Skinny love

3 Capítulo 3


Elize

Vou para um cômodo mais afastado enquanto aguardo algum sinal de vida de Julie. Talvez deixando Amy sozinha ela possa pensar direito.

— Alô. — diz uma versão rígida e desanimada da voz de Amy

— Oi, Julie, não é? Aqui é a Elize, amiga da sua irmã.

— Ah, eu ouvi muito a seu respeito, prazer em conhecê-la.

— Sinto muito que seja nessas circunstâncias.

— Eu também, — ela suspira — e como ela está?

Espio Amy. Ela está deitada no sofá, seu olhar é distante, não consigo deixar de compará-la um cachorrinho.

— O pior já passou. Ela teria dado um jeito de chegar aí hoje mesmo, sabia? Se eu não tivesse lhe acalmado...

— Imagino, em se tratando do papai, Amy perde a cabeça.

— Mas o que aconteceu exatamente? Pelo o que eu sei que ele já passou por situações, hm... difíceis.

— Não foi como da última vez, mas ainda assim, foi um infarto. Ele vai ficar por volta de cinco dias no hospital e terá de receber cuidados por duas semanas ou mais, a sorte é que eu e Ceci estávamos por perto para ajudá-lo. Seria bom se Amy viesse, mas não agora.

— Okay, será que ela entenderia mal se eu tentasse distraí-la um pouco?

— Não, claro que não, acredite, ela te adora, e isso não é bem a cara dela, digo, pelo o que eu ouço, vocês parecem ser bem diferentes — e como, penso — mas fico feliz que vocês tenham se dado, quer dizer, você entendeu.

— Então tá.

— Elize?

— Sim?

— Eu só queria dizer obrigado por cuidar dela, digo, ela nunca teve muitos amigos, na verdade ela só andava com o Rafael, você já deve saber, e, quando eles pararam de se falar, eu fiquei preocupada, ainda mais com a mudança, bem... Obrigada.

Deixo escapar um riso irônico — Obrigada, mas é estranho ouvir isso. Acho que foi ela que cuidou de mim.

— Mas como eu ia saber que a empresa ia me passar a perna, mãe?!

— Não interessa o que foi que essa empresa passou em você dona Elize! —minha mãe sempre tinha que soltar um trocadilho, por mais sem graça ou sem sentido que fosse — Eu pedi pra você ir antes verificar, mas nããooo, tinha que ser no seu primeiro dia de aula!

— Então o que eu faço?!

— Oh, mas você não dizia que tinha idade pra comprar o seu apartamento e se cuidar? Agora, se cuida!

— Mas mããããe...

— "Mas" nada, ou você arranja um lugar para ficar até hoje à noite, ou eu e seu pai vamos ir pessoalmente arranjar pra você. E nem queira ver a cara do seu pai, caso ele precise deixar o trabalho para resolver coisas que você mesma disse que eram sua responsabilidade.

É assustador pensar o quanto aquela merda de palavra ganhava força após o colegial, ecoando a cada dia, ”você tem 20 anos, agora, torne-se responsável". E tudo o que posso fazer é respirar fundo e concordar como uma boa menina.

O melhor a se fazer seria ir à diretoria e pedir, super constrangida, para guardarem a minha bagagem. Saio da diretoria e vou até um canto do corredor, onde deixei minhas malas, pego uma delas e puxo até a sala, mas de repente sinto um puxão.

— Merda, me desculpa, ops, i mean, sorry! — diz uma voz atrás de mim.

Me deparo com uma menina se levantando do chão, bonita, embora lhe faltasse vaidade (quantos séculos tinha aquele All Star!?). Fiquei tão surpresa e feliz em encontrar alguém que fala a minha língua que acabei ficando parada, olhando para aquela garota, que mesmo sendo totalmente estranha parecia ser tão familiar, com um sorriso bobo enquanto a mesma parecia se decidir se dizia mais alguma coisa ou ia embora.

— Ah, me desculpe — digo estendendo-lhe a mão, ela retribui o gesto, me olhando com surpresa e curiosidade — De onde você é?

— Hm, do sul, Santa Catarina — diz ela timidamente, sulista, isso explica aqueles olhos verdes.

— E eu de Brasília, prazer eu sou a Elize. E da pra ver pela sua ficha que você é a Amélia.

Ela cora e tenta esconder a ficha que segurava até então.

— Pode me chamar de Amy. — ela dá um sorriso amarelo — Na verdade, eu prefiro que me chamem só de Amy, mas eu odeio soar como mandona.

— Tudo bem, prazer em te conhecer Amy.

— Digo o mesmo, Elize.

Naquele momento iniciou-se o típico movimento de alunos que indicava o início da primeira aula, e só tivemos tempo de correr, eu para a diretoria e ela para a sala de aula.

No intervalo não excitei em procurar por sua companhia. Eu era a mais falante e ela a mais acanhada, mas depois de um tempo ela se tornou tão falante quanto eu, fiquei pensando se ela era realmente tímida, ou apenas desconfiada. Bem, acabamos descobrindo gostos em comum, como Clarice Lispector e The Script. Tínhamos o mesmo pensamento feminista e éramos garotas com idéias formadas, que acabaram por se encaixar perfeitamente.

No final do dia eu ainda não tinha um lugar para ficar, sim por puro orgulho e covardia. Não poderia usar o dinheiro que devia ser apenas para provisões.

Então, decidir engolir o meu orgulho e fazer o que me restava. Sim, isso mesmo, ir para um canto da calçada e chorar longe da vista de todos.

— Elize? — me levanto rapidamente, secando as lágrimas. — O que aconteceu?

Ela parecia preocupada e eu estranhei, aquilo não era normal, pessoas não deviam ligar para pessoas que elas mal conhecem, eu podia ser uma serial killer! Mas, admito, havia algo nela que me parecia reconfortante, talvez fosse o fato de estar mais disposta a ouvir e a entender durante uma conversa do que a maioria das pessoas, o que me fez dar um voto de confiança nela para contar o meu problema.

— Por que você não disse logo? Tem um quarto sobrando no meu apartamento, você pode usar até achar um lugar para ficar.

Tive que perguntar mil vezes se ela tinha certeza disso, depois agradeci mil vezes e voltei correndo para a diretoria para buscar minhas coisas. Já quase no final do dia, enquanto caminhávamos lado a lado em direção ao tal apartamento recebo uma mensagem da minha mãe.

— E então?

— Consegui um lugar para ficar! ;)

— Graças a Deus!

— E tem mais, acho que fiz uma amiga...

— Que bom filha, eu te amo.

— Eu também, mãe.

Notas finais
E então, estão gostando?? O que acham dessas duas? Não vou poder postar por uns dias (semana de provas), mas vou continuar desenvolvendo a história nas horas, ou melhor, minutos vagos, bjs!