Sinking Ship
9 Capítulo 7
O cigarro caiu-lhe das mãos assim que avistou o homem fardado entrando no lugar para comprar um café. Pegou os seus rápido, coçou os olhos e entregou a mulher o dinheiro amassado. Saiu caminhando apressada.
- Moss – sussurrou olhando um ponto fixo e aproximando-se da motocicleta estacionada na outra esquina, na diagonal com o café – Tem um policial lá dentro.
- O que? – sussurrou de volta, um pouco mais gritado. O tom de preocupação tomou conta de seu rosto.
- Cala a boca e vamos – montou atrás do mais velho, segurando-lhe a cintura e entregando-lhe o copo de café quente.
- Quem você acha que é pra me mandar calar a boca?
- E isso importa? Anda. Ou prefere ser preso daqui à – verificou o relógio – dois minutos? Não temos tempo.
O homem bufou baixinho e seguiu com a pequena pela estrada estreita, até chegarem a um casebre.
Kath desceu da moto e correu até a porta, batendo quatro vezes seguidas, num som agudo, fazendo com que do outro lado da porta, em resposta, o sonolento homem abrisse.
- Ora, ora, o que temos aqui? – puxou-a pela cintura. Kath jogou um café contra seu peito, e desvencilhou-se dos braços dele.
- Vá se foder, Bert – grunhiu, bagunçando o cabelo.
Moss riu, piscando pra ele, e em seguida entrou no casebre, batendo a porta atrás dele.
Kath subiu as escadas apressada e deparou-se com Matt encostado ao batente da porta do quarto, onde Jo dormia e dividia com ela.
Ele observava a garota adormecida com um ar confuso pairando sobre os olhos, o cenho franzido e um sorriso enviesado no rosto.
Moss riu, piscando pra ele, e em seguida entrou no casebre, batendo a porta atrás dele.
Kath subiu as escadas apressada e deparou-se com Matt encostado ao batente da porta do quarto, onde Jo dormia e dividia com ela.
Ele observava a garota adormecida com um ar confuso pairando sobre os olhos, o cenho franzido e um sorriso enviesado no rosto.
Estranhou, mas entrou no quarto sem comentar. Jo estava esparramada na cama, com a mesma roupa que saíra de casa no dia anterior, exausta.
Kath foi até a cômoda corroída de traças e apanhou o rabicó, amarrando os cabelos sujos e embaraçados.
- Já chegou? – Matt sussurrou com a voz fraca e rouca, limpando-a em seguida – Não precisa sair com patadas – reclamou, chegando perto dela e sentando-se na cadeira de tábua posta em frente à cômoda.
- É, já – respondeu simplesmente, sua voz, assim como o corpo, estavam cansados.
- Você... – começou, incerto – Er... Moss te machucou?
- Como? – riu de leve, com o cenho franzido.
- Esquece.
- Você pirou Matt? Moss...?
- Não é a hora de lhe falar. Talvez algum dia você entenda. Tem coisas que... machucam demais?
Saiu dali, com um tom melancólico no rosto, coçando a nuca e puxando a calça larga pra cima.
Kath sentiu o peito doer. Tossiu.
A garota deitada à cama remexeu-se, e sentou-se, olhando-a intrigada.
- Ah, é você, Kath – riu, ajeitando um pouco os cabelos secos – Achei ter ouvido a voz de Matt.
- Ele esteve aqui – sussurrou fraco, forçando um sorriso.
- Oh – a maior sorriu junto, mais verdadeiramente e dolorosamente que a outra – Eu quero conversar com você – sorriu tímida.
- Eu... – Kath levantou nervosa, puxando as calças largas pra cima e fechando o último botão, que se encontrava aberto – Eu vou dar uma volta por aí.
- Mas Kath... – Jo protestou, levantando-se em seguida, com o cenho franzido e um sorriso fraco pairando nos lábios, em confusão.
- Eu posso andar... Quero dizer, a polícia não sabe que ando com vocês. Deixe-me sozinha, por favor – suplicou, por fim, saindo do quarto escuro e amarelado, batendo a porta corroída pelas traças e descendo a escada pacientemente, degrau por degrau.
- Vai aonde, belezinha? – Robert perguntou, levando o copo de café recém trazido à boca, e folheando a revista masculina nas mãos.
- Ô Bert – chegou mais perto dele, quase que sussurrando – Vai procurar teu macho, vai – acenou com a cabeça lançando-lhe um sorriso falso, demais.
Saiu pela porta entreaberta e bateu-a com força, descendo as escadas do hall e encarando o mínimo quintal a sua frente.
A grama era rala, e estava amarela por causa do sol ardente do quase-México onde se encontravam. As casas que a rodeavam eram todas de madeira, antigas, e de aparência sombria. Caminhou sobre o pavimento mal colocado, observando as pessoas que perambulavam a cidade.
Nenhuma parecia feliz o bastante para trazer-lhe um sorriso ao rosto. As crianças estavam sentadas ao chão, nas calçadas, mexendo os brinquedinhos antigos e nada tecnológicos. Os adultos, todos vestidos adequadamente, percorriam as ruas em um estado de depressão profunda estampada ao rosto. Vez ou outra um carro passava pelas cidades próximas, e quase nunca no vilarejo quase que abandonado.
O calor fez com que levasse as costas da mão direita à testa, enxugando-a por um breve momento. Sentiu os olhos marejarem e arderem, correu pra longe dali. Avistou uma pracinha infantil, com uma areia escura e seca demais. Tudo ali era precário... E triste. Demais.
Sentou-se ao pé do escorregador infantil, então juntou as pernas junto ao corpo, abraçando-as contra si. Matt tinha razão. Moss estava machucando-a. Machucando-a de forma horrível e dolorosa.
Sentia-se perdida no mundo, literalmente perdida. Amava Jo, mas agora não queria mais estar ao seu lado, não sempre. Porque estar ao seu lado era sinônimo de estar perdida, e despedaçada, e dolorida...
Mas gostava da amiga. Fora com ela que aprendera a viver, fora com ela que crescera. E tio Moss sempre fora legal com ela. Mas nunca pensara em abandonar a família para viver com eles.
E de alguma forma submissa, machucava.
Deixara tudo pra trás. E agora lembrava que não só ela deixara. Colocou-se por um momento ao lado de Rose, tinha razão! Moss fizera tudo errado, e erros não podiam mais ser concertados, desde então. E abandonar a filha não fora certo, mas de alguma forma fez com que ela deixasse seus sonhos pra trás. Mas agora estava doída, e arrependera-se, e queria de alguma forma sutil realmente mudar. Kath se sentiu mal.
Não tinha motivos para estar ali. Ela podia viver feliz ao lado da avó, na Nova York que tanto amava. Ou podia ir viver com o irmão, mas ele não a aceitaria depois de tudo que fizera. Ainda podia seguir uma vida solitária, mas no fundo, também sabia, que não agüentaria por muito tempo, perto de quem amava.
Não tinha motivos para estar ali. Ela podia viver feliz ao lado da avó, na Nova York que tanto amava. Ou podia ir viver com o irmão, mas ele não a aceitaria depois de tudo que fizera. Ainda podia seguir uma vida solitária, mas no fundo, também sabia, que não agüentaria por muito tempo, perto de quem amava.
E a confusão sempre pairava sobre sua cabeça. Queria sumir, recomeçar tudo de novo, esquecer de tudo pelo que passara, talvez até nascer de novo...! E sentiu um aperto. Não queria tornar-se o que Rose tornou-se pra Jo. Seria quase que da mesma forma, e doía tanto. Agora compreendia. Mas cansara. E não se acabaria. Seguiria. Sofrendo. Mas distante. Talvez sofrer distante fosse mais fácil. E custava muito tentar.
O sol agora ia se pondo, e uma brisa levemente fria a fez voltar-se para a realidade. Abriu os olhos. Os balanços balançavam-se de acordo com o vento que soprava. Ao virar a cabeça, estacou.
Jo estava sentada ali, fitando-a com um sorriso nos lábios.
Levantou-se do banco, apoiando as mãos no joelho, e de solavanco, pôs-se em pé. Caminhou vacilante até Kath, com um meio sorriso no canto da boca. Agachou-se ao seu lado e segurou sua mão.
- Nós precisamos conversar – sorriu, e soltou num tom indeciso.
- Eu não quero conversar.
- Vou repetir. Nós precisamos – continuava sorrindo. Levou a mão pálida e ossuda até o cabelo dá menor, acariciando-lhe de leve.
- Joanna, me perdoe, mas não quero conversar agora – fechou os olhos, livrando-se das mãos da maior, e levando-as ao rosto.
- Tudo bem. Mas eu vou conversar – encostou o queixo no ombro da maior, com um sorriso bobo nos lábios.
Kath levantou-se e saiu andando, em paços vagarosos, com as mãos no bolso traseiro da calça jeans, chutando as pedrinhas que encontrava no chão.
- Kath, eu sei que tudo isso é complicado pra você, complicado pra nó— – começou, correndo para alcançá-la.
- Não, pra você não é complicado, pra mim, é.
Jo piscou algumas vezes, antes de continuar:
- Certo, mas – sorriu e soltou um rizinho em seguida – eu estou disposta à levar isso adiante, sei lá, recomeçar, talvez... Você... Não quer? – postou-se em frente a menor, fitando-a com o cenho franzido.
- Eu não estou entendendo...
- Eu, você, nós, Kath... Vamos tentar? – estendeu os braços, não sabendo o que fazer.
Kath sentiu o coração pulsar. Os pulsos palpitarem em sintonia, sentiu a raiva tomar-lhe conta, o calor subir do estômago, atravessando a laringe, e queimando a garganta, aos poucos, quase que torturando, enquanto Kath ainda fitava os olhos azuis – levemente cinzentos – junto aos seus.
- Eu sinto muito... – Jo sussurrou, vendo os olhos opacos da menor fitando os seus.
- Você não entende? VOCÊ NÃO ENTENDE, não é mesmo? Eu deixei tudo, eu larguei tudo... Tudo para estar com vocês. Eu gosto de você, Jo, mas como amiga... E... Eu vou para Nova York – virou as costas e deu um passo.
Fora a fez dos olhos de Jo queimarem. Sentiu as lágrimas apertarem a visão, embaçarem a vista. Chorou. Chorou como nunca chorara antes, sentia o coração querer pular, queria agora chorar como nunca chorara antes, queria tirar tudo de si, queria sentir-se leve, e vazia... A abandonaram uma vez mais. Quantas mais estariam por vir?
Kath virou-se para ela. Chorava, também.
- Eu sentirei sua falta. Eu sempre sentirei sua falta.
- Kath... Espere – suplicou, segurando o braço da outra – Por favor...
A menor balançou a cabeça negativamente, e lançou-lhe um mínimo sorriso.
- Eu tenho que ir.
E foi. Foi, deixou-a ali, caindo os pedaços, ajoelhada sobre a areia escaldante. A brisa quente da noite quase desértica soprava sobre ela, e ela só conseguia chorar. Só chorar e... Sentir a dor quebrando-a aos poucos.
- Eu nunca vou deixar isso pra lá.
Puxou o celular do bolso da jaqueta. Sentia-se fraca, as mãos tremiam e... Sentia a dor pairando até mesmo na voz.
- Mãe?
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