Skinny love
4 Capítulo 4
Amy
Depois de um tempo, que pareceu uma eternidade, Elize volta e se senta ao meu lado me olhando sério. Ela me explicou tudo o que Julie havia dito sobre a situação do papai, tentando ao máximo me tranquilizar, mas minhas mãos não paravam de suar, por mais que eu as esfregasse na minha calça. Ela não poupou argumentos para me convencer de que o melhor era esperar, seria necessário falar com nossos orientadores antes de tomar qualquer decisão a respeito da viagem. Suspiro e passo as mãos pelo meu cabelo, minha mente estava um turbilhão de pensamentos, a maioria deles começava com "e se...".E se acontecer alguma coisa enquanto eu não estiver lá, e se eu não conseguir vê-lo, e se a situação só piorar? Mordo os lábios e tento me recompor, olho para a Elize, ela parece desesperada, como se devesse dizer algo, mas não encontrasse as palavras certas, não era justo com ela.
— Tudo bem — digo, ela levanta sua sobrancelha — é sério, eu vou ficar bem.
— Tudo bem mesmo?
— Não, mas está tudo bem.
— Okay.
Deixei Elize e fui para o meu quarto, no fim do pequeno corredor, tudo o que eu precisava era de um pouco de silêncio, talvez dormir um pouco. Okay, talvez eu devesse dormir o dia todo.
No primeiro ano do ensino médio eu não era exatamente um destaque, mas tirava notas maiores que a maioria. Acontece que os demais desfrutavam de uma coisa que eles chamavam de vida social, e o que eu chamo de álcool e outras coisas medíocres como popularidade, coisas as quais eu não faço parte.
Rafael faz parte disso, às vezes sinto que ele é mais de uma pessoa, o meu Rafael e o "Rafa", é assim que todos o chamam, nunca perguntei por que, nem se ele gostava, mas ele é o meu melhor amigo, meu único amigo, e ele nunca me pediu para chamá-lo assim. O "Rafa" é o cara legal, descolado, não que o Rafael não seja como o "Rafa", mas pra mim ele é mais do que isso. Pelo menos ele nunca escondeu seu lado geek e um pouco roqueiro, eu jamais o perdoaria por isso.
Quanto a mim, bem, digamos que eu não goste exatamente das outras pessoas, não que elas sejam ruins, eu só não me identifico com os outros. Não gosto de sair, muito menos para fazer coisas ilícitas, embora pelo jeito como me visto muita gente pense que eu já tenha cometido furtos, invadido shows ou coisa do tipo, mas eu não ligo para o que eles pensam, o que é outra coisa que me difere dos outros. Eles pensam demais em coisas fúteis, ou acham estar sempre certos, eu não sei de nada, a não ser que não estaria aqui se não fosse pelo meu melhor amigo. Eles não me odeiam, não sei se gostam de mim, muita gente acha que eu sofro de um caso sério de timidez, mas eu não sou nem um pouco tímida ou acanhada, poderia falar tudo o que eu penso em público, mas às vezes prefiro ser a “menina tímida” do que deixar que muita gente se aproxime. Rafael diz que eu sou no mínimo chata e no máximo anarquista, eu rio e digo que eu sou realista. Todo mundo diz que na vida temos poucos amigos de verdade, escolhi ter só amigos de verdade.
No intervalo entre as aulas me sentei no mesmo canto de sempre, perto das grades que separam a escola da liberdade, embaixo da sombra de uma árvore que fica do lado de fora, peguei um livro relativo a um trabalho de filosofia. O livro tinha um aroma delicioso de páginas velhas e secas, as bordas estavam meio rasgadas, eu enchia todos os meus livros com anotações, mesmo os que não eram da escola. Algum tempo depois, sinto a presença de Rafael ao meu lado. Ele sempre vem ficar um pouco comigo antes de ir com a sua turma de amigos, mas hoje, por algum motivo que eu fingi não me importar, foi diferente.
— Você viu?
— Obviamente, não. — digo gesticulando para o livro.
— A gente tinha mesmo que ler isso?
Reviro os olhos, esse era o Rafael. — Diz logo o que você quer que eu veja!
Ele se aproxima mais, seus olhos estão com aquele olhar divertido, levemente sapeca, como uma criança que fazia algo de errado por pura inocência, tento não olhar para a sua boca tão perto da minha.
— Tem uma menina nova na nossa turma. — ele sorri, aquele sorriso bobo, malicioso, feliz. Ah, merda.
— Ah, é mesmo?
— Onde você estava este tempo todo, hein? Na Lua, só pode. Enfim, ela é linda, todos estão querendo comer ela.
Típico, vocês meninos são nojentos, mas você não é assim de verdade, não é? — É mesmo?
— É.
Ele está sorrindo. E eu estou sufocando. Controle-se Amy, você não é assim, não seja uma garotinha.
— Como ela é? — Por que você está perguntando? Você não quer saber, você prefere imaginar que ela seja feia, uma vaca com axilas fedidas.
— Ela é morena, com um cabelão liso, branca, mas nem tanto, olhos escuros, curvas, pernas longas e...
— Tá, já entendi, mas e daí?
— Nada, — Aquele "nada" era um calmante para o meu coração, água gelada para as minhas bochechas que queimavam — só achei ela bonita, deve ser legal também.
De certa forma foi bom o Rafael ter ido falar comigo no final do intervalo, porque aí podíamos conversar e rir como de costume e, depois, ir para a sala juntos, o que nos dava mais algum tempo para conversar. Havia muita gente no corredor, e eu frequentemente batia em alguém, Rafael era bem alto, então as pessoas se afastavam um pouco dele quando passavam, então ele me estendeu o braço, como os homens faziam antigamente, e eu aceitei rindo. Notei que seu braço andava ficando mais forte.
— Andou malhando? — pergunto cutucando seu braço com a mão livre.
— Digamos que sim, — Ah, como eu amava quando aqueles olhos cinzentos ficavam sapecas — gostou?
— É, da pro gasto. Se bem que eu sou muito mais forte que você.
— Ah é? Onde?
Ele começou a me cutucar nos lugares onde ele sabia que eu tinha cócegas, e eu não parava de rir e me contorcer, até que eu finalmente me dei conta de que estávamos na frente da nossa turma e todos estavam nos encarando e rindo, de mim e meus espasmos principalmente. O professor pigarreou e nós dois murmuramos um pedido de desculpas e entramos lado a lado entre uma das fileiras, logo que viramos de costa para o professor trocamos uma risada silenciosa. De repente ele me bate de leve com seu cotovelo, seus olhos apontam para uma cadeira logo no meio. Ela não era feia, droga, ela tinha curvas, curvas que meninas só conseguiam com vários meses de academia. Acho que eu nunca torci tanto para que o Rafael fosse mesmo diferente dos outros.
— Amy?
Não quero abrir o olhos, quero ser um urso e hibernar.
— Espero que você tenha algum vestido, vamos para uma festa amanhã.
Ela só podia estar brincando.
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