Sinking Ship
22 Capítulo 20
O sorvete púrpura bateu o chão e ali derreteu, aos poucos. O ar ia se comprimindo e os olhares chocavam-se em desolação. Menos o meu.
Estava perdido em algum pensamento, em algum devaneio, e em uma emoção dançando no peito. Eu estava feliz.
Aquilo corroia minhas artérias, meu sangue passeava ardendo pelos canais, eu sentia meu nariz puxar o ar calmamente, mas meu cérebro trabalhava rápido de mais, impossibilitando-me percepções e movimentos.
Ele voltara. Como eu sentira falta, da certeza de que ele estaria perto, e agora, como eu precisava abraçá-lo, dizer que o amava, apesar de tudo. Amor sem fronteiras, barreiras. Um amor de tantas maneiras. Doentio, sujo, essencial. Céus, eu não vivia sem ele... E isso doía... Tanto.
Eu fitei Jo e vi ali aqueles olhos esmeraldas que conseguiam me fazer feliz. Sorri, como uma criança, indefesa, irradiante, tendo certeza de que o amava, me reparando, dizendo palavras de reconforto, admitindo a mim mesma que o amava. Amava demais.
Jo me fitava incrédula, com lágrimas nos olhos, desgostosa, com a expressão triste e raivosa, e Billy estava perdido, meio sorrindo, meio evitando.
Depositou um beijo em minha testa e saiu. Deixou-me ali, sozinha com Jo, à beira de jogar-se em mim e ter um colapso qualquer.
- Depois de tudo você fica feliz? – ela falou fraco.
- Ele é seu pai – disse, chorosa.
- Você ficou louca? – ela falou incrédula – Você me ensinou a odiá-lo, você me fez esquecê-lo, e agora fica feliz e vem me dizer que ele é meu pai? Céus!
- Jo, me entenda...
- Você sempre amou ele e eu sempre soube disso. O amor é estúpido mãe. Ele nós machuca, ele trama peças pra nós. Ele brinca com as pessoas como fantoches, o amor não é digno.
- Você tem certeza? – a fitei, agora eu começava a corar e ficar brava – Se o amor não é nada, o que Kath foi pra você? Há um tempo atrás você não olhava nos meus olhos. Então naquele dia – fechei os olhos, relembrando-me de tudo – você atravessou aquela rua, coberta por uma capa preta, tão desiludida – senti uma lágrima se desprender dos meus olhos, ela olhava-me com nojo, podia sentir – E as coisas foram indo, olhe para o que éramos um mês atrás e o que somos agora, Jo. Não me faça reviver...
- Pelo amor, você está me fazendo reviver! – abri os olhos, ela estava furiosa – Porque falou em Kath, por quê? Você não sabe, não faz idéia de como é dormir toda a noite. Sozinha em minha cama, com meu cérebro borbulhando, sentindo falta de tudo que costumei a ter em minhas mãos.
- Eu sei, Joanna.
- NÃO SABE. Você acha que sabe de tudo, que entende de sentimentos, acha que é uma romancista sentimental. É. Mas você não vê dor nos outros, só em você! Só você, uma pobre romancista desiludida, estapeada pela vida, não é?
- Jo, Kath...
- CHEGA! Não tire-a de minha memória, não me faça esquecer nunca mais as coisas. Você as trás de volta sempre, me deixando caída e confusa. Chega.
- JO, QUANDO VOCÊ VAI ENTENDER QUE EU SÓ QUERO O MELHOR PRA VOCÊ?
- O melhor? – ela disse irônica.
- Todo mundo erra, eu, errei muito. Mas me ouve. Eu sei o que te digo. Você pode ter certeza disso.
- Certeza é algo que eu aprendi a não carregar comigo mesma – disse, em desdém.
- Jo, eu só...
- Eu sei que você tem boas intenções, mãe, eu sei. Mas não venha me dar lições, me dizer o que fazer, deixe-me seguir minha vida, não quero cometer seus erros... Quero viver. A minha. A minha vida.
- Jo, me descul—
- Não preciso te desculpar. Só não torne a carregar suas lembranças junto a si e deixá-las perderem-se por aí, e acabarem caindo junto à pessoa errada.
- Jo... – disse, chorosa.
- Tudo bem, mãe.
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