Sinking Ship
13 Capítulo 11
Notas iniciais
Não posso e não devo dizer que os dias que se seguiram foram os melhores de minha vida, porque não foram. Mas é correto e sensato afirmar que foram os mais curiosos e indecisos.
Jo e eu não tínhamos química alguma, ou ao menos não tínhamos desenvolvido nada, desde então. A menina carinhosa que jogara-se aos meus braços naquela noite, não era a mesma que agora visitava-me todos os dias, e por vezes dormia no sofá da sala. Não mesmo.
Ambas nós éramos orgulhosas, os diálogos entre nós eram curtos e diretos, e eu sentia que não havia nada bem em Jo, mas eu sentia-a com um brilho especial quando via-a deitada de barriga pra cima, fitando o teto e com um sorriso bobo no rosto.
Ela sumia o dia inteiro, enquanto eu dormia até o meio-dia, saía para almoçar, via algumas pessoas, e então, quando eu retornava pra casa, ela estava sentada no sofá, com os olhos fixos na televisão antiga, enrolada à um cobertor e pálida.
- Posso dormir aqui?
Não haviam respostas àquela pergunta quase muda, eu apenas sentia a garganta seca, e então eu concordava com a cabeça.
Numa daquelas noites, ao contrário de simplesmente atirar-me na minha cama e dormir, ou então passar horas querendo arrancar-me os cabelos no banho, eu sentei na sacada, no chão, e escorei-me à grade, fitando a multidão passar apressada entre as rodovias.
As perguntas martelavam-me a cabeça, eu estava preocupada com Jo, e naquele momento, mais ainda, por já serem uma e pouco da manhã e ela ainda não ter dado as caras. Eu sabia, por mais que doesse admitir, sabia que devia conversar com ela, e ajudá-la, e ajudá-la não só nos sentimentos, mas também a reconstruir sua vida.
Mas era muito difícil. Eu penso que talvez, pra ela, eu fosse apenas uma nova-conhecida, uma amiga confidente. Talvez ela também achasse que eu seria aquela que a buscaria em algum bar abandonado bêbada, que a colocaria no banho ou iria até sua escola assinar ocorrências.
Eu estava, de fato, decidida a ser muito mais que isso. Eu seria aquela mãe que a aconselharia a não beber, seria aquela mãe que ensinaria ela a se defender, e a aprender a viver sozinha, e seria aquela mãe positiva, que a encaminharia à maturidade.
A porta abriu num estalo e eu inclinei a cabeça para enxergar entre o fio de cortina aberto ali em minha frente. Seus olhos estavam escuros, e suas roupas amassadas, os lábios crispados e secos, e a face com uma expressão melancólica perceptível. Era agora ou nunca.
Levantei do chão, espanando-me a calça, e então puxei a cortina pro lado, escorando-me no batente da porta de correr, fitando-a séria – ou, ao menos, tentando.
- Onde você estava?
Ela me olhou, assustada, baixando os olhos em seguida, escorando-se ao balcão.
- Saí – ela sussurrou fraco.
- Eu não perguntei o que você fez, mas sim onde estava.
- No Macondo – ela afirmou, olhando-me enojada. Eu fiz minha nada típica cara de interrogação, esperando ela continuar – Aquele da estrada do norte.
Ela contornou o balcão, a sala, então se atirou no sofá e jogou a cabeça aos braços, mordendo os lábios.
- Desc--
- Não, Jo, não precisa pedir desculpas. Nunca peça desculpas. Eu quero conversar com você.
Ela me fitou e levantou-se, começando a caminhar pelo local.
- O que há? – perguntei, sentando-me onde ela sentara segundos antes.
- Não sei – falou alto demais, segurando os cabelos – Eu não sei – sussurrou, dessa vez, fraco demais, e desabou no chão, chorando.
- Eu não preciso te dizer o que fazer, não, porque você sabe tudo, eu sei que sabe. Só não se acabe, Jo, só lhe peço isso, não se acabe. Nada tem concerto depois.
- Eu sei...
- Não, não sabe. Eu sei. Você não faz idéia do que eu passei, não faz, porque não só sou eu a maldosa nessa história, e as coisas simplesmente não são como parecem ser. Eu estou aqui agora, Jo, do seu lado, lhe apoiando. Não vou lhe dizer o que fazer, não, não vou! Mas não se acabe...
Ela se ajoelhou e ficou me olhando, com lágrimas no rosto e os lábios crispados, confusa.
- Boa noite? – disse.
- ‘Noite.
“From an empty room on the first floor
Em um quarto vazio no primeiro andar
As the cars pass by the liqour store
Como os carros passam pela loja do licor
I deconstruct my thoughts at this piano
Eu destruo meus pensamentos nesse piano
And it\'s all that I can do to stay with
E é tudo que eu posso fazer para permanecer com
All the things I didn\'t say to you
Todas as coisas que eu não disse a você
Before you moved across the country
Antes de você se mudar do país...”
No pub em frente de casa tocava uma música agradável, com lindos toques de piano, singelos e bobos, românticos e doces.
Jo estava jogada no sofá, dormindo, e eu, como de costume, olhando a rua, sem fazer nada, sem ter forças, sem ter sono... Com tanta indecisão pairando em meu corpo.
O telefone tocou e Jo se remexeu no sofá, estendendo o braço para atendê-lo.
- É pra você – balbuciou, estendendo-me o telefone.
- Hey? – indaguei, ao telefone, voltando a encostar a testa no vidro, fitando o pub iluminado.
“...And from the burning building where I lay
E do edifício em chamas aonde eu observo
As I watch the stars become the day
Como eu presto atenção às estrelas ao se transformarem no dia
The L.A. girls...
As meninas de L.A...”
- Hey, Rose... – voz rouca falou do outro lado da linha – É o Chris.
- Ah, oi – disse, não muito empolgada.
- Sua animação me pasma... – ele soltou, rabugento – Quer sair?
- Você sabe que horas são? – respondi, fitando o relógio da cozinha.
- Duas horas da manhã, desde quando se importa? Sinceramente...
- Morra! – gargalhei fraquinho, procurando não despertar Jo.
- Aliás, quem atendeu o telefone?
- A Jo...Anna. Minha filha.
- Jura?! Achei que ela não se renderia...
- Vá se foder, Chris – ralhei -. Tudo bem, vamos sair, quer ir aonde?
- Não sei, sugere algum lugar?
- Hum... – pensei, e meus olhos recaíram sobre o PUB em frente de casa – Sabe o PUB que tem aqui na frente?
Desliguei o maldito telefone e finquei-o sobre a poltrona.
Fui até meu quarto, abri a porta do guarda-roupa e fui pegando um moletom velho e largo, vestindo-o e puxando o capuz. Revirei as caixas em busca de um maldito papel em branco, mas isso, eu sabia, era impossível encontrar ali.
Puxei uma folha amarelada, e escrevi no verso dela um bilhete pra Jo, e ao a virar, deparei-me com um poema que me lembrava ter escrito dias depois da mesma nascer. Sorri. Não parecia tão perturbador.
Puxei um maço de cigarros do canto do armário, pegando um e acendendo-o, tragando-o de leve, enquanto fitava as belas palavras intactas e cheias de sentimento sobre o papel, ah, como era doce o amor.
Deixei o bilhete ao lado da jarra de suco, e então me dirigi até a porta, saí, e quando ia fechá-la, fitei Jo atirada no sofá, quase babando, com um sorriso idiota nos lábios.
É, aquela era minha filha. Sorri e me retirei.
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