Siv.

2 Quatrocentos e Um


Notas iniciais
Eu percebi que nunca penso num nome para os capitulos. Enfim, a demora se deu porque fiquei sem computador. Mas espero que gostem dos novos personagens, de verdade.

—Então você sabe que a Siv não é real?

Era parte da natureza de Thais sanar qualquer incerteza que tivesse sobre algo. Talvez por isso, fosse a quarta vez em uma hora e meia de conversa que ela fazia a mesma pergunta a fim de reafirmar a sanidade de Alyne, que, por sua vez, não estranhava a preocupação da amiga.

—É claro que eu sei que ela não existe, Taki – Alyne sorria singela enquanto falava – Ela é como ...– e parou para pensar antes de continuar — se fosse uma brincadeira nossa.

—Como assim “nossa”? – disse Thais, hesitante, enquanto voltava ao trabalho de organizar a cama e seus pertences em seu novo quarto.

—Minha, da Julie e de todo mundo aqui do andar na verdade – Alyne havia acabado de guardar todas as roupas monocromáticas da amiga e agora se jogava na cama recém arrumada por Thais, que com certeza lhe daria uma bronca por isso se agora não ocupasse a mente tentando lembrar onde ouvira o nome Julie antes. Deitada, continuou a explicar – Apesar da galera aqui sempre estar entrando e saindo do apê, eu meio que me senti bem solitária nos primeiros meses. Julie era a única que realmente falava comigo, mas até ela era bem ocupada com a faculdade e o trabalho. Um dia queríamos jogar um dos jogos de tabuleiro que ela tem, mas era só para três pessoas. Foi nesse dia que inventamos a Siv. Nos divertimos tanto brincando com isso, que a piada foi ficando e passando de pessoa para pessoa, até agora.

—Isso é meio esquisito – foi o que Thais pôde tecer naquele momento enquanto descansava sentada depois de organizar tudo. Não podia negar que a “apresentação” de Alyne a havia assustado, mas a presença e a voz da amiga faziam-na ficar mais relaxada agora. Julgou que o espanto tivesse se originado com o estresse acumulado da viagem, e por fim, deixou de pensar que Alyne estivesse perdendo a sanidade.

—Bom, Taki¸ pelo menos não é tão esquisito quanto isso aqui – Alyne provocou enquanto levantava um dos pijamas de Thais. Fato que não seria problema, se a peça de roupa em questão não fosse uma afronta ao atual estilo de Thais, contando com uma desgastada estampa da Minnie Mouse na frente. Thais prontamente se levantou já caindo na provocação da amiga que continuava – É simplesmente impossível que isso ainda sirva em você! Eu juro que eu usava esse tamanho aos doze anos!

—Alyne, você não ouse... – Apesar de estar irritada, Thais sabia que neste sentido, sua amiga era doida o suficiente para fazê-la passar vergonha logo no primeiro dia em sua nova casa.

—Ei! Talvez ainda sirva em mim também! Ou na Siv! Tenho de experimentar – e saiu correndo pela porta do quarto enquanto chamava a garota imaginária, e nesse momento, até Thais riu alto enquanto saia correndo atrás de Alyne.

A negociação acabou facilmente quando Thais, experiente com Alyne sequestrando suas coisas, chantageou a atriz com meia dúzia de fotos que ela provavelmente morreria se visse circulando na internet. Siv argumentou que Thais não tinha foto alguma dela, entretanto notou que de nada adiantava uma camiseta nova, quando a maioria das pessoas não poderia vê-la.

. .-.. .-

Eram aproximadamente sete horas da noite e o apartamento preenchia o silêncio com as músicas que saiam de uma pequena caixa de som. A lista de reprodução variava seu estilo conforme Alyne e Thais alternavam a escolha das músicas, transparecendo as suas distintas preferências. Siv, quando opinava, escolhia algo que pudesse agradar a todas, apesar de raramente alguma discussão ser gerada. A intimidade entre as duas fazia com que pudessem aguentar os respectivos e diferentes gostos.

Thais estava sentada no sofá, com a postura perfeita enquanto observava as imagens de uma das graphic novels que havia trazido consigo. Era um de seus hábitos favoritos voltar a abrir seus livros, mesmo que os já tivesse lido antes, apenas para admirar e entender as figuras. Imaginava a ideia que o ilustrador havia tido. Às vezes, a própria mão inconscientemente tentava imitar o traço sendo desenhado. Havia acabado de tomar banho, e aqueles momentos haviam lhe dado uma ideia para um desenho novo.

Alyne, por sua vez, lia e decorava seu texto na peça. Havia tomado o cartaz visto hoje na rua como um alerta e decidiu, portanto, se preparar para um possível novo teste. Definitivamente não queria perder essa oportunidade. Tal determinação era completamente interna já que qualquer um exceto que a visse por fora, exceto Thais, julgaria como a pessoa mais preguiçosa do mundo. Esparramada sobre o tapete e com as folhas do texto soltas sobre seu rosto, como se para bloquear a luz da lâmpada. Era uma sexta-feira e Alyne já tinha trabalhado na manhã deste dia, mas com uma singular sorte, conseguira folga pelo resto do final de semana. Estava começando a sentir vontade de desistir, e Siv indiscriminadamente a apoiava fazê-lo, pois já sentia fome e precisava que alguém fosse comprar comida.

Repentinamente, a porta se abriu e uma garota entrou no apartamento fazendo com que Thais se espantasse, ao contrário de Alyne e Siv que, acostumadas àquele tipo de coisa, permaneceram seu reação.

—Oi, Alyne. Oi, Siv. – a garota vestia-se como se tivesse acabado de chegar de uma caminhada ou da academia, o que combinava muito com seu porte forte e atlético. Sua pele era bronzeada e tinha ombros largos, como uma nadadora. O cabelo longo podia ser loiro ou castanho, mas agora já era impossível saber devido ao visível hábito de alternar entre essas duas cores. Por fim, a expressão era determinada e os olhos expressavam uma profunda irritação – Vocês têm água gelada aqui? Aliás, não era hoje que sua amiga ia chegar? – e com uma espantosa naturalidade, já revirava a o pequeno frigobar atrás de alguma jarra com água.

—Oi... – foi o que Thais pôde dizer, como um resultado desastroso depois de meses ensaiando sua apresentação. Mas nada comparado ao fato de instantaneamente ruborizar quando a outra garota fixou seus olhos nela.

—Fêr, oi, essa é a Thais. Thais, essa é a Fêr. Tem água na geladeira. Siv, desliga o som. Se cuidem aí vocês que eu vou para o quarto ler meu texto – disse Alyne, atônita e sem dar atenção para as amigas, enquanto levantava lentamente.

—Ei, Thais, prazer em conhecê-la. Você sabe o que essa aqui tem? Ela ficou sem comer de novo? – perguntava Fernanda enquanto impedia uma Alyne sem reação de cambalear até seu quarto, e a carregava de volta para o sofá. Thais, ainda impressionada, se perguntava se já havia visto outra garota tão forte.

—Como assim de novo? Ela já ficou sem comer alguma vez? – Alyne foi deitada com a cabeça no colo de Thais, que a olhava com repreensão. Alyne respondia com um olhar vazio tão dramático que quase provocava sua amiga a rir.

—Ah, eu não sei não. Mas deve ser a única explicação para ela ser tão magra assim. Eu mesma já ergui barras mais pesadas que ela na academia. E com uma mão só. Isso só pode ser falta de comida e a Siv concorda comigo, não é?

Thais não conseguiu identificar uma hipérbole na fala de Fernanda enquanto Siv concordava com qualquer coisa que pudesse trazer comida para dentro de casa. Alyne levantou a cabeça do colo confortável de Thais, e se defendeu num contra-ataque de transparecia birra:

—E você, o que tá fazendo aqui, hein? O trezentos e quatro fica do outro lado do corredor, sabia? Aposto que tem água lá também — Thais não conseguia deixar de sorrir com o quanto achava fofo sua amiga orgulhosa da independência estar brigando por ser tratada como criança. Antes, era ela própria que fazia o papel de “amiga-mãe” de Alyne. Ficou feliz em saber que sua amiga ainda era passível de proteção.

Fernanda já estava jogada sobre uma das cadeiras. Thais instantaneamente sorriu ao ver a frase “I DONT SWEAT, I SPARKLE” bordada na toalha que a garota sacou de uma bolsa imperceptível e jogou sobre o rosto. Após suspirar, falou:

—Antes de sair eu tinha dito para aqueles dois pelo menos encherem as garrafas com água e botarem na geladeira. Mas quando eu cheguei lá, nem lavar a louça eles tinham lavado porque passaram a tarde inteira jogando aquele jogo imbecil deles. Vim direto para cá para não acabar brigando com eles.

—Não adiantou muita coisa então. – disse Alyne, ainda desconectada de tudo.

—Ué, por quê? – perguntou Fernanda, que sem tirar a toalha do rosto, não havia visto que Alyne tinha se levantado e, por algum motivo, espreitava a porta pelo olho mágico. Thais ainda não entendia direito sobre quem eles estavam falando.

—Porque eles tão vindo pra cá agora. – E com isso, Siv abriu a porta para que por ela passasse rapidamente um garoto e uma garota, cada um com seu notebook debaixo do braço.

Foi uma operação rápida, que só poderia ter sido feita por quem já conhecia o apartamento. Em segundos, e sem cumprimentar ninguém, estavam sentados, com os notebooks abertos e carregando na tomada mais próxima. A velocidade e a comodidade com qual agiam deixaram Thais tão impressionada que ela mal conseguiu notar quando a garota finalmente falou:

—Oi, gente! Oi, menina nova! A gente vai ficar um pouco aqui, tudo bem por você, né, Alyne? – ela tinha a pele parda e os olhos castanhos claros. O cabelo liso estava preso num coque há tempo o suficiente para o penteado já se apresentar frouxo. Por fim, as sardas em volta do nariz lhe conferiam toda a simpatia que precisava para um pedido inusitado daqueles.

Alyne e Siv já estavam totalmente desligadas da situação e discutiam, sentadas no tapete, sobre religarem ou não a caixa de som. Thais apenas se divertia com a forma que tudo acontecia. Esperava conhecer gente nova, claro. Mas não em uma situação tão atípica. A resposta veio de uma bronca entalada na garganta de Fernanda:

—Eu posso saber o que vocês estão fazendo aqui? Por acaso já lavaram a louça? Fizeram as tarefas de vocês?

Sem tirar os olhos da tela, o menino pálido de óculos quadrados e com um cabelo preto dotado de franja, disse:

—Eu disse pra você que ela ia brigar, Iolanda. – em algum momento da frase, seus dedos começaram a viajar rapidamente no teclado do notebook. Os sons, para Thais, denotavam o óbvio: eles estavam jogando algo.

—Cala boca, Ri. Ela não manda na gente e, pra começar, eu estava falando com a Alyne! – Era impressionante como a garota do coque, Iolanda, falava num tom incompatível com seus trejeitos fofos. A cada fala daquele diálogo improvável, Thais se segurava para não rir.

Após um dos computadores informar que o garoto havia sido eliminado no jogo, Ri ajeitou sua franja enquanto levantava e suspirou antes dizer:

—Você é péssima, Iolanda – Num movimento mecânico, se virou para Thais – Oi, eu sou Ricardo e essa é a Iolanda. Prazer em conhecê-la. – E se virou para Alyne – Oi, Alyne. Estamos no meio de uma partida, a internet em casa estava horrível, obrigado por deixar a gente ficar. A Siv pode jogar com a gente se ela quiser. – Mais uma vez o movimento robótico, se direcionando a Fernanda – Fêr, você se enganou. As tarefas eram responsabilidade sua hoje. Mesmo assim, fizemos algumas antes de corrermos para cá. De nada.

Thais se esquecia de apresentar perdida num misto de fascínio e confusão, perguntando se sua nova vida seria assim o tempo todo. Ricardo e Iolanda tentavam dividir sua atenção entre o jogo e uma discussão alta com Fernanda, que duvidada da inocência dos colegas. Thais começou a tentar reconhecer qual o jogo ao qual o casal se dedicava na esperança de puxar um assunto.

Alyne finalmente se levantou e, espreguiçando-se, disse em alta voz:

—Bom, estou vendo que não vou me livrar de vocês hoje – Foi preciso uma frase para que o caótico apartamento, através do intrínseco dom teatral de Alyne, voltasse sua atenção para ela. Exceto Siv, que continuava deitada no tapete encarando o teto, numa persistente birra comida por comida. – Então é bom que vocês tenham algum dinheiro assim eu vou comprar a bebida e a gente faz a festa de boas-vindas da Taki logo.

Thais compreendeu que a reação geral foi positiva. Fernanda e Iolanda parar de discutir para dar apoio a Alyne, que já começava a se arrumar. Ricardo (eliminado novamente em sua partida) já revistava sua carteira em busca de uma contribuição. Por um momento, Thais distraiu-se com a delicadeza que o garoto manejava objetos em suas mãos, e espantou a ideia de estar interessada nele. Levantou e se direcionou ao quarto, onde havia guardado o dinheiro, mas foi impedida pelo braço forte de Fernanda.

—E onde você vai? Fernanda perguntou enquanto olhava Thais diretamente nos olhos, fazendo com que a nipônica revelasse a timidez.

—Estou... indo pegar meu dinheiro? – Foi a “resposta” da garota paralisada e desacostumada ao contato corporal como era.

—Não posso permitir isso, você é o motivo da festa. Tirando que vai precisar desse dinheiro depois, quando começar a sua faculdade. Eu posso cobrir a sua parte. – acabou dizendo a esportista, junto de uma piscada que, mesmo julgando ser o movimento mais brega possível, passou a Thais um pouco de confidência.

—Ei, paga a minha também, Fêr! – gritou Iolanda do outro lado da sala, se erguendo através da tela do notebook e quase caindo por cima de Ri.

—Pode esquecer, Iolanda! Você já me deve o seu próprio peso em suplemento de tanto que te empresto dinheiro, garota! – respondeu Fernanda, fazendo com que todas as outras meninas na sala, incluindo Siv, inevitavelmente rissem.

Mesmo estando em um ambiente com três ou quatro pessoas novas, Thais notou que não se sentia deslocada. Uma novidade em seu universo introvertido, que seria uma ótima notícia para contar a Alyne, que geralmente era a responsável pelas experiências sociais de Thaís.

—Queria que aquela outra menina amiga da Siv tivesse aqui – suspirou Iolanda.

—Qual amiga? Julie? – respondeu Ri – Sério, Iolanda, você tem que começar a decorar o nome das pessoas.

—Essa mesmo. Aquela que sempre traz os jogos e a cerveja. A Siv também fica bem mais divertida quando ela está por perto.

Finalmente Thais concluiu o jogo que Ri e Iolanda estavam jogando. Dawn of Victory era um de seus MOBA favoritos e ficou feliz por ter encontrado outros jogadores tão perto de si. Chegou a imaginar se finalmente conseguiria ter seu próprio time de Dov.

Talvez, no meio dessa divagação, foi que Thais não pôde notar a dona de outra voz entrar no apartamento já anunciando:

—Todo mundo pode se acalmar agora! EU cheguei.

O caos do apartamento voltou numa explosão de aplausos e exclamações comemorando a chegada da garota alta, de vestido longo e cabelo mediano com mullets. Julie era o nome, ou mais provavelmente, o apelido dela. Ela usava inúmeros acessórios como braceletes e colares, como se precisasse de mais alguma coisa além da altura para se destacar. Na verdade, Thais, já congelada dentro de sua introversão, lembrava que só havia tido uma primeira impressão tão forte de outra pessoa uma única vez. Essa vez aconteceu quando conheceu Alyne, que agora se jogava nos braços da outra garota, num teatral abraço romântico.

—Você é o meu prêmio? – perguntou Julie, enquanto deixava que Fernanda e Ri levassem suas sacolas – Porque se for, eu vou preferir levar pra casa agora.

Todos riram do suposto flerte, inclusive Siv que havia tomado de conta da caixa de som e já executava a playlist favorita. Sem sair dos braços de Julie, Alyne apresentou:

—Julie, esta é aquela minha amiga, a Taki.

—Prazer, Taki – e foi a primeira vez que Thais ouviu outra pessoa, além de Alyne, usar aquele apelido.

Durante um momento desconfortável, Julie continuou de mão estendida para Thais que simplesmente não conseguia achar o caminho para sair de sua timidez. Mas antes que decidisse como agir, Julie já se distanciava como se houvesse entendido que seria correspondida pela garota congelada.

Todos os outros no apartamento começaram a se dividir nas tarefas: Ri, Iolanda e Julie já organizavam o lugar para abrir mais espaço, enquanto que, para o desespero de Thais, Alyne e Fêr se preparavam para sair em busca de mais comida, bebida e outros convidados.

Siv, em nenhum momento, desgrudou de Julie que havia lhe trazido seu lanche favorito.

...- .- ..

Notas finais
Eu pretendia fazer o capitulo abordar até o fim da festa, mas achei melhor cortar aqui mesmo. Vou deixar pra próxima e tentar postar mais rápido. Obrigado de verdade por lerem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.