Sky full of Stars
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Capítulo 6
—Então? – indagou ele quando me viu a sair da loja.
A nossa rotina tinha-se tão tornado habitual: todos os dias ele ia buscar-me ao trabalho, íamos para a faculdade e depois passávamos o pouco tempo que restava juntos.
—Consegui! – exclamei e abracei-o com força.
—Perfeito! – retribuiu o abraço e beijou-me. – Vou já dizer aos meus pais que podem contar com mais uma pessoa.
***
—Tu sabes que fizeste falta naquela semana, certo?
—Sei, mas soube tão bem. Depois de receber a notícia das minhas férias garantidas durante uma semana, não falámos de mais nada. Ele contava-me sempre coisas sobre a casa de campo da família, que lhes pertencia há gerações. E depois contava-me sobre os seus irmãos mais novos e de como os adorava. E depois do lago. E… tudo.
—E nós não estávamos bem na altura.
—Bem, ainda bem que eu fui embora naquela semana, não foi? – semicerrei os olhos. – Porque vocês fizeram uma festa demasiado grande e eu simplesmente não queria saber de festas na altura.
***
—Como está tudo lá em casa? – perguntou quando me veio buscar a casa.
Colocou a minha mala de viajem no porta-bagagens e abriu a porta do carro para eu entrar.
—Ele acabou de se mudar. E adivinha só: já trouxe consigo cerveja.
Ele riu.
—Alguma advertência à cerveja que eu deva saber?
—Não – resmunguei. – Apenas vou passar a ter menos espaço no frigorífico.
Ligou o carro, ainda a rir, e começámos a viajem. Antes de sairmos de Lisboa, tínhamos que ir à escola primária do irmão mais novo dele para depois seguirmos duas horas de viajem para o centro do Alentejo.
Fiquei à espera no carro enquanto ele ia buscá-lo ao portão. As senhoras de mais idade naquela primária pareciam reconhecê-lo porque todas lhe deram beijinhos e abraços. Fiquei curiosa. Tanto eu como os meus irmãos tínhamo-nos mudado algumas vezes de escola, mas esse nem tinha sido o motivo: eu também tinha sido acarinhada por funcionários quando ia buscar o meu irmão mais velho à escola, mas o facto de ele ainda ir àquele lugar regularmente e viver aquela experiência quase nostálgica que se tem cada vez que se visita um sítio em que vivemos e fomos felizes fez-me ter orgulho de poder chamá-lo de meu namorado.
O rapaz que o seguiu tinha o cabelo loiro e os olhos eram verdes, uma cópia quase total do irmão mais velho. Entrou para o banco de trás e olhei para trás.
—Olá – disse.
—Olá – falou, enquanto colocava o cinto de segurança. Esperei para ele finalmente olhar para mim. Quando olhou, arregalou os olhos. – Wow.
Ri.
—Clara – estendi-lhe a mão e ele educadamente apertou-a.
—Diogo.
—É a tua namorada? – indagou ele, sem rodeios, assim que o irmão entrou no carro.
—É sim – virei-me para a frente e sorri.
—Wow.
Quase gargalhámos, mas não o fizemos. Em vez disso liguei o rádio e seguimos viajem. Quando estávamos a meio da viajem, decidimos parar para o Diogo lanchar e nós também comermos alguma coisa e abastecer o carro.
—O Miguel nunca trouxe nenhuma rapariga para casa – confessou o Diogo enquanto o irmão estava na casa de banho.
—A sério? – fiquei surpreendida porque, apesar de já o conhecer, tinha a certeza que não tinha sido a primeira.
—É. Então, sei lá – encolheu os ombros. – Deves ser muito importante.
—Não sou importante – neguei. – Apenas nos damos bem.
—Não é isso. É porque tu és bonita – corou ligeiramente e olhou para o teto. Ri, tentando fazê-lo descontrair-se. – E cheiras bem – a vontade de gargalhar era muita. – E o teu cabelo é muito bonito.
—Então é isso a definição de bonita para ti? – perguntei.
Pensou durante algum tempo.
—É.
—Vamos? – indagou Miguel, colocando uma mão no meu ombro.
—Vamos.
Seguimos viajem por mais uma hora, até chegarmos a casa. A casa tinha dois andares, era branca e nas arestas, azul. O final de tarde, com o sol ligeiramente quente, tornou aquele momento em que chegámos mais mágico. Saí do carro e respirei fundo, enquanto que Diogo correu logo para a porta.
—Estás bem? – indagou Miguel, aparecendo à minha frente e colocando os seus óculos de sol na minha cara. – O sol aqui é forte.
Sorri.
—Pareço uma gansta, agora?
Ele riu.
—Super. Já estou a fugir a sete pés – rimos e eu abracei-o, deixando a minha cabeça descansar no seu peito. – O que foi?
—Só… dois segundos.
Um.
Dois.
Foi precisamente esse o tempo que tivemos antes que os pais aparecessem à porta e nos convidassem a entrar. Levámos as malas para dentro, mas nem tivemos tempo de as colocar nos quartos porque nos convidaram logo a ir para o jardim das traseiras para eu conhecer os outros dois irmãos e comermos alguma coisa antes do jantar.
Para nós, havia sangria e para os mais pequenos havia sumo de laranja.
—Bem-vinda – disse a mãe dele, abraçando-me. – Espero que aproveites estes dias – fez uma festa no meu rosto e afastou uma madeixa do meu cabelo que estava a tapar parte da minha cara. – O Miguel contou-nos que trabalhas imenso, espero que consigas descansar.
O toque dela, tão maternal, trouxe-me lágrimas aos olhos. Fez lembrar-me da minha mãe e das memórias felizes que tivemos, toda a minha família, juntos.
—Obrigada – foi tudo o que consegui dizer, antes de me conseguir afastar dela e voltar para junto dele para abraçá-lo, mesmo que fosse só parcialmente, porque tinha a irmã de onze anos agarrada a ele.
***
—Compreendo. Não consigo olhar para a mãe do Gabriel sem me lembrar da nossa.
Há quatro anos atrás, tínhamos perdido a nossa mãe para um cancro estúpido que não foi possível lutar, devido ao seu estado tão avançado.
—Francisca é muito simpática – afirmei. – E a maneira como ela cuidou de mim fez-me sentir em casa.
©AnaTheresaC
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