Sinking Ship
11 Capítulo 9
Notas iniciais
Jo recolheu o celular no bolso da calça, e envolveu os braços sobre o corpo. Mesmo que estivesse com calor, por conta do clima semi-desértico, sentia uma nevoa gélida pairar ao seu redor, assim como suava frio.
Lembrou de tudo que tivera, de sua vida tão sofrida e abobada. Lembrou da mãe. Da mãe que nunca gostara de ter. Lembrou de Kath. Da amiga que nunca pensara que a abandonaria. Uma lágrima quente escorreu por suas bochechas rosadas, e os lábios crisparam-se, impedindo que um sorriso formasse-se ao se lembrar de Kath. Riu.
Esfregou as mãos contra os braços, abobalhada. Sentiu os olhos queimarem, a garganta arder. Suas pernas estavam fracas.
Parou em frente à cabana de madeira, respirando fundo e passando as costas das mãos pelas bochechas, impedindo as lágrimas e fungando alto.
Abriu a porta com certa raiva e seus olhos correram pelo aposento. Viu o pai sentado em uma cadeira, à mesa da cozinha, balançando-se para trás e para frente, com um copo de chopp nas mãos.
Apoiou as mãos ao batente da porta e impulsionou-se para a frente. Nem sinal de Matt, sequer de Robert.
- Viu Kath?
Moss virou-se de súbito e fitou a garota.
- Não. Só sei que Matt atirou algumas coisas pra ela, pela janela. Que diabos aconteceu? Onde ela pensa que vai?
Jo olhou-o com ódio e subiu as escadas sentindo os olhos marejarem. Atirou-se na cama, puxando o travesseiro junto ao peito, abraçando-o.
Um flashback passou por sua mente, fazendo-a sorrir entre as lágrimas de dor.
[Flashback]
- Kaaaaaaath! Não faz isso sua tosca! – gritava animada, rindo da amiga de cabelos louros sedosos, presos a duas chiquinhas laterais.
— Mas Jo, ele é tão fofinho – Kath apertava um sapo verde e gordo, fazendo seus olhos saltarem nas órbitas. Ele tentava coaxar em socorro, em vão.
[...]
- Katherine, você não fez as tarefas pela terceira vez na semana. Vou chamar seu tutor para conversar comigo amanhã. Acho que você é uma menina muito má educada – disse à Kath, fazendo-a olhar a professora com os olhos faiscando de raiva.
Abriu a boca para responder, mas antes que o fizesse, Jo gritava do fundo da sala.
- Pois EU acho que você é uma enorme e grande VACA.
- Jo...! – Kath resmungou, olhando-a, divida em lágrimas e risos.
- Joanna, preciso dizer... – fingiu pensar com a mão no queixo – DIRETORIA, novamente?!
[...]
- Pára com isso Kath! – Jo ria, com a menor montada às suas costas, por força. Tentava se locomover. Saiu correndo, se atirando no sofá logo em seguida.
- Hey! Eu estava me divertindo – Kath fez birra, fazendo beiço.
- Minha boneca é mais vadia que a sua! – Jo riu, e Kath a fitou.
- A minha era uma bailarina.
- Que brega. E daí?
- Agora ela é dançarina de cancan!
[...]
- Jo, não acredito que você beijou aquele nojento – ela apontava entre as pessoas no bar, um sujeito que fumava um cigarro bonito, soltando fumaças bonitas no ar.
- Beijei sim. Aliás, você devia fazer o mesmo.
- Jo...
- Ah, vamos nos divertir!
- Eu quero viver.
- E eu quero viver, não existir. Vaaamos Kath (...)
[/Flashback]
Jo ouviu a porta bater e virou a cabeça.
Matt estava parado ali, fitando-a com um meio sorriso.
- O que você quer? – Jo perguntou, virando-se novamente.
- Você está bem?
- Não.
- Quer conversar?
- Não – falou rabugenta.
- Tem certeza?
- SIM!
- Okay.
Jo fechou os olhos, esperando a porta bater. Nada aconteceu. Abriu-os novamente. Matt estava sentado ao seu lado, encima ao criado-mudo.
- Que parte você não entendeu?
- Não estamos conversando, estamos?
- Eu não preciso de companhia.
- Eu só quero te ver dormir.
Jo fechou os olhos e virou-se para o outro lado, novamente.
- Tá bom. Você ganhou. Tchau.
A porta bateu, e Jo sussurrou baixinho um ‘Tchau’.
Acordei sentindo um calor gostoso nas costas. Ao me virar, deparei-me com Chris dormindo tranqüilamente, quase caindo do sofá. Sorri.
Olhei o relógio em cima do fogão. Dez horas. Em breve veria Jo. Em breve sentiria seu abraço, seu calor. Ok. Não vou me iludir, mas eu estava em expectativa máxima.
- Chris, vou embora, ok?
- Almoça comigo – balbuciou baixinho, puxando-me pelo quadril.
- Não, não dá. Cuide-se, vou indo – beijei o canto de seus lábios e me levantei, procurando a calça e o tênis com o olhar.
Apanhei-os e os vesti. Puxei a bolsa do cabideiro, abri a porta e saí. Desci as escadas tamborilando os dedos no corrimão.
Come up to meet you, Tell you I\'m sorry
(Estou indo te encontrar, Te dizer que eu sinto muito)
You don\'t know how lovely you are
(Você não sabe quão adorável você é)
I had to find you, Tell you I need you
(Eu tive que encontrar você, Te dizer que eu preciso de você)
And tell you I set you apart
(E te dizer que eu te deixei de lado)
Deparei-me com um céu cheio de nuvens brancas e fofas, assim que cruzei a portaria. Respirei o ar puro e sorri involuntariamente.
Acordei sentindo um calor gostoso nas costas. Ao me virar, deparei-me com Chris dormindo tranqüilamente, quase caindo do sofá. Sorri.
Olhei o relógio em cima do fogão. Dez horas. Em breve veria Jo. Em breve sentiria seu abraço, seu calor. Ok. Não vou me iludir, mas eu estava em expectativa máxima.
- Chris, vou embora, ok?
- Almoça comigo – balbuciou baixinho, puxando-me pelo quadril.
- Não, não dá. Cuide-se, vou indo – beijei o canto de seus lábios e me levantei, procurando a calça e o tênis com o olhar.
Apanhei-os e os vesti. Puxei a bolsa do cabideiro, abri a porta e saí. Desci as escadas tamborilando os dedos no corrimão.
Come up to meet you, Tell you I\'m sorry
(Estou indo te encontrar, Te dizer que eu sinto muito)
You don\'t know how lovely you are
(Você não sabe quão adorável você é)
I had to find you, Tell you I need you
(Eu tive que encontrar você, Te dizer que eu preciso de você)
And tell you I set you apart
(E te dizer que eu te deixei de lado)
Deparei-me com um céu cheio de nuvens brancas e fofas, assim que cruzei a portaria. Respirei o ar puro e sorri involuntariamente.
Na manhã seguinte, acordou num salto, fitando-o o despertador grande e vermelho encima à mesa. Eram cinco e meia da manhã.
Respirou fundo, apanhou a mochila jogada a um canto e escancarou as portas do guarda-roupa, puxando algumas roupas e fincando-as dentro da mochila.
Ajeitou dois pares de tênis exprimidos ali, e calçou um nos pés. Fitou a outra meia dúzia e sentiu os olhos marejarem. Estava decidida.
Abriu a porta cautelosamente, seguindo pelo correndo, e logo após abrindo a do banheiro. Fitou a seringa encima do tampo, puxando a escova de dentes do copo de apoio.
Virou-se, mal tocando-a e a atirando no chão. Escovou os dentes com pressa, retirou-se para o quarto novamente e colocou a mochila sobre as costas. Abriu o guarda-roupa, novamente, abrindo a gaveta interna em seguida, retirando de lá uma caixa laranja, enfeitada com botões.
‘Jo, se um dia pensar em pegar isso, espero que leia o bilhete até o fim. Eu não podia ter lhe deixado’
Joanna sentiu os olhos marejarem, e ajoelhou-se, abrindo a caixa e mexendo nos papéis que lá dentro se encontravam.
Uma folha branca demais para ser antiga estava ao topo dos papéis. Jo abriu-a, e sentiu o rosto abrir-se em um sorriso.
‘Jo,
Não me diga que sou uma boba egoísta. Sei que sou, não preciso de lembranças, muito menos de sermões. Amiga, eu lhe amei, lhe amei por tanto tempo, agüentei por tanto tempo, mas eu não estou disposta a seguir em pressão.
AMEI. Amei, porque os sentimentos congelaram dentro de mim. Veja, foram os anos, foram eles que me tornaram assim.
Não guarde rancor, por favor, viva, liberte-se, mais cedo ou mais tarde acabará entendendo.
Não, não se culpe agora por não ter ido comigo, apenas sorria, Jo. Lembre-se, mas não sonhe. Recorde, mas não sonhe em cima do ocorrido, por favor...
Siga sua vida, Jo, siga, deixe que ela lhe leve, lhe faça seguir. Deixe as coisas acontecerem, apenas não se acabe.
Não direi pra lutar, não lhe direi para fazer coisas, quais nem mesmo eu sei fazer.
Só peço que me escute, agora, eu sussurrarei durantes anos palavras de perdão, mas também de agradecimento.
Olhe ao seu redor.
Olhe sua mãe.
Com carinho,
Kath.’
Uma foto suja de areia e levemente úmida estava colada ali. Jo e Kath estavam sentadas à um gramado verde, impecável, com flores bonitas rodeando-as. Jo tinha uma mão em frente ao rosto, mas era possível ver seu sorriso aberto.
Kath sorria meigamente pra foto, e ambas recebiam guampinhas, cujas Jo lembrou-se serem feitas por Matt... Antes de tudo acontecer.
- Olhe aonde viemos parar – sussurrou baixinho, ainda sorrindo.
Dobrou a carta com cuidado, enfiando-a no bolso traseiro da calça jeans clara, jogando a mochila, logo em seguida, aos ombros.
Escreveu um bilhete com dificuldade, apertando os olhos, tentando enxergar às letras à escuridão, e colocou-o embaixo da palmilha de um dos tênis que deixara ali.
Pegou os cadarços, puxou-os e amarrou-os contra a maçaneta interna da porta.
- Nos caminhos que andei...
- Das pessoas que encontrei... – a voz de Kath sussurrou em seus ouvidos, e ela fechou os olhos.
- Você será aquela... – continuou.
- Que jamais esquecerei. – abriu os olhos.
Matt estava ali, encostado à uma porta, perto ao banheiro, fitando-a com um triste sorriso nos lábios.
- Desde quando está aí?
- Desde quando fechou a porta.
Jo o fitou e sentiu um aperto no peito, mas desceu um degrau, dois, três, até virar-se e fitá-lo de volta.
- Não vai perguntar aonde vou?
- Acha que é preciso? – ele sorriu.
Coçou a cabeça, rindo, e sussurrou:
- Tchau.
- Não receie – ele disse, e caminhou até a escada, descendo um degrau, e a fitando de cima.
Jo ficou olhando-o, sorriu, então subiu novamente o degrau que os separava, e o abraçou.
- Obrigada... – Jo falou, rindo boba – Idiota.
Desmanchou o abraço, e desceu as escadas correndo, e rindo fraquinho, quando chegou à porta, virou-se novamente, e começou a andar os últimos passos de costas.
Matt gargalhou e disse, elevando a mão e acenando fraquinho:
- Tchau.
O vento soprava forte, e ao contrário do que Jo pensava, deixar aquele lugar seria mais difícil do que ela achava ser. Era seu pai, seu pai problemático, mas que a cuidara, seu pai, aquele que a cuidou quando a mãe não pôde. E agora estava deixando do pai para ir ao encontro da mãe, da mãe que nunca à acolhera...
Mas o pai também não. Estava estranho, fechado, não falava, nem lamentava, estava caindo aos buracos.
E Jo apertou o moletom contra o corpo, segurando firmemente às alças da mochila, prensada nas costas, e olhou o céu. Tinha certeza de que alguém também o olhava.
Nobody said it was easy
(Ninguém disse que era fácil)
It\'s such a shame for us to part
(Oh é mesmo uma pena nós nos separarmos)
Nobody said it was easy
(Ninguém disse que era fácil)
No one ever said it would be this hard
(Ninguém nunca disse que seria tão difícil)
Oh take me back to the start
(Oh leve-me de volta ao começo)
Kath pediu a ela que fosse em frente, não temesse. E era isso que ela faria.
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Empurrei a porta do apartamento com estardalhaço, e em seguida joguei a bolsa sobre o sofá.
Servi um copo de suco e fui até o meu quarto. A cama estava mal arrumada e haviam roupas espalhadas por todos os lados.
Depositei o copo de suco no criado-mudo e despi-me, indo até o banheiro e ligando o chuveiro. Deixei a água fria correr por meus cabelos, chocarem-se com meus ombros, e banhar todo o resto de meu corpo, enquanto perdia-me nos pensamentos.
Senti uma raiva tomar-me conta, queria rasgar, gritar, arrancar os cabelos. Porque tanto tive que enfrentar?
Deixei minhas costas nuas encostarem-se no azulejo gelado e úmido, deixando-me deslizar, a ponto de levar as mãos ao rosto, tentado impedir, em vão, que meus devaneios e problemas atingissem-me.
E então, tanto passou, o tempo correu, a vida me levou, e de nada percebi, de nenhum pesadelo acordei, nenhum sonho realizei. Motivos costumaram já não ter mais, a vida era minha expectativa, mas ela já vinha pronta, e nada em mim impulsionava-me a mudá-la.
Tanta merda fiz, tanto errei, quantas vidas estraguei? Incluo-me no mesmo, porque fui derrotada, e agora eu vejo os problemas, e tento seguir em frente... Mas, sinceramente, se estivesse no lugar de Jo nesse momento, não perdoaria, não, porque isso machucava mais do que eu imaginava machucar.
Mas já nem me lembrava, não recordava meus erros com tanta intensidade como costumava recordar. Eu me sentia forte, e protegida, e talvez até incentivada.
Eu nunca quis magoar ninguém, nunca. Diga que fui estúpida, diga que eu disse coisas estúpidas, mas não diga que sabia o que fazia, nem que fora de propósito. Porque eu só era uma adolescente rebelde e mal tratada, uma adolescente apaixonada, perdida entre as palavras e o amor, confusa entre as pessoas e os livros, divida entre os poemas e as serenatas.
Só isso. Quão horrível fui? Quão egoísta? Mas não, eu não sentia muito, nem sentiria, sempre seria assim: apagar as lembranças passadas, continuaria apagando tudo.
Minha cabeça latejava, e meu corpo já estava pálido, e eu começava a tremer por causa da água gélida que caía pelos meus ombros. Levantei-me, desligando o chuveiro e puxando a toalha grande e felpuda, enxugando-me.
Eu queria estar limpa, dos erros e do pecado.
Meia hora depois eu caminhava entre as ruas parcialmente calmas, excitada, mas ao mesmo tempo com um pingo de nervosismo pairando na voz e até mesmo no comportamento.
Cheguei ao Cheddar’s e cumprimentei Peter, um senhor de idade, dono do bar, cujo qual conhecia desde jovem, quando mudei-me pra cá.
Passei os olhos pelo local, e havia no máximo três mesas ocupadas. Sentei-me na última mesa da fileira da janela, jogando-me sobre o banco estofado, confortável, que havia ali. Joguei a cabeça pra trás, batendo-a na parede. ‘Outch’.
Não me recordo de nada tão ansioso, nem preocupado, já que tamborilava os dedos audivelmente na mesa, chamando atenção das pessoas que se encontravam ali.
Estralei os dedos, e o barman jovem e bonito veio ao meu encontro.
- Jaden, traga-me uma água gelada, por favor – falei enquanto fitava a rua, nervosa.
- É Jimmy.
O olhei confusa, sorrindo em seguida.
- Desculpe-me, Jimmy. Uma água gelada, por favor.
- Um momento – ele sorriu amarelo, afastando-se.
Eu fitei por minutos o prato de porcelana branca impecável sobre a mesa, e tamborilava os dedos confusa na mesa, sussurrando quase que inaudivelmente uma canção, na qual deduzi ser melancólica, já que eu só pensava em Jo.
Eu ouvi a porta ranger e lavantei a cabeça, com medo do que veria, com receio quanto ao que aconteceria, mas nada mudou. Só mais um cliente, jovem, com cara de psicopata e com ares que lembravam à mim; entrou ali, girando os olhos ao redor e fitando o ambiente. Seus olhos caíram-se sobre mim.
Eu bufei e virei a cabeça, encostando-a no vidro e fitando a rua pouco movimentada.
Eu senti as mãos formigarem, os dedos adormecerem, e o coração disparar descompassado. Um ar ansioso tomava conta do ambiente aos poucos, enquanto eu tinha vontade de arrancar os cabelos.
Pude ver um vulto negro embaçado, pelo canto do olho, e me virei. Do outro lado da rua, um corpo pequeno, de cabelos levemente cinzentos e cabeça coberta por um capuz, atravessava a rua, segurando a mochila fortemente pelas costas.
Levantou a cabeça, olhando pros lados, e ia baixá-la novamente, mas seus olhos chocaram-se com os meus.
Doía.
I\'m going back to the start
(Eu estou voltando para o começo)
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