Sinking Ship
12 Capítulo 10
Mas sorri. Apesar daqueles olhos que me lembravam tanta dor me encararem confusos, com certo remorso, sorri.
Porque pensara que havia me abandonado pra sempre, que não me perdoaria. Tudo bem, ainda não tinha o feito, mas estar ali já era algo pra mim. Era muito.
Ela virou a cabeça, desviando o olhar, e atravessou normalmente a rua, como se não tivesse visto nada. Mas um ar assombrado passava por seu rosto, um ar amedrontado e levemente dolorido.
Eu baixei a cabeça novamente, retornando a fitar o prato de porcelana abaixo de mim.
Mas então lembrei-me que estava ali porque tinha problemas, porque estava quebrada. Ela não estava ali por mim, sequer por nós, estava ali por ela.
Então eu senti uma ponta de raiva tomar-me espaço, senti que não devia me entregar a dor novamente, mas eu também sentia, eu sentia com certeza de que devia recomeçar, devia seguir, em tudo, em todos os quesitos.
A porta tornou a ranger, eu fitei a calçada de novo, sentindo o êxtase subir por meu corpo e formar um nó em minha garganta. Eu acho que tremia.
O vulto caminhou em minha direção, e estacou ali, fitando-me, com receio nos olhos. A fitei.
- Oi Rose – disse, simplesmente.
Gesticulei com a cabeça, indicando o banco a minha frente, onde ela se sentou, juntando as mãos e me olhando fixamente.
Parou de doer. Tudo estacou. Só havia minhas mãos e ela.
- Mãe, Joanna, mãe – minha voz saiu fraca e rouca, e ela colocou o cabelo atrás da orelha.
- Filha – ela sorriu, e quando sorriu lágrimas formaram-se sobre as suas pálpebras pesadas, e aquilo doeu tanto em mim.
Ela levantou, e eu estava convencida de que ia embora, mas, do contrário, ela contornou a mesa por fora, parando-se ao meu lado, jogando-se em meus braços, apoiando o queixo em meu ombro e aninhando a cabeça em meu pescoço.
Eu me senti a pessoa mais feliz do planeta, mas senti-me mal, ao mesmo tempo, ao sentir suas lágrimas quentes escorrerem pela minha pele, ao senti-la fungar baixinho em meu ouvido, mas não contive um sorriso quando sussurrou:
- Idiota!
And tell me you love me
(Diga-me que me ama)
Come back and hold me
(Volte e me abrace)
Oh and I rush to the start
(Oh e eu corro para o começo)
Ela sentou-se ao meu lado, envolvendo as mãos por minha cintura, continuando abraçada em mim.
Eu estava decidida a perguntar à ela o que se passava, porque estava daquela forma, porque sentia que não estava bem, e, acredite, doía da mesma forma em mim.
Mas eu sorria, e eu também sentia que a única coisa que ela precisava era de um abraço apertado, verdadeiro, um abraço familiar.
E no fundo, era só o que eu precisava, também.
Assim que abri a porta do apartamento, Jo passou por entre ela em passos corridos, e atirou-se no sofá, puxando uma almofada até o rosto. Eu podia ouvi-la fungando baixinho.
Sentei-me ao lado dela e puxei seus ombros em direção ao meu colo. Ela parou de segurar a almofada e passou os braços por meu pescoço.
Tirei a almofada de seu rosto, e passei o polegar direito sobre suas pálpebras, enxugando suas lágrimas.
Tell me your secrets
(Me conte seus segredos)
And ask me your questions
(E me pergunte suas dúvidas)
Oh let\\\'s go back to the start
(Oh vamos voltar para o começo)
- O que você tem, querida? – perguntei, olhando fundo em seus olhos, enquanto ela tentava os desviar.
Ela sorriu fraco, abandonando o sorriso logo em seguida. Ajeitou-se em meu colo e voltou a sorrir.
- Você tem certeza que quer ouvir as confissões dessa adolescente problemática?
Eu apenas sorri, e ela mexeu nos cabelos. Estendeu-se sobre o sofá, e pousou a cabeça sobre minhas pernas. Deixou os braços caídos, brincando com a lã do tapete, e olhando um ponto fixo na mesma direção.
- Kath se foi, Mãe. Ela se foi. Nós estávamos aparentemente bem, nós estávamos tão completos! Até papai estava cantarolando pelos cantos. Quando você foi parar lá em casa, naquela noite – eu senti a voz dela embaçar, então – papai estava vendo estrelinhas, você precisava ver como ele estava feliz. Eu e Kath estávamos indo bem na escola nova, mas tudo mudou quando, após você sair de casa numa tarde, papai chegou dizendo que a polícia estava atrás dele e de Robert. Mãe, eu senti um misto de coisas invadirem-me. Papai estava implorando para sairmos dali, para fugirmos! E então, quando chegamos lá, eu me joguei sobre a cama, e o único que eu conseguia raciocinar era sobre como tudo estava caindo aos poucos, mãe. A cada dia que passava eu sentia tudo mais fundo, eu sentia Kath mais e mais distante de mim, desde que nós nos fôramos. E eu perguntava-me, todo dia, todo, todo dia antes de dormir, porque diabos as coisas estavam acontecendo daquela forma. Nós tínhamos tudo para sermos felizes. Nós tínhamos, sim.
“E apesar de você ter nos deixado, mãe, agente poderia ter recomeçado, sim, nós podíamos. Mas tudo mudou, porque papai se jogou nas drogas, e em seguida no tráfico, desiludido com a vida, com o emprego, com tudo. O vovô e a vovó sempre cuidaram de nós. Eu lembro-me perfeitamente dos piqueniques que fazíamos no verão. Até papai esbanjava sorrisos. O verão sempre fora minha estação favorita, mãe, porque nela tudo era claro, o sol era brilhante como o arco-íris dos desenhos, e papai carregava-me na garupa, todo dia depois que chegava. Era no verão, mãe, que nós íamos para São Francisco, e eu lembro que papai carregava Kath junto, e nós nos divertíamos lá.
“Mas então as malditas drogas vieram, e papai, em posse delas, começou a esbanjar estupidez, começou a nos obrigar a fazer coisas, e eu vi que tudo que nós tínhamos passado, não era nada mais, nada menos do que máscaras, sujas e carregadas de dor."
“Dói até hoje, mãe, dói demais. Eu simplesmente não podia, não posso, não devia perdoar-lhe. Mas eu estou sozinha mãe, sozinha e afim de recomeçar. E Kath sempre quis que eu voltasse pra você, e Kath sempre teve razão.
“E, mãe, hoje eu tenho a plena certeza de que essa dor nunca vai passar, mas eu espero que ela se cicatrize. E agora eu quero começar, mãe, quero dormir de noite sem sonhar com esperanças fudidas... – então ela riu em meio as milhares de lágrimas que caiam, sem parar – Quero que tudo isso aconteça.”
Eu sorria em meio às lágrimas quentes, que queimavam em minha face, enquanto ela falava aquelas coisas, aqueles segredos sujos, trancados em uma mente... de lembranças sujas. E doía, doía muito vê-la assim.
- E por pior que você seja, é a única que eu tenho – ela sussurrou, soltando um risinho. Eu sorri e apenas a abracei.
I\\\'m going back to the start
(Eu estou voltando para o começo)
- Você tem certeza de tudo isso? – eu perguntei, brincando com seus cabelos.
- Custa tentar? – fitou-me.
- Não mesmo.
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