Siv.
1 Boas Vindas
O ônibus já estava parado no mesmo lugar por vinte e dois minutos e nem isso conseguia abalar os ânimos de Thais. A garota de traços nipônicos disfarçava seu humor com métodos que já conhecia. O capuz sobre o rosto, a expressão taciturna e mal-encarada junto da escolha do assento mais distante dos outros passageiros no veículo. Os olhos por trás das lentes quadradas registravam cada primeira imagem, guardavam cada primeira impressão da cidade que agora iria chamar de sua. Uma música animada, pouco executada em seu celular, tocava nos fones de ouvido.
A viagem não tinha sido necessariamente longa, mas também não deixou de ser cansativa. Thais havia partido de sua cidade natal num ônibus em direção a uma outra cidade vizinha, pouco maior que a sua própria. De lá, pegou o trem que logo se convertia em metrô ao alcançar a capital, onde embarcou no ônibus que apenas depois de cinco horas de viagem (totalizando oito horas e meia, desde que saiu de sua casa) chegaria ao seu destino: Santa Quitéria, uma cidade localizada no litoral de São Paulo e que não tinha muito mais que quatrocentos mil habitantes. Carregava consigo as pesadas malas com os pertences que considerava indispensáveis para sua nova vida. No seu colo, uma mochila inseparável guardava apenas o mais útil para a viagem. Um notebook, pacotes de biscoitos e os livros que atualmente lia. Levava ali também uma pasta com seus desenhos mais queridos, que só havia sido posta na bagagem de mão para que nos momentos que imaginasse ter esquecido algo, pudesse logo abrir e ver que ao menos trazia consigo o mais importante: o motivo de estar ali.
Thais trocou a nova música que estava sendo executada e se surpreendeu com a notificação de uma nova mensagem. Eram raras as notificações em seu celular agora que acabara o Ensino Médio e não havia mais a necessidade de participar de grupos com os colegas de sala. Claro que haviam alguns contatos que mantinha, mas a maioria eram amigos que fazia na internet. Neste caso, era uma das poucas exceções. Leu a mensagem da amiga que a esperava perguntando onde ela estava e respondeu que estava presa em um congestionamento, adicionando um emoji que representava sua cara de entediada. Por um momento, Thais se perguntou se as pessoas no curso de Artes eram do tipo que faziam grupo no whats app. Riu consigo mesmo ao considerar a possibilidade, mas não permitiu que o rosto externasse o humor. Vista por fora, Thais continuava com a cabeça recostada sobre o assento do ônibus e os olhos mirando passivos a vida da cidade.
A verdade é que, independentemente do quão soturna ou, no mínimo, séria, Thais parecesse, estava animada com a cidade e a vida nova. “Morar sozinha” era uma expressão inadequada para se usar visto que desde os doze anos, ela já cuidava de si mesma enquanto os pais administravam a loja de tecidos dos Nakamura. Logo, independência não era um conceito muito distante para Thais. Sabia arrumar uma casa, comprar suprimentos, preparar comida e resolver a maioria das situações cotidianas “adultas”. Para sair da casa onde morava com os pais, porém, faltava-lhe um fator principal: motivo. E agora, finalmente ela o tinha. Havia sido aceita no tão sonhado curso de Artes Visuais na UESQ, a Universidade Estadual de Santa Quitéria. Os pais não se opuseram pois tinham conhecimento da maturidade e talento da filha. Fora aprovada no processo de deferimento de bolsas-auxilio para estudantes e, por uma incrível coincidência, sua melhor amiga que acabara o Ensino Médio um ano atrás, agora morava na mesma cidade onde se encontrava o campus, e não apenas uma vez tinha proposto que elas dividissem o apartamento onde vivia.
Por fim, Thais Nakamura estava indescritivelmente feliz com o futuro que a esperava.
O ônibus finalmente voltava a avançar e em pouco tempo, Thais avistou o terminal onde desembarcaria. Ao pensar nisso, sentiu um frio na barriga. Surpreendeu-se mais uma vez com a própria ansiedade. Era real. Assim que desembarcasse daquele ônibus, uma vida nova começaria e esse sentimento era mais que convidativo. Era desafiador. Numa analogia proposta por ela mesma, ela percebeu que sentia a mesma sensação que a preenchia antes de selecionar a opção “Novo Jogo” num videogame que acabara de começar. Percebeu que deixava um sorriso escapar, mas esqueceu de tentar escondê-lo. Pelo celular, enviou mensagem para a amiga informando que desembarcaria em breve. Leu a resposta instantânea a sua mensagem:
[13:33, 26/01/2015] Alyne: Eu sei! Já estou vendo seu ônibus!
Novamente a sensação incomum que se formava na barriga a fez sorrir. Mas dessa vez percebeu que gostava.
A manobra lenta para estacionar o ônibus parecia demorar ainda mais sob os olhos ansiosos. A mochila estava nos ombros antes de se levantar. Apertada contra o próprio peito, a pasta com os desenhos ameaçava revelar a frequência cardíaca da dona. O motor do ônibus que era responsável por uma leve, mas notável tremedeira do veículo foi desligado assim que finalmente estacionaram na plataforma 3A do Terminal Rodoviário de Santa Quitéria. Reprimiu o sorriso que aparecia no rosto pois decidira a pouco que desceria do ônibus com a mesma seriedade que pretendia encarar os desafios de sua nova vida. Decisão produto das superstições que ela mesmo inventava e só ela entendia. A escolha do assento mais ao fundo possível não parecia tão boa agora que tudo que ela queria era sair pela porta que ficava na extremidade a frente. Suspeitava ter visto Alyne pela janela enquanto manobrava o ônibus. Será que estaria certa?
Alyne era, para Thais, aquela pessoa que se encaixa perfeitamente no conceito de “melhor amiga”. Porém, ao contrário do esperado, elas se conheciam a pouco tempo. Desde a entrada de Thais no Ensino Médio para ser mais exato, quando Alyne já cursava o segundo ano. A amizade superava alguns estereótipos inevitáveis e isso só demonstrava a força do vínculo entre as duas. Thais sempre fora um tipo de pessoa reservada e tímida, disposta a fazer amizades sim, mas não a ponto de sair da sua zona de conforto de livros, desenhos e video games para isso. Enquanto que, no colégio onde ambas haviam estudado, nunca houve uma aluna tão popular quanto Alyne. Não por ser simplesmente bonita, mas sim, chamativa. Como se fosse impossível ignorá-la por onde quer que passasse. Dona de um magnetismo pessoal forte o suficiente para fazer com que Thais saísse de seu pequeno mundo e deixasse de fazer sozinha os trabalhos em dupla. Mas se havia algo que ambas compartilhavam (além de inúmeros segredos) era o talento. Enquanto que a habilidade artística de Thais havia lhe garantido uma vaga na universidade, Alyne era uma atriz genial. A história da amizade entre as duas talvez fosse grande demais para ser descrita assim, de modo tão curto. Mas era importante e forte o suficiente para arrancar o sorriso de dentro de Thais fazendo-a involuntariamente desistir da seriedade recentemente proposta.
Esperou que todos desembarcassem para que se levantasse do assento. Caminhou rápido para a saída e deixou escapar um “boa tarde” com um mínimo de voz para o motorista quando passou por ele. Desceu do ônibus e, fora do ar-condicionado, tudo ficou quente demais. Lembrou que estava de capuz e o tirou de cima do rosto, revelando o cabelo preto amarrado em um rabo-de-cavalo. O sol invadia as plataformas do terminal por entre as frestas dos telhados de zinco. Pessoas inundavam o cenário movimentando-se em velocidades e direções diferentes. Thais se perguntou se não era melhor tirar a blusa de frio logo. Porém, decidiu ir atrás da sua mala que deveria estar sendo retirada junto com as outras naquele momento. Os olhos percorriam o terminal todo em busca da amiga. Detinham-se por um segundo nas pessoas com traços semelhantes e se decepcionavam quando estas viravam-se revelando não serem Alyne. A mão tateou o bolso em busca do celular. Os pés batiam impacientes e o estômago ensaiou uma sensação análoga a de um momento antes só que numa versão que Thais não gostava. Teve medo por um segundo.
—_É sempre muito fácil te reconhecer nesse moletom, Taki.
Mesmo se o tempo tivesse feito que com que não reconhecesse mais a voz da amiga, o apelido teria efeito imediato. Thais se virou já olhando para cima (Alyne era bem mais alta) e abrindo os braços para o abraço já esperado. Os braços da amiga a envolveram e ficaram ali por quanto tempo puderam antes do motorista do ônibus pigarrear esperando que levassem a última mala.
Atravessaram com a mala dotada de rodinhas através do terminal ensolarado. A conversa fluía ininterrupta. Como se houvessem aberto uma barragem de rio que há muito estava fechada. Os assuntos eram previsíveis: a viagem, o que mudou no tempo que passaram separadas, piadas internas que não faziam há muito, e coisas assim. Alyne perguntava sobre os pais de Thais e sobre a antiga cidade. Thais fazia perguntas sobre a situação atual da amiga e sobre o início do processo de matricula, que pedira para Alyne fazer presencialmente no lugar dela, evitando assim, ter de fazer mais uma viagem para Santa Quitéria.
—Deu tudo certo. A papelada que me deram está lá em casa, apenas te esperando – Alyne respondeu sorrindo enquanto Thais notou que pela primeira vez que a palavra “casa” já não significa mais o lar que dividia com seus pais – Além do mais, eu fui com o Lucas, então pude aproveitar o passeio.
—Lucas? Que bom saber que você não mudou muito enquanto tava longe de mim – provocou Thais.
—O que você quer dizer com isso? Posso saber? – Alyne brincava como se estivesse ofendida. O talento dramático escapando pela voz e pelo rosto.
—Não posso te pedir pra fazer uma matricula na faculdade que você consegue transformar isso num encontro com um cara.
—Não foi um encontro – enfatizou em tom de desprezo – Mas aposto que você vai gostar do Lucas. Ele também se liga nessas paradas de desenho e tal. Vocês vão estudar na mesma faculdade, talvez sejam amigos.
Thais conhecia aquela conversa. Sempre que se interessavam por alguém ou surgia algum candidato a vida amorosa, o mesmo era levado ao julgamento da outra amiga. Na maioria das vezes era Alyne que levava os pretendentes para o julgamento de Thais. Não que ela não namorasse, mas era bem mais reservada quanto aos seus relacionamentos e só falava deles para a amiga (e só para ela) quando estes começavam a afetar bastante. Alyne sempre respeitara isso e Thais sempre soube que podia contar com a amiga. Eram perfeitas uma para a outra até neste sentido.
Porém, ignorando a propaganda feita por Alyne, limitou-se a responder num tom de repreensão:
—Você disse a mesma coisa dos últimos cinco que me falou sobre. E está aqui faz só um ano.
—O quê? – Alyne fez sua melhor expressão caricata de espanto, com a mão direita espalmada contra o peito como se atingida – É claro que não foram tantos assim.
Thais já estava com o celular na mão e ameaçava abrir a janela da sua conversa com Alyne. Desafiou:
—Quer que eu conte?
—Melhor trocarmos de assunto – Alyne disse desistindo em meio a um sorriso sincero. Foi correspondida com outro.
Atravessaram as catracas que levavam para fora do terminal. Lá fora, a luz do sol era ainda mais abundante e o dia movimentado tinha as cores e sons de uma cidade grande. Carros. Buzinas. Gente. Jingles de lojas em promoção emanando de pontos distintos e distantes. Cardumes de pessoas se espremendo nas calçadas pequenas demais se comparadas com as ruas lotadas de carros. As duas garotas pararam. Thais sorria fascinada enquanto Alyne admirava sua amiga aproveitar o momento.
Thais finalmente saiu do “transe” que o movimento da cidade a colocara. Alyne do seu lado já havia se sentado em algum banco e mandava algumas mensagens no celular enquanto buscava um carro em um aplicativo de transporte. Notou que estavam em um ponto de ônibus. Outra recordação de que estava em um lugar diferente: as cores dos ônibus. Em sua cidade, pequena, eram todos verdes e se diferenciavam apenas pelo nome no letreiro em sua fronte. Ali, pelo jeito, tinham cores diversas que talvez remetessem a áreas diferentes da cidade. Questionou-se quanto tempo demoraria até que aprendesse a locomover na cidade através deles. Se virou para perguntar algo a Alyne, mas encontrou a amiga encarando um pequeno folheto que estava colado, não tão precariamente quantos os outros presentes, na parte de trás da estrutura do banco. O letreiro informava em destaque:
A COMPANHIA DE TEATRO “MÁS-CARAS” PROCURA ATORES E ATRIZES DE 16 A 30 ANOS PARA TESTES DE ATUAÇÃO EM DIVERSOS PAPEIS.
Raciocinou antes de ler o anúncio e perguntou num tom brando, como se fosse para acordá-la:
—É a sua peça?
Alyne, que aparentemente não estava tão dispersa quanto parecia, respondeu diretamente:
—É sim – e voltou a se concentrar no folheto, mas isso não impediu Thais de ler a sua expressão.
—O que foi? O que te preocupa? – o tom era ainda mais brando. Thais se sentou ao lado da amiga. Os olhos atentos nela, mas também nas malas. Era seu primeiro dia na cidade e não pretendia ser roubada.
Alyne não via utilidade em esconder algo de Thais, que era parte do seleto grupo de pessoas para quem ela se permitia falar da tentativa de carreira como atriz. Desde que “fugiu” (entre aspas porque é uma história complicada demais para se resumir a este termo) de casa para perseguir o sonho de atuar profissionalmente, Alyne não se permitia reclamar do seu estado atual. Julgava que tinha sido opção dela e encararia os revezes com firmeza. Contudo, confessou para a amiga:
—Não é um bom sinal. Me apresentei para a diretora já fazem duas semanas e ela ainda não me respondeu. Achei que já tivessem parado de procurar gente para os testes. Vou ter mais concorrentes. — frases curtas em tom objetivo. Thais admirava, e até mesmo se inspirava na seriedade com qual a amiga encarava a carreira. Mudava completamente quando era este o assunto. Alyne ainda encarava o panfleto e nenhuma das duas notou as notificações que indicavam a chegada do carro para busca-las.
—Ei, olha pra mim ... – pediu, e Alyne se virou com a expressão quase melancólica. Thais pousou as mãos sobre os ombros da amiga com gentileza e olhou no fundo dos seus olhos. Continuou tentando segurar o riso – Não precisa ter medo. Você vai ser a melhor Julieta que essa cidade já viu.
Foi o suficiente para fazer Alyne explodir em risos e em consequência, ela mesma também. A brincadeira com o papel de Julieta e essa frase especificamente surgiu durante um evento escolar do Ensino Médio, em que Alyne competiu com uma outra garota pelo protagonismo em uma peça. Com toda sinceridade, sua concorrente não tinha a mínima chance, e só estava competindo pelo fato de uma inimizade antiga com Alyne. Momentos antes de fazerem o teste, Alyne e Thais conversavam nos bastidores enquanto sua autodeclarada adversária tentava provoca-las junto de uma amiga a poucos metros de distância. Amiga esta que, tentando “desestabilizar” a concorrência, do modo mais teatral (e ridículo) possível disse exata e propositalmente alto para todos ouvirem, as palavras que Thais acabara de relembrar. Na hora, Thais e Alyne não conseguiram se segurar e riram descaradamente da menina. O resultado foi que Alyne acabou sendo escolhida para o papel. E, diga-se de passagem, foi a melhor Julieta que aquela cidade já havia visto.
A piada interna entre as duas fez com que Alyne sorrisse novamente. A conversa logo voltou a tomar uma forma mais animada. Novamente atentas, adentraram o carro que já as esperava.
Enquanto Alyne passava as instruções para o motorista, Thais buscou seu celular no bolso. Lembrou que deveria mandar uma mensagem para os pais. Por mais que fossem pessoas acostumadas a independência da filha, ela resolveu que não daria motivos para se preocuparem. Outra notificação de mensagem. Instantaneamente a abriu. Vindos de um número desconhecido, haviam diversos links direcionando para sites de busca com imóveis em Santa Quitéria. A maioria deles, apartamentos e quitinetes para universitários disponíveis para aluguel. Havia também alguns anúncios procurando colegas de quarto para dividirem lugares. Não se lembrava de ter feito cadastro em algum site de busca do tipo. Não fazia sentido. Suspeitou que algum amigo pudesse ter feito a pesquisa com a notícia da faculdade e não quis desperdiçar os resultados. Agradeceu respondendo com um:
[14:27, 26/1/2015] Taki: Obrigado (?)
A mensagem foi enviada e recebida. Esperou a resposta enquanto descrevia a viagem em poucos detalhes para o contato do pai e copiava para o da mãe. Voltou para a janela da conversa com o número desconhecido. Até então sustentou a hipótese de que um de seus amigos virtuais, com quem ela havia conversado recentemente sobre a mudança de cidade, teria feito a pesquisa e resolveu compartilhar, entretanto, estaria com um número novo que ela ainda não havia salvo. O aplicativo indicava que a mensagem havia sido lida. Sem respostas. Já movia os dedos digitando uma outra mensagem, quando notou a voz de Alyne pedindo atenção.
Alyne explicava um pouco sobre onde estavam e em que direção seguiam. Um tour improvisado e divertido. Santa Quitéria tinha o tamanho perfeito entre cidade pequena e metrópole. Por se localizar no litoral, boa parte da sua economia girava em torno do turismo e do Porto de Rosas, que só competia com o própria Porto de Santos localizado no litoral paulista. Tinha problemas comuns de cidades, mas ainda ostentava aspectos positivos. Tinha o “potencial de diversão” (termo inventado e propagado pela própria Alyne) bem próximo ao de uma cidade grande ou capital, entretanto a criminalidade ainda não atingia um nível em que a segurança pessoal acabava impedindo as pessoas de saírem a noite de suas casas. Era uma cidade emergente. E com a recente instalação do campus de uma universidade estadual, as oportunidades que a tornavam atrativa apenas aumentaram.
No carro, por fim, conseguiram acabar de atualizar as informações sobre a vida uma da outra. Tarefa que se provou não tão difícil já que não passavam um dia sem trocar mensagens. Alyne estava empregada como garçonete/atendente/auxiliar num hotel perto da praia. O emprego conseguia manter as despesas com o apartamento e sobrava dinheiro o suficiente para uma ou duas aventuras nas noites da cidade, apesar de que nos últimos tempos estar dando preferência a comprar móveis novos. NÃO estava namorando e isso só ficou esclarecido após encarar o conhecido “Olhar Inquisidor da Taki”.
Thais, por sua vez, procurava empregos que levassem em consideração seu curso técnico em design gráfico, feito durante o Ensino Médio. Definitivamente não estava em nenhum relacionamento. Terminara o último namoro um ano atrás e, apesar do incentivo da amiga, não se achava pronta para tentar alguma coisa novamente. Nesse tempo que passaram distantes, havia crescido dois centímetros. Supostamente um motivo de glória quando já tinha dezoito anos e não alcançara os 1,60m. Alyne tirava sarro, rindo –alto- de seus 1,75m de altura.
Aproximadamente meia hora depois, o taxi estacionou em frente ao Residencial Verão, localizado no bairro Largo dos Lemes. Carinhosamente, Alyne acordou a amiga que dormia no seu ombro, após conversarem tudo o que podiam na frente de um estranho. Não se importou de pagar sozinha a viagem. Thais se levantou devagar e buscou as suas malas ainda envergonhada por ter dormido. Os prédios do residencial, em sua maioria com a pintura descascando o vermelho sóbrio original, se erguiam por três andares e se espalhavam por oito blocos. As garotas caminharam arrastando as malas em direção ao bloco 06. Thais permanecia quieta e Alyne entendia seu silêncio. Por mais “mágico” que parecesse o descer do ônibus, ou a primeira viagem pela cidade, nada era mais impactante do que o momento em que você notava que chegara em casa e esta não era a mesma do que do dia anterior. Entendia porque havia sentido a mesma coisa há aproximadamente um ano atrás.
Já subiam as escadas, quando Alyne resolveu quebrar o silêncio:
—Olha só o que eu ainda tenho – e chacoalhou um chaveiro na frente do rosto de Thais, que seguia alguns degraus atrás – Viu só? Eu cuido dos seus presentes.
Thais reconheceu o chaveiro que havia dado para a amiga no dia que ela enfim saiu de casa. Uma mini wakizashi feita de ferro, um tipo de espada oriental, usada por samurais. O motivo da escolha foi para lembrar a amiga de um dia especial para elas. Pouco tempo depois de se conhecerem, na primeira visita de Alyne a casa de Thais. Sem muito o que fazer após acabarem um trabalho de geografia, resolveram jogar videogame e Thais escolheu um jogo de luta em que era muito boa. O resultado previsível se mostrou inevitável: vencera Alyne em todas as partidas, utilizando apenas uma personagem, cujo nome era Taki, e utilizava uma wakizashi para lutar. Alyne, frustrada por ter perdido, decidiu provoca-la dizendo que a amiga era boa apenas com uma personagem do jogo (o que era mentira, a personagem era apenas a favorita de Thais afinal). Neste dia, apelidara Thais de Taki pela sua habilidade com a personagem, e também pela semelhança nos traços asiáticos das duas. Um ano depois, Thais a presenteara, aos prantos, com um chaveiro de wakizashi como lembrança do dia em que ganhou o apelido. Mais um ano depois, entregava a Taki o mesmo chaveiro, convidando-a a ter a honra de abrir o apartamento, sua nova casa, pela primeira vez.
Thais colocou a chave em posição. Abriu a porta rápido demais. Sem permitir que Alyne lhe avisasse algo que lembrou apenas naquele momento.
Sorriu porque o medo que sentia da primeira impressão ser ruim se dissipou. O apartamento era inevitavelmente aconchegante. A porta da frente dava no espaço que era a cozinha, sala de jantar e estar. Não havia televisão. Apenas uma tímida mesa com três cadeiras (uma delas, diferente do padrão das outras duas). Um tapete que Thais já conhecia do antigo quarto de Alyne. Nas paredes, vários quadros dos quais ela pôde deduzir a origem, outros não. Alguns deles eram desenhos seus emoldurados. Depois de um balcão, que na verdade era mais uma meia parede, havia parte que era a cozinha. Um micro-ondas e um frigobar ocupavam a maior parte da bancada onde se encontrava também a pia. O fogão permanecia escondido atrás da meia parede. Haviam sacolas de compra por toda a parte denunciando que Alyne havia feto compras de última hora para a chegada da amiga. Mas nada no cômodo chamava mais atenção do que o sofá verde escuro, dotado de algumas almofadas, que estava logo abaixo da única janela no espaço.
Alyne passou por Thais apressada em direção ao sofá. Não sentou nele. Ao invés disso, se virou para a amiga e com a voz e o semblante sinceramente preocupados, anunciou:
—Taki, está é a Siv. – tentou um sorriso.
Thais primeiramente riu. Achou que a amiga havia dado nome ao sofá ou havia algum bichinho. Mas depois de alguns segundos constrangedores com Alyne esperando uma resposta, percebeu que suas mãos apontavam para uma pessoa. Ou apontariam se houvesse alguém ali. Não conseguia ver nada além do sofá verde vazio e a mesinha com um cinzeiro ao lado (desde quando Alyne voltara a fumar?). Sua amiga continuou, tentando recuperar a confiança:
—Sei que não falei nada sobre ela, mas eu prometo explicar tudo. Mas quero que saiba que ela mora aqui agora e é uma grande amiga para mim.
Thais sentiu a sensação ruim no estômago voltar. Por mais que os olhos preocupados da amiga a encarassem e o sorriso preocupado não fugisse de seu rosto, não via ninguém sentado naquele sofá.
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