Morrigan descobriu rapidamente que viajar com uma vampira podia ser bem desagradável.
Primeiro que precisavam seguir pela floresta porque os guardas das cidades estavam fiscalizando o viajantes em busca de vampiros, segundo que dormir ao lado de uma sugadora de sangue (que não dorme!) não era uma possibilidade. Assim, a nórdica estava a duas noites sem dormir e seu humor estava péssimo.
— Castelo Volkihar. — Morrigan comentou enquanto brigava com um pedaço de pão duro ao andar — O que devo esperar de lá?

Serana estalou a língua num gesto de desaprovação, para uma garota de aparência gentil ela era bem esquiva.
Morrigan não tinha certeza se poderia julgar, afinal, ela era uma caçadora de vampiros.

— Não espere nada. Meu pai não é exatamente o que se pode chamar de bom anfitrião. — um olhar de esguelha para a nórdica antes de acrescentar em tom ácido:— Você acha que aguenta estar na presença de tantos vampiros? Aqui estamos só nós duas e você já parece bem desconfortável.

— Contanto que eles não queiram se servir do meu sangue, tudo certo.

Serana emitiu um som que lembrava vagamente uma risada e então apressou o passo. Morrigan a observou jogar o capuz sobre a cabeça a medida que o dia clareava e franziu a testa, a mulher que caminhava a sua frente era muito interessante. A garota nunca imaginou que um vampiro pudesse ser tão... humano. Serana ficava constrangida e gostava de ficar em silêncio; depois de ter ficado tanto tempo presa e provavelmente estar com muita sede, ela se afastava durante os momentos em que Morrigan parava para descansar ou se aquecer e se alimentava de animais silvestres. Voltava com os olhos brilhantes e escuros, mas não parecia nem minimamente satisfeita. Esse era um dos principais motivos para Morrigan não arriscar dormir, mesmo que a desconfiança a fizesse sentir culpada, com certeza os vampiros da Fortaleza Volkihar eram bem diferentes de Serana.
Alcançaram um penhasco que dava os primeiros indícios de neve e Serana parou para contemplou a praia abaixo.

— Lá. — Serana apontava para um pequeno ponto escuro na encosta da água muitos metros abaixo. — Precisamos chegar até aquele barco e remar até o outro lado.

— Bom, remar não parece um problema. — comentou secamente — Mas descer com certeza será.

— O sol vai estar a pino em algumas horas, prefiro não remar com a luz no auge, então vamos descer logo.

A nórdica bufou, mas não contradisse sua guia. Guia. Morrigan riu da palavra, Serana pediu sua ajuda para chegar até o Castelo, mas a vampira era a própria guia e com certeza não precisava de segurança. Então o que Morrigan estava fazendo ali?
Me arriscando para descobrir informações valiosas sobre essa Ilha cheia de vampiros.
Uma humana, com habilidades únicas ou não, viajando para uma terra cheia de inimigos e cercada de água?
Talvez as informações não valessem aquela jornada...

— Tenho certeza que meu pai pagará um bom dinheiro por você me trazer de volta para casa.

Morrigan quase ficou vermelha por deixar seus pensamentos tão transparentes. Quase.

— É mesmo? Dá para pôr um preço pela única filha? — Serana deu de ombros — Certo, acredito fielmente que ouro vale todos os riscos.

Serana deu-lhe um olhar enviesado.

— Não só por honra então.

Morrigan deu de ombros e piscou.

— Olha, acho que dá para descer por ali!

*

O

Castelo Volkihar era enorme e parecia cobrir toda a extensão da pequena ilha em cerca de 4 torres. Uma estrada de cascalho levava até o enorme portão de entrada com guardas a postos cerca de 20 metros adiante. A estrada era ladeada por muros suportes de pedras, em cima das pedra repousavam estátuas (que agora Morrigan sabia ser monstros em pele de pedra) bizarras de enormes gárgulas de aparência assassina e congelada.

Serana deu passos hesitantes para longe do barco e Morrigan a acompanhou, as mãos soltas ao lado do corpo em uma posição falsa de despreocupação. A espada na cintura até parecia mais quente, desafiando a garota a perder a compostura e empunha-lá.

— Ei... — Serana chamou, a voz tensa — antes de entrar...

Morrigan quase não podia suportar os sentimentos conflitantes que a invadiam quando Serana parecia tão humana.

— Você está bem? — perguntou suavemente.

Serana se virou para ela, os olhos vermelhos semi-escondidos pelo capuz brilhando com surpresa.

— Eu acho que sim, não é exatamente fácil.. obrigada por perguntar.

Morrigan apenas assentiu, trocando o peso de uma perna para outra visivelmente desconfortável. Serana, que ainda a observava cuidadosamente, acrescentou:

— Sei que seus amigos gostariam de matar todos aqui, mas realmente espero que você demonstre mais controle que isso. E uma vez que estivermos lá, apenas... fique em silêncio. Deixe-me tomar a dianteira.

Morrigan mordeu a língua para segurar a réplica e apontou para o caminho. Serana adotou uma postura determinada e acenou para Morrigan segui-la.

Dois vampiros guardavam a entrada do castelo. Vestindo as usuais túnicas pretas, os vermelhos reluzindo em alerta e as mãos preparadas com seu poder de Dreno de Vida.

— Sou Serana. Está mulher me libertou e estou aqui para ver o meu pai.

Serana soava determinada, mas Morrigan notou um leve tremor em sua voz.

Os guardas olharam um para o outro e ergueram as mãos para atacar, mas uma voz feminina soou de trás do enorme portão que abria:

— É realmente ela. — uma jovem mulher humana, para espanto de Morrigan, ricamente vestida em veludo falou com autoridade: — Lorde Harkon a espera.

Os Escravos, era como chamavam os humanos como aquela mulher. Humanos que almejavam ser transformados em vampiros e então serviam em suas mansões como criados e deixavam que seu sangue fosse sugado diariamente para um dia serem transformados com honra. Morrigan achava que era um conto, uma história para crianças dormirem. Mas ali estava uma prova incontestável.

A nórdica ficou tensa, mas seguiu a humana a uma distância considerável.

O interior do castelo era frio e resvestido em pedra de de musgo que aumentava a escuridão. Candelabros e tochas estavam por todos os lados, dando ao lugar uma aparência de calabouço.
Tinha muitos corredores e portas. Passaram em frente a uma biblioteca e Morrigan viu inúmeros vampiross circulando por lá. No fim até eles ficavam entediados. Bonitas e decoradas escadas davam acesso ao segundo andar, tinham armários nos corredores e prateleiras com garrafas estranhas nas paredes. Morrigan tinha certeza que não era vinho que as garrafas armazenavam.

Finalmente alçaram enormes portas duplas e a humana parou e se virou para encara-las.

— O salão principal é atrás dessas portas, por favor, podem passar. — ela deu um sorriso vítreo e, que provavelmente deveria ser, atencioso.

A mulher não esperou resposta e abriu as portas. Morrigan não estaria preparada para aquela situação nem em mil vidas diferentes.
O salão era bem iluminado, com duas enormes mesas de banquete, paredes com cortinas e musica de fundo. Quase um salão de festas normal se não fosse os vampiros que riam e conversavam nas mesas, 50 deles, talvez. Sangue fresco manchando os lábios de alguns. Humanos também estavam no salão, mas não eram convidados. Eram comida.
O prato principal, Morrigan arriscaria.

— Não se preocupe, — Serana sussurrou — ninguém vai atacar você. Aguente mais um pouco.

E, sem olhar uma última vez para a nórdica horrorizada, Serana adentrou o salão.

Na cabeceira de uma das mesas um homem de meia idade estava sentado, uma pesada capa vermelha pendurada em seu pescoço fazia contraste contra o profundo preto de sua túnica formal. Seus cabelos pretos eram idênticos aos de Serana. O vermelho de seus olhos era mais intenso do que o de qualquer um ali. Lorde Harkon.

— Serana, minha querida, senti o seu despertar.— falou com voz profunda e reverente. Uma pai orgulhoso.

Morrigan apertou as mãos em punhos. Se sabia que Serana estava livre, por que não mandou alguém busca-la?

— Tantos anos sem minha amada filha e herdeira... não seja tímida, venha cá!

Serana caminhou para perto do pai como uma ovelha indo para o abate. Morrigan conteve o impulso de agarra-la pelo braço e sair correndo dali.

— Onde está minha mãe? — Serana perguntou cuidadosamente, parecia não querer desafiar o pai tão cedo.

Lorde Harkon a puxou para um abraço e falou algo em seu ouvido que os outros não poderiam ouvir. Ou, apenas Morrigan não ouviu.
Serana mordeu o lábio inferior e olhou para a nórdica sem muita emoção.

— Foi ela quem me libertou, pai.

Lorde Harkon voltou os olhos escarlate para a humana que o fitava com olhos desconfiados e parecia prestes a tentar matá-lo. Ele podia farejar sua raiva, seu medo...

— Uma caçadora de vampiros a resgatou? Ora, vejam só, isto é incomum. — um sorriso sombrio e um gesto para se aproximar — Mas posso entender. Como alguém mataria uma criatura tão adorável quanto Serana?

Os vampiros ao redor riram.

— Você me prestou um gramde serviço, humana. É bem vinda em meu castelo, se tiver coragem para ficar. — suas palavras causaram mais risadas na platéia sanguinária — Qual o seu nome?

A nórdica se empertigou, não seria humilhada ou diminuida por cristuras malignas.

— Eu sou Morrigan, Thane de Whiterun.

Harkon estreitou os olhos para ela, a expressão cuidadosa. Talvez seu nome tenha feito sua fama, no fim das contas.

— Uma posição nobre. Admirável.

Morrigan fez um gesto de desprezo com a mão.

— Honra e admiração não tem o mesmo valor que ouro, entende? — mesmo com o olhar de aviso que recebeu da vampira a alguns passos a frente dela, ela deu uma risada sarcástica e acrescentou: — Quanto vale o resgate de Serana?

— Oh sim, minha filha estar em casa e em segurança certamente tem um preço. Meu bem mais valioso. — Lorde Harkon pegou uma taça e tomou um longo gole do líquido denso — Você merece algo melhor do que ouro.

Ah, essa agora. Nada era melhor que ouro.

— Algo tão valioso quanto a própria vida de Serana. — ele deu um sorriso felino — A humanidade é muito frágil, Morrigan, logo toda a Tamriel pertencerá aos vampiros então, vida eterna é o que eu ofereço a você.

— Você gosta de se ouvir falar, não gosta? — Morrigan falou secamente — Estar limitada pela luz do sol e não poder entrar em certos territórios não é do meu interesse. Eu passo.

Lorde Harkon se aproximou, a voz aveludada.

— Claro, uma transformação limitada é ruim. Mas eu ofereço mais do que isso. Ofereço a honra de ser transformada por um vampiro puro, um ancestral. Em poucos dias, você mudaria de forma e seria mais poderosa do que pode imaginar. — ele fechou os olhos e extendeu os braços, algo em sua pele ondulou, extendeu e encolheu até aparecer garras em suas mãos e pés, asas de gárgulas, presas enormes e a pele adquirir um tom de verde. — Contemple o futuro.

Morrigan deu um passo para trás. O coração acelerado. Um erro. Ir até lá tinha sido um erro.

Ela tentou soar firme quando falou:

— Terei que recusar. Ancestral ou não, não tenho interesse em me tornar vampira.

Harkon parecia prestes a ataca-la.

— Você se recusa a evoluir?? — uma risada de escárnio — Então seu destino é cheio de sofrimento.

— Tamriel resistirá. — a voz de Morrigan era baixa, tentando não soar tão amedrontada quanto se sentia.

— Sim. Resistirá, e isso torna tudo mais divertido. — ele olha para Serana que parece consternada e confusa e acrescenta:— Se sua recusa é verdadeira, não há lugar para você aqui. Saia.

— Espera, eu preciso... — Morrigan se sentiu desvanecer. Não como uma poção para ficar etéreo, mas algo realmente parecido com ser apagado do mundo por um breve instante.
Uma escuridão sussurrante a engoliu e era como existir e não existir, seus pés não estavam no chão, mas seus pensamentos ainda eram claros e ao seu redor tudo era escuridão. Profunda e vazia.
Quando seus pés tocaram o chão barroso do outro lado da ilha, perto do penhasco que desceu com Serana, Morrigan desmaiou.