— Bóim!
Morrigan puxou tanto a corda do arco que os dedos doíam quando soltou. A flecha fazendo um caminho limpo e veloz até a cabeça de um vampiro desavisado à 8 metros de distância.
A garota viajou um dia inteiro e só encontrou o lugar ao anoitecer, bem quando os vampiros estavam em seu ápice de força, o horário em que seus sentidos estavam mais aguçados e mesmo assim ela só precisou de um pergaminho de conjuração e quase todas as flechas de sua aljava. Evitava combates de perto o máximo que podia, o dreno -magia usada pelos vampiros- poderia transformar uma pessoa rapidamente; por precaução, Morrigan tomava uma poção de curar doenças com um intervalo de 3 ou 4 horas.

— Aposto que nenhum de vocês esperavam ser atacados aqui, não é? — Morrigan falou enquanto avaliava as cinzas da criatura — Arrogantes.

Ela olhou em volta e suspirou ao ver que provavelmente tinha chegado ao fim daquele esconderijo sombrio. Uma espécie de sacada com acesso à inúmeras escadas que davam em um provável local para rituais era tudo o que restava para explorar. Considerou veementemente se deveria desistir e ir embora, o que poderia ter de interessante em um jardim velho e com iluminação ruim?
Morrigan decidiu que não poderia fazer trabalho pela metade bem em sua primeira missão pela Dawnguard, então começou a descer as escadas. Era um saco, Morrigan pensou, que vampiros -monstros sem alma e sugadores de sangue- tivessem tão bom gosto para decorações e instalações secretas. Até aquele jardim bizarro tinha um ar de museu.
Era ladeado por um rio, cimentado e com estruturas que lembravam o início de uma construção com arcos, o jardim era nada mais que um conjunto de círculos que tinham outras divisões com recipientes desalinhados. Luzes rosa bruxuleavam em volta das árvores e davam um aspecto de vida para as gárgulas que guardavam a construção. Mas não era só isso, Morrigan percebeu, tinha alguma coisa no círculo central. Uma... caixa. Grande demais para ser um banco, e, por sorte, talvez também fosse pequeno demais para ser um túmulo.
Em todo o caminho até ali a garota havia visto caixões, dos mais variados tamanhos. Então vampiros e caixões não eram um mito, no fim era meio decepcionante. Mas aquele... não, não era um túmulo.
— Arquivos importantes, talvez?— ponderou. Afinal, o que mais poderia estar em um lugar tão bem guardado?

A guerreira deu algumas voltas ao redor do estranho compartimento e então para os círculos no chão. De perto era possível notar que entre os círculos e as repartições tinham buracos no chão, em cada linha. Perfeitamente alinhados enquanto os recipientes, que na verdade eram... o que? Suportes de tochas, talvez. Embora alguns emitissem uma luz roxa e outros permanecessem no escuro.
Sem pensar muito, Morrigan se dirigiu para o suporte mais próximo, um com a luz roxa, e tentou empurra-lo para o lado, em direção ao outro buraco. Ele não se moveu. Confusa, ela tentou move-lo para frente, para a próxima linha, e surpreendentemente ele foi. A parte estranha foi que a luz apagou assim que saiu de onde estava, Morrigan interpretou isso como um sinal ruim e devolveu o suporte para o lugar inicial. Talvez os buracos ligassem as luzes. A partir dai tentou mover os outros suportes apagados para vários lugares a fim de testar a teoria das luzes e acendeu um por um até formar um padrão que levava até o centro.
Um tremor percorreu o chão e a fez desembainhar a espada no momento em que a caixa de gesso no centro se abriu. Morrigan segurou a espada com força e deu um passo para trás quando a mulher no centro daquela prisão minúscula deu um passo em sua direção.
A mulher estava cambaleante e segurou no canto da parede dividida, a cabeça se movendo para os lados, provavelmente tentando ver através do capuz.

— Uhn... onde está... — a atenção se fixou em Morrigan — Quem te enviou aqui?

Morrigan poderia ter dado uma resposta arrogante ou uma réplica a altura se a mulher não tivesse a voz tão doce e não abaixasse o capuz. Os traços do rosto eram tão belos, suaves e atrativos e emoldurados por cabelos lustrosos e pretos que os olhos vermelhos foram a última coisa a ser notada.

— Você é uma...

— Vampira, sim. — A mulher falou calmamente, os olhos percorrendo Morrigan e o jardim, a testa franzida — Quem te enviou?

— Por que você estava trancada assim? — Morrigan devolveu.

— Não sei se posso confiar em você. Quanto tempo...?

A mulher passou a mão nos cabelos e então no rosto até que acabou avaliando a própria mão de forma confusa.

— Quem é o atual rei de Skyrim? — ela perguntou abruptamente, os olhos atentos na guerreira.

Morrigan foi pega desprevenida. Uma mulher confusa e provavelmente machucada, um monstro sim, mas...

— Há uma guerra tentando decidir isso. Os preparativos ainda estão no início, mas em breve o cerco ficará apertado para um dos lados. — explicou pacientemente, a espada um pouco mais baixo agora.

— Que lados? — a mulher perguntou com interesse genuíno.
— Ulfric Stormcloak de Whindhelm e Elisif the Fair de Solitude, os rebeldes apoiam Ulfric e o reconhecem como o verdadeiro rei, mas os imperiais estão ao lado de Elisif.

— E você?

— Ainda não estou interessada nessa guerra. — o pequeno indício de sorriso que recebeu foi humanidade suficiente para derrubar um pouco a determinação de Morrigan, agora precisava saber onde isso terminaria. — Um homem chamado Isran me enviou.

— Eu... não sei quem é. Ele é como eu?

Morrigan se empertigou, a mulher não sabia o que ela era?
— Uh... não. Ele é humano.— não era mentira.

— Tudo isso é... complicado. Não posso dizer que você inspira confiança, mas talvez eu precise de alguma ajuda para chegar em casa.

Uma vampira indo para casa... encontrar outros vampiros? Ah, isso poderia deixar Isran muito feliz.

— Onde você precisa ir?

Ela sorriu. Um sorriso muito brilhante e bonito para alguém que estava morta.

— Minha família vivia em uma Ilha a oeste de Solitude, acho que eles ainda podem viver lá. — ela deu alguns passos adiante e estendeu a mão — Aliás, meu nome é Serana. Bom conhecê-la.

A guerreira hesitou e pôde ver a mágoa que endureceu os traços do belo rosto de Serana, então tomou coragem para apertar a mão estendida e dizer:

— Morrigan. Eu levo você até sua família.