Sinking Ship

27 Capítulo 25


Notas iniciais
Música do Capítulo Infinita Highway - Engenheiros do Hawaii [http://www.4shared.com/file/39157063/1bd55215/Engenheiros_do_Hawaii_-_Infinita_Highway__Ao_Vivo_.html]
E estava ali. Mais uma vez, com os pés descalços roçando na areia, apoiando as coxas sobre minhas mãos e balançando os pés, sentada à calçada à beira da praia, fitando o mar, refletindo sobre a eclosão toda.

- Oi, Rose – ouvi a voz, a voz que me fazia balançar e estontear, vir por trás de minhas costas e roçar em meu pescoço, como o vento que soprava leve ali ao redor.

Rodeou-me e sentou-se ao meu lado, tirando os tênis e me imitando em pôr os pés sobre a areia. Ficou observando o mar, intercalando períodos direcionados a mim.

- Eu... – falei, em dúvida, mordendo os lábios.

- Tudo bem, Rose – ele disse, chegando mais perto – Você não precisa falar. Eu farei isso, hoje. Ao menos uma vez, está certo? – ele disse, sorrindo-me fraco. Sorri-lhe novamente.

Fitei-o. Aqueles olhos azuis que tanto me machucavam, agora me faziam sorrir. Eu era uma estúpida, e sabia disso, mas... Ele me fazia feliz e triste, me fazia irradiar e sangrar – e, sangrar por ele, sangrar com ele, era melhor do que sangrar sozinha.

- Vem cá – ele falou, incerto, estendendo os braços e mordendo os lábios.

Olhei no fundo de seus olhos, e não pude evitar. Cheguei mais perto e pousei minha cabeça em seu ombro, enquanto sentia seus braços fortes – e, bem maiores do que eu mesma –, entrelaçarem-se por minhas costas. Senti seu calor. Aquele calor confortável e reconfortante, tudo o que eu sentira falta. E então, senti também, uma chama acender-se dentro de mim. É como você sair de uma geleira e ir para frente de uma lareira. Instantâneo. Quente como gelo.

Mexi meus braços e o abracei também. Era tão bom sentir tudo aquilo novamente. Senti-lo ali, ao meu lado, certeza de que, ao menos, enquanto ele estivesse ali, nada aconteceria.

- As palavras não são propriamente minhas, mas... – riu, eu ri fraquinho junto com ele. Era contagiante.

- Tudo bem – falei fraco.

Ele encostou seus lábios em pé ao meu ouvido, movendo-os de vagar, fazendo-me fechar os olhos e sonhar. Era como música de ninar. A voz suave como veludo roçando meus ouvidos, suave como às nuvens em que eu me sentia deitada agora, suave como os sonhos...

- Estamos sós, e nenhum de nós, sabe exatamente onde vai parar. Mas não precisamos, saber pra onde vamos... Nós só precisamos ir. Não queremos, ter o que não temos. Nós só queremos, viver: sem motivos, nem objetivos, estamos vivos, e isso é tudo... – ele riu fraquinho – É sobretudo a lei, da infinita Highway...

- Eu supero sua desafinação – disse, pra quebrar o silêncio, a falta de seus lábios em meus ouvidos.

- Não queremos lembrar, o que esquecemos, nós só queremos viver – sorri em meio suas palavras doces e calmas – Escute, garota, o vento canta uma canção – sorri, sentindo uma lágrima teimar em se desprender –, dessas que uma banda nunca toca sem razão. Me diga, garota, será a estrada uma prisão? Eu acho que sim, você finge que não, mas nem por isso, ficaremos parados... Com a cabeça nas nuvens – ri com minha comparação anterior – E os pés no chão...

- Na areia – corrigi, distraída, e ele riu fraquinho, me abraçando mais forte.

- Se tanta gente vive, sem ter como viver... Estamos sós, e nenhum de nós, sabe onde vai parar. Estamos vivos, sem motivos, que motivos temos ‘pra estar? Atrás de palavras escondidas, nas entrelinhas do horizonte, dessa Highway. Silenciosa, Highway...

- Eu vejo o horizonte trêmulo – cantei baixinho, com vergonha, e ele riu. Pressionei minha boca sobre suas roupas, por cima de seu ombro – Eu tenho os olhos úmidos, eu posso estar completamente enganada... Posso estar correndo, pro lado errado, mas a dúvida... É o preço da pureza...

— É inútil ter certeza – ele cantou e eu ri. Olhou-me intrigado e sorriu, continuando: — Eu vejo as placas dizendo: Não corra, não morra, não fume – e ele deixou-se desprender uma lágrima e eu chorei e sorri junto, me sentindo, em fim, completa – Eu vejo as placas, cortando o horizonte, elas parecem facas... – engoliu em seco.

- Minha vida é tão confusa, quanto a América Central... – continuei, tentando fazê-lo sorrir em meio às lágrimas, porque eu não podia deixar de sorri naquele momento, não. Não mesmo.

- Por isso não me acuse, de ser irracional. Escute, garota, façamos um trato, você desliga o telefone, se eu ficar muito abstrato... Eu posso ser um bealte, um beatnik, ou um bitolado, mas eu não sou ator, e eu não ‘tô à toa, do teu lado... – sorri – Por isso, garota, façamos um pacto. Não usar a Highway pra causar impacto. Na boca em vez de um beijo, um chiclete de menta... E a sombra do sorriso – ele riu, sorrindo em seguida – Que eu deixei...

- Numa das curvas, da infinita Highway... – encerrei, dando uma gargalhada logo em seguida e pendendo minha cabeça sobre o seu pescoço, deixando as lágrimas escorrerem-se, sem percurso.

Fiquei ali, no calor, por um momento. Então desencostei um pouco minha cabeça de seu ombro, enterrada em seu ombro, e, segurei suas mãos, automaticamente. Me aproximei mais, mantendo nossos lábios perto o suficiente, e nossos olhos conectados.

- Tem... Uma coisa que eu não concordo em toda música – eu disse, fitando-o profundamente, sentindo meus joelhos vacilarem.

- Uma única coisa? – ele perguntou, fazendo o mesmo.

- Na boca em vez de um beijo, um chiclete de menta... – repeti – Eu realmente prefiro a primeira op—

Pressionou seus lábios contra os meus, impedindo-me de continuar. Suas mãos foram das minhas próprias para os meus cabelos, e as minhas para suas costas, pressionando-me mais sobre ele.

Afastou-se um pouco e deu-me um selinho, deixando sua testa pender sobre a minha, olhando nos meus olhos, sorrindo fraco.

- Eu te amo – ele disse, de vagar, de modo em que eu absorvia as palavras – E isso é tudo – ele disse, suspirando, pendendo sua cabeça para meu ombro.

- Moss, eu...

- Me desculpa. Por tudo. Eu não vou fazer discurso nenhum, não vou inventar desculpas. Desculpe-me. Isso basta.

Fechei os olhos e pendi minha cabeça pra trás. Pensando, revivendo, cansando... Das lembranças, do passado, do futuro. Querendo viver o agora. Querendo viver.

- É inútil ter certeza – disse, mordendo os lábios e abafando um sorriso pra ele.

Puxou-me pelo pescoço e me abraçou. Forte. E aquilo poderia durar pra sempre. Eu estava certa disso. Ah, o verão... E ele estava no fim. Maldito fim.