Sky

6 O quase beijo e a existência das estrelas.


Notas iniciais
Oi gente, aqui estou eu de novo.
Acho que quem me segue no twitter sabe o rolo que está minha vida. Colégio + estágio me deixa completamente sem tempo, chego em casa e só quero dormir.
Fora que apaguei o capítulo mais de uma vez, nada me agradava e só no final consegui escrever algo melhorzinho. ): MAS, a partir do próximo capítulo a estória passa a se moldar, então fiquem ligadinhos.
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Me desculpem pelos erros. (Tô postando do estágio, hehe)

“O vento parecia soprar de uma forma desesperada, como se gritasse contra seu rosto completamente pálido. Não sabia o motivo, mas naquela tarde parecia ter mais pressa ao voltar para casa, como se o ponto de ônibus fosse mudar de lugar caso não corresse até ele. Porém, suas pernas estavam trêmulas, seu estômago revirava a cada passo que dava, e bem no fundo ele sentia medo, porque a sensação de que algo muito ruim aconteceria estava com ele desde que acordou.

Não aguentando manter-se em pé, e desistindo de correr até o ponto de ônibus achou melhor parar, apoiando-se na vitrine de uma loja, quando a angústia que o tomava cessasse ele continuaria seu trajeto. Foi quando ouviu algo que o assustou.

“Ele vai morrer.”

Era o maldito vento sussurrando palavras que ele não queria ouvir. Então fechou os olhos e tapou os ouvidos com as mãos geladas, “não é real” murmurou para si mesmo. Mas ele sabia que a voz não era fruto da sua imaginação, o aperto em seu peito aumentava segundo a segundo, e quando estava prestes a gritar e pedir para que tudo acabasse, ele viu.

As risadas. A parede de azulejo. O corpo caído contra o piso frio. O brasão do colégio. O uniforme igual ao seu. O emaranhado de fios castanhos. Um rosto encoberto. O sangue. O piso sendo manchado pelo sangue. A satisfação. E a morte.

Abriu os olhos, sentindo-se tonto e enjoado, por pouco não colocando todo o almoço para fora, mas ele não tinha tempo, um segundo perdido e seria o fim. Respirou fundo e saiu correndo na direção contrária, lutando contra uma força desconhecida, tentando assimilar as imagens fragmentadas em sua mente, era a primeira vez que algo daquela magnitude acontecia. Jamais imaginou ter visões como aquelas, parecia até mesmo sentir o gosto metálico de sangue em sua boca, e seus olhos ardiam ao lembrar-se da iluminação do local.

Um banheiro.

Após tanto correr, atravessando os corredores do colégio como um furacão, ele chegou ao seu destino...

E gritou.”

Foi quando acordou.

“Até quando você irá se lembrar desse dia, GongChan?”, pensou, recriminando-se ao recordar do único dia que jurou apagar de sua memória, em vão. Nos últimos dias as mesmas imagens insistiam em rondar sua mente, e até mesmo seu dom parecia estar mais intenso, e o fato de estar em um ônibus lotado não ajudava em nada, poderia captar cada pensamento, de cada pessoa presente no meio de transporte, mesmo que fragmentados, os desejos, sonhos, e principalmente os pensamentos ruins chegavam até ele de alguma forma, e por mais que tentasse se acostumar depois de anos, a sensação de ler pensamentos, e principalmente ler gestos ainda lhe incomodava.

Porém, existia alguém imune.

JinYoung.

O garoto do terceiro ano era uma incógnita para si, mesmo que olhasse para ele por horas, não conseguia sentir uma emoção ou sentimento vindo dele, e o fato de JinYoung ás vezes olhar em sua direção o deixava ainda mais inquieto. Não sabia se era odiado, ou se era apenas objeto de curiosidade do mais velho, afinal para a maioria ele não passava de um problemático, louco, esquisito... Tanto que tinha se acostumado com o tratamento de indiferença por parte dos colegas após o acontecimento do ano passado, e também tinha se acostumado com o tratamento de Zico e seu grupo.

Mas não conseguia se acostumar com a presença de JinYoung, e por ele ser do círculo de amizades de Zico e nunca ter o atormentado sua curiosidade simplesmente dobrava, jamais conseguiria se aproximar dele para tirar a dúvida. Aquela barreira invisível entre os dois parecia ir além do fato do mais velho ser indecifrável, era como se fossem tão opostos, que até mesmo seu dom (ou maldição) não chegava até o outro.

Talvez fosse melhor assim.

x-x-x

De olhos fechados, tentava a todo custo controlar sua respiração, o ar entrava e saia de seus pulmões em um ritmo acelerado, parecia que ele era sugado com toda sua força para dentro, e depois expulso como um corpo estranho. Não sabia se toda sua afobação era pela corrida até o prédio onde morava, ou se era pelo que tinha acabado de fazer.“Eu abandonei o Sandeul!”, sua mente gritou, mal acreditando no que acabara de fazer. Esfregou suas mãos no casaco, tentando limpar um pouco do suor que se encontrava ali, e encarou a porta do apartamento. Teria que ser bem convincente, uma mentira perfeita e seu plano seguiria conforme o esperado.

- Mãe, cheguei. – Anunciou assim que tomou coragem e entrou no apartamento, trocando o par de tênis por um de pantufas, logo na entrada. Não obtendo resposta, sentiu-se aliviado, enfrentaria sua mãe depois.

- Onde está seu primo? – Para sua tristeza, sua mãe estava em casa e logo de cara perguntou do mais novo.

- Ele não chegou? – Fingiu estar surpreso. – No almoço ele me disse que voltaria mais cedo do colégio. – Coçou a nuca em nervosismo.

- Como assim voltaria mais cedo? – Sua mãe indagou, o tom de voz aumentando a cada sílaba que pronunciava. – Como ele voltaria sozinho logo no segundo dia?

- Eu também estranhei, mas ele disse que tinha decorado o caminho da volta, então eu respondi que tudo bem. – Explicou, mantendo sua mentira.

- O quê? – MinKi desesperou-se. – Ele não sabe nem o endereço daqui! Como ele voltaria sozinho, Baro? Você viu ele saindo do colégio? – Baro negou com a cabeça, o que aumentou a preocupação da mulher. – Sandeul não chegou até agora! Era sua responsabilidade trazê-lo para casa nos primeiros dias.

- Olha, eu não tenho culpa! – Alterou-se. – Ele disse que voltaria sozinho, eu não sou a babá dele!

- É, mas ele não voltou! – Passou a mão pelos cabelos, tentando acalmar-se. – Você não podia ter deixado ele voltar sozinho, não podia. – Fechou os olhos, sentando-se no sofá, tentando encontrar uma solução. – Em quinze minutos, se ele não aparecer por aquela porta. – Apontou. – Eu juro que você nunca mais sai com seus amiguinhos, entendeu?

- Mas mãe... – Tentou argumentar.

- Eu vou ligar para o seu pai, e depois para o colégio. – O cortou. – Se alguma coisa acontecer com ele, não sei o que faço! – Disse, não conseguindo controlar o choro. – Sandeul já faz parte da família, consegue entender como me sinto? – Perguntou sendo sincera.

- Calma mãe, daqui a pouco ele chega, hm. – Sentou-se ao lado dela, tentando confortá-la, mas se mantendo firme, não poderia se arrepender. – Sandeul já fez amigos, acredita? – Tentou animá-la. – Deve ter ficado conversando com algum deles. – Odiava ver sua mãe triste, mas era por uma causa nobre.

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E os minutos se tornaram horas.

Sua mãe já dormia no sofá depois de medicada, e seu pai andava de um lado para o outro esperando notícias da polícia que eles já tinham contatado, e que no momento procurava Sandeul por todos os cantos da cidade. Baro ainda mantinha a falsa preocupação com o mais novo, mas ele sabia onde provavelmente o “desaparecido” estava, algo que jamais contaria, mesmo com sua consciência pesando cada vez que olhava para MinKi, que parou de chorar após tomar calmantes e finalmente adormecer.

- Acho melhor eu ajudar nas buscas, já liguei para todos os hospitais da cidade e nada! – O homem desesperou-se. – Eu não sei o que vai acontecer caso não o encontrem. – Disse, tentando controlar o nó que se formava em sua garganta. Sandeul era como um segundo filho para ele e para sua esposa.

- Pai, acalme-se. – Baro alertou, se sentindo mal por deixar os pais em total estado de desespero. Tudo por causa do “pato-sonso-cheiro-de-florzinha”. – Fique aqui com a mamãe, eu vou descer e ir ajudar a polícia. – Confessou, desistindo de manter o plano.

Viu o homem apenas acenar, pegou um casaco pesado já que o frio era severo naquela noite, e desceu até a portaria. Uma viatura estava em frente ao prédio, eram os policiais de plantão que mantinham a família por dentro das últimas notícias, e pelo rádio pode ouvir um deles falando que não encontraram o mais novo nas redondezas do colégio. “Ele deve estar na estação, em um canto chorando igual uma menina”, bufou impaciente caminhando até a viatura, os homens fardados logo concordaram com a ajuda do garoto, partindo em seguida.

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“Não poderia dizer se minha ansiedade era por acabar com a angústia dos meus pais, ou com a minha. As luzes da viatura refletiam no vidro, e a cidade lá fora parecia brilhar. Pela primeira vez pensei em como Sandeul poderia estar se sentindo, com certeza estaria chorando, estaria passando frio, e com mais certeza eu sabia que ele me odiaria por tê-lo abandonado na estação.

Por que esse maldito pensamento me angustiava?”

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x-x-x

Constantemente olhava o relógio de pulso e conferia as horas, já passava das dez da noite, é, talvez ninguém iria buscá-lo. Depois do choque de ter sido abandonado, e pensar muito sobre a atitude de Baro, ele não chorou, mesmo sentindo vontade de chorar, não gritou, mesmo sentindo vontade de pedir por ajuda, apenas esperou. Ele sabia que seus tios iriam procurá-lo, pelo menos acreditava nisso segundos atrás, porque o tempo passava e a espera aumentava. Nas horas que passou sentado em um dos bancos da estação, ele chegou a conclusão de que jamais teria uma relação saudável com o primo, e que apesar do carinho que recebia dos tios, ele não passava de um erro na vida perfeita que levavam.

Confirmaria a desculpa que Baro inventasse, continuaria vivendo no apartamento esperando completar a maior idade, na frente das pessoas fingiria conviver bem com o mais velho, entraria no joguinho de falsa cordialidade com ele, e faria de tudo para não ser um estorvo, até mesmo arrumar um emprego. Baro tinha dado todas as provas de que Sandeul não era bem-vindo em sua vida, era burrice tentar alguma aproximação. Ele não era ninguém, jamais seria e quando visse o mais velho novamente seria indiferente a sua presença.

Só existia um problema: Não era capaz de ser indiferente a ninguém, ainda mais com um laço sanguíneo os unindo.

Porém, faria de tudo para realizar o desejo de Baro.

Seria como se não existisse.

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“Não sei como não suspeitaram, idiotas” pensou assim que chegou a estação, acompanhado dos policiais, tinha indicado refazerem o caminho que usava para voltar do colégio, tudo inocentemente, uma boa ideia segundo um dos oficiais, e uma ideia óbvia demais segundo Baro. Agora era só encontrar o “menino-zumbi-desaparecido”, voltar para casa, acalmar seus pais e dormir. O dia já fora agitado demais para um começo de ano letivo, maldita hora em que armou um plano tão ruim, seus pais procurariam Sandeul até o fim do mundo se fosse preciso.

- Será que o garoto conseguiu chegar até a estação sozinho? – Um dos homens perguntou assim que passaram pelas roletas do metrô.

- Acho que sim, não é tão longe do colégio, e como os outros policiais não o encontraram na região e em nenhum hospital... – Baro respondeu, tentando soar preocupado com o “priminho” querido.

- Não se preocupe, nós vamos encontrá-lo. – O mesmo policial o tranquilizou.

- É, o considero como um irmão. – Mentiu, olhando para os lados em busca de Sandeul, ele poderia estar em qualquer canto daquele lugar, e por sorte o movimento era bem menor naquele horário.

A dupla de policiais sentiu pena do menino, e continuaram a procurar com uma foto do desaparecido em mãos, perguntavam para todas as pessoas e ninguém tinha visto o garoto. Do outro lado da estação Baro olhava em cada banco, também olhou no banheiro masculino e na lanchonete do local, e nada.

- Será que ele tentou voltar para casa e pegou o metrô errado? – Perguntou a si mesmo, temendo voltar para casa sem o outro.

- Estou aqui. – Sandeul apareceu bem diante de seus olhos, aparentemente tranquilo e sem nenhuma emoção estampada no rosto. Esperava ver o tio, ou a tia ali, ver que Baro o procurava de certa forma o assustou.

E o que veio em seguida foi algo que jamais imaginaria receber.

Um abraço.

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“Quando eu o vi ali parecia até ironia, justo quem me abandonou me procurava com tanto afinco. Não estava esperando por ele, e também não estava esperando por um abraço. Nossos corpos pareciam moldes um do outro, como se eu fosse feito direitinho para caber nos braços dele, era estranho e passava uma falsa sensação de conforto, porque eu sabia que não era sincero. Mas inconscientemente retribui, mesmo que no fundo eu soubesse que era mentira, acabei me apegando ao calor que seu corpo emanava, e fechei os olhos quando sua respiração tocou meu pescoço.”

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Era a primeira vez que nevava desde que se mudara para Seul, não era uma grande nevasca, os flocos de neve tímidos caiam do céu como se dançassem no ar. O pátio do colégio estava coberto pelo tapete branco, e os alunos corriam ao atravessá-lo para escapar do frio. Ele preferia andar calmamente, primeiro por gostar dos pequenos flocos que tocavam seu rosto conforme atravessava a neve, segundo por Baro estar bem a sua frente. Os dois não se olharam e muito menos se falaram desde o abraço, Sandeul se sentia constrangido, também queria evitar falar com o primo, sabia que era melhor assim... Porém, por causa do abraço se perguntava até onde aquele ódio iria.

“Será que ele se arrependeu?”, pensou quando entrava no prédio principal. Mas não, pelo pouco que conhecia de Baro sabia que o abraço não foi algo espontâneo, deve ter sido planejado para ninguém desconfiar que fora o próprio Baro que abandonou ele, seus tios deixariam o primo de castigo por anos! Por falar neles, quase não deixaram o mais novo sair de casa naquela manhã, estavam preocupados com ele, e receber tanto carinho o consolava de uma forma única.

- Você está bem? – GongChan apareceu do nada, o garoto o analisava, parecia verificar se estava tudo bem.

- E-estou. – Respondeu enquanto guardava alguns livros em seu armário. – Por que não estaria? – Riu sem graça, tinha medo do outro descobrir sobre ele e Baro. – Acho que dormi pouco durante a noite. – Mentiu, emburrando GongChan até a sala.

- Hm, é bom que ele não tenha feito nada contra você. – Disparou, rindo em seguida, pois Sandeul o empurrava com mais pressa. – Você vai ao clube hoje, não vai? – Perguntou assim que entraram na sala, os alunos que já estavam lá olharam a dupla com curiosidade, afinal GongChan evitava se aproximar das pessoas.

- Acho que sim. – Certo, ele não achava, ele iria. Tinha dispensado sua cama quentinha por aquele motivo, mesmo com sua tia insistindo tanto para faltar ele precisava conhecer mais GongChan, e o clube era a oportunidade perfeita.

GongChan também sabia que ele iria, então apenas assentiu e seguiu para seu lugar na classe, preferia ficar no fundo, lá tirava uma soneca entre as aulas e também gostava de desenhar quando estava entediado, tinha a péssima mania de não conseguir se concentrar enquanto o professor explicava a matéria. Agradecia ao “além” pela ajudinha durante as provas, ele sempre sabia o conteúdo exato que caia nos exames.

Aos poucos os alunos chegavam ocupando quase toda a sala, a maioria reclamava do frio, e alguns conversavam animados sobre o novo professor de história, principalmente as garotas, porém alguém se matinha calado desde que chegou, o que para Sandeul era novidade.

- Está assim por causa de ontem? – Resolveu perguntar, afinal MinWoo estava muito quieto, e nem ao menos exibia um de seus sorrisos calorosos. Mesmo que fosse intromissão de sua parte, não poderia ficar indiferente a situação do colega.

- Ah, mais ou menos. – Suspirou, se ajeitando na cadeira. – Pela primeira vez em anos o HyungShik não passou em casa para virmos juntos até o colégio. Aish, acho que ele ficou realmente bravo! – Analisou, lembrando-se da pequena discussão que tiveram no dia anterior. – Mas não tenho culpa, é ele que reclama de tudo. – Cruzou os braços emburrado.

- Do que ele reclama? – Perguntou, mas não por curiosidade. Queria entender a situação dos dois.

- Aish, de tudo, principalmente quando eu falo de algum garoto. – Torceu o nariz. – Ele diz que eu preciso me preocupar com os estudos, e não ficar de namorinhos. – Bufou impaciente ao ver que HyungShik sentou do outro lado da sala. – Viu? Ele nem sentou com a gente!

- Logo vocês se entendem, você não disse que se conhecem desde os dez anos? – MinWoo assentiu. – Então, melhores amigos não brigam por qualquer bobagem. – Sandeul concluiu, mesmo não sabendo como é ter um melhor amigo.

No mesmo instante olhou para trás e viu GongChan sorrindo para si. É, talvez com o tempo ele soubesse.

x-x-x

Encarava a porta de madeira como se fosse a entrada para sua sentença de morte, a barreira de mogno o separava do destino traçado para si, o separava do desconhecido. Por um lado acreditava que estava ali por GongChan, e por outro acreditava que o clube significaria muito mais do que desvendar um colega de classe. Se escolhesse mesmo participar seria pelo menos durante todo o ano, e era um clube de teatro! Teria que interpretar, falar alto e em público, diante de uma plateia seria outra pessoa.

Estava tão acostumado a ser ele mesmo.

E também não tinha as melhores lembranças de um palco, depois do acidente jurou nunca mais cantar, e subir em um palco na primeira semana de aula era cruel demais. Porém ele subiria se fosse preciso, temia até mesmo soltar a voz se fosse preciso... O que seria um presente para quem ouvisse. Acabou se lembrando do quanto sua mãe o incentivava, semanas atrás cantar era seu maior sonho, hoje parecia uma maldição, e ainda assim as palavras que ouviu durante sua vida inteira insistiam em rondar a sua mente.

“Sua voz é tão linda que poderia alcançar o céu”.

Ele queria sim alcançar o céu, mas não com sua voz. Queria partir daquele mundo, deixar de ser um erro, uma pessoa a mais em meio a bilhões de almas que realmente deveriam existir.

Só que por enquanto teria que esperar.

- Sabe, eu não tenho todo o tempo do mundo. – Assustou-se ao perceber que estava parado na porta do teatro, e que um garoto de cabelos compridos queria passar por ali. – Ô esquisito, não me ouviu? Não vou esperar a vida toda. – O garoto voltou a falar, era mais alto e tinha um gosto duvidoso na hora de se vestir, aliás, nem uniforme ele usava.

- Ah, me desculpe. – Curvou-se constrangido. E se o garoto achasse que ele era um louco? Pessoas não ficam iguais estátuas paradas na frente de uma porta. – Vo-você vai participar do clube? – Tentou ser cordial e puxar assunto, mas por dentro queria fugir dali de vergonha.

- Tanto faz. – O garoto deu de ombros, empurrando a porta e finalmente revelando o lugar reformado, o cheiro de tinta quase passava despercebido, e no fim do corredor o palco reluzia em meio a pouca iluminação.

Sandeul piscou algumas vezes vendo o garoto descer e se sentar na fileira do meio, o chão possuía a inclinação comum nos teatros, e existiam três corredores até o palco, um principal e dois laterais. Na primeira fileira algumas pessoas já estavam reunidas, entre elas o professor de artes, e claro, GongChan. Resolveu seguir o mais velho, mesmo não sabendo exatamente a turma do garoto de cabelos compridos, tinha quase certeza que ele era da mesma sala que Baro, mas não se sentou ao lado dele, aliás, não entendeu porque ele se sentou tão longe. Então passou reto e seguiu até onde os outros estavam, o professor Kibum já falava energeticamente para o grupo de seis pessoas.

O professor explicava como o clube funcionaria, apesar da primeira reunião ser na quarta, a partir da outra semana seria na terça-feira e também na quinta, estudariam a história do teatro, os grandes autores, personagens de peças que marcaram os palcos, clássicos... E claro, aprenderiam a se soltar mais, manter a concentração, improviso, expressões faciais, e tudo necessário para uma boa interpretação. Apesar de Key se sentir frustrado com o número de alunos, nada o faria desistir do clube, e já tinha até mesmo ideias parar atrair outros alunos.

- Alguma dúvida sobre o conteúdo das reuniões? – Perguntou após terminar de explicar. Vendo que ninguém se manifestou, prosseguiu. – Certo, fico feliz que entenderam minhas propostas, mas o número de inscrições foram bem abaixo do que eu imaginava. – Confessou, esperava no mínimo vinte alunos, e apenas oito se inscreveram. – E por esse motivo, gostaria de saber se algum de vocês tem alguma ideia para atrair mais alunos.

- Podemos oferecer comida. – SiWan opinou, além de GongChan ele era o único que Sandeul conhecia ali.

- Não podemos comprar os alunos. – Key suspirou. – Então, prepararemos algo para o festival de primavera. – Anunciou. – Será o primeiro desafio do clube, e espero contar com todos vocês.

- Hm, uma casa assombrada? – Um garoto loiro perguntou.

- Estou pensando em algo mais original. – Key respondeu. – Vão pensando em algo, enquanto isso vou distribuir as fichas de inscrição, é para o responsável por vocês assinarem, certo? – Viu que todos assentiram e foi procurar em sua pasta as fichas, mas sua pasta não estava lá. – Aish, devo ter esquecido minha pasta na sala dos professores, não saiam daqui! – Mandou antes de sair.

“Como fui esquecer algo rosa e com glitter?”, pensou indo até a sala.

x-x-x

Iria enlouquecer se não o encontrasse, aquele moleque o tirava do sério. Tinha perdido a conta de quantas vezes ligou para o mais novo e não obteve resposta, com certeza o celular dele estava sem bateria, uma mania “filha da puta” que ele tinha e Bang odiava. Odiava muita coisa no caçula, principalmente quando ele sumia e o deixava irado de preocupação, porque com YongGuk era assim, ele explodia em qualquer situação, enquanto pessoas normais ficavam aflitas por alguém querido estar desaparecido, ele sentia raiva, muita raiva e poderia quebrar Zelo ao meio quando o encontrasse.

“Maldito moleque irresponsável, parece que faz de propósito!”, pensou ainda bufando de raiva pelos corredores do colégio. Tinha vontade de arrebentar com a cara do primeiro que aparecesse na frente, e caso fosse seu irmãozinho faria ele nunca mais deixá-lo preocupado. Os dois viviam em uma relação doentia de amor e ódio, Guk simplesmente o monopolizava, fazia tudo pelo irmão mais novo, mas ao mesmo tempo cobrava total obediência dele, e quando as coisas “saiam do controle” ele temia machucar Zelo de verdade.

- Vocês viram o meu irmão? – Perguntou quando se encontrou com os amigos no corredor. – Aquele pirralho sumiu e eu não encontro ele em lugar nenhum.

- Calma Guk, ele não está em aula? – Baro perguntou, afrouxando o abraço que mantinha com Sulli, o casal conversava com Zico e JinYoung quando Bang apareceu praticamente cuspindo fogo.

- Não, eu olhei o maldito horário dele, e ele tem o tempo vago agora. – Suspirou, tentando se acalmar, já estava com dor de cabeça.

- Seu irmão é aquele loirinho que estava com você na hora do almoço? – Sulli perguntou, se fosse ela sabia onde encontrar o mais novo. – Eu fui com a Vic até o teatro, está tendo reunião do clube lá, e vi ele.

- Sério? – Bang fechou os olhos, então o desgraçado estava fazendo parte do clube? E por que ele não sabia desse fato? Por que o mais novo mentiu pra ele? – Eu vou lá buscar aquele infeliz, e ele vai me ouvir. – Avisou antes de sair correndo, o teatro ficava no outro prédio do colégio.

Seus amigos resolveram segui-lo, tinham medo do que poderia acontecer com Zelo caso o mais velho o pegasse sozinho.

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Quando chegou teve vontade de chutar a porta do local, Sulli tinha razão o loiro estava mesmo na reunião, sem sua autorização e conversando animadamente com um garoto moreno. “Ele só pode estar brincando”, pensou avançando a passos firmes até onde o menor estava, o surpreendendo com a sua chegada. Segurou Zelo pelo braço sem nem ao menos perguntar algo, só não o arrastou pelos cabelos porque tinha muita gente os observando, inclusive seus amigos que pelo jeito o seguiram até lá.

- Guk, é melhor manter a calma, hm? – Zico tentou intervir, pela cara de dor que Zelo fazia o mais velho devia estar mesmo o apertando. – Seu irmão deve ter uma explicação para tudo isso, não é mesmo?

- S-sim, eu decidi participar do clube de uma hora pra outra, esqueci de te avisar. – Zelo respondeu aflito, quando Bang se irritava era difícil acalma-lo. – Por favor, Hyung vamos conversar.

- Tudo bem, mas você vem comigo. – Disse soltando um pouco o aperto, porém ainda arrastando Zelo para fora, saindo do teatro sem mais nenhuma palavra e levando o menor até o banheiro mais próximo, trancando os dois lá. – Agora me diz, porque não me atendeu? – Socou a parede tamanha raiva. Guk era completamente louco. – Porra, eu me preocupo com você.

- E-eu sei, me desculpe Hyung. – Tentou se aproximar, pegando a mão do mais velho, por causa do soco ele acabou se machucando. – Prometo não deixar o celular sem bateria, é que eu queria muito participar do clube. – Confessou, encarando o irmão e percebendo que ele estava mais calmo.

- É importante pra você? – Pela primeira vez Guk era atencioso. – Não gosto de mentiras, você sabe. – Levou a mão machucada até o rosto do mais novo, tocando a bochecha com a ponta dos dedos em uma leve carícia.

- Não menti, só esqueci de avisar. – Ditou assim que sentiu o outro colar a testa contra a sua, mais um pouco e seus lábios poderiam até mesmo se tocar. – Hyung, já falei pra parar com isso. – Tentou se afastar, tinha mais medo quando o irmão era carinhoso, algo dentro de si dizia que o amor que Guk sentia era mais do que fraternal.

- Shiiu, fique quieto. – Manteve a aproximação segurando Zelo pela nuca. – Não sentiu minha falta? – Zelo assentiu, permitindo que o irmão o abraçasse. – É bem melhor quando estamos juntos, não acha? – O menor mais uma vez respondeu através de gestos. – Eu quero ouvir sua voz...

- Sim, eu senti sua falta Hyung. – Respondeu mecanicamente.

Bang sorriu satisfeito, mantendo o abraço ainda mais firme. Gostava de ter tudo sob seu controle, especialmente o irmãozinho. Zelo era seu e de mais ninguém, apesar de ser seu meio irmão considerava o caçula como parte de si mesmo, enquanto alguns encaram a chegada de um irmão como um pesadelo, Guk sempre cuidou do menor, sempre foi devoto a ele, e esperava em troca total devoção. Tanto que visitar o irmão não bastava, então se mudara para a casa do pai no ano passado, assim poderia cuidar melhor do loirinho, poderia vê-lo desde o amanhecer até quando fossem se deitar.

E o mundo de YongGuk voltava ao normal.

x-x-x

De volta ao teatro o clima era tão denso que GongChan poderia cortá-lo com uma faca, além de ser claro para qualquer um o olhar que Zico lançava para ele e Sandeul, ele poderia sentir em dobro todo o sentimento ruim vindo do mais velho. Depois do surto possessivo do tal YongGuk, os amigos dele perceberam onde estavam e quem estava presente no ambiente; a vítima favorita deles. Zico ou Baro jamais perderiam a oportunidade de humilhá-lo de alguma forma, e agora Sandeul também era alvo do grupinho, temia pelo novo amigo, pois ele já estava acostumado com a hostilidade da maioria do colégio.

- Olha o que temos aqui, o anormal quer ser ator. – Zico riu debochado da escolha do mais novo. – E trouxe o namoradinho junto. – Disse se referindo a Sandeul.

- Ah, que péssimo gosto. – Baro disse amargo, a aproximação do primo com a aberração do colégio o incomodava. – Se bem que gente esquisita combina. – Riu acompanhado de Sulli.

- Ele não tem a sua sorte, amor. – A garota se envolveu na conversa, depositando um selinho nos lábios do namorado. – Um garoto estranho como esse, merece gente pior do que ele.

- Ele não é estranho, e também não é anormal. – Sandeul acabou respondendo as ofensas, era ridículo insultarem GongChan por pura satisfação. E algo em seu peito ardeu ao ver o primo com aquela garota.

- Own, que lindo! – Zico fingiu se impressionar. – Ele até mesmo defende o namoradinho. – Se aproximou perigosamente dos dois. – Se se amam tanto por que não se beijam, hm? – Desafiou. – Aposto que até você tem nojo dele. – Disse, apontando para GongChan.

- Er, tem certeza Zico? Sabe, é nojento. – Baro analisou, jamais cogitou a ideia do “Sandeul-pato-zumbi” beijar alguém, ainda mais um garoto. Ele era inocente demais pra sair beijando qualquer um e... Ele não poderia fazer tal coisa, de alguma forma Sandeul era sua responsabilidade, e não se lembrava de ter permitido ele sair por ai beijando outras pessoas.

- Eu não tenho nojo, e também não me importo. – Sandeul aceitou o desafio, surpreendendo Baro e até mesmo GongChan.

Ele nunca tinha beijado alguém, nem ao menos sabia como fazê-lo, mas não deixaria um amigo ser humilhado. E realmente não sentia nojo de GongChan, seria apenas um beijo, não era algo sujo, mesmo que fosse entre dois meninos não via problemas, nunca fora preconceituoso. Durante toda sua vida acreditou que o beijo deveria ser trocado por duas pessoas que realmente se amassem, algo que em sua mente infantil era puro e inocente, uma troca de carinho e amor tão única que não poderia ser desperdiçada.

Porém, mesmo que seu primeiro beijo não fosse por amor, seria por amizade, então o real significado de um beijo ainda valeria de alguma forma.

- Ai, por favor parem com isso. – Uma voz entediada surgiu de repente. – Zico, você já foi mais criativo, deixe esse pobre coitado em paz. – TaeMin disse como se falasse sobre o tempo, o rosto amassado indicava que ele estava dormindo até então.

JinYoung que também não havia se manifestado respirou aliviado, pelo que sabia de GongChan ele não tinha um namorado, e não desejaria que ele tivesse um. Seu lado egoísta gritava mais uma vez, nem ao menos protegia o mais novo, e ainda assim insistia em observá-lo, insistia em pensar nele mais vezes do que gostaria. Era inevitável, desde que entrara no teatro só tinha olhos para ele, enquanto Zico mais uma vez ofendia seu objeto de admiração, ele apenas continuava olhando para GongChan como se não houvesse mais nada além dele.

“Zico quase fez outro garoto beijá-lo e você não fez nada sobre isso?” pensou, era mesmo um inútil. Mas o que aconteceria se o suposto namorado aceitasse o desafio, o que ele faria para impedir o beijo? Ele não sentia ciúmes do mais novo, sentia? Ou melhor, o que ele sentia por GongChan? JinYoung simplesmente não tinha nenhuma resposta para suas perguntas, ele só...

Precisava olhar para o rosto mais bonito que conhecia.

x-x-x

- TaeMin, o que você fazia lá? – Zico perguntou assim que deixaram o teatro, o garoto de cabelos compridos arrastou os “invasores” para fora, ou o professor poderia chegar e distribuir ocorrências para todos.

- Faço parte do clube. – Respondeu dando de ombros, colocando as mãos nos bolsos querendo sair logo dali. – Eu “tô” com fome, por que não vamos comer alguma coisa? – Perguntou como quem não queria nada, mas na verdade queria distrair os amigos. Zico e Baro poderiam ser perigosos quando quisessem, principalmente o primeiro.

- Eu concordo, estou morrendo de fome. – JinYoung mentiu, na verdade não estava com fome, só queria afastar Zico do prédio principal. – Vamos até a cantina, ou preferem algum restaurante?

- Ah, eu quero comida boa. – Baro também animou-se, um pouco mais tranquilo pelo primo não ter beijado o “anormal”. – E Zico, você iria fazer aqueles dois se beijarem? – Perguntou quando saíram do colégio, Sulli ainda estava aninhada em seus braços.

- Claro. – Zico riu abertamente. – Só não fiz porque um certo alguém nos arrastou de lá. – Apontou para TaeMin.

- Você atrapalhou meu sono, estamos quites. – O garoto respondeu a indireta, mostrando a língua em forma de provocação. – Agora andem e alguém ligue para o Guk, é bom mantermos aquele louco por perto.

- Como se você não fosse louco. – Zico provocou, alcançado TaeMin e lhe dando um cutucão na barriga.

Atrás deles Baro caminhava ao lado de JinYoung e de Sulli, que animada dizia o que queria comer.

Porém seu pensamento estava longe.

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“Na hora não demonstrei, mas eu estava morrendo de medo. A ideia de vê-lo beijando outra pessoa me assustava, não pelo fato de serem homens, não pelo meu lado torto e preconceituoso. Era por ser o “zumbi-pato-sonso-com-cheiro-de-amaciante” com outra pessoa, um vestígio de ciúmes tão óbvio que eu me recusei a ver. Eu estava ficando louco por causa dele, meus pensamentos não faziam mais sentido e eu precisava por um fim naquilo tudo. Então fiz o que era mais fácil; ignorei. Sem saber que era o mesmo que ignorar a existência de todas as estrelas. Era impossível.”

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Notas finais
Reviews pra Magzinha. :3