SixHunters (Interativa)
3 Convicções de porcelana
Notas iniciais
Tudo foi tão estranho naquela madrugada. Sim, tudo aquilo aconteceu há poucas horas, mas foram momentos tão surreais que não consigo nem acreditar. A Loira do Lago realmente existe, mas uma coelha falante que agride as pessoas a chamou de Dama do Lago. E ainda disse que meu amigo de infância, Thoma Dales, tem uma missão a cumprir ou algo do tipo. Ele recebeu uma espada brilhante e perdeu no jokenpô, o que o fez ficar também com a coelha – afinal de contas, jamais em minha vida eu iria querer ter uma criatura tão estranha como animal de estimação. Não que eu não goste de coelhos, mas ela fala. Isso já é o bastante para manter distância.
– Tsuky, por que está ai se observando no espelho como uma estátua? – indaga minha irmã, Lucky, quebrando o fluxo do meu pensamento.
Ao ouvi-la, dou meia volta, passando a encará-la. Sem o que dizer, permaneço em silêncio até ela se manifestar de novo, segundos depois:
– Vamos nos atrasar se ficar muito tempo nas nuvens.
Ela já está arrumada para ir à escola, mas eu ainda não. Não arrumei meu cabelo, nem calcei minhas meias e meus sapatos. Porém, assim que ela sai do quarto, avisando que já vai descer, faço tudo o que falta às pressas. Em pouco tempo, corro dali e vou atrás dela, que já saiu de casa. Logo a alcanço.
– Podia ter me esperado. – reclamo.
– Faço isso sempre. – corresponde ela, dando de ombros, mantendo seu olhar para frente. – Você tem que ficar mais esperta, minha irmã.
Lucky, Thoma e Yuru são as pessoas que estiveram mais presentes na minha infância. Quando éramos crianças, nosso pai – meu e de Lucky – desapareceu após uma excursão. Ele era uma espécie de aventureiro que vivia em busca de tesouros e artefatos perdidos na História. Nossa mãe, que tinha que se virar por nós, quase nunca estava em casa. Por isso, nossos dois amigos estavam sempre conosco. Só não sei explicar por qual motivo, mas em algum momento, aquela velha amizade enfraqueceu.
– Tsuky, Lucky!! – alguém nos chama, surgindo à nossa esquerda.
Cessamos nossos passos. É Serena Burk, da nossa classe. Pele morena, cabelos negros lisos e longos – com algumas mechas no estilo dread –, olhos dourados e um pouco maior que nós duas. Mas o que a destaca são suas tatuagens: os planetas do Sistema Solar em uma linha vertical nas suas costas, um yin yang no dedo do meio da mão esquerda, uma rosa atrás da orelha e um dizer, "Expecto Patrono", no antebraço. Possui também piercings nas orelhas e um na sobrancelha. Em outras palavras, uma garota que chama a atenção, não só por sua aparência destacável, mas por sua notável beleza.
– Bom dia. Como vão? – questiona ela, ao se aproximar e se colocar diante de nós duas.
– Bem na medida do possível, Serena. – minha irmã responde. – E você?
– Bem também, obrigada. – e olha para mim, sorrindo. – Não veio com o seu arco de meia lua hoje, Tsuky?
Acabo rindo de leve. Impressionante como ela nota pequenos detalhes.
– É, não deu tempo, acordamos um pouco atrasadas hoje. – conto, me lembrando de novo de tudo o que ocorreu de louco horas atrás.
Em seguida, vamos as três caminhando rumo à escola. Lucky e Serena vão trocando boas palavras, conversando sobre assuntos de que nem faço ideia. Afinal, permaneço mergulhada em meus pensamentos. Como tudo aquilo pôde ter sido real? Eu ainda não consigo acreditar, não consigo...
– Tizona. – determina alguém, ao surgir diante de mim.
Tomo um susto daqueles, cessando de uma só vez os meus passos. Quando me dou conta, é Lex Blood quem está perante os meus olhos. Alto, forte, cabelos lisos e curtos, de um ruivo tão escuro que se disfarçam de negros. Olhos verdes e pele clara. E uma feição intimidadora. Além de uma postura de poucos amigos.
– Onde está Tizona, a espada que seu pai deixou para sua irmã? – ele questiona.
Percebo que a culpa foi minha por ter dado de cara com esse sujeito. Fui reduzindo a velocidade dos meus passos conforme eu, minha irmã e Serena nos aproximávamos do colégio. E quando colocamos os pés no pátio frontal do mesmo, parei por alguns instantes, totalmente submersa em meus próprios pensamentos. Foi nesse momento que ele se aproveitou para vir até mim. Agora, vejo elas se afastando, lá ao longe, sem nem perceberem que não estou indo junto.
– Você pode me responder, boneca? – ele insiste, sendo domado por um sorriso indecente.
Sinto-me ameaçada. Nunca me sinto bem diante dele, para falar a verdade. Como já disse minha irmã, ele é imoral e é justamente tal palavra que o define. Prefiro manter distância de gente assim.
– O gato comeu sua língua? – insiste. – Ou melhor, eu aqui, o gato, vai comer a sua língua se não responder.
– Me deixe em paz. Eu não sei do que está falando. – me manifesto, tomando dois passos para trás.
– Sabe sim, e muito bem. – ele afirma, ainda com aquela cara suja. – Eu quero que você me diga onde exatamente está escondida a Tizona.
Na verdade, acho que sei do que ele fala sim. Antes de desaparecer, meu pai havia presenteado minha irmã, no seu aniversário, com uma espada antiga. Só não fazia ideia que ela tinha um nome, e muito menos que esse nome era tão estranho. Mas por qual motivo Lex estaria atrás dela. Aliás, como chegou a saber dela?
– Ou eu vou ter que te convencer a falar por outros métodos? – sugere, se aproximando de mim, colocando as suas grandes mãos por trás das minhas costas, forçando meu corpo de encontro ao dele.
– Me solte, por favor. – peço, apreensiva.
– Solte ela, Lex. – exige alguém, se aproximando por trás.
Viro meu rosto e me surpreendo ao ver ele, Thoma. Eu já deveria ter me acostumado, mas sempre que o vejo, meu coração bate mais forte, se acelerando. Seus olhos castanhos são tão suaves, mas ao mesmo tempo, tão penetrantes... Fisicamente, é parecido com Lex: olhos verdes, pele clara, corpo forte, rosto bonito e traços semelhantes. Porém, é menor e seus cabelos são castanhos. E há uma razão para serem tão parecidos: são primos.
Os dois se encaram, seriamente, por alguns instantes. A relação entre eles não é das melhores. Então, sem dizer nenhuma outra palavra, Lex me solta, dá meia volta e se afasta. Suspiro totalmente aliviada enquanto Thoma se aproxima e se coloca ao meu lado direito.
– Você está bem? – pergunta, sorrindo para mim.
– S-sim, e-eu acho... – correspondo, meio sem jeito. – Obrigada.
– Não tem pelo que agradecer. Eu que devo pedir desculpas. Meu primo é um idiota. – declara.
– Não se incomode. – peço. – Afinal, você não tem culpa pelo comportamento dele.
Thoma e Lex são dois dos mais populares garotos do colégio. Ao mesmo tempo, completamente diferentes no quesito personalidade. Enquanto Lex é impulsivo – só não é mais do que a Lucky –, grosso e um tarado sem vergonha, Thoma é calmo, educado e gentil.
– Como você está, depois daquelas coisas? – pergunto, tentando mudar de assunto.
– Ainda não consegui assimilar tudo, sabe? – ele devolve. – Há pouco tempo, meu mundo era normal. E, de repente, tudo mudou.
– Deve estar sendo mesmo muito complicado. – digo, ainda envergonhada por estar diante dele. – Mas eu e Lucky, que estávamos lá, estaremos ao seu lado para o que der e vier. Somos amigos, não é?
– Sim, somos. – confirma ele, com um leve sorriso. – Vamos indo lá para dentro? – sugere. – Faltam 15 minutos para a primeira aula.
Ele acabou de confirmar isso no seu relógio de pulso. Entretanto, eu não seria capaz de continuar tão próxima dele. Já que, mesmo nunca tenha admitido para alguém, eu sempre o...
– Thoma, vem aqui! – pede Raviel Vanvid, colega nosso, ao se aproximar ao longe, vindo de dentro da escola. – Preciso muito que me ajude numa questão aqui!!
Raviel possui olhos acinzentados – incomuns, bem incomuns –, pele clara, estatura média – pouco maior que eu –, cabelos negros ondulados e curtos, bem bagunçados. E tem como costume pedir ajuda ao Thoma em questões que encontra dificuldade para resolver. Não que ele tenha dificuldade de aprendizado, mas diferente do Thoma, não é tão dedicado assim aos estudos.
– Até a aula, Tsuky. – Thoma se despede, com um último sorriso, indo até Raviel.
Desse modo, ao se aproximarem, os dois vão juntos para dentro do colégio enquanto eu apenas observo suspirando de leve. Coloco minhas duas mãos sobre meu seio esquerdo. Sinto as batidas do meu coração se reduzirem pouco a pouco. E então, fechando meus olhos, me lembro da verdade, do quanto ele é inalcançável para mim.
– Deveria contar para ele. – determina uma garota, ao surgir próxima de mim.
Altura praticamente igual a minha, pele clara, cabelos lisos meio ondulados medianos – até o pescoço – ruivos, olhos verdes. Alice Lewis Foster. Apesar de estarmos na mesma turma desde o Fundamental, nunca trocamos muitas palavras.
– Contar o que? – me faço de boba.
– Contar a verdade que esconde dele. – diz ela, me olhando bem nos olhos. – A melhor opção é contar logo de uma vez. Mesmo que ele te recuse, será bom porque se livrará de vez desse fardo que carrega há tanto tempo.
– Do que está falando?
– Você é perdidamente apaixonada por Thoma Dales, Tsuky Scarlet. – garante ela, me deixando atordoada e boquiaberta. – Mas nunca admitiu.
– E-eu...
– Você, sim, o ama. – me interrompe. – Nem sei por qual motivo estou dedicando o meu tempo a falar sobre isso com você, mas tenho certeza, Tsuky, que a melhor alternativa é dizer a verdade e parar de abafá-la assim dentro do seu coração.
Fico em silêncio. Ela também. Será que meu sentimento por Thoma sempre foi assim, tão evidente? Ou será que somente Alice quem percebeu? E outras poucas pessoas, talvez...
– Se está pensando no quanto é óbvio o seu sentimento por ele, bem... – e suspira. – Numa escala de zero a dez, daria oito. Só os tolos não percebem. Ou aqueles que são próximos demais de vocês dois e que considera isso apenas como uma profunda amizade.
– Alice, eu...
– Não precisa se retratar comigo, Tsuky. – me interrompe outra vez. – Apenas tenha coragem e força para buscar sua própria felicidade. As pessoas temem se ferir mesmo quando o que deve ser feito lhes parece simples. A covardia humana é perdoável, mas a aceitação sobre a mesma não. Sendo assim, escute o que estou te falando.
Dessa forma, ela passa a caminhar rumo ao prédio da escola, se afastando de mim. Por aqui, ainda há alguns poucos alunos, mas com toda a certeza, a grande parte já está lá dentro, se preparando para a primeira aula do dia. Afinal, o ano letivo mal começou.
"Corra atrás da sua felicidade, Tsuky! Não importa o quão difícil seja, não desista dela!": nunca me esqueci de tais palavras, que minha irmã me disse certa vez. Foi pouco depois do nosso pai desaparecer, quando ela enfiou na cabeça – com razão – que eu estava apaixonada. Naquela época, nem depois, contei que era e ainda é pelo Thoma o meu sentimento.
– Está decidido. – digo para mim mesma. – De hoje não passa. O Thoma precisa saber que eu não o tiro da minha cabeça um dia sequer. Mesmo que ele me rejeite, ao menos...
Lágrimas insistem em descer dos meus olhos. Será que sou fraca? Talvez. Nem mesmo sei porque nutro esse medo tão grande de falar a verdade sobre meus sentimentos para ele. Não consigo compreender.
– Ao menos eu já terei aliviado o meu coração. – completo, forçando ambas as minhas mãos contra meu seio esquerdo.
Desse modo, eu corro. E corro bastante. Sinto que as poucas pessoas aqui fora passam a me observar. Talvez, estejam curiosas para saber a razão do meu desespero evidente. Mas não me importo. Não agora. Eu não posso parar. Eu sempre senti que o Thoma era uma pessoa diferente. E isso não é de se falar pelo meu sentimento. Não sei explicar, mas era como se os olhos dele transmitissem uma verdade que nunca encontrei em outros. Dizem que os olhos são as janelas da alma. E concordo. Justamente por essa ideia que, sempre seduzida pelos olhos do Tohma, acreditava que ele era especial. E ele é.
Em pouco mais de um minuto, faço todo o trajeto necessário, bem depressa, até chegar na minha classe. Apenas uma pequena parte dos meus colegas de turma já estão aqui: Serena e minha irmã, Alice Lewis Foster, John S. S., Luna Song e Yuru Lazuri, outro amigo de infância. Mas quem eu procuro, Tohma, não.
– Lucky, onde o Tohma está? – pergunto, me aproximando depressa da carteira dela, a primeira da segunda fileira próxima à porta, onde ela está.
– Estava aqui agora mesmo. Acho que foi na biblioteca pegar um livro emprestado. – responde, me encarando seriamente em seguida. – Por que se afastou de nós, hein? O que foi fazer?
– Nada, mas não posso falar com você agora. – correspondo, dando meia volta.
E passo a correr mais uma vez. Destino: a biblioteca, obviamente. Eu nem mesmo sei por qual razão estou tão repentinamente dedicada à missão de me abrir com Tohma. Não sei se foram, por si só, as palavras de Alice ou se elas foram apenas as meras gotas de água que faltavam para fazer o copo transbordar. Só sei de uma coisa: não posso ficar mais um segundo guardando apenas para mim esse segredo.
– Finalmente te encontrei, Maiden. – diz um sujeito que, de repente, surge diante de mim.
Mais uma coisa que não sei explicar: um homem que acabou de aparecer diante dos meus olhos, assim que dobrei a esquina de um corredor. Ele está no meu caminho, logo agora que sinto a louca necessidade de me encontrar com Thoma.
– Quem é você? – indago, surpresa, agora parada perante ele.
Não vejo o seu rosto, ocultado por uma máscara branca. Seu corpo também está coberto por uma capa branca. Tudo o que sei é que é alto, possui uma voz firme e sua presença, apesar da situação, não me abala.
– Sou aquele que veio lhe buscar, Maiden. – diz ele. – Vim de muito longe apenas por você.
– Como assim? E-eu não tenho tempo para brincadeiras, preciso ir...
Tento me desviar, mas ele se coloca na minha frente de novo, me impedindo. Não quer me dar espaço para nem mesmo um passo. Determinado, declara:
– Tsuky Scarlet, venha comigo.
– Como é?
– Venha comigo. – repete. – Você não tem outra opção.
Minha irmã sempre me protegeu. Porém, com o tempo, foi reduzindo tal proteção, dizendo que eu deveria aprender a me defender sozinha. Dizia que minhas convicções eram fracas e frágeis e por isso eu não era capaz de lutar pela minha felicidade. Aprendi que realmente existem pessoas decididas que não desistem do que querem e outras que abrem mão dos seus objetivos apenas nos primeiros obstáculos. Eu sempre fiz de tudo para não ser parte desse segundo grupo, mas a minha fraqueza, a minha fragilidade...
– Eu tenho que ir até uma pessoa importante. – digo. – Devo ser firme agora, pelo menos uma vez na vida.
O empurro com minhas mãos e vou andando com firmeza para longe. Contudo, ouço a voz do estranho mais uma vez:
– O que é mais importante para você: esse sentimento tolo por um jovem que não se importa com você ou a verdade sobre o seu pai?
Meus pés param de imediato. Meus olhos estão arregalados. De uma só vez, me volto para o homem.
– O que sabe sobre meu pai? Quem é você, afinal de contas!?
Uma solene risada paira no ar. Logo em seguida, ele diz:
– Você já deve estar ciente da existência das sete Espadas Lendárias. Durante a última madrugada, a primeira delas, Excalibur, despertou. Na seguinte ordem, virão: Olympus, Kusanagi, Gram, Kamaitachi, Honjo Masamune e Tizona. Essa última nada mais é do que a espada que sua irmã recebeu do seu pai antes da partida dele para outro mundo.
Permaneço em silêncio. Não entendo bem o que ele está falando, mas é melhor continuar ouvindo do que interromper.
– Seu pai está ligado a todas as sete Espadas Lendárias. Foi ele quem me enviou até aqui para buscá-la, Maiden. – o homem prossegue. – Você deve vir comigo ao encontro dele.
– E se eu recusar? – pergunto. – Se o que está dizendo é verdade, meu pai desapareceu porque quis. Não tem o direito de reivindicar minha presença dessa forma como se eu fosse um mero objeto. Eu tenho algo importante para fazer.
– Eu já disse. – e, ao falar assim, o homem lança sua mão direita contra meu pescoço, me jogando e me pressionado na parede que estava à minha esquerda. – Venha comigo.
Sinto-me sufocada. Tento gritar, mas ele tapa a minha boca com a outra mão. Assim, o estranho declara:
– Se eu quiser, posso matar Thoma Dales. – ele declara, me aterrorizando. – Se eu quiser, posso matar todos que você ama, todos que lhe são importantes. Se eu quiser, posso arrebentar com essas suas convicções medíocres. Se eu quiser, posso transformar a sua vida em um vazio sem cor e sem sentido. Quer pagar pra ver?
Meus olhos se enchem de lágrimas. Não sei o que está acontecendo, nem por qual razão está acontecendo. Tudo está se transformando de uma forma tão assustadora. Thoma, Lucky, papai... Não há ninguém que possa me dar forças agora? Não há ninguém que possa me explicar, me ajudar... Me salvar?
Ele me solta de uma só vez e, então, caio de joelhos e mãos ao chão. Minha respiração está descompassada. Pensei que seria morta aqui mesmo. É quando ele se manifesta mais uma vez:
– É a última vez que digo, Maiden. – e direciono meu olhar para sua máscara. – Venha... Comigo.
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