtª Detetive.- Diz ela soltando a esponja e a jogando dentro da pia.- Mas então... me fala. O que está rolando entre você e o Jones?
— Quem?!
—Killian.
— O pirata?
— Se serve assim.
— Nada- Diz ela quase vermelha
—Hmmmm
— Sério.
— E eu que sou a mentirosa né?- Um som harmônico tomou o local, Mary começara a rir e dessa vez ela voltou a encarar Emma.- Quer dizer que você chama o nome dele enquanto dormia e não está rolando nada?
“Ah meu Deus”, ela pensou em desespero tentando não resplandecer, “Que idiota”
— Não! Era outro Killian, um que eu conheci na infância. Não aquele pirata sujo.- Pelo menos era nisso que ela acreditava, ou se forçava a acreditar. Será que ela clamava mesmo o pirata sujo? Iewwww, ela dispersou esses pensamentos rapidamente. Mary continuava a olhar desconfiada- Olha aqui, eu que sou a detetive então cale a boca!- Emma ri- Eu estou falando a verdade merda!
— Eu acho que...
“toc toc toc”, um barulho confortante de alguém batendo na porta começa.
“Graças a Deus”, pensa Emma. Ela não conseguiria manter aquela conversa. A porta a salvara, talvez casaria com ela.
Enquanto Mary foi atender, Emma subiu as escadas para arrumar sua cama... Pelo menos se sua preguiça permitisse
— Emma Swan?- Disse o homem pequeno em frente a porta.
— Não, sou Mary Margaret. Emma esta logo lá em cima.
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Em um movimento curioso e ligeiro, deixo de me agarrar ao meu joelho (estava deitada na cama, ponto pra preguiça!) e levo meu olhar ao andar de baixo, levantando uma das sobrancelhas. O homem, que parecia mais um anão, vestia uma blusa amarela e calça jeans surradas.
— Sim, o que você quer?- digo friamente
— Bem... “Atcheeeen”- Ele espirra no meio da frase. Franzo o cenho e cerro os olhos com certo nojo, mas logo volto a encara-lo.- Você avisou a transportadora para trazer seus pertences, eles chegaram.
Mas como assim eu avisei a transportadora? Não tinha avisado a ninguém! Franzo o cenho, agora com cautela e deixando transparecer um semblante confuso nas linhas do meu rosto. Aonde é que está minha arma quando eu preciso dela?, penso. Ah, que lindo, deixei em meu apartamento em New York. Deve estar nessas malditas caixas ai.
Não era culpa minha não trazer a arma já que teoricamente eu vim aqui sem ser avisada e forçada, até porque eu não vou a lugar nenhum sem minha arma. Pego um canivete que achei na mesinha do lado e começo a descer desconfiada. Coloco o canivete em minha calça.
—Hmmm- Digo quando chego até o anão.- Não me lembro de falar nada com nenhuma transportadora.
— Seja lá quem foi que avisou, está aqui- disse ele pondo as caixas para dentro, não eram muitas. Eu não tinha muita coisa- Agora pode assinar esse papel? Tenho que voltar de mãos vazias ao correio... Atcheeen!- ele espirra novamente.- Se não sou um homem morto.
***************
Não fazia ideia de que tinha trazido essas coisas para cá. Pelo menos quando abri as caixas- Com muito muito cuidado- não tinha nenhuma bomba e nem um maluco que tentara me atacar, mas isso ficou martelando constantemente em minha cabeça. Seria magica? Não, se recusava a acreditar nisso. Então o que seria? Quem trouxera o fusca amarelo e minhas outras poucas coisas para Storybrooke?
Lembro me que até alguns anos atrás chamava esse fusca de “imprestável” e “horroroso” e hoje não me vejo com outro carro, se bobeasse podia colocar até um nome nele.
Eu estava lendo um jornal dentro de meu carro, tentando me esquecer de todos os problemas. Levo as mãos ao pingente em meu colo sentindo um sentimento de saudades voltar como um peso sobre mim. A tempos parei de acreditar que aquele colar me trazia sorte... A não ser que ele trouxera má sorte, mas mesmo assim, com toda a má sorte... Eu não conseguia tira-lo do meu pescoço. Ele me trazia esperança de que eu ainda era amada e de que eu ainda era importante, por um motivo essa cidade me trouxe isso de novo. O colar me dava esperança de que o encontraria novamente, mas isso era um sonho tolo de menina que eu tinha que me desfazer, mas não conseguia. Ele nunca voltaria.
— Pelo jeito você está começando trazer boa sorte- Falo com o colar em relação a cidade em si.
Levanto meus olhos para longe do maldito colar e vejo pelo para-brisa a imagem de um homem olhando o horizonte de forma melancólica. Ele estava vestindo o de sempre: Um sobretudo de couro e suas calças com o mesmo material. Sorrio.
Levo uma das mãos a maçaneta da porta do carro mas recuo levando a mesma até a buzina. Dou uma breve risada antes de praticar minha travessura.
“Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”
O pirata dá um pulo quase deixando cair uma caixa que ele segurava cair no mar, assim como ele. Dou um sorriso acenando do carro e saio em disparado até ele.
— Desculpa- disse- Não resisti. Você está bem?
— Não sei. Acho que você estourou meus tímpanos- Ele ri. Uma risada com certo sotaque e certa ironia chega aos meus ouvidos me convidando a beija-lo com todo o....(é melhor eu parar aqui.)
— Desculpa
— Gerigonça legal- Ele se virou e apontou pro fusca.
— É um fusca.
— Da na mesma- O semblante dele por um motivo ficar frustrado, mas não comigo, consigo mesmo.- E sua cabeça? Melhorou?
Demoro a capitar a mensagem mas logo assim que reflito me lembro: Regina.- Ah ficou tudo bem, graças a um pirata maneta- Sorrio implicante.
— Acho que esse pirata deve ser muito bonitão e charmoso então, não acha?- diz ele
— Acho que ele se acha já demais.- Okay, nunca fiquei sem respostas, acho que é pelo fato de dele ser bonito mesmo... Ou de estar gostando dele. Não, não! Sem chances!
Ele sorri de lado e levanta uma das suas sobrancelhas grossas, o que da vontade de dar um soco na cara dele.- Talvez ele mereça um agradecimento.
— Por isso que eu disse “obrigada” quando sai pras docas..- Por um motivo eu não estava irritada, estava sorrindo. Hoje está quente, não?
—Hmmm.. isso é que vale o “pirata” ter salvo a sua vida.
Então pego ele pelo colarinho de seu sobretudo e ficamos a centímetros de distancia. Podia sentir o vapor quente sair de suas narinas e sentir o cheiro gostoso de rum misturado com algum outro perfume barato. Sorrio
— Só foi um corte pirata. Minha vida não estava em perigo, mas a sua agora está se continuar a me cantar- O empurro pelo colarinho, não forte, mas de maneira afetuosa.
— Hmmm, então você quer me maltratar loira?- Ele coloca um dedo de sua mão na região bucal e começa a brincar com a língua. Ele novamente levanta uma das sobrancelhas. O que diabos ele tinha com essa sobrancelha?- Adoro terminar amarrado em uma cama.
— Acredite, se você terminar amarrado em uma cama por mim, não será da forma boa.- Dou uma piscadela para ele e logo mudo de assunto.- Que caixa suspeita é essa que você esta trazendo?
— Nada- disse ele com um olhar nervoso
Sabia que ele estava mentindo. Sabia que tinha algo de importante (ou perigoso) naquela caixa. Finjo dar um “Até logo” e dou meia volta até de novo ao meu carro e pego na maçaneta. Avisto de ombros ele suspirar, é quando eu pulo em cima dele pegando a caixa de forma quase triunfante. Bom, seria triunfante se ele não me enchesse de cosquinha e pegasse a caixa de volta, mas isso foi injusto.
Ele estava em cima de mim ainda me judiando de tanta cócegas. Ele estava rindo de minha desgraça e isso não ia ficar assim.
— Seu ridículo, isso foi injusto- Falo ofegante- Para de me fazer cosquinha.
— Você uma menina muito teimosa- diz ele pegando a caixa. Ainda estávamos deitados, ele sobre mim e o asfalto abaixo. Antes dele recuar, um momento de pura estranheza pairou naquele asfalto, longos minutos de silencio. Com os olhos dele perfurando-me até a alma, tento desvendar os mistérios daqueles olhos azuis borrados por uma quantidade absurda de lápis de olho. Por um momento vejo-me feliz de estar ali, mas a sensação logo passa .
Ele pega a caixa e a vira. Um cupcake aparece nas suas mãos como mágica. Tudo aquele drama por um cupcake? O encaro incrédula.
— Não me olha assim, é aniversário de uma amiga.
— Amiga fantasma?
— Tecnicamente sim, ela se foi a muito tempo- ele baixa o olhar e volta a olhar o mar. Por um breve momento achei que ele ia chorar.- E foi culpa foi minha.
— Sinto muito- digo me sentindo mal. Ele estava olhando para o chão.
— Hoje é seu aniversário?- Diz ele me encarando. Como ele sabia disso? Arregalo os olhos.
— Sim, sim é
Ele ri e aponta o celular, tinha uma mensagem de feliz aniversário? Quem mandara para mim isso? Eu forço um sorriso
— Então agora essa minha amiga não é mas um fantasma.- Diz ele pegando uma vela em seu bolso.
— Ela não ficará chateada?
— Pelo ao contrario.
**************
Chego na casa de Mary quase meia noite. O céu estava mais escuro que o normal, não havia estrelas nenhuma nela, e o tempo mudara repentinamente para uma noite fria como o gelo. O pirata e eu passamos a noite toda conversando sobre tudo, ou melhor quase tudo, nunca pensei que tinha essa de “só” conversar com ele, ainda mais eu sendo uma mulher. Devo admitir que Killian estava cada vez mais me suspendendo.
Quando ele acendeu aquela vela, algo me trouxe a sensação familiar de conforto e me levou de volta ao dia no terraço quando Killian (1) acendeu a vela que, pra mim, nunca mais se acenderia novamente. Mas acendeu.
Bato a porta de leve com o máximo de cuidado possível. É então que percebo Mary Margaret me esperando de braços cruzados sob o balcão. O local, em especifico meu quarto, estava cheio de velas.
— O que está rolando?- digo
— Aonde você esteve?
— Ah sei lá, caminhando- Minto. Se dissesse que estava com Killian todos sabemos onde a conversa irá acabar e algo me diz que não terá anão batendo na porta para em fim me salvar.
— Bem- ela da meia volta e vai até atrás, na cozinha e sai dela com um bolo de tamanho pequeno recheado de chocolate.- Feliz aniversário!!!
Eu queria chorar, mas fui forte. De fato essa cidade de alguma forma estava sendo boa para mim. Nunca nem ninguém se importava com Emma Swan, ainda mais com o dia que nascera.
—Mary, não precisava.- Sorrio, mas logo perco meu olhar refletindo- Como que você sabia que...
— Era seu aniversário? Bom, intuição e... Seu celular me avisou.
Sabia que aquela história estava mal contada, mas nem ligou. Foi até Mary a abraçar e cantar a música que antes era tão melancólica para ela.
“Happy Birthday to you
Happy Birthday to you
Happy Birthday to Emma
Happy Birthday to you.”
Eu assopro as velas com uma sensação de leveza e faço o pedido
“ Que esse dia nunca acabe. Que essa cidade nunca desfaça. Que essas pessoas não me abandonem. Que eu não faça nenhuma bosta pra eu ferrar tudo.”
“Filha dos Reinos, filha do amor, nunca te abandonaremos! Oh, tão lindo esse sorriso... Tão linda a filha dos Reinos. Vem cá que sua família te abraçará. Não temas, ninguém mais te abandonará.”, as vozes voltam, mas de um jeito estranho elas não mais me incomodam. Elas me tranquilizam.
***
— O que você pediu?- perguntou Mary já enfiando na boca seu milésimo pedaço de bolo. Parecia uma criança. As duas.
— Se eu contar não vai se realizar.- Digo de boca cheia. Realmente muito criança.
— Espero que tenha feito um pedido certo, essas coisas geralmente são muito sérias- diz ela
—Não me ponha medo.- Digo rindo.- Hey, quero saber por que tantas velas lá em cima.
— Para você consegui dormir, querida.
Sorrio- Não era eu que tinha que cuidar de você?
— Talvez. Mas acho que você precisa de mais ajuda do que eu.- Diz ela- Eu irei cuidar de você.
— Você não me parece doente.- digo finalmente
— E você não parece triste
Era verdade, depois de séculos, eu não estava mais triste. Eu estava feliz, pelo menos naquele pequeno e único estante... Naquele dia.
“Meaw”, Cocky veio espreitando pelos cantos até chegar em minha perna e começar a se esfregar de forma proveitoso. Aquele gato interesseiro... Sabia o que ele queria. Carinho e um pote de leite morninho.
— Quanto tempo Cocky...
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