Skin on Skin
7 Coincidence? I don't think so.
Notas iniciais
Nos dedos de Regina, a fotografia de Emma parecia ter vida própria. Enquanto roçava o indicador sobre a face fotografada da mulher, lembrou-se da clara perturbação sentida por ela no jantar. Aconteceu muito em sua mente, todas as vezes em que Emma a fitou com aquela desconfiança severa e rancorosa, o franzir das sobrancelhas e o tom irônico das palavras. Definitivamente, era cedo demais para ficarem sozinhas daquela forma, mesmo que fosse a décima vez que o faziam depois do reencontro. Desde que voltou para casa, Regina precisou de tempo com suas lembranças do passado. Doeu muito entender de uma vez por todas que havia errado, e finalmente o fez, custando-lhe boas dores de cabeça também.
No meio dos objetos que guardava, devolveu a foto ao álbum e retirou de dentro da gaveta, o caderno-diário dos tempos de namoro. Não conseguiu conter um sorriso bobo ao tocá-lo e ler as páginas escritas em poemas e versinhos. Leu até onde conseguiu. Sua boca tremilicou para baixo sem controle, o olho ardeu, ela fez que não e guardou outra vez onde ninguém além dela pudesse achar.
Estava enxugando o canto dos olhos com o mindinho quando alguém do corredor chamou seu nome. Ela reconhecia a voz, era da prima, Zelena.
Zelena, era a única prima próxima que tinha. Filha da irmã de sua mãe, a bonita mulher de olhos claros e cabelos alaranjados encaracolados, tinha uma amizade um tanto peculiar com a engenheira. Pelas atuais circunstâncias, se viam esporadicamente, todavia, conversavam muito sempre que acontecia. Eram confidentes desde a juventude.
Chegando na porta a prima bateu na madeira antes de pôr a cabeça dentro do quarto.
— Minha tia disse que você estava aqui, não foi trabalhar hoje? — perguntou Zelena.
— Ainda vou. Como chefe eu posso chegar um pouco mais tarde, por enquanto. — Regina terminou de limpar os olhos, sentou-se na cama.
— Hum... Sei. Por enquanto mesmo. Eu vi no jornal que Robert e a filha do governador vão voltar ainda esta semana. — Zelena dizia, entrando no quarto que conhecia bem. Não só ali como o apartamento inteiro. Se podia, visitava sua tia e prima no centro da cidade pela proximidade do seu escritório médico do edifício onde moravam. A mãe de Zelena morrera ainda quando era pequena, talvez por essa razão, a ruiva tenha se apegado com Cora, que por algum tempo a abrigou, até seu pai levá-la para o Minnesota. — Como estão as coisas com você liderando a empresa? — ela sentou-se numa poltrona logo perto.
— Estão boas. As obras do hotel já começaram.
— Teve notícias do Graham?
Regina olhou para a prima de súbito.
— Não. E ele não tem feito falta.
A ruiva sorriu com sua bela coleção de dentes.
— Achei que diria o contrário.
— A princípio fez sim, é que agora com tanta coisa acontecendo, eu realmente não ligo mais para isso.
Regina, referia-se ao breve affair que teve com o arquiteto da empresa, e que por um tolo desentendimento de interesses, acabou.
Sua prima não costumava ser discreta quando conversavam. Sabia de toda sua vida, seu passado e muito além daquilo. Não hesitaria em questionar após observá-la como estava, apática.
— Tô te achando tão abatida. O que houve?
Mills alisava sua nuca com uma das mãos insistentemente. Olhou em outra direção, suspirou. Não queria falar daquilo.
— Nada. É uma coisa minha.
— Tem certeza? Regina, eu te conheço. Não adianta esconder.
Zelena cruzou as pernas, parecia uma terapeuta, prestes a escutar uma paciente problemática.
Vendo que não teria como escapar da insistência que sabia existir na prima, Regina decidiu falar:
— Se lembra da Emma? Emma Swan? Ela está trabalhando conosco, na empresa, no lugar do Graham, sob as minhas ordens, todos os dias.
— Você fala da Emma sua ex-namorada? — a prima perguntou, vendo desde já Regina reagir assentindo.
— Pois é. Ela voltou.
Desse assunto, Zel – como era chamada – lembrava, pouco, mas lembrava. Tinha acabado de retornar à Boston quando Regina confessou aos pais ter iniciado um namoro com uma garota. Viu de perto algumas efusivas discussões entre Henry Mills e a filha. Hoje mais madura e independente, via a relação das duas como algo natural, coisa que acontecia entre os jovens. E pelo visto ainda abalava Regina.
— Mas como é que ela voltou assim do nada? Foi trabalhar na empresa, com você, no lugar dele? Me explica.
— Um dos nossos investidores trabalhava com ela em Michigan e a trouxe para cá, ele está envolvido com as obras da ilha, e pediu que tivéssemos ela como a arquiteta principal para dar continuidade nas obras. Eu sei que quando ela chegou, eu quase saí de mim. Não dava para imaginar que isso ia acontecer. O pior de tudo foi vê-la no casamento do Gold.
— Ela esteve no casamento do Gold?
— Sim. Adivinha de quem ela é melhor amiga?
— Não sei.
— Belle.
Zel ficou boquiaberta.
— Valha-me Deus, Regina!
— Não se espante. Você sabe que eu fui convidada para ser madrinha, não sabe? Pois bem, Emma também foi.
A prima levantou-se de onde estava para se sentar logo à frente de Regina na cama.
— E o que você fez?! — perguntou ela, um bocado surpresa.
— Fiquei olhando para ela de longe. Eu não aceitei ser madrinha porque não sou obrigada a gostar desse tipo de coisa. Por um momento, me arrependi.
Zel parou um instante para fitar Regina e ver seu atual abatimento sobre o assunto. Abanou a cabeça negativamente.
— Que coisa esquisita. É muita coincidência, Regina! Não pode ser verdade.
— Mas eu estou falando a verdade, Zelena. Minha mãe também não acreditou e eu tenho motivos de sobra para crer que ela não gostou de saber disso.
— E você, Gina? Como tem lidado com isso? — Zel questionou.
Regina tomou ar para responder...
— Cada dia mais louca... De amor.
Na conversa, Regina não contou-lhe outros detalhes e momentos que vivenciou com Emma. Quis muito, mas não contou. Apesar de Zelena ser uma boa confidente, pelo menos era o que achava, a engenheira esforçou-se para que seus sentimentos retornados das cinzas, fossem assuntos somente dela mesma.
Na quinta-feira, Robin e Roland estavam de volta à Boston. Regina combinara de almoçar com o ex-marido e filho, num modesto restaurante, duas quadras do edifício comercial onde trabalhava.
Já estava lá, bufando de raiva do proposital atraso de Robin com o garoto quando eles apareceram. Roland correu para os braços da mãe assim que a viu, sendo recebido com um sorriso e um apertão de Regina que se colocara de pé para abraçá-lo.
— Minha vida!
— Mamãe! — Roland parecia bem empolgado.
— Senti tanto a sua falta! — Regina apertou tanto o menino que quase tirou-lhe o ar.
Robin veio em sua direção e assentiu em cumprimento. Regina respondeu.
— Como vai, Robin? Meu filho deu trabalho?
— Bem. Nosso filho, Regina. — enfatizou ele. — Não deu trabalho algum, ele é muito tranquilo. — sorriu o homem, após falar com o forte sotaque britânico que tinha.
A mulher pousou seu filho no chão e ofereceu os lugares a sua frente na mesa para se sentarem.
— Sentem-se, por favor. — disse ela, estendendo a mão para mostrar-lhes os lugares. Estavam na parte interna do restaurante, onde o ar era refrigerado, nas mesas cabiam em sua maioria quatro lugares, e da janela panorâmica via-se as mesas do lado de fora na calçada. Regina sentou-se de forma elegante, com a postura incorrigível, pegando o menu. — O que o meu príncipe vai querer? — perguntou para Roland.
O garoto foi categórico:
— Batata Frita!
A mãe riu.
— Certo, e além da batata frita, o que mais?
Robin resolveu falar por ele:
— Acho que para ele devemos pedir um prato infantil, Regina. Há uma boa opção aqui com batata frita e carne picada.
A morena o olhou por cima do menu, foleou o cardápio e perguntou para Roland:
— Você quer isso, meu amor?
O menino fez que sim muitas vezes.
— Eu vou pedir um Steak. — Robin soou firme, deixando o cardápio de lado.
— Tá. Eu vou de salmão. — ela fez sinal para o garçom. Após confirmar todos os pedidos, Regina esperou o funcionário sair para encarar seu filho e Robin de maneira franca. Iriam falar de um assunto que não podia mais ser adiado. — Acho que agora, podemos conversar.
— Você está braba, mamãe? — o garoto perguntou na inocência.
— Não, querido. A mamãe marcou esse almoço, eu, você e seu pai, porque precisamos falar uma coisa com você. — olhava o menino que não assentiu, nem disse mais nada, apenas olhou o pai. — Eu acho que você já tem idade suficiente para entender algumas coisas. Nós já conversamos sobre isso, mas quero que você entenda mais ainda.
Robin ficou inquieto na cadeira. Ele sabia do que se tratava.
— Sua mãe tem razão, filho.
— O que foi que eu fiz? — disse o pequeno com medo.
— Nada querido, nada! — Mills tratou de acalmá-lo. — É apenas sobre eu e seu pai que vamos conversar. — sua voz era mais suave, estava um pouco encolhida na frente deles para falar com Roland. — Você sabe que a mamãe e o papai não moram mais juntos, não é?
— Sim. — disse ele.
— Acontece, filho, que nós dois, eu e seu pai, não vamos morar mais juntos porque nós precisamos nos separar. É como se precisássemos descansar um do outro, entende?
— Umas férias?
— Isso.
— Vocês brigaram?
O pai disse:
— Não. Nem queremos. Por isso eu não moro mais na mesma casa que a sua mãe. — ele olhava para o menino ao seu lado.
— Querido, às vezes, os pais, precisam se separar, porque não dão mais certo juntos. Eu e seu pai fomos felizes juntos até não conseguirmos mais, e então, hoje, não dá mais certo. É como se, precisássemos ficar longe um do outro para conseguir viver feliz.
— Vocês não se gostam mais? — o menino perguntou, naquele jeito meigo que tinha.
— Não é verdade! — Robin disse de imediato. — Quero dizer, nos gostamos sim, muito, mas não como antigamente, antes de você nascer, filho.
A mãe do garoto observou o ex-marido com cautela.
— A verdade, Roland, é que eu e seu pai tentamos, mas não conseguimos dar certo juntos, mais de uma vez. E então, foi melhor a gente se separar.
— E com quem que eu vou morar? — era a última questão de Roland.
— Bem, meu filho, comigo. Vai continuar morando comigo e com a vovó Cora, como sempre foi. Seu pai vai te ligar sempre, te visitar, levar você pra passear, a mesma coisa.
— Eu prometo pra você meu filho, que vou te ligar todos os dias, vou vir te buscar para irmos para Nova York sempre que puder. Eu não vou deixar de ser seu pai. — foi o que Robin falou ao garoto.
O menino abriu um sorriso doce.
Pareciam estar entendidos. Mas a conversa que terminou, não foi de todo grado para o homem. Ainda tinha claras esperanças de voltar com a ex. A própria Regina sabia daquilo. Seus comentários, suas atitudes, tudo mostrava que tinha intenções de querer a reconciliação, mas agora, estava um pouco abalado. Ela finalmente tocou no assunto na presença de Roland, e precisou fingir sua real posição sobre aquilo para agradá-la.
O almoço dos três chegou após o menino receber um afago do pai em seus cabelos cacheados. Regina não precisou ajudá-lo a comer da carne por ela ter vindo macia e picada. Robin comeu seu bife vagarosamente, como se tivesse perdido o apetite, e Regina desfrutou do seu salmão com muito boa boca, claro, de maneira educada na hora de manusear os talheres.
Minutos depois, Regina foi a primeira a terminar. Tomou um gole de soda, em seguida limpou a boca num guardanapo e esperou os dois terminarem. Foi o tempo de passar seus olhos pela visão da janela panorâmica e encontrar numa das mesas, uma mulher e um menino fazendo um pedido ao garçom postado ao lado da mesa deles.
Regina estreitou os olhos.
O garçom saiu de perto, pôde ver quem eram.
Roland terminou de comer, em seguida Robin.
— Peçam a sobremesa vocês dois, eu não vou querer. Preciso ir ao banheiro, não demoro. — disse ela levantando-se bruscamente da cadeira para seguir na direção oposta. Robin percebeu. Não foi para o banheiro, mas sim para o lado de fora, chegando na mesa onde Emma Swan e Henry estavam sentados.
Sorriu para o menino, especialmente, ao se aproximar. Ele a reconheceu.
— Regina!
— Henry! — ela fez muito gosto em cumprimentá-lo.
Emma tomou um susto. Arregalou seus olhos de esmeralda.
— Re... Re... Regina?! — perguntou a loira, fitando-a perturbada.
— Olá, Emma! Como estão vocês dois? — a engenheira quis ser simpática.
Henry abriu um belo sorriso em resposta, a mãe falou por ele... Só um pouco.
— Estamos ótimos, obrigada. — respondeu Emma, seca.
— Por que você não senta com a gente Regina, vamos almoçar! — incentivou o garoto.
— Eu adoraria, Henry, mas já almocei. Meu ex-marido e meu filho estão comigo. Eu vim dar um ‘oi’ para vocês. Eu vi vocês lá de dentro. Mas, muito obrigada pelo convite!
— Que pena. Se você ficasse, poderíamos tomar depois um Banana Split que tem aqui, é muito bom!
— Eu sei, conheço esse restaurante, é um dos meus favoritos na cidade.
— Na próxima vez, você é minha convidada. — os olhos de Henry chegaram a brilhar de doçura, suficiente para derreter Regina.
— Henry!! — repreendeu Emma. Olhou Regina de canto e muito depressa voltou a mirar seu filho. — Na verdade você quis dizer que ‘nós’ a convidamos para a próxima vez, não foi?
— Não tem problema, — Regina já preparava-se para voltar. — está combinado. Qualquer dia desses, eu, sua mãe e você, vamos tomar um Banana Split cada um. Agora eu preciso voltar, meu filho está me esperando. Tenham um bom almoço. Até logo, Emma!
— Até logo, Regina. — Swan sorriu. Não foi o melhor sorriso do mundo, mas pelo menos era um sorriso. Henry despediu-se da amiga com um aceno de tchau, vendo ela sair de vista.
Swan, muito discretamente a seguiu com os olhos, vendo a morena voltar ao seu lugar dentro do restaurante. Pelo visto, estava de saída. Levantaram-se da mesa, ela, um garotinho e um homem. Soube que eram o filho e o ex.
Na cena seguinte, o pai pegou o filho no colo e o abraçou com força, logo o pôs no chão para então se aproximar de Regina Mills e tentar beijar sua bochecha. A mulher o empurrou de leve, impedindo-o.
Emma acompanhou tudo aquilo, percebendo a insatisfação no rosto do homem. Depois disso, deslocou sua atenção para o almoço dela e de Henry que acabava de chegar à mesa.
Uma hora mais tarde, Regina assistia Roland brincar num escorregador no parque em East Boston. Levou o filho até ali por ter ainda algum tempo antes de voltar ao trabalho. Estava sentada na frente do playground infantil, num banco de madeira, refletindo sobre a conversa com o seu pequeno no almoço. O via contente, a brincar bem na sua frente, e questionava-se se teria mais uma vez aquele tipo de conversa com ele. Necessitava colocar na cabeça do menino que sua decisão era definitiva.
De repente, espantou-se com o barulho de risadas e falatório, no que parecia uma disputa para ver quem chegava primeiro onde ficavam as cadeiras de balançar do playground.
Viu de longe os dois apostando corrida e o menino chegar primeiro, pegando o balanço da direita e uma mulher loira o da esquerda. Tomaram distância com os pés e se soltaram para o brinquedo ir e voltar, rangendo fino nos ganchos que iam para frente e para trás com os dois pendurados.
Sorriam um para o outro, pareciam duas crianças de fato, mas só havia uma, e Regina chegou à conclusão de que aquela mulher ao lado do menino, era, pelo o que parecia, uma excelente mãe.
Como no restaurante, Regina precisou estreitar os olhos para reconhecê-los. Emma e Henry, outra vez.
Roland cansou do escorregador e correu para o colo da mãe. Aquilo de certa forma chamou a atenção de Henry, levando nem três segundos para gritar:
— Olha lá a Regina, mãe! — ainda apontou.
Emma franziu o cenho.
— É o quê, garoto? — e virou a face para encontrar a engenheira sentada no banco da praça, de certa distância.
Seus sapatos derraparam no chão a fim de parar o brinquedo. Acabou saindo da cadeira de balanço antes de Henry e percebeu que era observada por Regina.
Trocaram olhares, mesmo de longe. Como um raio, um filme percorreu seus olhos. Estavam brincando com os filhos no mesmo parque onde muito do namoro delas se desenvolveu.
Emma estava se convencendo de que todos aqueles encontros ao acaso, tinha um propósito, só não sabia qual.
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