SixHunters (Interativa)
4 Fatos declarados, atos apagados
Notas iniciais
Arco 1 — Espadas Lendárias
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– Thoma, Raviel, ajudem!! – grita Luna, ao surgir diante de nós.
Repentino, não? Pois é! Luna Song é uma garota da nossa turma. Seus olhos estão entre o azul e o verde – eu digo que é azul esverdeado, Thoma diz que é verde azulado. Seus compridos cabelos são ruivos e lisos, sua pele é bem clara e sua altura, bem abaixo da de nós dois – e olha que não estou entre os maiores da classe. Bem... Enquanto eu estava conversando com ele, aqui na biblioteca, sobre temas das aulas, ela apareceu. E continua pedindo:
– Venham ajudar! Depressa!
– Mas o que está acontecendo? – indaga Thoma, preocupado.
– É com a Tsuky! Um cara estranho está machucando ela! – declara, nos espantando.
É, o que eu estava falando com Thoma vai ter que ficar para depois. Afinal, nós três vamos correndo, sendo Luna a guia do trio. No trajeto, ele faz uma série de perguntas, realmente preocupado. Eu, por outro lado, nem tenho brecha para isso. Não tenho nenhuma relação próxima com a irmã de Lucky, mas como colega de turma, obviamente fiquei preocupado com o que a Song disse.
Explicou para nós que havia saído da sala momentos depois que Tsuky saiu, pois iria ao banheiro. Porém, ao ver de longe que nossa colega estava conversando com um estranho, Luna decidiu observar em silêncio. Segundo as palavras da própria Song, o assunto entre os dois era fechado e tudo o que entendeu foi que tem a ver com o pai dela.
– O que será que está acontecendo!? – Thoma se questiona, realmente preocupado.
Apesar de ser uma pessoa quieta na dele e meio afastada dos outros, Thoma é um amigo para mim. Pelo menos eu o considero assim. Outro amigo meu é Yuru Lazuri, sendo que, coincidentemente, ambos são "velhos conhecidos" de Tsuky Scarlet. Isso seria, é claro, se eu acreditasse em coincidências...
– Tsuky!? – e, então, Thoma se depara com ela, assim como eu e Luna.
Sim, chegamos. Não demorou muito, já que o local indicado pela Song não era distante e também pelo fato de que corremos bastante para ajudar nossa colega. E aqui estamos.
– Thoma? – ela se vira para ele, demonstrando estar bem surpresa com nossa aparição.
No momento, próximo de Tsuky, está um sujeito aparentemente desconhecido, com o rosto escondido e o corpo oculto por uma capa, branca como a máscara que está usando.
– Luna disse que você precisava de ajuda. – alega Thoma. – O que está havendo por aqui? – e lança seu olhar para o mascarado.
– Luna Song, Raviel Vanvid, suponho que não estão cientes dos acontecimentos que envolveram Thoma Dales e as irmãs Scarlet na beira do rio Tsukyomi. Ou estou equivocado? – o sujeito se manifesta, atraindo a atenção geral.
Noto uma aflição estranha domar Tsuky. Mesmo não sendo próximo o suficiente para conhecê-la bem, sou bom em descobrir sentimentos e sensações ocultadas pelas pessoas. Não está sendo diferente agora. Por outro lado, tenho em mente de que a aflição dela está clara, não só para mim, como para Thoma e Luna também.
– Ao que você estaria se referindo? – pergunta Luna, tentando entender.
O estranho ri. Desse modo, ele leva sua mão direita, coberta por uma luva branca, para sua máscara. E, então, a retira, se apresentando:
– Temen, o aluno recém-transferido, colega de vocês. Ou como preferirem, Lukke, um Mascarado.
Nós quatro estamos pasmos, pois não é a primeira vez que vimos ele – foi apresentado ontem como novato da nossa classe. Pelo visto, Temen não tinha mostrado ainda a sua face para Tsuky, quem também se surpreendeu. Olhos e cabelos castanhos lisos jogados para a direita, com o lado esquerdo raspado. Pele clara e, pelo visto, magro. Esse é Lucas Temen.
– Mascarado? – indago, confuso. – E você, tinha te visto mais cedo no pátio. Como e por qual motivo colocou essas roupas e foi atrás da Tsuky sem ser percebido?
– Quem disse que eu não fui percebido? – rebate, com um meio sorriso irônico. – Ao menos, não passei completamente sem ser notado. – e passa a fitar Luna. – Meu trabalho foi imperfeito. E como os Mascarados seguem com fidelidade uma conduta de nunca esconder a verdade quando falham e são descobertos, estou aqui me apresentando.
– Você se infiltrou na escola apenas para vir atrás da Tsuky? – Thoma, por sua vez. – Qual a razão disso? E o que são esses Mascarados?
– Digamos que a missão de encontrá-la foi um dos motivos, mas não o único. – deixa claro, alternando seu olhar entre cada um de nós. – O período do despertar das Espadas Lendárias chegou. Com você, Thoma, está a primeira: Excalibur.
Não faço a mínima ideia do que ele está falando, mas apesar disso, o termo "Espadas Lendárias" não me é estranho. Não saberia dizer ao certo, mas sinto como se já tivesse escutado isso antes.
– Por esse motivo, nós, os Mascarados, começamos a agir. – determina Temen. – Há muito tempo, nosso grupo surgiu para trazer ordem ao mundo. Na época da origem da nossa liga, na Idade Média, a humanidade estava sendo ameaçada por existências, de certo modo, superiores. Os fundadores dos Mascarados se levantaram para separar tais existências da nossa realidade e selá-los em uma dimensão paralela.
– O que você quer dizer com existências superiores? – questiono, curioso.
– Seres míticos perigosos. – define. – Youkais, dragões, drows, fadas negras e várias outras classes poderosas de criaturas.
– Esse tipo de coisa não existe. – afirmo, certo do que falo.
– Engana-se. Nesta realidade, não estão presentes, mas eles existem. – devolve, me olhando seriamente. – Mesmo tendo ao lado da humanidade seres tecnicamente bons como duendes, espíritos da natureza e outros, uma guerra estava para ser declarada e ameaçar a ordem natural do mundo. A missão dos Mascarados foi impedir isso, selando esses seres ruins em uma dimensão diferente, já que seria impossível acabar com todos eles sem derramar sangue de aliados. Foram os meus predecessores os primeiros a usarem as Espadas Lendárias.
– Se falou da Excalibur, só falta me dizer que o rei Arthur existiu e foi um desses Mascarados. – comento.
– Foi o que de fato ocorreu. – afirma Temen. – Arthur Artorugus foi um dos fundadores do nosso grupo. Por muito tempo, as Espadas Lendárias permaneceram dormentes, pois o uso delas não era mais necessário. Cada uma delas foi criada por um diferente Espírito da Natureza. E justamente seus criadores foram, também, os responsáveis por selá-las. A criadora da Excalibur, inclusive, foi a Dama do Lago, quem se apresentou para você, Thoma Dales.
– Isso tudo é brincadeira, não é? – Luna se manifesta.
– Não, não é. – garante. – Não tenho razões para inventar tudo isso. Afinal, desde aquela época, nós, os Mascarados, existimos para manter o selo da dimensão dos seres malignos intacto. Contudo, por algum motivo, as Espadas Lendárias deram sinais de que retornariam. Por incrível que pareça, um dos escolhidos sequer sabia de tudo isso, nem relação alguma possuiu ou possui com o nosso grupo.
– Está falando do Thoma, certo? – pergunto.
– Sim. – corresponde. – Ele foi escolhido pela Excalibur. Nós não sabemos por qual motivo isso ocorreu, mas devemos respeitar, afinal, é o destino.
É quando noto uma espada guardada nas costas dele. Sim, uma espada, e bota espada nisso, pois é enorme. É quando Temem revela:
– Por outro lado, eu, um Mascarado, fui escolhido pela segunda espada, Olympus.
– Pelo que você havia me dito, eu pensei que ela, a segunda espada, ainda não havia despertado. – Tsuky, por sua vez, surpresa.
– Digamos que ela não despertou por completo, mas já me escolheu como seu usuário. – afirma. – Agora, chega de conversa. Vamos logo, Maiden. Meu mestre a espera.
– Onde você está querendo levar a Tsuky? E que cara é esse que está esperando por ela? – Thoma exige saber.
– Não estou querendo levá-la, eu vou levá-la. – determina. – E para o QG dos Mascarados, onde Jin Scarlet a aguarda.
Thoma fica sem palavras. De imediato, entendo que Jin Scarlet é o pai de Tsuky e Lucky. Pelo que soube, ele havia desaparecido sem deixar rastros durante uma aventura. E agora, do nada, reaparece?
– Não acredite nele, Tsuky. – pede Thoma, sendo que a garota em questão continua de costas para ele. – Está falando mentiras sobre seu pai, criando uma realidade fantástica para te convencer, quando na verdade quer é te levar para te fazer algum mal. Se seu pai estivesse mesmo vivo, ele viria pessoalmente até vocês duas. – opina, referindo-se às duas irmãs. – É tudo armação. Não vá!
– Eu vou. – afirma Tsuky, sem olhar para Thoma. – Nada do que ele disse é mentira. E, no fundo, você também sabe disso.
– Não, Tsuky! – implora Thoma, tomando dois passos firmes para se aproximar mais dela. – Não vá! Sua irmã, eu, o Yuru! Tanta coisa aconteceu entre nós, mas aquele laço antigo ainda existe! Eu tive certeza disso quando recebi a Excalibur. Eu sei que estou destinado a fazer algo e que vocês três estarão ao meu lado assim como nos velhos tempos! Por favor...
– Cale-se. – exige ela, dando um giro repentino, voltando-se para ele.
Dos olhos de Tsuky, caem lágrimas. Tenho certeza: a escolha foi dolorosa. As lágrimas parecem vir direto do seu coração, apertado e dividido. Sinto, sinceramente, que há algo que ela gostaria muito de resolver antes de tomar qualquer outra decisão. Porém, a urgência imposta pelo tal Mascarado se sobrepôs aos desejos da própria Tsuky. Ela está sofrendo, e muito.
– Eu devo ir. Ponto. – diz a irmã de Lucky. – E assim será.
– Tsuky, por favor...
Ela dá as costas para Thoma mais uma vez. Parece estar determinada a segurar seu choro e, por isso, não quer mais encará-lo. Não sei o que eu poderia fazer nessa situação. Nem mesmo sei se deveria fazer algo. Tudo o que sinto liberdade em fazer é observar, sem interferir. O laço entre eles, que foi construído há tanto tempo, não permite nada além.
– Eu vou voltar. – garante Tsuky. – Não sei quando tempo isso vai levar. Se serão horas, se serão meses... Mas eu voltarei, Thoma. – o choro parece ter cessado, pelo tom de sua voz, mesmo que a dor permaneça. – Pois eu ainda não lhe disse algumas palavras que estão guardadas faz tempo comigo.
– Tsuky... – Thoma, que também parece estar sofrendo com tal situação, com uma expressão que comprova isso.
– Muitas coisas no passado, o passado que envolve as Espadas Lendárias, os Mascarados e os inimigos da humanidade, podem ter sido apagadas. – ela vai falando. – Entretanto, essas minhas palavras, eu garanto que nem mesmo a maldade do tempo será capaz de apagar. E eu viverei até que eu possa declará-las a você.
Ao encerrar, ela olha para Temen.
– Vamos. – pede. – Eu desejo rever o meu pai.
– Que assim seja, Maiden. – aceita, curvando-se com evidente respeito à ela, talvez por Tsuky ser filha do tal mestre. – Vamos então.
Temen nos dá as costas. E, com um ligeiro movimento do seu dedo indicador direito, faz algo extraordinário. Cria uma espécie de fissura no espaço-tempo, um portal para outro mundo, se for seguir tudo o que ele falou. Assim, ouvindo Thoma chamar desesperado por seu nome, Tsuky vai até o portal, ignorando-o. O novato também. E, assim, a fissura desaparece, levando-os daqui.
– Meu Deus... – Luna, boquiaberta. – Estou pasma.
– Ela foi enganada. – diz Thoma, para si mesmo, abaixando sua face, decepcionado por não ter conseguido deter sua amiga de infância em cair numa provável cilada.
– Será que foi mesmo? – pergunta alguém.
Maxuel Lopes – pele clara, cabelos negros azulados curtos e lisos, olhos verdes, altura pouco superior à minha e várias cicatrizes de coleção pelo corpo – e John S. S. – pele branca, cabelos quase idênticos com os do outro, olhos violeta, altura abaixo da minha, outras cicatrizes. E, entre eles, uma coelha. Uma coelha falante.
– Pelo menos, o passado que ele declarou ter acontecido não é falso. – afirma a coelha.
– Uma coelha falante!? – eu e Luna, obviamente, pasmos.
– Pelo menos sabem que sou uma donzela. – comenta ela, sorrindo, o que é estranho, já que nunca imaginei coelhos sorrindo, muito menos falando.
– Max, John, o que estão fazendo com essa coisa aí? – pergunto.
– Não sou uma coisa, imbecil, sou uma coelha. Me chamo Beth. – determina ela, irritada.
– Estávamos do lado de fora da sala por causa de um problema que tivemos lá e aí essa coelha se deparou com a gente. – diz Max.
– Exigiu que a trouxéssemos até o Thoma e aqui estamos. – John completa.
– Uma esquisitisse atrás da outra! – comenta Luna, virando-se para Thoma. – É sua conhecida?
– Infelizmente. – lamenta, suspirando com um certo pesar.
– Moleque insolente! – grita Beth, saltando e dando dois tapas no rosto de Thoma, para a surpresa de todos os demais presentes. – Veja lá como fala comigo!! Mais respeito e menos petulância!
– Beth... – me manifesto.
– Senhora Beth, para você. – exige ela, já de volta ao chão, enquanto Thoma se recupera dos golpes que levou.
– Então... Senhora Beth... – reinicio. – Aquelas coisas que o Temen disse... São mesmo verdade?
– Você não viu o que ele fez? – questiona. – Abriu um portal para a dimensão onde estão seladas todas aquelas criaturas. É onde fica o QG dos Mascarados e onde está Jin Scarlet. Por isso ele jamais foi encontrado. Contudo, eu não sabia que era ele o atual líder deles, nem mesmo que estava vivo ou que tinha como objetivo se reencontrar com uma de suas filhas. Suponho que sua intenção não é meramente emocional...
– Como assim? – Luna, por sua vez.
– Thoma explicará melhor para vocês depois, a respeito das Espadas Lendárias e do chamado que ele tem. – diz. – O que posso adiantar é que acredito que Jin Scarlet quer rever sua filha por uma forte razão. Caso contrário, veria também a outra, Lucky.
Me dou conta de quanto tempo já perdemos ao olhar para o relógio em uma das paredes do local. O segundo horário de aula já começou. Mesmo assim, ainda não dá para sair daqui.
– Não importa! – exclama Thoma, visivelmente alterado. – Nada disso importa!! A Tsuky tem que voltar!
– Talvez ela nem mesmo volte, Thoma. – diz a coelha. – Vim aqui exatamente para falar sobre isso. Falar sobre o que eu descobri sobre cada um dos estudantes desta escola.
– Como assim? – indaga Raviel.
– Thoma Dales, as irmãs Scarlet e Yuru Lazuri. Os quatro possuem habilidades naturais que nasceram com eles. E todos aqueles que tiveram mais contato com os mesmos durante esses últimos anos foram afetados e podem desenvolver habilidades também. – explica. – Serena Burk, Lex Blood, Alice Lewis Foster, Maxuel Lopes, John S. S., e vocês, Raviel Vanvid e Luna Song. Sem falarmos também de Sakura Inoue, que ainda me é um mistério, mas não me engana se passando por uma pessoa comum.
– Isso é verdade? – eu, espantado, já que fui citado.
– Mas é claro. – garante ela.
– Isso não explica o que você falou. – Thoma, outra vez. – Por qual razão há chances dela não voltar?
– Ela é diferente. – estipula. – Tsuky Scarlet tende a ser aquela que poderá ser usada para renovar o selo da dimensão para qual foi levada.
– Como assim? – eu, de novo.
– O selo está fraco e poderá se romper de vez muito em breve. Essa pode ser a verdadeira razão por trás do despertar das Espadas Lendárias. – determina Beth. – Na verdade, algumas criaturas já escaparam daquele mundo para este e os escolhidos devem se preparar para enfrentá-los. A questão é que um conflito muito maior pode ser evitado se o selo for renovado. Para isso, é necessária a atuação de uma pessoa com habilidades peculiares, compatíveis com o lacre.
– E daí? – Thoma insiste em querer saber diretamente do que ela fala.
A coelha permanece em silêncio por alguns instantes. Então, suspirando, decide contar:
– Há apenas um meio de renovar o selo.
– E qual é? – pergunta Luna. – Diga logo de uma vez!!
– Se Tsuky é mesmo a pessoa para isso... – Beth recomeça. – Só será capaz de fazê-lo... Com a própria vida.
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