Sinking Ship
8 Capítulo 6
Notas iniciais
O telefone chamou uma, duas, então três vezes, e Rose sentiu o palpitar levemente ofegante do coração. O telefone chamado encontra-se temporariamente desligado ou fora da área de cobertura. Tente novamente mais tarde. Ofegou.
As luzes da agitada Los Angeles pairavam abaixo de seus olhos, seus olhos tão doídos...
Queria mudar. Queria mudar agora por Jo. Queria levá-la a algum lugar, conversar como boas amigas, não como mãe e filha. Queria conquistá-la, chamar a atenção de Kath, fazer com que a filha visse o quanto ela sentia.
A cabeça estava vazia de pensamentos. A dor continuava lá. O sombrio quarto a assustou quando abriu os olhos. Não adiantava fechá-los para a realidade.
Despiu a camiseta e a calça larga do pijama, e puxou uma jeans e um moletom para si. Calçou os chinelos, desajeitada, e apanhou as chaves do carro de cima à mesa de vidro.
A bolsa estava esparramada junto com papéis sobre o sofá, o maço de cigarros intacto sobre a geladeira. Rose o fitou durante algum tempo, antes de pegá-lo e enfiar-lhe no bolso traseiro.
Dirigiu pela cidade movimentada. As pessoas pareciam tão felizes. Tão alegres. Talvez todos tivessem motivos para serem felizes, apenas não sabiam como ou onde encaixá-los. E talvez esse também fosse a causa da angústia de Rose.
Passou em frente ao Cheddar’s, e estava movimentado o bastante para Rose não querer passar por ali. Vagou ao redor do L’four, mas refinamento não era o que precisava no momento. Muito menos jovens músicos e empresários discutindo a profissão. E então freou o carro com convicção, parando à frente da iluminada placa do Cheldon. Teria um pouco de paz, poderia pensar um pouco, escrever um pouco...
Mas só queria pensar. Abrir os olhos para realidade, mas na verdade, talvez, abri-los para a estrelada noite, em algum lugar afastado da grande metrópole... fosse mais tranqüilizador. A dor, a dor...
Fechou os olhos, um sorriso tranqüilo sorriu-lhe... Uma buzina. Abriu-os novamente, sentiu a cabeça estontear, ligou o carro e vagou pelo subúrbio, e então pelas estradas bem conservadas, e bonitas... O céu que a aguardasse.
Observava com atenção as casas noturnas à beira de estradas. Brilhavam e carros velhos e mal conservados estavam estacionados por ali o redor. Vez ou outra podia-se ver um bêbado caído sobre paradas, e também pode ver meia dúzia de jovens acampados à beira da rodovia.
Um sorriso pacato tomava conta de seu rosto, as estrelas estavam tão convidativas, mas pegar no sono também estava. Reverside estava escura e mal iluminada, e as novas construções paradas. A cidade calma e pequena não era sua melhor opção, mas a que lhe cabia no momento. Desceu do carro, puxou um cigarro do bolso traseiro, e um isqueiro do bolso do moletom, acendeu-o e tragou-o. Sentiu o nariz coçar, mas não ligou para o incômodo.
Encostou-se ao tronco da árvore, fechou os olhos, para qualquer coisa que fosse, e o único que ouvia era o latido distante de cães, o som leve e tenebroso do vento, e o tilintar do cigarro em contato com os dentes. Só isso, mais nada...
Reverside nunca lhe pareceu tão convidativa. Nunca tinha reparado o quão belo era sentar-se sob a orla da árvore, da árvore antiga que conhecera à tantos anos à trás. Fora ali que nascera, crescera, e tinha aprendido a tornar-se quem fora.
Mas fora ali também, que nunca tivera problemas, que teve uma vida agradável e sem preocupações. E de repente a infância tornou-se, também convidativa. Sentira falta dos passeios pelo parque, das caminhadas, das bonecas de pano bem ornamentadas, e as panelinhas... E de seus discos antigos, os contos infantis, os antigos amigos...
Amigos. Sentia falta dos amigos. Amigos que nunca teve, amigos que pensara ter. Onde estavam seus amigos? Ali, ela precisava-os, e agora nem sequer um deles estava ali. Estava quebrada, com um sorriso no rosto, dolorida e solitária, e os amigos não estavam ali... Onde fora parar-lhe o amigo imaginário que costumava ter? A memória tinha tomado permissão de apagá-lo sozinho.
As páginas amareladas dos livros foram seus amigos tantas vezes. Livros eram tão mais sensíveis e amigos, e acolhedores, e reconfortantes. Dentro dos livros tinha variáveis amigos. Lembrava agora do Pequeno Príncipe, e a Cinderela também gostava dela. Aprendera a depender deles mais cedo do que pensava.
E os romances sujos dos livros dramáticos, agora invadiam sua vida. Seus melhores amigos tinham traído-a pela primeira vez que não passou despercebida. Deixara-se levar pelas palavras, as palavras que achava tão belas...
E Riverside tornara-a assim. E o pacato sorriso continuava lá, os olhos fechados, pra tudo, esperando que a última pontada doesse-lhe a alma. Esperando a última pontada tomar-lhe a vida... Morreria sorrindo de infelicidade?
Abriu os olhos, com medo, receio, e a escuridão e o silêncio preenchiam-na a cada respiração. Ofego. Tornou-o a fechá-los, tragou o cigarro longamente, e sentiu as veias arderem.
O corpo frágil e levemente pálido escorregou pelo tronco da árvore. Sentiu a brisa leve às costas, o molhado gostoso tomar-lhe as roupas, e o cheiro de terra invadir-lhe as narinas. Abriu os olhos, as estrelas brilhantes brilhavam-lhe alegria, e abriam-lhe um sorriso gostoso. O doce farfalhar das folhas, e o choque leve dos galhos fizeram-na esquecer por um momento do que estava se passando.
A paz estava ao seu lado. E ela estava ao lado da solidão. Doce convidativa solidão.
"My confidence is leaving me on my own (all alone)
Minha confiança está me deixando no meu eu próprio (completamente sozinho)"
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