Skin on Skin
11 Flash Back/ An angel can break a heart.
Notas iniciais
Ao chegar em casa no fim daquela tarde, Regina lembrou-se das palavras de Emma no calor do momento mais forte que tiveram em Atlanta. Ao mesmo tempo em que a esperança ressurgia, o ódio dela retornara tão forte quanto ao dar-se conta do que tinha acontecido na cama. A borracha do rancor tentou apagar os bons resquícios de prazer deixados nos corpos de ambas. Além do mais, agora a engenheira sofria com uma vaga impressão que teve de Swan com Jones.
Algo dentro de si queria muito que ela entendesse o quanto se arrependia do passado. Precisava de uma segunda chance.
Voltou os olhos para a vista da varanda de seu apartamento, vendo o sol ir embora aos poucos. Aquilo lhe trouxe à memória fragmentos que a perseguiram por muito tempo.
(...)
Na cabeça de Regina, deixar Emma em Boston seria a decisão mais correta. A pressão em escolher fugir pesava, o que criou um grande desgaste na relação das duas jovens. Perguntava-se sobre o que aconteceria se fugissem de fato? Valeria mesmo a pena correrem o risco? Além da reputação da família também estar em jogo, tinha reais dúvidas se queria continuar com Emma naquele momento. Regina, na realidade, fugia por conta própria das respostas, apesar de ter dito a namorada que as encontraria. O tempo que pediu para pensar talvez ajudasse, mas traria ainda mais problemas.
Regina estava há bastante tempo enturmada com os colegas de classe e não tinha problemas quando inventavam festas ou qualquer baderna para se divertirem como fora o caso da excursão. Dessa forma, entrou de cabeça na ideia como se aquela fosse a solução para livrar-se da loira – mal sabia que um dia se arrependeria amargamente de ter feito a escolha que fez.
Antes de viajar não viu Emma. Gina fizera questão de não procurá-la. Se era um tempo que daria a si e a ela, que fosse um “tempo” decente.
No dia em que embarcou para o litoral do Maine, estava disposta a não pensar em Swan. Mesmo assim, por várias vezes, teve a sensação de que faltava-lhe algo.
O resort para onde fora não era um paraíso, todavia, não era um lugar para entediar-se. Chegou com a turma na tarde de domingo e teriam cerca de uma semana e meia no local com o intuito de aproveitar as belezas naturais que cercavam a região. Com um roteiro de coisas para fazerem pelo resort nos dias que se seguiriam, Regina passava a maior parte do tempo com o grupo de colegas de quem era mais próxima. Apesar de estar se distraído um bocado não conseguia relaxar por completo, tendo sempre a impressão de estar errada no meio de toda aquela gente. Precisava de algo a mais, uma coisa que tirasse sua cabeça de vez de Boston, caso contrário iria afundar em arrependimento antes de voltar para casa.
Na vez em que os colegas organizaram um luau, Regina deu um basta para si, jurando que não pensaria em Emma em circunstância alguma naquela noite, e por um bom tempo conseguiu, até que reconheceu a canção favorita da namorada ser dedilhada no violão de um dos colegas e não aguentou ficar muito tempo ali. De súbito, saiu da roda de pessoas que formara-se em volta da fogueira e andou até onde pudesse ficar sozinha.
Chegou ao mirante do resort e parou por um longo momento, sentando em um banco de madeira, a pensar. Controlando as lágrimas que desejavam rolar, apertou os olhos fechados tão firme que suas pálpebras doeram. Ao abri-los, percebeu que não estava mais sozinha no mirante... Um rosto familiar olhava para sua pessoa fixamente. Ele estava sentado ao lado dela, era bem mais alto e tinha uma barba mal feita. Ela tomou um belo susto. Regina custou, mas o reconheceu.
— Você? — perguntou ela depois do ligeiro susto que levou. Tentava lembrar-se do nome dele. Ela sequer recordava de como era sua voz. — A... Aug...
— August. — ele completou, abrindo um sorriso. Não um sorriso simples, mas um sorriso que era quase um convite.
Regina aos poucos foi se lembrando de quem ele era de fato: Um aluno mediano na classe de engenharia. Famoso por fazer sucesso com as moças de outros cursos e ser muito reservado nas aulas. Alguns boatos circulavam pela universidade ao seu respeito. Uma vez fizeram trabalho em grupo juntos, mas o rapaz era tão na dele que a morena o esquecera muito rápido. Gina não sabia, mas havia se tornado seu alvo desde então. August esperava apenas a oportunidade que levou quatro anos para acontecer. O momento chegara.
— Você não estava no luau? — ela perguntou, achando sua presença muito estranha.
— Digamos que eu cansei da cantoria e vim atrás de algo mais interessante. — sentado ao lado dela ele nunca tirava os olhos de cima. Estava espontâneo demais como nunca visto antes.
— Entendo. — ela disse em voz baixa.
— Eu te vi saindo da roda. Aconteceu alguma coisa?
Regina abanou a cabeça. Não entendeu a preocupação do rapaz.
— Nada que você fosse entender. — disse ela enfática.
— Será que não? Se você me contar, talvez eu possa ajudar.
Por um momento Regina achou que o rapaz sabia de seu relacionamento com Emma, mas aquilo era puro talento de quem tinha outras intenções.
— Ninguém pode ajudar.
— Isso é o que você diz. Mas eu acho que sei porque está assim.
— Sabe? — Regina ergueu as sobrancelhas.
— Sei. Está sentindo falta dele.
— Dele?!
— É. Do seu namorado.
Gina quis rir quando ele falou de um namorado, mas ele pescara a situação perfeitamente, mesmo não sabendo que Regina tinha uma “namorada”. Ela decidiu levar a conversa adiante.
— Está tão na cara assim? — perguntou ela.
— Uhum. Bastante.
— Pois é, esse lugar, o pessoal, aquelas músicas...
— Posso imaginar o quanto isso é ruim.
— Muito ruim.
Ele tomou ar, aproximou-se um pouco mais no banco e continuou:
— Sabe o que eu penso? Que é preciso esquecer.
— Difícil.
— Mas não impossível, não é verdade?
Ela teve que concordar.
— É...
Regina ainda não entendia o que August queria consigo, contudo, não se levantou do banco nem aparentava mais medo da presença dele. Ele tinha lábia.
— Acho que você pode esquecer isso, Regina. Se você quiser é claro.
— É difícil, eu já disse. Do jeito que eu sou, nada vai mudar.
— As coisas podem mudar sim, só depende de você.
Custou muito tempo para dar outra resposta. Estava se sentindo tão desesperada por dentro que jurou sentir-se fora de si quando tudo aconteceu...
Ele a olhava respeitando o espaço entre os dois. Ela sentiu uma estranha sensação percorrer a espinha. August parecia ter surgido como mágica para ajudá-la. O que faria? Ele esperava que ela decidisse como se soubesse o que iria acontecer. Regina nunca soube explicar o porquê, mas sentiu a necessidade de fazer algo naquele instante. Embora gostasse de Emma ela não estava ali. Talvez pudesse entender se queria ou não continuar com ela vivenciando outra coisa. O que aconteceria se beijasse August? No auge da dúvida, no ato mais louco de sua vida, encostou a boca na dele e depois dali não houve mais tempo para voltar atrás.
Era uma sensação totalmente nova para a morena que nunca havia experimentado situação igual. Afinal, ele era um homem.
Regina passou os últimos três dias das férias no resort tentando saciar sua carência em diversos momentos com August, e o rapaz pouco se importava em ser o consolo da morena.
Quando voltaram para Boston, Gina estava com a cabeça mais fria, mas nem por isso menos confusa. Descobriu que poderia ter prazer com alguém que não era Emma e aquilo acabou se tornando mais uma grande questão em sua mente. Ainda cumpria o tempo que pediu a parceira e não a avisou quando chegou. Emma disse-lhe que passaria as férias de verão com os pais na periferia, por isso, a morena acreditava que só a veria na semana seguinte.
...
Certa tarde daquelas, Swan precisou ir ao campus da universidade para buscar um caderno que esqueceu outro dia no dormitório. O lugar estava menos movimentado, com apenas uma ala dos quartos ocupada por uns poucos alunos, a ala onde Emma ficava estava completamente vazia aparentemente.
Assim que cruzou um corredor vazio do terceiro andar, estava prestes a achar seu quarto quando ouviu vozes; Ela parou no mesmo instante. Ficou estática a princípio, à escuta, tentando buscar de onde vinha o que escutou. Ouviu mais. Alguém ria baixinho.
— Então, gosta assim? — uma voz máscula disse.
— Vá devagar, pare... Céus, eu não devia ter te seguido! — disse uma mulher entre risos.
Emma entendeu que tratava-se de um casal. Decidiu andar e se aproximar, achando a porta de onde vinham as vozes, estava entreaberta.
— Calma, não precisa fugir. Ninguém vai ver você aqui. — disse ele.
— Não acha que já fizemos coisas demais? — disse a mulher.
— O que houve no resort foi apenas o aquecimento. — ele respondeu.
A loira não tinha certeza do que estava ouvindo, mas estava curiosa demais para parar. Algo lhe disse para ficar atrás da porta.
— Três vezes e ainda não foi o bastante? Tá bem, mas essa é a última vez. — dizia a mulher.
Emma sentiu o coração vir a boca. Reconhecia aquela voz, aquele jeito de falar. Desconfiou que fosse alguém. E se não fosse? Não era de sua conta o que acontecia no quarto, mas tinha de ver quem estava falando para confirmar.
Escutou um gemido seguido de respiração pesada. Foi chegando mais perto e esticando a cabeça pela beirada aberta da porta. Outro gemido dela denunciou o que faziam. A mulher estava em seus braços sentada no colo dele e ele na beira da cama. Swan foi subindo os olhos e quando viu aquela trança e as mãos dele deslizarem por entre as curvas da cintura dela sentiu o peito gelar. Escancarou a porta e a viu, prestes a tirar a blusa.
— Regina?! — foi o que conseguiu dizer com voz esganiçada. Os dois a viram.
Sim, era Regina, sua namorada, com um homem.
— Emma! — a morena largou do rapaz, tentou andar até a loira.
Swan os olhava em choque. Agora compreendia tudo. A visão escureceu de súbito, ficou sem ar. Por pouco não caiu.
— Não... Você não fez isso. — ela balbuciou. Os olhos começavam a querer inchar de lágrimas.
— Meu amor...
Emma não aguentou. Deu-lhe um empurrão e correu dali para fora o mais depressa que pôde, antes que a vissem chorar.
August, estirado na cama, estava bastante abismado para dizer qualquer coisa.
A garota loira saiu pelos corredores desenfreadamente, esbarrando numa aluna, atirando ao chão a mochila da garota. Desequilibrada voltou a correr ainda mais afetada, sentindo as lágrimas escorrerem nas bochechas. Só parou quando alcançou as escadas, mas sentiu-se mal demais para descê-las.
Alguns segundos depois, Regina apareceu, encontrando-a apoiada a parede. Veio até ela esbaforida, tentando tocá-la, mas ao perceber, Emma a largou com violência.
— Não ouse me tocar! — a loira gritou. — Não chega perto de mim! — Emma foi se afastando.
— Emma, calma. Eu posso explicar. — Regina também estava nervosa. — Não é nada do que você pensa... — tentou avançar de novo.
— Não Regina, não me toca! Não encosta em mim. — a loira ofegava, tremia.
— Meu amor, me escuta... — tentou falar a morena muito desconcertada. — Não aconteceu nada.
— Regina, eu vi! Eu vi você, não mente! — Swan caiu no choro. — Foi por isso, não foi? Foi por isso que queria me largar aqui...
— Não é nada disso, meu amor, me escuta...
— É mentira! Eu sei que é, Regina! Eu ouvi! Eu já entendi tudo! Você disse três, Regina... Você disse três vezes. — Gina ficou tão envergonhada que não conseguiu mais falar. Não adiantaria dizer nada, Emma já sabia.
A garota loira tentou fugir em outra direção, sendo seguida pela morena.
— Emma espera, volta aqui! A gente precisa conversar. — insistiu.
— Eu não tenho mais nada para falar com você. — Swan enxugava as lágrimas com a manga da blusa enquanto andava apressada. — Me deixa... — e seguiu, voltando a correr para sumir no fim do corredor.
Mills não mais viu August, não o procurou. Só agora compreendia o mal que fizera a Swan. Jamais deveria tê-la deixado e procurado consolo nos braços de um homem. De onde havia tirado aquela ideia? E por que aceitou entrar no alojamento dele naquela tarde? Por que não voltou para Emma logo? Novas perguntas. Em sua concepção Emma jamais saberia do que acontecera no resort, mas suas próprias palavras a entregaram. Swan não era boba para entender, ainda mais depois de ver a cara dos dois depois do flagrante.
A história dos dois no resort, apesar de breve, virou um belo boato na boca dos colegas de Regina, custando muito pouco para chegar aos ouvidos dos poucos que sabiam do relacionamento dela com Emma. Também não custou para que alguém contasse a loira os acontecimentos resumidos, só piorando a situação.
Gina procurou uma forma de encontrar a namorada, levando dias a reunir coragem suficiente para fazer aquilo. Foi até a casa da família Swan em Bay Village, suplicando a mãe de Emma, Mary, para ver a parceira.
Com permissão, subiu até o quarto dela, parando na porta, esperando ser notada. A jovem arrumava uma mala que já parecia muito cheia. Ao erguer os olhos verde escuros não se abalou.
Sem coragem para entrar, Gina bem fragilizada com a situação, começou:
— Eu vim porque preciso muito falar com você. — engoliu em seco.
— Melhor dizer logo. — Emma suspirou.
Regina reuniu coragem.
— Me perdoa? — o choro começou livre e desimpedido.
A loira largou da mala, fechou os olhos, fez que não.
— Não posso.
— Pelo o amor de deus, esquece tudo isso que aconteceu. Olha pra mim, Emma, me perdoa. — dizia Regina da soleira da porta. Estava quase soluçando.
— Eu não posso.
Emma virou-se, foi para as sombras do quarto.
— Por favor — dizia a voz chorosa. — Emma. Eu amo você mais que tudo na minha vida. Eu sei que eu errei, estou te dizendo isso de coração aberto.
— Sabe o que eu acho Regina? Você não sabe. Você nunca soube o que você queria da vida. Você entrou nessa comigo por vaidade. Você não se importou com nada.
— Você acha que se eu não me importasse eu estaria aqui? Pedindo o seu perdão? Implorando pra que você me entenda? Pedindo pra você voltar pra mim?
— Regina, eu não posso aceitar. — Emma virou para ela, e mesmo no escuro Regina a percebeu de olhos marejados. — Não é fácil, como se eu fosse sangue frio a esse ponto. Você não pensou em mim. Você tomou uma atitude e achou mesmo que eu não descobriria? Isso é o cúmulo. Estava na boca de todos quando voltei, sua turma fez questão de espalhar a novidade. Não me diga que não sabia o que estava fazendo. — Emma tomou ar. — Você só está conseguindo falar comigo nesse momento, porque eu fui obrigada a me convencer do quanto estive errada sobre você.
— Emma, eu não sabia que isso te faria tão mal. Isso foi em outro lugar, você nunca ficaria sabendo. — a morena tentou enxugar as lágrimas que rolavam pelo rosto. — Eu juro. Aconteceu. Estava com a cabeça muito perturbada, eu fiz muita besteira nesse tempo, eu estava perdida.
— Pare de inventar desculpas! Você não é a vítima. Você é cínica e mentirosa. Traidora! — Emma não aguentou mais, esbravejou em fúria. — E pelo visto você gostou muito do que aconteceu, você estava no quarto dele.
— Nós estávamos separadas, eu estava lá para acabar com aquilo, eu fui conversar com ele.
— Você tinha prometido pra mim que voltaria. Você estava no colo dele! Não tente mentir! Eu vi você! — parou para pensar. Depois a olhou com cuidado.
— Eu estou muito arrependida.
— Não dá para acreditar.
Gina sofreu ao ouvir aquilo. O rosto estava lavado em lágrimas. Ela viu a mala sobre a cama e perguntou:
— Para onde você vai?
— Para um lugar onde eu não corra o risco de cruzar com você.
— Você vai mesmo embora? Por minha causa?
— Sim... Acabou, Regina. — Emma respondeu num fio de voz.
(...)
Voltando das visões do passado, Regina Mills sentiu uma imensa tristeza. O sol continuava a se pôr e seus olhos ainda vibravam pela vista.
O que precisaria fazer para tê-la de volta? Regina queria apostar todas as suas fichas na doce ilusão do “Eu te amo” que ouviu uma noite antes.
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