Skyrim - Das cinzas
10 Capítulo X - Sussurros
Notas iniciais
Duncan e Serana começaram a procurar pela estrutura da qual Valerica mencionara. Durnehviir indicou o caminho para que eles seguissem. Ambos estavam com frio. Há quanto tempo estavam no Soul Cairn? Aquele lugar parecia traduzir em imagens tudo o que queriam dizer com “noite sem fim”. Tinham medo de acabar como Durnehvirr, escravos de seu tempo lá.
—Sabe, Serana... – Duncan falou, quebrando o perturbador silêncio ali – Quando lutava contra Durnehviir, eu ouvi aquela voz de novo. Acha que pode ser minha mente me pregando peças?
—Quem sabe? – Serana respondeu – De fato, esse lugar tem sua cota de sussurros e vozes vindas do nada, e de fato esse lugar é de enlouquecer qualquer um.
Eles continuaram andando mais um pouco e fizeram uma breve pausa. Serana estava faminta, e Duncan a deixara se alimentar dele uma vez mais. A vampira riu.
—Minha mãe odiaria saber que você está fazendo isso, sabia?
—Por que? Meu sangue é “impuro”?
—Não... ela simplesmente não gosta de bolsas de sangue.
—Hm...
—Duncan, essa voz que você ouve.... você a reconhece de alguma forma?
—Não sei dizer... ela me soa familiar, mas é baixa, sussurrada de mais para que eu consiga distinguir.
—Eu... realmente espero que se for um espírito, que esteja do nosso lado.
Eles logo avistaram o lugar que Valerica havia mencionado. Uma pequena estrutura com um enorme Cristal de Alma em cima.
Assim que se aproximaram, tiveram que enfrentar mais três esqueletos. Duncan se sentiu levemente mais revigorado. Seria por conta de ele estar mais perto do que faltava de sua alma?
Ao adentrarem na estrutura, se depararam com enormes e claustrofóbicos corredores. Após alguns minutos de busca, eles encontraram o que seria um portal, como o que Duncan usara para voltar ao chão após a luta contra o último Guardião.
—Tem certeza de que é seguro? – Serana perguntou.
Duncan apenas estendeu a mão para ela. Ela olhou para aquele gesto que ele repetira tantas e tantas vezes, para diversos fins. Aquela maneira silenciosa de ele dizer “confie em mim”. E ela confiava. Confiava mais do que imaginava que fosse possível confiar em alguém. Ela deu a mão para ele e, assim que eles tocaram o portal, foram recebidos por um clarão, junto de um estrondo.
Quando o brilho cessou, Serana olhou em volta. Eles estavam no telhado, com aquele enorme cristal à frente deles. Subindo uma pequena escadaria se encontrava um baú, ou uma urna, e lá dentro, estava o cristal com o fragmento da alma de Duncan.
Quando Duncan o tocou, orem, teve uma surpresa extremamente desagradável. Um choque subiu por seu braço e se espalhou por todo seu corpo, obrigando-o a recuar. Serana correu para acudi-lo, e notou que em sua pele haviam rachaduras de onde emanava uma luz roxa, assim como emanava de seus olhos.
—Tolo! – Uma retumbou em várias tonalidades, ou talvez várias vozes estivessem retumbando ao mesmo tempo. E ao mesmo tempo que ela retumbou, o enorme Cristal de Alma emitiu um breve brilho – Você acha mesmo que será tão fácil recuperar o que uma vez foi sacrificado para nós? Esse fragmento de alma nos pertence, assim como o resto de sua alma quando você morrer!
Eram os Ideal Masters.
Então, como se fossem diversos ecos se aproximando em uma velocidade enorme, uma voz feminina gritou:
—DEIXEM ELE IR!
E Duncan estremeceu ao ouvir aquela voz. Aquela voz que ele achou que jamais ouviria de novo. Aquela voz que ele, dessa vez, reconheceu na mesma hora, mesmo antes de virar-se para de onde ela vinha.
—Ambar...? – ele perguntou atônito.
Apesar da aparência fantasmagórica, sem dúvida era ela. Uma garota de cabelos longos. Talvez tão longos quanto uma vez foram seus sonhos. Ela dividia com seu irmão a mesma expressão confiante, a mesma postura imponente e o mesmo olhar frio.
Eles ouviram então algo similar à um trovão. O Cristal estava rindo.
—Garota insolente... – disseram os Ideal Masters – Quem é você para nos desafiar? Você que nos pertence à tanto tempo?
—Eu? – Ambar perguntou com o mesmo tom irônico de seu irmão – Ninguém. Mas se mexerem com ele, estarão mexendo com a própria Nocturnal, Princesa Daedrica da Noite e da Escuridão... e não acho que queiram repetir o fiasco de ter um Príncipe Daedrico invadindo seus domínios por uma segunda vez, querem?
—Você também cultuava a essa Nocturnal, criança... – o cristal respondeu – e não nos lembramos de ela vir até aqui para buscá-la.
—Talvez. Mas eu reconheço essa arma que meu irmão está carregando dos livros que li sobre os Nightingales. E se ele realmente for um Nightingale, eles têm um pacto para com Nocturnal que vai além das bordas da morte. E duvido muito que a senhora das trevas iria permitir que tal pacto fosse quebrado.
—Os Lordes Daedricos são seres egoístas, criança! – O Cristal responde. As vozes pareciam incertas, porém – Eles jamais se arriscariam tanto por um mero, dispensável e substituível mortal.
A garota, no entanto, dessa vez permaneceu em silêncio. Seus olhos fantasmagóricos estavam cerrados. Logo, da sombra de Duncan, saíram rouxinóis negros, que começaram a se aglomerar, formando uma mulher que trajava apenas um manto azul bem escuro, com um capuz sobre a cabeça. Assim como os olhos de um Nightingale, apenas seus olhos reluziam por debaixo do capuz. Ela era uma mulher jovem, com cabelos negros aparecendo acima do decote de seu manto, que revelava seios joviais e bem delineados.
Era a segunda vez que Duncan se encontrava na presença da própria Nocturnal.
—Você... ou vocês.... diziam? – a Princesa da Noite perguntou. Após só receber o silêncio como resposta, ela desdenhou – É realmente patético o que vocês mortais fazem para tentar se igualar à deuses.
O cristal rugiu
—Pois saiba que aqui nós somos oniscientes, onipresentes e onipotentes! Somos mais do que você jamais será, Daedrica!
—Oh? – Nocturnal zombou – Então são precisos tantos mortais assim para tentar superar o poder de um Príncipe Daedrico? – mas logo, seu tom voltara a ser imponente e gélido – Não sejam tolos. Mehrunes Dagon não tem metade do meu poder – mentiu ela, mas os Ideal Masters não precisavam saber disso – e nem metade do meu exército. – ela abriu os braços, invocando os espíritos de cinco dos antigos Nightingales. – Meus Nightingales são como meus filhos. E eu não me segurarei em momento algum em destruir esse lugar todo a fim de recuperar um filho perdido.
Os Ideal Masters se mantiveram em silêncio, então uma essência saíra do cristal e rumou para o enorme buraco negro que cobria o céu do Soul Cairn. Nocturnal se virou para Duncan, que instintivamente se ajoelhou diante dela.
—Levante-se, Duncan. Não me lembro de ter se ajoelhado da última vez que nos encontramos. E não é necessário nenhum sentimento de gratidão, estou apenas recuperando o que é meu. Entre uma elfa que falhou comigo por duas vezes, uma para proteger minha fonte de poder em seu mundo e outra para caçar o idiota que a roubou, e um ladrão embriagado que só se importa com o que lhe é conveniente, um servo que me é leal e cumpre com suas responsabilidades em vida quase impecavelmente me parece muito mais interessante de ter em mãos.
Duncan lembrou-se do que Karliah lhe disse sobre Nocturnal. Esse tom dela não deve ser interpretado como desdém. Ela é como uma mãe tentando apenas impulsionar seu filho a seguir os próprios passos.
—Obrigado... Lady Nocturnal. – Duncan disse, sem saber como se referir a ela.
A Princesa Daedrica sorriu levemente.
—Disponha. – respondeu ela.
—Antes que vá... eu gostaria de lhe pedir um favor.
—Pois diga... mas não espere uma resposta afirmativa.
—Minha irmã está confinada aqui, também. Ela pode não ter sido uma Nightingale em vida, mas sempre foi uma adoradora de seu culto. Você disse que é como mãe de seus Nightingales... então, por favor...
Nocturnal ficou em silêncio por um momento.
—Não prometo nada à você, Duncan, afinal não sou eu que sou responsável pela vida de mortais. – seu olhar pela primeira vez demonstrava um pouco de compaixão – mas não deixarei seu pedido passar em branco.
Dito isso, ela se desfez em rouxinóis negros que sumiram no ar.
Duncan se virou uma vez mais para sua irmã, que assistira tudo o que ocorrera.
—Ambar... – ele começou, mas a frase morrera em sua mente antes de chegar aos lábios.
Ambar se aproximou dele com passos hesitantes e lentos. O brilho embaixo de seus olhos, como se fossem estrelas distantes, mostrava que ela estava chorando.
—Oh, Duncan... eu senti tanto a sua falta...
Ela tentou tocar o rosto do irmão, mas sua mão apenas o atravessara.
—Eu também senti a sua, irmãzinha... me perdoe por... não ter conseguido proteger vocês...
—Não há o que ser perdoado, Duncan...
—Como... como veio parar aqui?
—Aquele vampiro.... ele aprisionou minha alma em troca de mais poder para aquela maldita adaga enfeitiçada dele.
—Mamãe e papai...?
—Eles provavelmente estão no lugar onde deviam... eu vim para cá... e estive aqui nos últimos anos... mas nunca deixei de rezar para que Nocturnal o protegesse... que irônico você ter se tornado um Nightingale, hein?
—Talvez.... fosse o jeito dela de atender suas preces...
Ela deu de ombros.
—Eu... queria te tirar daqui, juro que queria! – Duncan tentou se conter, mas não pôde.
—Eu sei, irmãozinho, eu sei...
—Eu tentei ser forte... como me pediu naquela noite, mas...
—Shh... você se tornara mais forte do que eu sequer imaginei, Duncan... mas tem que me deixar para trás... você tem que começar a viver por si mesmo!
—Não... não! Eu... eu não posso... eu não sou... forte o suficiente...
—Duncan... você tem o coração mais bondoso que já conheci... mas se tornou tão amargo... diante de mim eu vejo um homem que cometeu tantos erros... para tentar apagar quem é... não faça isso...
—Por que? Quem eu era, quem eu sou... não importa!
—Importa sim! – ela tentou dar um tapa na cara do irmão, mas novamente sua mão atravessou seu rosto. As lágrimas voltaram, e desabaram. –Pra mim importa, seu grande imbecil! Você... você é bom, é gentil... não consegue passar por uma caravana Khajiit sem comprtar algo para ajudá-los a seguir viajem.... acha que não sei disso, Duncan? Eu vivi minha vida toda ao seu lado, você é a pessoa mais importante do mundo para mim!
Duncan abriu a boca para falar, mas não achou palavras. Uma lágrima desceu por sua bochecha.
—Por favor – a garota pediu – viva! Deixe o seu ódio para trás... você tem uma missão a cumprir, Duncan. Mas para isso... você tem que me deixar ir...
Duncan apenas fechou os olhos para segurar as lágrimas, mas não conseguiu não soluçar.
—Me perdoe, Ambar....
—Ei... encrenqueiro... eu já disse... não tem o que perdoar... eu te amo, irmãozinho... não há mágoa em mim... agora pegue aquele cristal, volte para o mundo dos vivos e me prometa: faça a diferença.
Duncan não pode segurar um sorriso triste.
—Isso... esse sorriso que eu queria ver – ela sorriu – afinal, você não está feliz em me ver?
O sorriso dele aumentou.
—Agora vá... e deixe o nosso legado voltar à vida!
Duncan tocou no cristal, e a garota se desfez no ar.
—Adeus, Ambar... –ele sussurrou.
Serana o abraçou pelas costas e encostou a cabeça nele.
E assim ficaram por um tempo, até fazerem o caminho de volta para o mundo dos vivos.
Fale com o autor